BICHO PREDILETO – por tonicato miranda /curitiba


Prezado Hamilton,

Desde o dia doze de Janeiro não lhe escrevo. Não nos comunicamos desde aquele momento de ousadia em que cismei em meter a colher, o açúcar; e até molhar o biscoito, na sua brilhante crônica de ano novo. É claro, você, com direitos e pompa, recusou qualquer interferência. Pois deixemos o passado guardado nas gavetas do tempo.

Agora vejo no PALAVRAS, TODAS PALAVRAS que você, pela segunda vez, fala em predileção por bichos. Também por uma segunda vez fala da sua preferência pelo urubu. E mais, propõe fundar a SAU (Sociedade de Amigos do Urubu). Devo dizer que mesmo tendo convivido com tais bichos desde minha infância no Grajaú, no Rio de Janeiro, onde sempre proliferavam tais aves, desde o mangue até os morros que cercam toda a cidade, jamais tive muito apreço por eles e não poderei ser sócio ou parceiro nesta sua confraria.

Ocorre que o urubu é o bicho símbolo do maior rival do meu time do coração. Aquele cujo nome me recuso citar nesta carta-crônica. Apesar disto afirmo não gostar também da cartola atribuída ao meu time, o Fluminense. Prefiro a associação que nos fazem ao pó de arroz. Mas também compreendo ficaria difícil adotar o pó de arroz como símbolo do nosso time. Isto porque ele é meio intangível, sem forma, soando mais como atitude, não como uma imagem palpável.

Mas retornando aos bichos-símbolos estou aqui caraminholando sobre prováveis bichos de minha predileção. Ou ainda que tenham ou tiveram comigo alguma afinidade. No entanto, não encontro um capaz de representar todo meu afeto. Pensei inicialmente na tartaruga, virada para cágado, presença constante na minha infância, na casa dos meus avós. Não, não serve. Ela era deles, não minha. Jamais lhe fiz carinhos. Apenas a observava à distância com medo dos seus recuos abruptos para dentro da casca dura.

Em seguida pensei nos cachorros. O primeiro deles não era igualmente meu. Pertencia a um tio. Seu nome: “Zurich”. Era um bulldog folgadão que se sentava à beira de um quarto de televisão vizinho de grande pátio coberto. Era tão próximo à família que por vezes ousava adentrar o recinto, sentando-se no limiar da soleira entre os dois espaços. Quando alguém deixava escapar gases nada agradáveis inadvertidamente, a maioria deles do meu próprio tio, era acompanhado de um “Sai fora Zurich!” Pois bem, este e outros fatos lavaram-me a me afastar por um bom tempo dos cães. É claro que mais tarde tive outros cachorros maravilhosos a quem me afeiçoei. Mas não chegam eles a balançar-me as emoções a ponto de cravá-los como prediletos, assim como os gatos, de uma única e também infeliz experiência.

Pensando nos pássaros os primeiros foram igualmente da casa do meu tio. De início os periquitos, com sua algaravia contumaz. Não, também não seriam animais dignos da minha afeição, apesar das suas plumagens divinas. Depois teve a araponga, com seu martelo estridente, que azucrinou meus ouvidos por longo tempo, impedindo-me a concentração nos estudos. Da mesma época lembro-me de um corrupião incrível comendo na mão de meu tio. Saía para dar uns passeios, passando a manhã fora da gaiola e sempre voltava na hora do almoço, deixando-se aprisionar. Um belo dia foi para nunca mais voltar. Pudera. Quem quer liberdade vigiada ou pela metade? Ao meu tio ele deu – Aquele Abraço!

Pensei também em cabritos, em cotias, porcos, em peixes e até mesmo em mariposas. Mas nada. Pensei numa jacupemba ou jacupema, que matei numa única caçada que fiz em vida. Seria a maneira de retribuir ao animal a afeição como forma de me redimir do ato criminoso. Ou como índios americanos, louvar a morte do bicho abatido. Qual o quê, também não seria este o bicho.

É meu caro, penso não estar preparado ainda para amar um animal especial. Vou prestar mais atenção em meus sentimentos para ver para qual bicho poderia dirigir de forma mais intensa os meus afetos. Acredito ser um bicho talvez incomum. Talvez seja uma arraia, talvez um caramujo, ou mesmo o marimbondo, dos quais já tive oportunidade de tomar ferroadas, mas nem por isto construiu uma antipatia definitiva.

Assim que tiver definido tal predileção farei um comunicado.

Outra coisa ainda. Enviarei esta carta para ser postada no PALAVRAS, TODAS PALAVRAS. Acredito ser ela de altíssimo interesse a Sociedade Protetora dos Animais, assim como também a sua sempre admirável crônica. Penso assim porque poderemos estar ajudando a montar uma grande confraria protecionista, desde os marimbondos até os urubus. Afinal se cada indivíduo proteger uma determinada espécie haverá um planeta mais rico em variedades animais. Muito embora quanto aos bichos homens a variedade já extrapolou o bom senso, principalmente quanto às tipologias e ao número de pulhas que grassam em todos os rincões e desvãos da Terra.

Por fim, devo dizer que há muito estou lhe traindo como missivista. Desde que parei de lhe escrever passei a manter correspondência assídua com Marilda Confortim. A nossa troca tem sido, pelo menos quanto à poesia, mais reconfortante. Isto porque sendo ela uma dama, tratamos de assuntos totalmente impossíveis de conversar com o amigo.

João Antonio fazendo a parte dele.

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A galinha fazendo a parte dela.

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Luis Fernando alimentando seu filhote de estimação.

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Claudio cuida muito bem de seu Escorpião Imperador.

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e eu?…

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esta carta refere-se à crônica URUBU de hamilton alves que encontra-se logo abaixo.

ilustrações do site.

3 Respostas

  1. Tonicato, para acabar definitivamente com essa lenga-lenga de que não gostas do Flamengo, basta destacar o seguinte: há dois tipos de torcidas/torcedores no Brasil – aqueles que torcem pelo Flamengo e os que torcem contra o Flamengo.
    Agora, o que é importante destacar é que os que são contra são exatamente aqueles que mudaram de endereço, ou seja, os que passaram a ter “preferência” por outro time qualquer, sem perceber que eles são flamenguistas INATOS…
    Basta, para tanto, dizer que o sangue que corre em tuas veias é VERMELHO e a cor do teu cabelo é PRETA…
    Assim sendo, meu caro poeta, não podes e não deves negar/renegar que tens no coração – como predileção – o URUBU. Aliás, uma das mais significantes conotações a respeito do URUBU é que ele representa uma pequena mancha negra no meio do diamante.
    Se, pois, considerar-se o teu coração como um diamante…

    Grande abraço.
    João Batista do Lago

  2. O Tonicato não devia ter essa ojeriza ao Flamengo, nem hoje nem nunca, pois o Flamengo saiu de dentro do Fluminense e, no Rio, é o clássico mais querido: Fla x Flu. Tenho um carinho especial pelo Flu justamente porisso. e, como sempre digo: sou Flamengo e tenho uma nega chamada Teresa. é isso. amprex do vini

  3. Caro Tom,

    Já te falei em outra mensagem sobre o tema da tua carta. O urubu não tem culpa nenhuma de ser eleito como a ave símbolo do Flamengo, time que é velha sombra do meu Botafogo.
    Até acho que, de certo modo, é uma honra para o urubu ser símbolo do Mengo, que inegavelmente é um time de muitas glórias. Sou também afeiçoado ao galo. E entre um e outo meu coração balança. Grande abraço. Hamilton

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