NA CRUZ por zuleika dos reis / são paulo

Não precisa vir crucificar-me de novo, amigo. Eu mesma já me crucifiquei e estou na cruz há muitos anos. Ao contrário do Arquétipo Divino, sei que eu sou a grande culpada, a grande responsável por todos os equívocos, aquela que se matou e se mata e se deixa matar, por dentro e no cotidiano dos dias, em todos os sonhos que teve, por todas as dores que causou, quase sempre sem ter esta intenção.

Sei que traí nosso destino e o Mistério de porquê o traí jamais o saberemos; sei que traí os meus todos destinos pessoais possíveis. Errei demasiado, eu o sei sem sabê-lo e o sabendo, e errei demasiado em todos os caminhos.

Há coisas e fatos que não conheces, é só o que posso dizer em minha defesa. Não sei se todos os meus companheiros de jornada  –  E TU ÉS O MAIOR DELES – sejam tão completamente inocentes quanto se pensam. Não o sei e não me cabe fazer tal julgamento. Então, só me cabe assumir sozinha a culpa e a responsabilidade por todos os erros e descaminhos.

Não me adianta pedir perdão porque, já o tendo pedido tantas vezes sem o conseguir, parece-me que não faço mesmo jus a ele, perdão. Quem sabe ainda o consiga, a ele, perdão, de um Deus Clemente, que veja mais fundo do que o fundo. Só a Ele, a este Deus, me confio. A Ele, a este Deus Clemente, peço vida, se não por mim, pela mãe que ficou-me nesta vida, para cuidar.

Em 22 de março de 2010.

4 Respostas

  1. Só agora, meu amigo querido Tonicato, achei o teu poema-comentário. Muito obrigada por ele, que é fundo, que é rico de pensamentos-força, que é amoroso. Muito obrigada pela solidariedade, pelo “puxão de orelha” fraterno. Muito obrigada. Por essas e outras que aqui, no palavras e entre os palavreiros, me sinto em casa.
    Abraço grande da
    Zuleika.

  2. Zuleika querida,

    não te envergonhas da traição cometida
    pois a traição é antes de tudo o ciúme do traído
    é a visita ao jardim proibido, ao outro lado da vida

    não te crucifixa por achares ter direito ao retorno
    pois o retorno jamais é arrependimento é escolha
    a certeza de que o outro lado visitado é morno

    não pretenda revelar a todos o que fizeste
    pois a revelação é tarefa para a dúvida espiã
    deixa que a procurem na sorte, no azul, no leste

    não te culpes pela dúvida que nem tu sabes
    porque a dúvida é daquele que não acredita
    deixai-o procurar em portas que só tu abres

    não vá ao fundo do poço a procura de parceria
    no poço não estará o criador, nem ele é consolo
    mais vale tomar um sorvete numa sorveteria

    não te crucifixa porque o amor é como o confete
    temos amor e carinho para te doar – um Carnaval
    Quem sabe ele te arrebata e de novo em ti repete?

    Desculpe-me, amiga, não me contive.
    Resolvi poetar em cima da tua amargura.
    Mas foi apenas para levantar teu astral,
    para de novo te colocar um molho, um sal.
    Nós, palavreiros, gostamos muito de ti
    e há muito já te perdoamos daquilo que
    não precisas de perdão, muito menos
    de crucifixão.

    Grande Abraço.
    TM

  3. Minha muito querida Vera Lúcia: sempre te hei de agradecer pela ternura, pela empatia funda que me vêm de ti. Este texto é um mea culpa talvez demasiado dramático, foi escrito sob circunstância dolorosa que acordou velhos fantasmas. Alguém, que me deve sentir como ameaça a um certo status quo, agiu nas sombras e me levou a reação irrefletida, a uma acusação a alguém muito amado e que era inocente; inocente, certamente, da acusação deste momento, não ao longo de toda a nossa história, uma longa história misteriosa e real. Não há como dar nome aos bois, eu passei este texto ao Vidal para publicação visando uma espécie de catarse. A publicação me fez bem. Passei também um outro texto ao Vidal, que talvez seja publicado e também está no Recanto das Letras, texto chamado A OUTRA FACE DO MAL, que de algum modo complementa e explica este, sempre por entrelinhas, que não poderia ser diferente.
    Abraço de muito carinho da
    Zuleika.

  4. Querida Zuleika,
    Tu deves ser daquelas pessoas que não podem pensar sem amar…
    Por isso mesmo, escreveste esta prosa poética, que acaba por ser uma confissão…Uma confissão ou um desabafo, um grito de revolta contra todos aqueles com que te cruzaste no teu caminho e que te desiludiram? Acredito mais que seja isto, porque não te vejo carregada de tantas culpas…Cada um de nós tem uma visão diferente de todos os outros seres humanos… Se calhar, achas que deverias ter pedido perdão a quem nunca o mereceria…Se calhar mais vale relembrares tudo, fazeres a análise das coisas ,que te surgirão sob outra visão, porque o tempo escreve a prumo sobre a verdade, e aí exclamarás:”Eis a coisa íntegra e verdadeira… Eis o que realmente aconteceu…”Lembra-te sempre que se ousaste, no passado, isso é belo, mesmo quando se fica a meio do caminho. O sulco por muito ténue que seja por ti deixado em qualquer vereda que te tivesse desviado da estrada principal,
    servirá de guia aos outros que vierem depois de ti. É tudo o que posso dizer, deste texto belíssimo,
    que é bem o retrato que faço de ti. Parabéns.
    Um abraço de muita amizade.
    Vera Lucia

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