Arquivos Diários: 29 março, 2010

REI E RAINHA de rodrigo de haro / florianópolis


Os reis estão fatigados

Rei e Rainha dormem lado a lado

Na urna de vidro

Estreitamente unidos debaixo da nuvem.

.

Em algumas estampas

A mulher enlaça o homem pela cintura

Com pernas delgadas de rã

E seu leito por ser uma corrente

Que suspeito de enxofre

Suas almas são estes dois pássaros

Que sobem para o sol

Endoidecidos

Rei e Rainha cintilam caninos pontiagudos

Já partido o prato em que comiam

Já partida a urna em que dormiam.

se eu morrer ontem… – de julio saraiva / são paulo


se eu morrer ontem

e você por acaso acordar

hoje cedo com vontade

de chorar

não chore não

esquece

não vou estar por perto

e nem ninguém vai

reparar

ponha um vestido

indiano

ouça um samba do adoniran

ou do paulo vanzolini

não passe de 2 dry martinis

pra coisa não desandar

pense que vivi o bastante

pra quem viveu por

engano

como um sincero

farsante

poeta

não fui dos piores

menos príncipe mais sapo

dei cores aos meus

horrores

se eu morrer ontem

diga

aos interessados

que os convites para o

enterro

estão todos

esgotados

GAUCHE de hamilton alves / florianópolis

Dificilmente, aparecerá na cena da poesia brasileira (por que não dizer mundial) um poema que comece ou se formule assim:

”Quando nasci um anjo torto,

Desses que vivem na sombra,

Me disse: – Vai, Carlos, ser gauche  na vida”.

Embora sejam um poema por si mesmos ou por sua constituição, esses três versos constituem uma parte (a inicial) de um poema maior, de Carlos Drummond de Andrade, com o título ”O poema das sete faces”.

Alguns versos de Drummond se caracterizam por serem absolutamente portadores de uma voz nova. Sem dúvida, criou um modelo de conceber o poema, que não ficava mais adstrito aos rigores da rima ou do metro, mas que tinham uma organização ou arquitetura próprias.

Esses versos, estampados na abertura desta crônica, bem refletem esse estilo simples e direto, não subordinado a qualquer princípio de versificação conhecido. É por excelência uma coisa livre, que vai direto ao tema ou ao objetivo ou ao que se propõe.

Drummond esmerou-se nessa maneira de dizer sem rodeios ou sem artifícios. Criou uma linguagem poética, que jamais foi praticada entre nós ou mesmo, que se saiba, por poetas de outros países.

Só para citar um exemplo dentre muitos: a concepção de “José”, que considero um dos mais belos poemas da poética mundial, segue esse feitio de originalidade, tanto no que concerne ao fundo quanto à forma. Sucede que, quando um grupo de experts (não tão experts assim) julgou os melhores poemas do século XX, promovido esse juri por um jornal brasileiro, “José” não figurou entre os dez melhores do mundo, tendo Fernando Pessoa contribuído com dois poemas e Eliot com mais dois na lista dos escolhidos, em detrimento do valor insuperável de “José”, que ultrapassa sua condição de poema para se constituir numa proposta metafísica das mais belas que conheço.

“José”, além do mais, era a nova fórmula revolucionária que mudou a cara da poética nacional. Quiça, como disse, mundial.

O poema passou a ser concebido como nunca dantes houvera sido. A fórmula drummondiana trazia uma sensível mudança no tratamento do verso, uma espécie de mensageira de uma outra estética, em que uma simples frase, lançada ao ar, trazia em si a chave para abrir as portas da beleza.

UMA LUZ EM 2010 por alceu sperança / cascavel.pr

“O dinheiro não é apenas um dos objetos da paixão de enriquecer, mas é o próprio objeto dela. Essa paixão é essencialmente auri sacra fames (a maldita ganância do ouro), faz com que as pessoas vivam em torno de uma medíocre vida, ocasionada por necessidades impostas, gerando uma rotina alienada” “O que caracteriza a economia política burguesa é que ela vê na ordem capitalista não uma fase transitória do progresso histórico, mas a forma absoluta edefinitiva da produção social” “A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção e, portanto, as relações de produção, isto é, todo o conjunto das relações sociais. Esta mudança contínua da produção, esta transformação ininterrupta de todo o sistema social, esta agitação, esta perpétua insegurança distinguem a época burguesa das precedentes. Todas as relações sociais tradicionais e estabelecidas, com seu cortejo de noções e ideias antigas e veneráveis, dissolvem-se; e todas as que as substituem envelhecem antes mesmo de poder ossificar-se” “A classe capitalista rasgou o véu sentimental da família, reduzindo as relações familiares a meras relações monetárias” Em 2010, as pessoas que sonham com uma nova sociedade neste planeta vão desenvolver uma série de atos comemorativos aos 190 anos de nascimento do filósofo Friedrich Engels (1820–1895). Evidentemente, as pessoas que teimam em manter o mundo injusto como ele é atualmente também vão promover uma série de atos, com a finalidade de tentar liquidar a ascendência das ideias marxistas, das quais Engels foi um dos primeiros e mais importantes divulgadores, além de coautor, sobre a juventude e a intelectualidade progressista. Não suportam que alguém nascido há quase 200 anos ainda tenha algo a nos dizer. Talvez seja por isso que tantos odeiam Cristo, Maomé, Buda. Não suportam a pregação que eles fizeram de um mundo em que os homens vivam em harmonia, não uns devorando os outros, na atual supremacia da teoria hobbesiana. Quando pilantras de todos os calibres reprimiam os intelectuais e os trabalhadores com um falso medo do “fantasma do Comunismo” (expressão cunhada por Marx e Engels no Manifesto de 1848), já estava claro que as monumentais ideias de Marx seriam combatidas a ferro e fogo, pois elas não são palavras ao vento: partem do passado para chegar ao presente e insinuam um futuro que evidentemente não agrada aos donos do mundo e sua neoescravidão – uma escravidão em que as pessoas, amarradas pelos grilhões da ideologia, sequer conseguem ver que são controladas pelos criadores da infelicidade. Nós diremos em novembro de 2010, quando se completam os 190 anos de nascimento de Engels, que ele, tal qual Marx, mantém ainda hoje uma lanterna acesa para nos mostrar o caminho da revolução. Já os que adoram o mundo como ele está dirão que nossa lanterna se apagou com a primeira pichação feita por um nazista no túmulo de Marx. Por isso, nos 190 anos de nascimento de Friedrich Engels, nós mais uma vez levantaremos a lanterna e os capitalistas tentarão quebrá-la com suas pedras de ouro. Mas, como diria Marx, isso é da dialética. Vamos ao debate, pois é dele que de fato virá a luz necessária para que possamos construir a nova sociedade ainda neste século.