GAUCHE de hamilton alves / florianópolis

Dificilmente, aparecerá na cena da poesia brasileira (por que não dizer mundial) um poema que comece ou se formule assim:

”Quando nasci um anjo torto,

Desses que vivem na sombra,

Me disse: – Vai, Carlos, ser gauche  na vida”.

Embora sejam um poema por si mesmos ou por sua constituição, esses três versos constituem uma parte (a inicial) de um poema maior, de Carlos Drummond de Andrade, com o título ”O poema das sete faces”.

Alguns versos de Drummond se caracterizam por serem absolutamente portadores de uma voz nova. Sem dúvida, criou um modelo de conceber o poema, que não ficava mais adstrito aos rigores da rima ou do metro, mas que tinham uma organização ou arquitetura próprias.

Esses versos, estampados na abertura desta crônica, bem refletem esse estilo simples e direto, não subordinado a qualquer princípio de versificação conhecido. É por excelência uma coisa livre, que vai direto ao tema ou ao objetivo ou ao que se propõe.

Drummond esmerou-se nessa maneira de dizer sem rodeios ou sem artifícios. Criou uma linguagem poética, que jamais foi praticada entre nós ou mesmo, que se saiba, por poetas de outros países.

Só para citar um exemplo dentre muitos: a concepção de “José”, que considero um dos mais belos poemas da poética mundial, segue esse feitio de originalidade, tanto no que concerne ao fundo quanto à forma. Sucede que, quando um grupo de experts (não tão experts assim) julgou os melhores poemas do século XX, promovido esse juri por um jornal brasileiro, “José” não figurou entre os dez melhores do mundo, tendo Fernando Pessoa contribuído com dois poemas e Eliot com mais dois na lista dos escolhidos, em detrimento do valor insuperável de “José”, que ultrapassa sua condição de poema para se constituir numa proposta metafísica das mais belas que conheço.

“José”, além do mais, era a nova fórmula revolucionária que mudou a cara da poética nacional. Quiça, como disse, mundial.

O poema passou a ser concebido como nunca dantes houvera sido. A fórmula drummondiana trazia uma sensível mudança no tratamento do verso, uma espécie de mensageira de uma outra estética, em que uma simples frase, lançada ao ar, trazia em si a chave para abrir as portas da beleza.

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