Arquivos Diários: 30 março, 2010

A R E C O N Q U I S T A D O I M P É R I O – por jorge lescano / são paulo

— Meu fiel Pancho, devo dizer-lhe que o seu romance é um amontoado de dislates, mera perda de tempo. Se a intenção foi troçar do leitor temo que não consiga o seu objetivo: nenhum editor correria o risco de manchar sua reputação publicando este original — Alonso Gómez falava voltando da escrivaninha de onde retirara um bloco de papel encadernado com espiral. Sentou-se, apoiando o volume no colo e abandonou a mão sobre a capa de plástico transparente.

A mão era suntuosa, dedos finos e pálidos, obra de um maneirista italiano, Pancho Escudero olhava-a fascinado, como se estivesse exposta no teatro de Madame Tussaud ou tivesse fugido de uma antologia de contos.

— Sua Reconquista do Império é impossível, uma empreitada condenada ao fracasso, um verdadeiro absurdo! Entendo o que pretende mas não posso dizer que o tenha conseguido, em todo caso, não o aprovo. Você me conhece, sou rigoroso, não dogmático. Penso que não basta reler o passado, é necessário extrair dele algo de positivo para as futuras gerações — batia com a unha esmaltada do indicador nas grandes letras vermelhas do título.

O vidro escuro da janela abafava o rumor do mundo: enchentes, desmoronamentos, terremotos, tiros, promessas eleitorais…  Gómez abriu o volume ao acaso e apontou o início de um parágrafo.

— É necessário e justo identificar o Império Britânico com Jack, o Estripador? E o que simboliza o Papa  tentando seduzir Joãozinho na Alemanha? O autor não deve explicar sua obra, isto é de praxe, contudo, meu amigo, na oficina todo movimento e cada ferramenta têm que ter uma função precisa no árduo trabalho de fazer a máquina andar.

— O que escrevo não deve ser considerado literatura — disse Escudero soturnamente –, a menos que incluamos nesta categoria os manuais de circuitos elétricos, ou, se quiser, os vasos sanitários no ramo das belas artes.

— À medida que o texto se desenrola multiplicam-se as incongruências. — a mão alabastrina regia o ritmo das palavras —             O desleixo invade e deforma a trama. — apontava a capa do volume onde um rei de farsa parecia dialogar com o verdugo numa paisagem paradisíaca. — Onde o estilo, a …  ah!…? — engasgou.

A Reconquista do Império era um espetáculo, no mínimo, curioso. Nele se encontravam todas as estéticas havidas desde a Grécia Clássica — invenção da Itália renascentista, na opinião de Escudero — até os primeiros exercícios do curso básico das escolas profissionalizantes de teatro. Isto, bem mirado, era absolutamente coerente com o significado da obra. A crítica, porém, obstinava-se em não perceber, ou se negava a admitir, que o império do título estava no palco e abarcava todas as acepções de tempo e espaço. As locações se davam em pólos turísticos, à maneira dos best-sellers mais vendidos (sic), os personagens eram figuras exóticas, ou excêntricas ao gosto da época, tudo isto saciava a fome de novidade reclamada pelo público saturado dos mexericos dramatizados pelo telejornal.

— Manco Cápac contracena com Eróstrato na Macedônia, o ministro Goebbels aconselha Confúcio sobre democracia em Cabul e bons costumes na Bagdá ocupada, enquanto o matemático inglês estupra Alice mil e oitocentas e trinta e três vezes nas gélidas Ilhas Argentinas. Por que, valha-me Deus?!

— O absurdo tem uma lógica própria, e não é, como se acredita comumente, um amontoado de incongruências. Estas, aliás, podem servir para pôr em evidência a lógica do absurdo. Sintetizando: neste caso o Absurdo se manifesta por oposição à incoerência do texto. Sutil demais? É Absurdo porque não respeita a lógica do incongruente e age de acordo com suas próprias leis, que podem mudar segundo as necessidades da ação. Yes!, meu caro Gómez, há algo de método nesta loucura.

O autor da trama sabia muito bem que o público olharia para outro lado quando o fato  acontecesse, a bem da verdade, nesse contexto o fato era o menos interessante. Vulgar como a vida cotidiana, disse um cronista. Erro crasso, o que se interpretava como mimese era o verdadeiro. Até a noite do crime e talvez depois, os críticos consideravam esta cena a pior de todas porque introduzia elementos de realismo onde, segundo eles, só havia loucura e incompetência. O brilhante detetive recrutado numa universidade italiana interpretou o fato como seqüela do enredo: o crime aconteceu porque a cena criou a ocasião. A partir daí toda sua teoria é correta, porém, a premissa, falsa. O crime não aconteceu porque a cena o permitia senão porque a cena fora criada intencionalmente.

Ali não havia nada da cortesia do ator que para não ofender os colegas preferia brigar com o porteiro do teatro e assim desatar a fúria de Lear no palco, nada do rigor daquele outro, que extraíra quatro dentes para que o seu chimpanzé fosse convincente ao informar à Academia, sutilezas dramáticas geradas pela leitura deficiente do russo. Nada havia da superficialidade dos seriados de televisão, que banalizam o narcotráfico, tema épico da atualidade, na opinião de Escudero. Nada, enfim, que aproximasse A Reconquista do Império de certos filmes de ficção interplanetária onde os alienígenas que visitam ou invadem a terra, se bem são capazes de criar imensas e sofisticadas naves, preciosismos que desafiam a engenharia de efeitos especiais, não portam cabelo nem orelhas nos crânios, isto, vá lá, é a moda dos maquiadores ETs, mas tampouco possuem traje algum, sequer gravata, suas vestes são conforme às dos indígenas visitados pelos europeus na América. Como foi dito e visto, nada disto acontecia no original em pauta.

A seqüência do crime, não esqueçamos, fora criada a partir de uma sugestão do coadjuvante, telespectador ferrenho, que alegou que seu papel era secundário e se sentia relegado pela companhia. Não esqueçamos que o autor contava com o sucesso da peça para garantir a sobrevivência. O ator viola sua interpretação realista — isto não foi esquecido pelos críticos — e enxerta um à parte no qual declara, no círculo de luz do palco escuro, que é um homem invisível. A platéia ri nesta passagem. De fato o ator nega  o principio de identidade, segredo de sua interpretação, trata-se de um caso de ser e não ser. O crime contra o teatro ocultava o verdadeiro crime, disse o assassino em sua confissão televisionada.

— Este o Absurdo porque único momento verdadeiro da novela — explica o autor.

Eu, por mim, entre as armas e as letras dou uma de Miguel: sou sempre pelas letras — Gómez sorri, divertido pelo próprio engenho –, contudo, meu filho, no caso o uso de citações e a morte do protagonista são excrescências. — Neste momento você percebe que o que parecia um cachimbo nas mãos de Pancho Escudero é um revólver.

— Desta vez você errou, papai  — diz Escudero, a mão firme, sorriso matreiro –, pensou que ele apenas estava citando o belga, correto?

Alonso Gómez ouve estas palavras com o rosto submerso nas primorosas mãos e eu deponho a pena de ganso no tinteiro, pois como o intrépido leitor já terá deduzido, esta é uma história do século XIX.

VENTILADOR DE PROMESSAS por sérgio da costa ramos / florianópolis

Todo candidato é um santo canonizado. Deseja sinceramente enxugar o suor do operário, lenir a mão do agricultor, adubar o salário do professor, consolar os sem-terra e os sem-teto, mitigar a fome dos descamisados, distribuir leite, emprego, felicidade, cartão de crédito e estacionamento para todo mundo.

São tão inconfundíveis os sintomas de uma candidatura quanto os suspiros de uma paixão. O candidato anda pelas ruascurvado, a apertar mãos, a fazer bilu-bilu em criancinhas e a ligar o seu pródigo ventilador de promessas.

Não se conhece homem mais puro e mais bem-intencionado do que o candidato. Mas há um certo mecanismo que, num determinado instante entre a eleição e a posse, transforma o bom candidato num Ali Babá, num Arséne Lupin, num José Roberto Arruda. Eleito, o sujeito começa a enxergar o erário como a permissiva bolsa de uma “viúva” indefesa.

E há, para dourar essa predisposição de assédio do cofre, o singular conceito ibérico de que os “recursos públicos” pertencem “a quem chegar primeiro”. O dinheiro dos impostos seria um bem de propriedade difusa e incerta, “não é de uma pessoa, nem de ninguém”, logo, “se eu pegar um pouquinho pra mim não será um mal tão irreparável assim”…

Dono de um mandato, executivo ou legislativo, o candidato, agora titular de representação popular, manda os representados às favas e vai tratar do seu patrimônio. Nada menos do que “assustadora” a lógica dos beneficiários do “mensalão”, descrita pelo seu primeiro delator, Roberto Jefferson:

– Alguns parlamentares chegaram para mim e disseram: vocês não vão pegar? Por quê? Por acaso são “melhores” do que nós?

Implícita na interpelação, a plena consciência de que se tratava de uma atividade marginal, e que eles, os “mensalistas”, sentiam-se ultrajados com a recusa de colegas que se atreviam a “posar de honestos”. Aliás, dentro desta mesma lógica do crime, uma deputada de Rondônia já dissera a um governador, igualmente facinoroso:

– Você sabe que o mundo é assim… Nem você nem eu poderemos mudá-lo.

Há candidatos que se acham corretos, e que se contentam com “recompensas” menos explícitas. Que mal há em indicar uma pessoa de sua confiança para uma estatal? E que mal há em conseguir, na próxima eleição, que os seus impressos sejam produzidos lá na gráfica dessa empresa, que é pública mesmo…

É o tal “paradoxo do brasileiro”, de que nos fala o economista Roberto Gianetti da Fonseca: “Ninguém pactua com o mar de lama, o deboche e a vergonha da nossa vida pública e comunitária. O problema é que o resultado final é esse que está aí!”.

Quantas CPIs serão necessárias para acabar com o “mensalão”? Poderemos colecionar dezenas, mas a “moral vigente” em nada se modificará se os parlamentares continuarem a aceitar “negócios” para saltar de um partido para o outro.

Sem uma reforma política que moralize o mandato parlamentar e garanta a sua integridade, os “mensalões” mudarão de nome, mas não de “práxis”. Sem uma reforma que valorize a agremiação política – em que esta comprove sua “densidade eleitoral” e não seja um mero partido de aluguel –, o Brasil pós-mensalão será apenas um sonho.

Resta-nos saber se os que se tornaram viciados em “mesada” aceitam reformar toda a estrutura, ou, como de hábito, contentar-se-ão em retirar o sofá da sala.