VENTILADOR DE PROMESSAS por sérgio da costa ramos / florianópolis

Todo candidato é um santo canonizado. Deseja sinceramente enxugar o suor do operário, lenir a mão do agricultor, adubar o salário do professor, consolar os sem-terra e os sem-teto, mitigar a fome dos descamisados, distribuir leite, emprego, felicidade, cartão de crédito e estacionamento para todo mundo.

São tão inconfundíveis os sintomas de uma candidatura quanto os suspiros de uma paixão. O candidato anda pelas ruascurvado, a apertar mãos, a fazer bilu-bilu em criancinhas e a ligar o seu pródigo ventilador de promessas.

Não se conhece homem mais puro e mais bem-intencionado do que o candidato. Mas há um certo mecanismo que, num determinado instante entre a eleição e a posse, transforma o bom candidato num Ali Babá, num Arséne Lupin, num José Roberto Arruda. Eleito, o sujeito começa a enxergar o erário como a permissiva bolsa de uma “viúva” indefesa.

E há, para dourar essa predisposição de assédio do cofre, o singular conceito ibérico de que os “recursos públicos” pertencem “a quem chegar primeiro”. O dinheiro dos impostos seria um bem de propriedade difusa e incerta, “não é de uma pessoa, nem de ninguém”, logo, “se eu pegar um pouquinho pra mim não será um mal tão irreparável assim”…

Dono de um mandato, executivo ou legislativo, o candidato, agora titular de representação popular, manda os representados às favas e vai tratar do seu patrimônio. Nada menos do que “assustadora” a lógica dos beneficiários do “mensalão”, descrita pelo seu primeiro delator, Roberto Jefferson:

– Alguns parlamentares chegaram para mim e disseram: vocês não vão pegar? Por quê? Por acaso são “melhores” do que nós?

Implícita na interpelação, a plena consciência de que se tratava de uma atividade marginal, e que eles, os “mensalistas”, sentiam-se ultrajados com a recusa de colegas que se atreviam a “posar de honestos”. Aliás, dentro desta mesma lógica do crime, uma deputada de Rondônia já dissera a um governador, igualmente facinoroso:

– Você sabe que o mundo é assim… Nem você nem eu poderemos mudá-lo.

Há candidatos que se acham corretos, e que se contentam com “recompensas” menos explícitas. Que mal há em indicar uma pessoa de sua confiança para uma estatal? E que mal há em conseguir, na próxima eleição, que os seus impressos sejam produzidos lá na gráfica dessa empresa, que é pública mesmo…

É o tal “paradoxo do brasileiro”, de que nos fala o economista Roberto Gianetti da Fonseca: “Ninguém pactua com o mar de lama, o deboche e a vergonha da nossa vida pública e comunitária. O problema é que o resultado final é esse que está aí!”.

Quantas CPIs serão necessárias para acabar com o “mensalão”? Poderemos colecionar dezenas, mas a “moral vigente” em nada se modificará se os parlamentares continuarem a aceitar “negócios” para saltar de um partido para o outro.

Sem uma reforma política que moralize o mandato parlamentar e garanta a sua integridade, os “mensalões” mudarão de nome, mas não de “práxis”. Sem uma reforma que valorize a agremiação política – em que esta comprove sua “densidade eleitoral” e não seja um mero partido de aluguel –, o Brasil pós-mensalão será apenas um sonho.

Resta-nos saber se os que se tornaram viciados em “mesada” aceitam reformar toda a estrutura, ou, como de hábito, contentar-se-ão em retirar o sofá da sala.

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