Arquivos Mensais: abril \30\UTC 2010

Sobre o livro: ” O brasiguaio Don Antonio” – por josé alexandre saraiva / curitiba

A leitura dos originais deste belo livro causou-me aprazimento e júbilo. Aprazimento de quem se vê a viajar por distintas e convidativas temáticas literárias, entrelaçadas de prosa histórica – incluindo revivências parlamentares do autor nos ásperos anos da década de 1960 – e incursões poéticas.

O júbilo consiste simplesmente na satisfação incontida de merecer a confiança do confrade Lyrio Bertoli para prefaciar estas perenes páginas.

Abro parêntese já no início para dizer que a tarefa é outorgada menos por minhas qualidades do que pela amizade. Uma amizade que remonta ao verão de 1998, quando fomos apresentados na Banca do Abel, a Boca Maldita de Foz do Iguaçu. Entre outros assuntos, falamos sobre a criação de um centro cultural para a cidade. Pouco tempo depois, no Hotel Rafain Centro, nascia a Academia de Cultura de Foz do Iguaçu (Aculfi), presidida por Lyrio nos primeiros quatro anos. Além da sua revista Cultura Basis Civilitatis, livros, eventos culturais e artísticos, palestras e ciclos de estudos foram chancelados pela Aculfi. Como já era esperado, não tardaria a chegar o valoroso aval da Academia Paranaense de Letras e do Centro de Letras do Paraná, então sob a liderança dos acadêmicos Túlio Vargas e Adélia Maria Woellner, respectivamente.

Ainda hoje está na boca do povo iguaçuense o sensacional encontro “Nordeste e Sul de Repentes”. Por várias horas, o repentista Oliveira de Panelas (pernambucano) e o pajador José  Estivalet (gaúcho) duelaram de improviso na melhor poesia popular, embalados por incessantes aplausos.

Sob a liderança e honorabilidade do ilustre presidente, e a valiosa colaboração de Nancy Rafagnin Andreola, então presidente da Fundação Cultural de Foz do Iguaçu, o governo municipal nos cedeu ampla sala mobiliada e criou rubrica orçamentária para a novel agremiação cultural. A cada dia, a Aculfi consolidava sua importância junto aos diversos segmentos da sociedade. Acolheu membros de notória expressão no mundo artístico e cultural da região, incluindo cidades fronteiriças do Paraguai e da Argentina, e serviu de modelo no exitoso processo de interiorização da Academia Paranaense de Letras, iniciado por Túlio Vargas, de sentida memória.

A partir daí, na convivência diária, passei a conhecer de perto o extraordinário ser humano Lyrio Bertoli. No início, fiquei surpreso com tão denso passado histórico, a começar por sua eleição para a Câmara dos Deputados em 1962, como primeiro deputado federal do Oeste do Paraná. Nessa época, a região, com forte presença de jagunços e posseiros, caminhava lentamente na formação dos primeiros municípios. Era nítida a incipiente infra-estrutura rodoviária e de serviços básicos, a evidenciar agudas carências.

Lyrio trabalhou com afinco e cumpriu as promessas de campanha. O povo reconheceu nas urnas a dedicação de seu primeiro deputado federal e conferiu-lhe o segundo mandato. Após assegurar indelével legado à consolidação socioeconômica do Oeste do Paraná, Lyrio Bertoli despediu-se de seus pares em 1971, não resistindo aos apelos do aconchego familiar. Antes, em antológico discurso registrado nos anais daquela casa de leis, prestou alentada homenagem ao poeta neo-romântico e simbolista Alphonsus Henrique de Guimaraens (1870-1921), pelo transcurso de seu aniversário de cem anos.

Nesse delicado período da História recente do Brasil, Lyrio Bertoli lançou, em seus mais de 370 pronunciamentos da tribuna da Câmara dos Deputados, ideias de grande repercussão, seja pelo conteúdo, seja pela originalidade. Tive acesso a vários desses documentos e constatei expressivo número de proposições que se tornaram realidade. É o caso do projeto embrionário da construção da usina hidrelétrica de Itaipu, conforme comprova a edição de 8 de agosto de 1963 do Diário do Congresso Nacional.

A propósito, em carta datada de 9 de julho de 2004, o atual Diretor Geral Brasileiro da Itaipu Binacional, Jorge Samek, reconheceu o importante e decisivo papel de Lyrio nesse monumental empreendimento da engenharia mundial. Destaca o iguaçuense Samek “o grande exemplo de sua visão e seu desempenho parlamentar voltado a esse aproveitamento hidrelétrico do rio Paraná, hoje fonte de energia e garantia de desenvolvimento para o Brasil e o Paraguai”.

Aqui também merece registro o seu empenho na instalação da primeira cooperativa do Oeste do Paraná, a Consolota, de Cafelândia, hoje Copacol. Fundada por colonos, sob orientação do padre Luiz Luíse, o momento decisivo de criação da tradicional entidade surgiu em uma audiência de Lyrio Bertoli com o presidente João Goulart. Lyrio sensibilizou e convenceu o mandatário supremo do país das insuportáveis espoliações econômicas padecidas pelos pequenos produtores da agroindústria, graças às ações açambarcadoras dos atravessadores – verdadeiros sanguessugas.

Posteriormente, mesmo sem o mandato de deputado, Lyrio evitou que essa cooperativa – principal responsável pelo desenvolvimento e emancipação de Cafelândia, antes uma vila de Cascavel – fosse absorvida pela Coopavel. Ele continuaria ardorosamente engajado na preservação institucional e financeira da Copacol, dando eco, com sua prestigiada presença junto às autoridades de Brasília, aos pleitos legítimos das lideranças locais. Prova cabal disso é a correspondência enviada a Lyrio Bertoli em dezembro de 1971 por Estevão Grudka e Cristiano T. Maltezo, dirigentes daquela cooperativa, rogando-lhe intervenção pessoal e política para salvar a entidade.

Em documento escrito pelo padre Luiz Luíse, transcrito em trabalho da lavra de Alceu A. Sperança, o famoso religioso dá esse importante testemunho para a História:

“Vendo, em Cafelândia, a situação dolorosa dos bons colonos, pensei em ajudá-los, fundando a Associação Agropecuária Cafelândia em julho de 1963, porém não consegui legalizá-la, visto que em Cafelândia existia uma filial da Associação Agropecuária de Cascavel. Não sabendo o que fazer para salvar os colonos, escrevi um relatório ao deputado Lyrio Bertoli. Ele levou ao conhecimento do presidente do Brasil, João Goulart, os problemas dos agricultores. Foi assim que o presidente encarregou o próprio Lyrio Bertoli de chefiar e acompanhar uma missão composta do próprio chefe da Casa Civil da Presidência, um coronel e mais dois técnicos em cooperativismo do Ministério da Agricultura, para vir a Cafelândia e verificar a situação crítica dos colonos. Isto deu-se no mês de agosto de 1963”.

No mesmo sentido, enaltecendo a paixão de Lyrio Bertoli pelo Oeste do Paraná, a Associação Comercial e Industrial de

Cascavel, em correspondência a ele enviada por seu presidente Pedro Luiz Boaretto, ressalta que sua passagem pelo Congresso Nacional revelou “preocupação incessante com relação às causas do oeste paranaense, destacando-se as rodovias, os aeroportos, a política agrícola, a situação agrária, as agências do Banco do Brasil e da então Coletoria Federal, preços mínimos, e até a visão da Usina de Itaipu”.

Fecho o parêntese. Falemos um pouco sobre o livro.

Entre as narrativas reunidas nesta obra, particularmente me prenderam a atenção as tocantes histórias centradas em fatos reais ocorridos em plena colonização do Oeste do Paraná, em que a conquista da terra é elemento nuclear. Em uma delas (“Por um pedaço de terra”), o autor – ao mesmo tempo protagonista em carne e osso, na qualidade de promotor de justiça ad hoc – , mergulha com acurada sutileza no interior de personagens. Valendo-se da lógica dedutiva, técnica investigativa que consagrou Sherlok Holms, expõe com agudeza os ardis da incrível trama arquitetada pelo jovem Ismael, dominado pela cobiça material. Valendo-se da fragilidade feminina, ele seduz a donzela Ana Maria para atingir diabólico plano. Pretendia garantir ao pai uns palmos de terra disputados também pelo pai da moça. Movida por irresistível paixão, Ana Maria sucumbe à tentação e denuncia o próprio pai de falso estupro, levando-o premeditadamente à prisão.

Ampliando o cenário das instigantes histórias, extremamente realistas, o olhar crítico e investigativo de Lyrio Bertoli cruza o rio Paraná e vai às promissoras terras paraguaias de Alto Paraná, para onde são atraídos brasileiros desbravadores em busca do Eldorado. Ali, desenvolve-se praticamente todo o magnífico conto “O brasiguaio don Antonio”, em que se sobressaem vários paralelos narrativos. Nele, o autor tece as aventuras e infortúnios do gaúcho Antonio, homem de sólidas raízes morais, chefe de família, trabalhador e ordeiro. No entanto, traído por ambição desmedida de riqueza, torna-se prisioneiro de suas próprias conquistas, cercadas de experiências idílicas. Mergulhado nas areias movediças da ambição e das paixões proibidas, tem trágico fim em solo guarani. No episódio, o autor ressalta o conflito de consciências entre Antonio, humilde trabalhador, pai e marido, e o agora “don Antonio”, senhorio, próspero, sedutor e amante. O embate sobre o certo e o errado, o bem e o mal, dá um toque de maestria, digno dos melhores contistas, ao drama vivido pelo personagem Antonio, isto é, don Antonio.

Não é demais salientar que o Oeste do Paraná, recentemente agraciado com a obra No tempo dos pioneiros, de Heitor Lothieu Angeli, ganha agora, com o eficiente escritor Lyrio Bertoli, substancioso capítulo na consagração de suas letras. Além da importância histórica, o livro permite-nos visualizar cenários narrativos em cores vivas, com descrição de época, de ambientes, de costumes e de personagens, compreendendo o oportuníssimo resgate de lenda que, inexplicavelmente, ficaram perdidas nas antigas matas e nos abundantes rios da região.

Enfim, com esta obra Lyrio Bertoli lega aos pósteros o exemplo de indeléveis passagens da sua vida pública e, a um só tempo, assegura lugar cativo na galeria da melhor literatura regional paranaense. Em definitivo, passa a figurar ao lado de vultos como o saudoso amigo Ruy Wachowisk, Alceu A. Sperança e o já citado Heitor Lothieu Angeli, entre outros, cuja produção literária tem projetado além-fronteiras a apaixonante região do Oeste do Paraná.

Curitiba, 5 de abril de 2010.


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ALVO de solivan brugnara / queda do iguaçu.pr

Mirei na nódoa do imaculado

atirei onde não tem alvo.

Sei que feri

aquilo que não vi.

Foi fácil, por que de tanto

não era nada.

E se eu me distanciar.

E se ele diminuir.

E se eu me aumentar.

Será que vou saber?

o que e aquilo que feri?

Será que era inferno ou paraíso?

Será que matei ou apenas irritei?

Será que revidará?

Será que sabe que também sofri?

Porque queria ver e não vi.

Desculpe-me,

Queria mesmo é matar minha sina

de só acertar

quando atiro a esmo.

MANUEL MARÍA lança seu livro de trovas “MEU PEQUENO MUNDO” e convida:

Após o sucesso alcançado no lançamento do livro de trovas “Meu Pequeno Mundo”, realizado na Livraria Letras (Shopping Palladium – Ponta Grossa), a pedido da renomada Livraria Curitiba, estaremos realizando também o seu lançamento na cidade de Curitiba. A data já está definida para o dia 05/05, às 19:00 horas, nas dependências da Livraria Curitiba, filial do Shopping Estação. Será servido nesta data um coquetel. Ainda serão realizadas breves homenagens aos representantes das Academias de Letras presentes, escritores e imprensa, bem como alguns convidados especiais e autoridades, a serem confirmadas. Neste evento Manuel María, espera fazer da reunião uma noite de agradável convivência e disseminação da cultura paranaense.

Revista Time escolhe Lula como um dos líderes mais influentes do mundo

DEMOS  e TUCANALHAS, se desesperam diante do reconhecimento  da liderança mundial do Presidente LULA. Para lembrar, FHC, O CULTO, jamais recebeu uma frase elogiosa, sequer de uma ditadura africana. Essa gente, vendilhões da pátria,  já passou! O povo brasileiro não quer voltar atrás!

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Presidente é destaque na categoria “leaders”, junto com Barack Obama; brasileiro Jaime Lerner é citado entre “pensadores”

29/04/2010 | 11:50 | AGÊNCIA ESTADO E G1/GLOBO.COMatualizado em 29/04/2010 às 19:57

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito pela revista americana “Time” um dos líderes mais influentes do mundo em 2010, ao lado de figuras como o colega americano, Barack Obama. Embora o nome de Lula seja o primeiro da lista, a publicação afirma que isto não o qualifica como o líder mais influente, pois não se trata de um ranking. Em 2004, o presidente brasileiro já figurara na relação – ocasião em que foi descrito como “a voz dos países em desenvolvimento”.

A lista das 100 pessoas mais influentes do mundo deste ano, divulgada nesta quinta-feira (29), é dividida em quatro categorias: líderes, heróis, artistas e pensadores. Lula divide o título com outros 25 líderes, de empresários a políticos.

O perfil do brasileiro é assinado pelo documentarista Michael Moore. No texto – altamente elogioso -, ele descreve Lula como “um autêntico filho da classe trabalhadora latino-americana”. “O que Lula quer para o Brasil é o que costumávamos chamar de o sonho americano”, compara.

O perfil menciona a história de Lula, desde sua infância no Nordeste, “forçado a deixar a escola na quinta série para ajudar a família”, até sua eleição em 2002, “quando, depois de três candidaturas fracassadas, já era uma figura conhecida na política brasileira”. O texto questiona: “mas o que o levou à política?”. E responde: “foi quando, aos 25 anos, assistiu sua mulher Maria morrer no oitavo mês de gravidez, junto com o bebê, porque não podiam pagar um atendimento médico decente”.

Moore aproveita o perfil de Lula para criticar seu próprio país. “A grande ironia do governo Lula é que, enquanto tenta conduzir o Brasil ao primeiro mundo com programas sociais estatais, como o Fome Zero, os Estados Unidos se parecem cada vez mais com o antigo terceiro mundo.”

Esta é a sétima lista do gênero divulgada pela “Time”. A publicação de 2010 chega quando a aprovação do presidente brasileiro alcança os 84%, de acordo com a última pesquisa Ibope A lista de líderes influentes inclui o presidente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, a presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, e a ex-governadora do Alasca e candidata a vice-presidente na chapa de John McCain, Sarah Palin , além dos primeiros-ministros japonês e palestino, Yukio Hatoyama e Salam Fayyad.

Jaime Lerner

O ex-prefeito de Curitiba Jaime Lerner também figura na lista, só que na categoria dos pensadores mais influentes do mundo. “Nos últimos 40 anos, Lerner deixou um magnífico legado de sustentabilidade urbana”, escreveu o prefeito de Vancouver, Gregor Robertson, que traçou o perfil do brasileiro. Ele descreve o colega como um “pioneiro” do sistema de transporte público nas cidades – um modelo, segundo o texto, “agora usado em todo o mundo”.

Outros nomes na mesma categoria incluem o presidente da Apple, Steve Jobs, os economistas Paul Volcker e Amartya Sen, e a integrante da Suprema Corte americana Sonia Sotomayor.

Outras homenagens

Lula já havia recebido outras homenagens de jornais e revistas importantes no cenário internacional. Em 2009, foi escolhido pelo jornal britânico “Financial Times” como uma das 50 personalidades que moldaram a última década.

Também foi eleito o “homem do ano 2009” pelo jornal francês ‘Le Monde’, na primeira vez que o veículo decide conferir a honraria a uma personalidade. No mesmo ano, o jornal espanhol ‘El País’ escolheu Lula o personagem do ano. Na ocasião, Zapatero refigiu o artigo de apresentação do brasileiro e disse que Lula ‘surpreende’ o mundo.

Veja abaixo a lista dos 10 líderes mais influentes da Time

1 – Luiz Inácio Lula da Silva
2 – J.T. Wang
3 – Admiral Mike Mullen
4 – Barack Obama
5 – Ron Bloom
6 – Yukio Hatoyama
7 – Dominique Strauss-Kahn
8 – Nancy Pelosi
9 – Sarah Palin
10 – Salam Fayyad

(Confira a lista completa no site da revista)

Oração ao “Mor” – de Delinar Pedrinho


Ó “Mor”

Espero que não fiques a pensar que meu amor por você sejas um breve acontecimento em meio ao barulho de uma queda d’agua…,.

Pra min…, o amor “Mor” é mais…, bem mais.

Amor é satisfazer a nos dois

Não satisfiz você…,.

Nem a mim…,.

Tenho certeza de que será como assim o desejas

Poderemos gozar da plenitude do amor que espero para nós dois

Assim que deixarmos de sermos dois e passarmos a ser um

Deixarmos de ser Eu e Tu para sermos Nós

Quando num abraço seu e meu, nos tornarmos impossíveis de distinguirmos um do outro…,.

Amém.

“CHICO XAVIER,” o filme – por dr. rosinha / curitiba

“Vai lamber ferida”

Quando criança, ouvia periodicamente a frase “vai lamber ferida”. Nunca soube o porquê nem como surgiu esta frase. Mais tarde, ouvi o Brizola, após uma derrota eleitoral, dizendo que se retiraria por uns dias e, como o gado, iria lamber suas feridas.

Lamber as próprias feridas, termo mais conhecido, é citado, como Brizola fez, após uma derrota política, amorosa ou de negócios. Derrotados se retiram e vão ruminar seus erros ou dores num canto solitário. Vão procurar a resposta para a ferida aberta.

Estas duas situações surgiram enquanto assistia a “Chico Xavier – o filme”. Logo no início, a madrasta do menino Chico, interpretado por Matheus Costa, manda-o lamber uma ferida. O menino é submetido literalmente a lamber uma ferida. É nojento, mas é feito para mostrar como foi difícil a vida do garoto.

Órfão de mãe, mantinha com ela diálogos longos, que poderiam ser fantasias de crianças. Por essas “fantasias”, era uma criança absorta e sonhadora. Por isso, reprimida.

Fui ver o filme esperando um libelo do espiritismo. O filme mostra a vida sofrida de um homem profundamente humano e religioso, e que, possuído de um espírito superior, somente busca o bem.

Nunca estudei o espiritismo. Nunca li nada mais profundo sobre Chico Xavier ou escritos dele. Portanto, fui ao filme sem nenhum preconceito ou informação prévia sobre o mesmo. Fui de espírito desarmado.

Na infância, no interior do Paraná, ouvia falar do Chico Xavier e de caravanas que partiam da região para ir ao encontro dele. Todos iam imbuídos de fé e na busca de cura para seus males físicos ou espirituais. Também lembro que ele usava peruca, tema abordado no filme. Esperava que o filme fosse basicamente um rosário dessas curas. Não é. Aparecem estes tipos de cenas, mas são poucas.

Há momentos de descontração, como quando ele recebe uma família tomada por maus espíritos e pede ao seu auxiliar que use o “peso do evangelho”, se necessário. Usar o peso do mesmo era fazer a leitura, com muita fé, de uma passagem bíblica. O seu auxiliar entendeu outra coisa e fez uso de outra maneira.

Outro momento de descontração é quando Chico faz sua primeira viagem de avião e, ao passar por uma turbulência, é tomado de medo. Medo de morrer. Neste momento, aparece Emmanuel, que pede a ele que pelo menos morra com educação. O que será morrer com educação?

No inicio da década de 1970 a TV Tupi, hoje extinta, tinha um programa chamado “Pinga Fogo”. Esse programa era transmitido ao vivo e durava uma hora. O convidado do dia 28 de junho de 1971 foi Chico Xavier, e neste dia o programa durou mais de três horas. O filme tem como espinha dorsal esta entrevista.

O filme Chico Xavier é baseado no livro “As muitas vidas de Chico Xavier”, escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior. A partir do “Pinga Fogo”, é reconstituída a infância do menino em Pedro Leopoldo e o restante de sua vida, como as primeiras psicografias de Chico ainda jovem, interpretado por Ângelo Antonio, em Uberaba.

Roteiro bem construído e sem ser piegas, o filme leva a alguns momentos de emoção. Não às lágrimas.

Emocionante e bem posta é a música. Egberto Gismonti. Gismonti nos tem dado uma imensa e bem postada obra como Sonho’70, Academia De Danças, Dança Das Cabeças, Carmo, Mágico, Circense, Fantasia, Alma e tantos outros trabalhos.

A música de Gismonti eleva o filme e dá a ele um espírito. Eleva também o espirito de quem assiste. A música contribui para que se saia do filme de espirito limpo, quase que flutuando.

O filme apresenta um drama paralelo: um casal que teve um filho morto e que paira a dúvida entre um acidente ou um assassinato. Este casal espera uma carta psicografada.

Nelson Xavier é quem interpreta Chico na vida adulta. Não poderia ser outro ator, pois Nelson não só tem a coincidência do mesmo sobrenome, tem a semelhança física e desempenha a tarefa com profundo profissionalismo.

Fui ao cinema imaginando ver um filme meramente espírita. Enganei-me. É um filme humano e que nos coloca a lamber nossas próprias feridas.

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR)

JORGE LUÍS BORGES, escritor de bairro – por jorge lescano / são paulo


Não fosse a fama e os fatos da vida de Jorge Luís Borges seriam menos interessantes que sua obra. Nasceu em 24 de agosto de 1899 em Buenos Aires.  Aos 15 anos viaja para Europa em companhia dos seus pais, que se estabelecem em Genebra. Lá faz seus estudos secundários. Volta à Argentina em 1921, depois de ter passado pela França, Itália, Portugal e Espanha. Por volta de 1937 ingressou no seu primeiro emprego de tempo integral. Antes trabalhara em tarefas editoriais menores. Escreveu para o jornal Crítica, a revista El Hogar e para cine-jornal.

Na biblioteca municipal onde trabalhava, a sudoeste do centro de Buenos Aires, escreveu A Biblioteca de Babel, A Loteria da Babilônia e outros contos que lhe dariam fama internacional. Em 1946, depois de ter sido promovido a fiscal de galináceos e coelhos nos mercados municipais, pede demissão da prefeitura e passa a ministrar aulas e palestras. Viaja por toda a Argentina e Uruguai. Fala de literatura, cabala, poesia germânica medieval, sufismo, as sagas islandesas, Dante, expressionismo, Cervantes.

Em 1961 divide com Samuel Beckett o Prêmio Formentor, outorgado por editores europeus graças a uma tradução dos seus contos para o francês, publicada quase trinta anos antes. É o inicio da fama e do mito do Bardo Cego. Sua obra é traduzida para todas as línguas européias, o árabe e o hebraico. O prêmio é quase equivalente ao Nobel, que não chegou a ganhar. Suas opiniões políticas têm muito a ver com esta omissão, à qual se referia ironicamente como uma antiga tradição nórdica.

Borges, escritor cosmopolita, que não duvidou em se utilizar quase todo o acervo cultural da humanidade, era, explicitamente, um escritor argentino. Poucos, talvez nenhum escritor argentino tenha reivindicado para sua família tantos fatos da história do seu país. Isto consta em seus escritos assim como em muitas das centenas, talvez milhares, de entrevistas que concedeu ao longo de sua longa vida em diversos países. Ainda que não chamasse a atenção para esses fatos, toda sua obra se encarregaria de lhe denunciar a origem. Na obra deste autor não percebemos a Argentina dos jornais e das agências de turismo, antes, outra, forjada em Buenos Aires pelas classes ilustradas suas contemporâneas.

Seria possível lhe atribuir a reinvenção do labirinto. Um labirinto arquetípico, platônico. Outros apenas admitem o tabu deste tema na literatura depois dele, são menos os que lhe reconhecem o mérito de ter atualizado um motivo presente exaustivamente em obras maneiristas.

Buenos Aires é uma cidade de ruas paralelas, os quarteirões formando quadriláteros quase perfeitos. Talvez a perfeição do quadrilátero fosse a primitiva intenção dos fundadores, isto se percebe nos esboços originais da cidade. Borges parece não tê-la sentido assim, deu aos seus passeios uma forma circular. Visitava sempre os mesmos lugares. Se acrescentarmos a estas caminhadas a penumbra de sua cegueira progressiva, poderemos encontrar — ou justificar —  a presença em sua obra desta forma arquitetônica tão venerada quanto inútil.

Este homem que como Quevedo, como Voltaire, como Goethe, como Wells, como algum outro mais aspirou menos ser um literato que uma literatura, extraiu do sul da cidade seus temas e personagens.

O sul era, para Borges, menos uma referência geográfica que um ideal. Isto afirma em O sul conto que destacava como sua narração melhor acabada, na qual inclui um dado biográfico da maior importância em sua evolução como escritor.

Dahlmann, protagonista da obra, é um pacato bibliotecário que sofre um acidente numa escadaria escura enquanto carregava um exemplar de As mil e uma noites. O próprio Borges, na véspera de Natal de 1938, é ferido na testa por uma janela aberta e recém pintada, isto provocará uma septicemia e ele passará duas semanas entre a vida e a morte. Quando volta a escrever, tenta algo que nunca tivesse escrito, um conto. Escreve Pierre Menard, autor do Quixote, uma de suas obras de maior influência não só na ficção como na crítica contemporânea.

Buenos Aires e seus arredores estão sempre presentes. Dentre muitos exemplos, Borges nos esclarece que os losangos do vitral que aparecem no conto A morte e a bússola, localizado em Genebra, fazem parte da paisagem de uma rua do sul de Buenos Aires, e que a quinta Triste-le-Roy, do mesmo conto, é uma transposição de um hotel de Adrogué, localidade ao sul de Buenos Aires, onde a família costumava passar temporadas na época de férias.

Jorge Luís Borges cresceu no bairro de Palermo e praticamente até sua morte morou no lado norte da cidade. Isto poderia sugerir uma curiosa constatação: enquanto sua obra fixava um espaço limitado da cidade, ele, morador de sua antípoda, cumpria o papel de turista, que sempre criticou, de forma implícita, na literatura. De fato, a cor local do sul foi retratada por um homem do norte. Suspeito que esta conclusão não seria do seu agrado.

“Dispositivo de Imagem” – no Espaço Cultural BRDE / curitiba

Um olhar específico sobre árvores e sua presença na natureza é o tema da nova exposição – “Dispositivo de Imagem” – no Espaço Cultural BRDE

A nova exposição do Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões, traz a árvore e a relação homem-natureza como tema central e, segundo a artista  Maria Lucia de Julio, tem o intuito de “provocar uma consciência ambiental e fazer uma reflexão em cima da natureza”.

Maria Lucia de Julio formou-se em pintura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), em 1984 e logo após especializou-se em História da Arte do Século XX. Logo depois, passou a cultivar o interesse pela gravura e assim começou a frequentar ateliês. A partir de 2004 tornou-se orientadora das aulas de litografia do Espaço Cultural Solar do Barão.

A mostra conta com desenhos, litografias, gravuras em metal e gravuras digitais, esta última técnica é inovadora nos trabalhos da artista. Maria Lucia de Julio trabalha com o modelo árvore de maneira que esta passe a fazer parte do universo do ser humano. Ela traduz o que é original e o apresenta como se fosse uma radiografia daquilo que observamos na natureza. “Em meu trabalho não é só a estrutura da árvore que interessa, observo ela com uma visão mais profunda”, salienta.

Izabella Zanchi, artista plástica, diz no texto que traduz a exposição: “Nessas gravuras primorosas, Maria Lucia de Julio nos desvela, através de sua esmerada técnica, um plano visível de estranha e aguda beleza, e ainda um mundo latente da alma, uma grave e insuspeitada arte”.

Para o curador da exposição, José Roberto da Silva, o aspecto mais importante da arte de Maria Lucia é a relação sutil entre o desenho e o original. “Faz com que você olhe para a gravura como se olhasse para uma árvore. É uma beleza gráfica que parece sutil mas, na verdade, está relacionada com a memória e lembranças que as pessoas têm em relação à árvore, usando a artista como mediadora”.

Esta é a segunda vez que Maria Lucia de Julio expõe no Palacete dos Leões. A primeira vez foi uma coletiva em 2007. A artista já expôs no Museu Alfredo Andersen em 2008, Casa Andrade Muricy em 2006, 3a Bienal de Gravura de Santo André também em 2006, entre outras. A exposição fica no casarão até o dia três de junho.

Dispositivo de Imagem


Abertura

29 de abril às 19hs

Exposição

De 30/04 a 03/06

Segunda a sexta-feira, 12h30 às 18h30

Espaço Cultural BRDE – Palacete dos Leões

Av. João Gualberto, 530/570 (com estacionamento)

Alto da Glória – Curitiba -PR

Informações: (41) 3219-8056

Poliana Dal Bosco
Estagiária / ASCOM
Fone: 41 3219.8035
Fax: 41 3219.8153
www.brde.com.br

não me ame nunca – de jorge barbosa filho / curitiba


não me ame nunca

dizem, sou muito perigoso,

pois se te beijar a nuca

acabo te roendo o osso

da tua doce espinha

falam, é a minha arma,

pra me valer nas esquinas

e chegar ladino em casa.

não me ame nunca

dizem, sou muito pirado,

meus carinhos nas luas

não valem nenhum trocado.

acho que minha fama

não é assim tão pequena,

gritam, que só valho a pena

quando te levo pra cama.

não me ame nunca

dizem, sou muito bandido,

roubo sua alma e chuvas

e depois acabo fugindo.

perca a esperança então

rezam, sou homem e menino,

brinco pelo seu coração

que bate sempre arrependido.

não me ame nunca

dizem, que você me ama

enquanto tudo te espanta

não me ame nunca.

O CRONISTA ORAL por hamilton alves / ilha de santa catarina

Cronistas somos todos, tanto os que se apresentam por escrito em livros e jornais quanto os orais, que são mais numerosos, e compõem uma fauna mais estranha mas não menos interessante.

Lembro-me de um desses tipos que, de manhã cedo, no refeitório de um hotel, ainda com os pulmões congestionados, descrevia as peripécias que tinha vivido em certa cidade, em que guardara a mala no aeroporto, esquecendo-se dela na hora do embarque. Promoveu uma busca depois infrutífera. Empenhou para isso todos os funcionários da empresa aérea e o resultado foi que não foi recuperada. Aí emendou um assunto noutro, de um amigo que, em Buenos Aires, colocara a mala no bagageiro do taxi. Saltara antes da mulher, que ficaria à espera dele no hotel. O taxista, sem querer, levara a mala. Procurara se lembrar do número da placa do taxi, mas lá se fora a mala. O que trouxe não poucos incômodos ao casal, que, por isso mesmo, com a perda de valores, teve que encurtar a temporada na cidade. Fora mais longe. Contara de uma viagem à Europa, em que num metrô fora surripiado por um punguista, que o deixou numa séria encruzilhada de permanecer os dias a que se propusera ou vir de volta.

As pessoas, em volta o ouviam, ora interessadas, ora enfastiadas. Não era um momento propício para revelar tais desventuras, mas mandava brasa em seus temas, pouco se importando quem gostasse ou não. Além de que tinha o dado de que sua voz era rouquenha e tornava às vezes difícil acompanhar o desenrolar das estórias.

Havia ainda o detalhe de que, enquanto desenrolava a narrativa, soltava perdigotos à esquerda e à direita para desagrado geral.

A certa hora, afastou-se do grupo, onde certamente as pessoas já demonstravam certo desprazer de ouvi-lo. Percebi que se arrastava para os meus lados e certamente procuraria continuar a desenrolar suas desditosas viagens por este mundo.

Vi-o, súbito, deitar os olhos em mim.

– Que farei? – angustiado me perguntei. – É

agora que vai iniciar outra fase de seu repertório de desditas e me escolherá para vítima.

O cara era seco, comprido, calvo, era o tipo dessas pessoas que aparecem em todos os locais imbuidos desse propósito de falar sobre qualquer coisa, seja o que for, em ocasiões as mais inoportunas.

Fingi que não o tinha visto. Fugi para um canto do refeitório.

Mas com a mesma voz rouquenha desfilava numa mesa próxima outro episódio igualmente aborrecido. A voz se fazia ouvir destacadamente no recinto, pairando sobre todas as demais.

Deduzi, assim, que cronistas somos todos, orais ou verbais, temos que levar o tema de nossa imaginação ao primeiro que se dispor a ouvir as nossas bem urdidas mentiras.

PERGAMINHO de vera lúcia kalaari / portugal

FICA O DITO de otto nul / palma sola.sc

Fica o dito

Sem dizer nada

E o aflito

No conflito

Visceral

Na capital

Sob o estrépito

decrépito

À rua nua

E crua

Sob o avesso

Do direito

Ainda que travesso

Levado a peito

AMOR FINA – de marilda confortin / curitiba

(composição musical de Gerson Bientinez)

O que mata,

não é a dor de perder quem se ama.

Enquanto maltrata

ainda há chama

há seiva

há gana

há chance

de reascender.

O que mata,

não é a lembrança,

é a indiferença.

Não é o que se pensa,

é o que se dispensa.

Não, a vida não acaba

quando o mundo desaba

“eu que aprenda a levantar”

A vida fenece

quando anoitece e endiece

na rotina,

nada começa,

nada termina,

o amor desvanece,

neblina.

A vida termina,

quando o coração adormece,

amortece,

amorfina.

UTOPIA & BARBÁRIE, de SILVIO TENDLER

Utopia e Barbárie, de Silvio Tendler é um documentário que trafega por alguns dos mais polêmicos episódios dos últimos séculos. Temas como o Holocausto, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, a Revolução de Outubro e o ano de 1968 no mundo, inclusive no Brasil, são retratados com imagens e depoimentos surpreendentes, de quem sonhou e lutou pela liberdade.

UM clique no centro do vídeo:

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O SENTIDO DAS COISAS por zuleika dos reis / são paulo



O sentido das coisas não se perde de repente. O sentido das coisas vai se perdendo aos poucos, de maneira insidiosa. As coisas vão perdendo sabor, até que a língua não sinta mais nada. As coisas vão perdendo cor, até só restarem cinzas do que um dia foi cor. As coisas vão perdendo forma, até a invisibilidade feita de nadas intocáveis. As coisas, sem cheiro. As coisas, sem saber nenhum. De tudo restam os pensamentos, o olfato, o tato, a visão, o paladar, sem objetos reais.  Restam os nadas, sem saber, cheiro, forma, cor, sabor.

O sentido das coisas não se perde nunca. O sentido das coisas permanece, quando nós perdemos o sentido das coisas. Permanece, algures, alhures, nenhures. Permanece, nos outros; em cada outro, outro sentido de cada coisa, sentido alheio  desde sempre e para sempre ao nosso paladar, à nossa visão, ao nosso tato, ao nosso olfato, ao nosso pensamento. Por isso, não há palavra nem silêncio nosso que permitam ao outro alcançar o sentido da perda do sentido das coisas  em nós. Por isso não há silêncio nem palavra que permitam ao outro fazer-nos recuperar o sentido das coisas, através do sentido das coisas que permanece nele, no outro. Também nada cala nem fala ao outro, da nossa fala ou mudez, quando esse outro nos tenta comunicar a perda do sentido das coisas em si próprio, a sua própria perda do sentido das coisas.

Quando o outro nos diz que perdeu o sentido das coisas, nós tentamos compreender tal perda de sentido a partir do único referencial que temos: o modo como o sentido das coisas se articula em nós, se não o perdemos;  como se articulou, se já não o temos. Este modo de articulação, se ainda em nós, não nos permite, a não ser através de analogias precaríssimas, apreender a real natureza da perda do sentido das coisas no outro. Se já não temos o nosso próprio sentido das coisas, não nos sendo possível reconstituí-lo, nem pelos órgãos dos sentidos, nem pelo pensamento, a tarefa de sintonizar, minimamente que seja, com a natureza da perda do sentido das coisas no outro, tal tarefa se torna absolutamente impossível.

Quando o sentido das coisas se perdeu em nós e o sentido das coisas se perdeu no outro, sendo esse outro um próximo demasiadamente próximo, nos dói infinitamente mais a perda do sentido das coisas  neste outro demasiado próximo, do que a perda do sentido das coisas em nós próprios. E, mais ainda do que a dor de saber da perda do sentido das coisas  neste próximo-amado dói-nos não nos ser possível  devolver, a este amado, o seu próprio-perdido sentido das coisas, muito menos doar-lhe  o nosso também pretérito sentido das coisas, que já não nos pertence mais.

O sentido das coisas é preciso? Por que e para quê as coisas precisam de sentido? Por nós? Para nós? O segredo, que não existe, talvez seja apenas ficarmos com as coisas, entre as coisas, apenas sendo e existindo com elas. Sem sentido nenhum.

O SER POÉTICO EM RODRIGO DE HARO: “ANDANÇAS DE ANTÔNIO” por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

Nas cinqüenta e sete estampas/poemas, ou como diz o autor, sinopses memoráveis para o cinematógrafo, que compõe o livro Andanças de Antônio, Rodrigo de Haro, mostra a força plástico-imagética de sua poesia. Ser volátil (o livro, a criação) e como é próprio do poeta, nenhuma fronteira pode impedir as invasões da percepção livre. O livro é bem editado pela catarinense Editora Insular, no formato tradicional e em bom papel, com retrato pictórico do artista na pena de Martinho de Haro. Belo frontispício a um livro de poesia, em que a figura do poeta, regente da orquestra de signos concentra o foco das atenções. No caso de Rodrigo de Haro, tal fato se justifica, ainda mais, pois o mesmo é também pintor e desenhista, sendo autor do dibujo de capa do livro. Estranha figura de cabeça branco-negra, em movimento, e de onde por um cordão tênue, sobressai ao lado direito do corpo, uma máscara negra, com vazados de olhos e boca em branco. Uma peça afrobrazuka, de movimento e flexão corpórea, remetendo à carnavalização do eu.

Devo admitir que ainda existe vida inteligente na Academia. Rodrigo de Haro, neste livro, é mais que eficiente com a linguagem, atingindo o patamar do transcendente, do simbólico, do ambíguo, em algumas passagens, o que é próprio do poeta, cheio, desse psiquismo mundano que só faz bem pra arte. Perdoem minha sinceridade de poeta e crítico à margem, senhor de si e de seu destino. Estive no lançamento do livro (Livraria Livros & Livros, Florianópolis – centro-) e entro agora no seu mundo de imagens e construções verbais. Deparo-me com coisas como: Mas o granito lento se esboroa./Insistes. Com prego torto/riscas meu nome na parede. Alguns poemas trazem nomes que remetem ao mundo da pintura, como Sala com paisagem de Castagneto ou Estampa de cão sentado numa cadeira. Gostei particularmente, dos fechos aos poemas, como se pode ver de Encontro na sala da Ordem da Capela do Menino Deus quando o poeta conclui que o passado é feroz, destrói as pontes./Frio peixe dos sonos./Viola sem cordas. Em Li muitos livros esta noite gostei da sentença final ao poema: Nada permanece. Nada/quer morrer. Em tom e pose aristocrática, mais adiante o poeta, expõe em Os silêncios de Antônio que invenção e alumbramento/nossa monarquia voltará. Não resta dúvida, que há uma postura deliberada do poeta, em ver as coisas (objetário do livro) de um prisma bem particular seu, aliás, o que faz a diferença e dá personalidade poética ao autor. Há uma sanha boba na poesia brasileira de hoje, de o cara querer ser Drummond, Bandeira, João Cabral… como se a expressão pessoal, nada valesse, e melhor seria arriscar o que “parece” teria dado certo. Cúmulo da mediocridade, a fala que não é sua, e que trazes para ti como se fosses. A essa classe apta na conformação, e repetição/diluição do outro, consagro os versos a seguir do próprio Rodrigo de Haro, Em 1974, talvez: O bufão, os poetas são/meras cabeças expostas/nas sombras. Melhor seria te calares. Um dos mais belos poemas do livro é Escrito em Veneza, no qual o poeta surpreende em brasilidade com versos como estes: Gomezius/Pereira na sua “Pérola Antonina”:/ Ocelus de Lucania e/ainda Rodrigues de Castro. Todos /admitem esta cristalina/verdade:/“A terra é imóvel.” O poeta de Andanças de Antônio sabe dosar as imagens, sem excessos ou redundâncias, vícios comuns de linguagem, quando a matéria as vezes é mais de crônica até, do que de poesia, como se infere de alguns poemas. Tudo/é inacabado e aspira/ao vazio da rua em que nas-/cestes:sibilino, arbóreo,/transparente e lúcido/sopro na colina. A figura do poeta, realmente transita muitas fronteiras da percepção, espaços tomados com destreza, extraindo sínteses históricas, visões de sombras e fantasmas, memória e flagelação. Há também um quê de humor na fala quando perpassa o poeta algumas paisagens. A ilha (Desterro) comparece, nunca se vergando às voláteis pressões do tempo, vida coletiva e individual, que nasce progride e morre. Quebra-se por vezes a Ode, circula/aos pedaços pelas ruas. Em poucas linhas/a herética receita se ilumina. Estes versos de Escrita, configuram bem o mosaico que deve ser a construção do poeta no tempo, no espaço (intra-extra-memoriam). O objeto da poesia é liso como bagre, volátil, diáfano, ambíguo, hábil à estranhas prestidigitações, e nas mãos do poeta, expande estrelas no céu da lira entusiasmada. Numa imagem surrealista diz o poeta no final de Uma caçada: Obstinado fitas/o disco vagaroso entre os chifres da matrona/que urina prodigiosa, rodeada de cães. Outro final glorioso, para a poesia e o ofício de consagração das coisas, aparece claro em Mobinogion, Pan-Fei: A terra, repleta de/mortos, está cansada, e também pede/para morrer. É nisso que Rodrigo de Haro, mesmo trazendo o estigma (negativo para alguns, como é o meu caso e positivo para outros) da academia é bom, converter um nada em poesia, uma lembrança qualquer no ar, transformada em poema consistente, como no caso do mezzo-francês Marcel: No escrínio empoado da máscara/exibes encore os olhos levantinos et/une orchidée adorna tua lapela ofegante. No último poema do livro Mãe conduz seu filho para olhar um fantasma a aparente simplicidade do texto é enganatória, pois os núcleos de significação avançam verso sobre verso, culminando o poema com esta constatação: Imobiliza-se/o leite das fontes, leite/que pinga dos meus lábios/sobre tábuas mal-pregadas. No final, uma imagem belíssima expande o dom visionário do poeta: Afastas a tranca, des-/dobras a geometria do jardim/como toalha sobre a mesa/onde pássaros não tombam./Com gelo e lama amassas/o rígido alimento dos fantasmas. Dá pra se dizer que o Andanças de Antônio traz bem à mostra o talento de Rodrigo de Haro, numa poética de força (no conteúdo) e graça (no estético), na forma livre e adjetivada, que é espelho da alma vivant e criativa do autor.

ENEACÓRDIO DA TRISTEZA de tonicato miranda / curitiba


para Jane e Tom Jobim

A tristeza não tem brilho, nem é limpa

ela é como a sujeira das cortinas ao léu

das casas da periferia nos poemas do Gerson Maciel

A tristeza não tem limites ou latitudes

ela está em todos os poros do seu corpo

seja você um manequim ou redondo como um porco

A tristeza o lança à cela e às grades

ela é prisão sem cor nas paredes, não tem janela

onde reina o silêncio e a luz é sempre de vela

A tristeza embora solitária é nascida de outro

é sempre uma mulher deixando-nos em abandono

e nosso coração vadio, cão perdido sem dono

A tristeza é amiga e inimiga

ela é o toque do perigo, o seu próprio irmão

um revólver pode lhe matar por sua outra mão

A tristeza é quando…

nem mais meu eu consciente está por aqui

há muito partiu numa onda para o Havaí

É quando emprestamos um poema da Clarice

juntamos uma rosa roubada com muito apreço

enviando pelo correio ao nosso próprio endereço

É quando viajamos em pensamento a um Cabo Frio

velas e mastros menos navegadores, quase ausentes

quando ficamos a um triz de não estarmos mais dementes

A tristeza é quando o triste

está maior dentro do que fora de mim

quando, mais do que sentimentos, ela pode ser o fim

ESCULTÓRICO de joão batista do lago / são luis


Mais um final de tarde!

Nele, teu corpo fixa em minhas pupilas

– para além da infinitude! – halo de luzes douradas.

Os suores que escorrem do teu corpo

Borboleteando a sagração do cais

Revelam poros dum azul-anil de saudades.

Tua escultura sagrada hipnotiza meus olhos,

Agora reféns do círculo de luz

Que contorna teu corpo luminoso,

Revelando toda tua imagem sagrada

No espelho mágico da minha imaginação,

Onde, – eu e tu –, navegamos em direção ao amor.

Se, porventura, morresse agora

Levaria comigo a bendita sorte de te ser amante,

Mas, antes, no Cais da Sagração,

Beberia do santo graal,

Junto aos peixes,

O ouro das tuas chagas crucificadas.

A CARTA DA DESOBEDIÊNCIA por max quint / ouro preto.mg

Como se não bastasse a crise em que a Igreja católica vive, no momento, com freqüentes denúncias de padres incorrendo em graves práticas de pedofilia (atos de libido) contra principalmente menores, o que os inimigos da Igreja, declarados ou não, se esmeram em explorar da maneira mais sórdida imaginável através de ridículas charges, piadas grotescas, etc., vem o teólogo suíço Hans Kung, através de Carta Aberta aos fiéis do mundo todo e, especialmente, aos bispos, convocar todos a uma reação em prol da reforma da Igreja, conclamando principalmente para pontos controversos e tradicionalmente contra os fundamentos essenciais do sacerdócio, um dos quais é o celibato.

Diz o teólogo Kung, a certa altura de sua carta:

“O uso do vernáculo na liturgia, as mudanças dos regulamentos que governam casamentos mistos, a afirmação de tolerância, democracia e direitos humanos, a abertura para uma atitude ecumênica, e muitas outras reformas do Vaticano II, só foram alcançados pela pressão tenaz debaixo para cima”.

Kung, desafiadoramente, como se pode notar, conclama os bispos para uma reação à linha adotada por Bento XVI em seu episcopado de 5 anos. É a manifesta tendência a deflagrar-se, no seio da igreja, a desobediência. O que é, sem dúvida, o pior que pode ocorrer, neste momento, por tantos motivos, à Igreja católica, que precisa, sim, de um consenso entre seus bispos e o Papa para bem definir-se uma posição que não se afaste de seus princípios e fundamentos tradicionais, a fim de encontrar-se o melhor e mais adequado rumo para seus destinos.

Kung descreve um quadro de defecção sintomática na Igreja, com redução de seu corpo de sacerdotes, esvaziamento das paróquias, dos seminários, para bem mostrar a crise atual, que se alastra, segundo ele, de forma preocupante, para propor as soluções que entende serem as que recolocarão as coisas em seus devidos lugares.

Entre essas mudanças estaria a abertura para o celibato, sugerindo que nem por não serem celibatários os padres perderiam a consideração de seus bispos ou de outras autoridades eclesiásticas, continuando tudo a correr normalmente no seio da Igreja. O que significaria, no fundo, a tomada de uma medida como o fim do celibato na Igreja católica? O atual Papa Bento XVI não quer ouvir nem falar disso. Por que? Simples: isso seria o primeiro passo para a Igreja se desintegrar e aprofundar mais ainda a crise de fé, se há uma crise assim neste momento. Foi Cristo que fundou o sacerdócio, ao dizer “quem quiser vir depois de Mim abandone seus bens, sua família e siga-Me”. Não se podem misturar de forma alguma sacerdócio e deveres familiares. Não se pode servir, como diz a doutrina cristã, a dois senhores.

Quanto aos gestos de tolerância da Igreja, não podem ser tão grandes que pactuem com a desestruturação moral do mundo atual, com os casamentos mistos, de que falou Kung, num tom que parece indicar que até a isso a Igreja deve se dobrar passivamente.

Volta a pregar, no fim de sua Carta Aberta, o teólogo Kung: “Incontáveis pessoas perderam sua confiança na Igreja Católica. Somente admitindo aberta e honestamente esses problemas e realizando resolutamente as reformas necessárias a confiança poderá ser recuperada”.

Kung deflagra perigosamente um dissenso no seio da Igreja. Oxalá, não esteja colaborando para aprofundar ainda mais a crise atual. Tudo o que a Igreja católica precisa neste momento é de coesão em torno de pontos essenciais ou de um ideário que não a afaste de seus fundamentos básicos, e que não a desfigure, como parece pretender, claramente, o teólogo Hans Kung.

21 DE ABRIL por sérgio da costa ramos / florianópolis

O barbudo é alto, tem cabelos longos e aparenta uns 46 anos, por aí. O senhor calvo tem cabelos apenas nas têmporas, os lábios são finos e abrigam um sorriso simpático. Aparenta uns 75 anos. Encontraram-se num abraço de longa efusão, pois nem se conheciam pessoalmente embora um soubesse do outro há séculos. Suas idades são meras referências, pois era as que tinham quando encarnados hoje, tanto o jovem quanto o mais velho, flutuam nas estratosferas celestiais.


Teriam conversa para mais de duas horas, que é o tempo mínimo de prosa quando dois mineiros se encontram. Mineiros e da mesma cidade de São João del Rey. Primeiro, relembraram a terrinha, que habitaram em épocas distantes uma da outra. Na procissão mais tradicional da cidade, a de Nossa Senhora do Carmo, o senhor calvo tinha lugar cativo sob o pálio – como autoridade que era. O barbudo costumava assistir ao cortejo enquanto garoto, antes de se mudar para Vila Rica. Tinha dois irmãos padres, mas ele próprio não pudera concluir os estudos, ficara órfão aos 11 anos.

Não foi um encontro qualquer, sobretudo porque consumado em alguma cápsula intertemporal. Dois filhos de São João del Rey, dois mineiros, dois heróis. Um, o “patrono cívico”da nação brasileira”, o outro, o “pai da Nova República”.

O mais moço (no momento da desencarnação) cumprimentou o mais velho com certa reverência:

– Dr. Tancredo! – quanta satisfação! Os meus respeitos! Lá de cima acompanhei o seu trabalho pela redemocratização…

– Tiradentes! Venha de lá o abraço do meu herói predileto! Conheço você desde o meu caderno do curso primário. Era você na capa e o Hino Nacional na contracapa! Como vai essa barba?

– Por aqui continua moda, o senhor sabe. O Mestre gosta de todos à sua imagem e semelhança…E o seu divertículo, como vai?

– Já não dói, depois que aqueles médicos torturadores de Brasília e São Paulo pararam de me costurar. E o seu pescoço?

– Às vezes ainda sinto um pouco. Naquele tempo a corda era das boas…

Trocadas as amabilidades, os dois vultos da história passaram em revista os últimos acontecimentos do Brasil e do mundo, os homens entregues à traição, às falcatruas, à desonestidade:

– Parece que a coisa tá feia lá embaixo, principalmente na política e na igreja…

– Na igreja? – espantou-se o barbudo.

– Pra você ver… – lamentou o careca.

– E no Brasil?

– Pra variar, a economia vai bem e o povo vai mal – como disse um dia um daqueles generais.

– Uma pena _ lastimou-se o Alferes. Uma insatisfação assim pode se transformar numa grande revolta.

– E o governo, insensível como todos, mantém a carga fiscal em alta. É “derrama” todo ano! Mais o Imposto de Renda, que tem o leão por símbolo.

– Nada a ver com o Avaí, espero _ atalhou o militar, que acompanhava os acontecimentos esportivos.

– Não! _ fez o doutor Tancredo. Falo de um leão de garras estatais, não de um lúdico bichano…

Ambos concordaram que alguma coisa precisava ser feita pela democracia brasileira, tão carecida de boas vitaminas, a coitadinha. Na qualidade de “santos” e de mártires, nem precisaram pedir audiência ao Senhor. Passaram por todos os santos e foram direto à sala de Deus, com quem privavam de grande intimidade:

– O Brasil, outra vez? – e o Senhor fez um ríctus de puro tédio. Do que se trata, agora?

– Muitos fichas sujas são candidatos…

– E o que devo fazer?

– Chama esses candidatos aqui pra cima…

– Impossível! Teria que matar metade do Brasil!

Passaram para a preocupação seguinte.

– E qual é? _ perguntou o Todo Poderoso, impaciente.

– Não é com o Brasil… – infelizmente.

– E com quem é?

– Com o Papa… JULIA BACK

A Curitiba de Dalton Trevisan pelas lentes de Nego Miranda – curitiba

Lançamento do livro – A Eterna Solidão do Vampiro – abre a

exposição do fotógrafo na Casa Andrade Muricy

O fotógrafo Nego Miranda apresenta, na quinta-feira, 29 de abril, um novo livro. O lançamento de A Eterna Solidão do Vampiro e a inauguração da exposição com as imagens fotográficas que compõem a obra acontecem na Casa Andrade Muricy (Alameda Dr. Muricy, 915, Centro), às 18h30.

O livro é resultado de uma pesquisa literário-iconográfica até então inédita. Registra as marcas de um possível inventário pessoal de Dalton Trevisan, também conhecido como “vampiro de Curitiba”. Sem imagens óbvias, como em cartões-postais, essa junção revela que as múltiplas visões da cidade são sua própria realidade, e deve ser vista como uma nova escrita das sucessivas transformações passadas em Curitiba.

As fotos de A Eterna Solidão do Vampiro permanecem na Casa Andrade Muricy até o dia 13 de junho. A exposição abre de terça a sexta-feira, das 10 às 19 horas, e aos sábados, domingos e feriados, das 10 às 16. A entrada é franca. Mais informações pelo telefone (41) 3321-4798.

Sobre Nego Miranda

Carlos Alberto Xavier de Miranda nasceu em 1945, em Curitiba. Começou a expor seu trabalho nos 70, participando, desde então, de eventos no Brasil, na Argentina, em Cuba, na França e em Portugal. Já foi premiado no 2.º Salón Internacional de Fotografía, no 2.º Concurso Ilford/Micro de Fotografia P&B, no Concurso Turismo no Paraná, na Bienal de Fotografia Ecológica do Rio Grande do Sul e no Museu do Mate do Paraná. Nego Miranda também publicou sua obra em revistas como a Et Cetera (da Travessa dos Editores) e a Revista Gráfica; também já colaborou com o livro A História do Mate, de Tereza Urban; com a coletânea de autores paranaensesEngenhos e Barbaquás; e com a publicação britânica de fotógrafos brasileiros Contemporary Brazilian Photography. Entre as coleções e acervos que mantém trabalhos seus estão os da Fundação Cultural de Curitiba, do Museu da Fotografia de Paris, da Coleção Joaquim Paiva, do Fundo Cubano de La Imagem Fotográfica e do Instituto Cultural Itaú. Ao lado de Maria Cristina Wolff de Carvalho, é autor dos livros Paraná de MadeiraIgrejas de Madeira do Paraná, lançados em 2005.

Ao lado de Teresa Urban, produziu Morretes – Meu Pé de Serra, em 2007. Participou do livro Caminhos do Rio a Juiz de Fora, lançado em Março de 2010.

NEGO MIRANDA tem uma pagina neste site. clique AQUI.

Serviço:
Exposição A Eterna Solidão do Vampiro, de Nego Miranda.
Casa Andrade Muricy (Alameda Dr. Muricy, 915, Centro), (41) 3321-4798.
Até 13 de junho. De terça a sexta, das 10 às 19 horas, e sábados, domingos e feriados, das 10 às 16 horas. Entrada franca.

PASSEIO SOCRÁTICO – por frei betto – são paulo

Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China.Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos  seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares,preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir:´´Qual dos dois modelo produz felicidade?´

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ´´Não foi à aula?´´ Ela respondeu:

´´Não, tenho aula à tarde´´.

Comemorei:´´Que bom, então de manhã você pode brincar,dormir até mais tarde´´.

´´Não´´, retrucou ela, ´´tenho tanta coisa de manhã… ´´Que tanta coisa?´´, perguntei. ´´Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina´´, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando:

´´Que pena, a Daniela não disse: ´´Tenho aula de meditação!´´

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica;

hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos:

´´Como estava o defunto?´´. ´´Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!´´ Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual.

Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra!

Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais…

A palavra hoje é ´´entretenimento?; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres:

´´Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!´´

O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno.

Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center.

É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista.

Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o
mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas:

´´Estou apenas fazendo um passeio socrático. ´´

Diante de seus olhares espantados, explico:

´´Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas,

quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:

“Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz !!!!!!

DALTON, SANCHES, NÊUMANE, ETC. – por hamilton alves – ilha de santa catarina

Num desses últimos sábados, o novo e interessante encarte do Estadão (não tão interessante assim, poderia sê-lo mais) – “Sabático” – publicou uma curta resenha, assinada pelo sr. José Nêumane, com acentuado ranço de louvaminhas ao sr. Dalton Trevisan, o conhecido Vampiro de Curitiba, que tem  como contista inegavelmente seus méritos (um conto dele “Onde estão os natais de antanho” considero um dos melhores que já li da literatura nacional, além de um bom punhado de outros). Longe de desmerecer o Vampiro, mas há de se reconhecer, de outro lado, que publicou uns livrinhos bem calhordas, como, só para citar um, o que traz o título de “Rita, Ritinha e Ritona”, que é eivado de cenas de bas-fond da pior espécie, além de cultivar uma linguagem que é de uma obscenidade sem limites, com o que, parece, se comprazer.

Tudo bem. Feitos os acertos de contas necessários, o crítico Nêumane, ao comentar o livro recém-lançado de Sanches Neto, “Chá das cinco com o Vampiro”, coloca Dalton num pedestal de altura descomunal, de forma quase inacessível para pobres mortais: “Devassar a intimidade da alma de um gênio misterioso como ele (refere-se a Dalton) é o paraíso dos aspirantes à fortuna crítica. E conviver com ele, a excelsa glória”.

E mais adiante o seguinte: “A exclusão compulsória da revelação dos mistérios do gênio esquivo já tinha sido amargada até por um parceiro de juventude: Wilson Martins. Do céu dos eleitos ao limbo dos rejeitados a caminhada é dolorosa e o trajeto, árduo”.

Nêumane revela-se, assim, alguém que foi letalmente contaminado pelas qualidades “excelsas”, no dizer dele, do Vampiro, a ponto de guindá-lo à lua na importância literária que possa ter, consideradas outras obras de parco valor literário, como “O grande deflorador”, que é um repositório de palavreado e tema inqualificáveis.

Nêumane registra (não li nem vou ler o livro de Sanches) que este destacou, em sua obra, o retrato do Vampiro: “Esconder a intimidade mais ou menos medíocre fez com que sua biografia crescesse”. O que fez Nêumane, que cultua a obra do Vampiro, reptar: “Que história é essa? Retire-se o gênio literário de Dalton Trevisan, chamado de Geraldo Trentini do romance de Sanches, e o que restará de suas rabugices? Nada.”

Claro que estou longe de pretender meter minha colher nessa salada.

Mas tudo bem que Nêumane cultue o Vampiro a ponto de considerá-lo gênio (todo mundo está virando gênio neste país, até o Lula, por incrível que pareça, tanto que está cotado fortemente para o prêmio Nobel da Paz (ó, céus!), mas que exagere nesse culto, aí, realmente, não dá para trabalhar, como costuma dizer um velho ledor e admirador do Vampiro.

O VAMPIRO e a MELANCIA – por alceu sperança . cascavel.pr

O pessoal de Presidente Prudente (SP) se apavorou com a prisão de um vampiro. Vandeir Máximo da Silva, 27, “papa” da seita Legião de Salvadores do Mundo, bebia sangue, sim senhor.

Os fruticultores chineses introduziram no mercado, com muito sucesso, a melancia quadrada – coisa provisória, pois logo estarão introduzindo o desentortador de banana.

Mas o que o vampiro imprudente de Prudente tem a ver com a melancia quadrada?

As pessoas se surpreendem e se fixam no que é novo, desconhecido, improvável ou lhes estimula paladar ou libido.

Saber que existem mesmo vampiros bebedores de sangue humano, certamente mexeu com duas ou três dessas motivações. E, se não com a libido, ao menos com o paladar a melancia quadrada mexeu.

No entanto, ninguém se mostra especialmente chocado quando o vampiro-governo nos chupa o sangue raivosa e acintosamente, através da carga tributária mais vampiresca do universo.

Alguns até gostavam da CPMF, porque com ela o governo nos chupava o sangue de canudinho, aos pequenos goles. O morcego-vampiro faz o mesmo: ele vai soprando enquanto aspira o plasma. É um truque fenomenal, plenamente acatado pela área tributária.

De outro lado, hoje, valores como amor, solidariedade, afeto, operários de todos os países uni-vos são considerados obsoletos, a exemplo da melancia irregular.

A tecnologia e a ideologia deram um jeito de nos moldar a todos, do mesmo jeito que os fruticultores fazem com suas melancias quadradas.

Moldam-nos para acreditar que um irmão deve atirar em outro. Que um patrão pode explorar um empregado como escravo. Que o governo “manda”, não gerencia. Que a tropa de elite pode matar. Que o traficante gera empregos. Que a informalidade pirata é melhor que as pessoas exigindo emprego em passeata.

Somos vampirizados o tempo todo e nos chocamos com a prisão do vampiro de Prudente. Somos moldados pela ideologia para pensar como eles querem. Estão nos transformando em melancias quadradas, pois nem nos assustamos mais quando alguém resolve dizer que estão cultivando porcaria transgênica muito perto do Parque Nacional do Iguaçu.

É o vampiro sugando a melancia.

CIRO GOMES arrasa com ZE SERRA – sao paulo

Serra ao ser descoberto “que detesta pobre porque e burro” processa Ciro Gomes.

VEJA  AQUI

Chomsky: o que está em jogo na questão do Irã – David Goessmann/Fabian Scheidler – Freitag

Noam Chomski

Em entrevista à publicação alemã Freitag, Noam Chomsky fala da pressão dos EUA e de Israel sobre o Irã e seu significado geopolítico. “O Irã é percebido como uma ameaça porque não obedeceu às ordens dos Estados Unidos. Militarmente essa ameaça é irrelevante. Esse país não se comportou agressivamente fora de suas fronteiras durante séculos. Israel invadiu o Líbano, com o beneplácito e a ajuda dos EUA, até cinco vezes em trinta anos. O Irã não fez nada parecido”, afirma.


Barak Obama obteve em 2009 o Prêmio Nobel da Paz enquanto enviava mais tropas ao Afeganistão. O que ocorreu com a “mudança” prometida?

Chomsky: Sou dos poucos que não está desiludido com Obama porque não depositei expectativas nele. Eu escrevi sobre as posições de Obama e suas perspectivas de êxito antes do início de sua campanha eleitoral. Vi sua página na internet e para mim estava claro que se tratava de um democrata moderado ao estilo de Bill Clinton. Há, claro, muita retórica sobre a esperança e a mudança. Mas isso é como uma folha em branco, onde se pode escrever qualquer coisa. Aqueles que se desesperaram com os últimos golpes da era Bush buscaram esperanças. Mas não existe nenhuma base para expectativa alguma uma vez que se analise corretamente a substância do discurso de Obama.

Seu governo tratou o Irã como uma ameaça em função de seu programa de enriquecimento de urânio, enquanto países que possuem armas nucleares como Índia, Paquistão e Israel não sofrem a mesma pressão. Como avalia essa maneira de proceder?

Chomsky: O Irã é percebido como uma ameaça porque não obedeceu às ordens dos Estados Unidos. Militarmente essa ameaça é irrelevante. Esse país não se comportou agressivamente fora de suas fronteiras durante séculos. O único ato agressivo se deu nos anos 70 sob o governo do Xá, quando, com apoio dos EUA, invadiu duas ilhas árabes. Naturalmente ninguém quer que o Irã ou qualquer outro país disponha de armas nucleares. Sabe-se que esse Estado é governado hoje por um regime abominável. Mas apliquem-se os mesmos rótulos aplicados ao Irã a sócios dos EUA como Arábia Saudita ou Egito e só se poderá o Irã em matéria de direitos humanos. Israel invadiu o Líbano, com o beneplácito e a ajuda dos EUA, até cinco vezes em trinta anos. O Irã não fez nada parecido.

Apesar disso, o país é considerado como uma ameaça…
Chomsky: Porque o Irã seguiu um caminho independente e não se subordina a nenhuma ordem das autoridades internacionais. Comportou-se de modo similar ao que fez o Chile nos anos setenta. Quando este país passou a ser governador pelo socialista Salvador Allende foi desestabilizado pelos EUA para produzir “estabilidade”. Não se tratava de nenhuma contradição. Era preciso derrubar o governo de Allende – a força “desestabilizadora” – para manter a “estabilidade” e poder restaurar a autoridade dos EUA. O mesmo fenômeno ocorre agora na região do Golfo. Teerã se opõe à autoridade dos EUA.

Como avalia o objetivo da comunidade internacional ao impor graves sanções a Teerã?
Chomsky: A comunidade internacional: curiosa expressão. A maioria dos países do mundo pertence ao bloco não alinhado e apóiam energicamente o direito do Irã de enriquecer urânio para fins pacíficos. Tem repetido com freqüência e abertamente que não se consideram parte da denominada “comunidade internacional”. Obviamente pertencem a ela só aqueles países que seguem as ordens dos EUA. São os EUA e Israel que ameaçam o Irã. E essa ameaça deve ser tomada seriamente.

Por que razões?
Chomsky: Israel dispõe neste momento de centenas de armas atômicas e sistemas de lançamento. Destes últimos, os mais perigosos provem da Alemanha. Este país fornece submarinos nucleares Dolphin, que são praticamente invisíveis. Podem ser equipados com mísseis nucleares e Israel está preparado para deslocar esses submarinos para o Golfo. Graças à ditadura egípcia, os submarinos israelenses podem passar pelo Canal de Suez.

Não sei se isso foi noticiado na Alemanha, mas há aproximadamente duas semanas a Marinha dos EUA informou que construiu uma base para armas nucleares na ilha Diego Garcia, no oceano Índico. Ali seriam estacionados os submarinos equipados com mísseis nucleares, inclusive o chamado “destruidor de bunkers”. Trata-se de projéteis que podem atravessar muros de cimento de vários metros de espessura. Foram pensados exclusivamente para uma intervenção no Irã. O destacado historiador militar israelense Martin Levi van Creveld, um homem claramente conservador, escreveu em 2003, imediatamente após a invasão do Iraque, que “depois desta invasão os iranianos ficaram loucos por ainda não terem desenvolvido nenhuma arma atômica”. Em termos práticos: há alguma outra maneira de impedir uma invasão? Por que os EUA ainda não ocuparam a Coréia do Norte? Porque ali há um instrumento de dissuasão. Repito: ninguém quer que o Irã tenha armas nucleares, mas a probabilidade de que o Irã empregue armas nucleares é mínima. Isso pode ser comprovado nas análises dos serviços secretos estadunidenses. Se Teerã quisesse equipar-se com uma só ogiva nuclear, provavelmente o país seria arrasado. Uma fatalidade deste tipo não é do gosto dos clérigos islâmicos no governo: até agora eles não mostraram nenhum impulso suicida.

O que pode fazer a União Européia para dissipar a tensão desta situação tão explosiva?
Chomsky: Poderia reduzir o perigo de guerra. A União Européia poderia exercer pressão sobre Índia, Paquistão e Israel, os mais proeminentes não assinantes do Tratado de Não Proliferação Nuclear, para que finalmente o assinem. Em outubro de 2009, quando se protestou contra o programa atômico iraniano, a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) aprovou uma resolução, que Israel desafiou, para que este país assinasse o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares e permitisse o acesso de inspetores internacionais aos seus sistemas nucleares. A Europa e os EUA trataram de bloquear essa resolução. Obama fez Israel saber imediatamente que não devia prestar nenhuma atenção a esta resolução.

É interessante o que acontece na Europa desde que a Guerra Fria acabou. Quem acreditou na propaganda das décadas anteriores devia esperar que a OTAN se dissolvesse em 1990. Afinal, a organização foi criada para proteger a Europa das “hordas russas”. Agora já não existem “hordas russas”, mas a organização se expande e viola todas as promessas que fez a Gorbachev, que foi suficientemente ingênuo para acreditar no que disseram o presidente Bush e o chanceler Kohl, a saber: que a OTAN não se deslocaria um centímetro na direção do leste europeu. Na avaliação dos analistas internacionais, Gorbachev acreditou em tudo o que eles disseram. Não foi muito sábio. Hoje a OTAN expandiu a grandes territórios do Leste e segue sua estratégia de controlar o sistema mundial de energia, os oleodutos, gasodutos e rotas de comércio. Hoje é uma mostra do poder de intervenção dos EUA no mundo. Por que a Europa aceita isso? Por que não se coloca de pé e olha de frente para os EUA?

Ainda que os EUA pretendam seguir sendo uma superpotência militar, a sua economia praticamente desmoronou em 2008. Faltaram bilhões de dólares para salvar Wall Street. Sem o dinheiro da China, os EUA talvez tivessem entrada em bancarrota.
Chomsky: Fala-se muito do dinheiro chinês e especula-se muito a partir deste fato sobre um deslocamento do poder no mundo. A China poderia superar os EUA? Considero essa pergunta uma expressão de extremismo ideológico. Os Estados não são os únicos atores no cenário mundial. Até certo ponto são importantes, mas não de modo absoluto. Os atores, que dominam seus respectivos Estados, são sobretudo econômicos: os bancos e as corporações. Se examinamos quem controla o mundo e determina a política, vamos nos abster de afirmar um deslocamento do poder mundial e da força de trabalho mundial. A China é o exemplo extremo. Ali se dão interações entre empresas transnacionais, instituições financeiras e o Estado na medida em que isso serve a seus interesses. Esse é o único deslocamento de poder, mas não proporciona nenhuma manchete.

CM.
Tradução para a Carta Maior: Katarina Peixoto

Fonte original: http://www.freitag.de/politik/1013-iran-obama-weltordnung-sanktionen

PERSONAS por jorge lescano / são paulo

Dentre as minhas anotações esporádicas com que o Fado quis me punir, frustrando qualquer Destino de Escritor, no dizer d’O Outro, tirando as aliterações, que são minhas e ali estão para suprir suas rimas, há uma que por algum tempo satisfez minha modesta vaidade, expressão esta menos incongruente do que o senso comum tende a acreditar, o senhor não acha?

Encontrava eu na supracitada anotação, algo que o estilo sensacionalista  da Pálida História Universal do Fogo vulgarizou, se a senhora está me entendendo.

Aquele breve artigo hoje protege da poeira o fundo de alguma gaveta. Não guardo nenhuma ilusão sobre ele. Se fosse publicado, não faltaria quem o associasse, seja pela forma, seja pelo tema, com suas obras menores, como apreciam dizer os críticos quando escrevem sobre eles dA Pessoa em Questão ou d’O Outro, quero dizer.

De fato, eis que encontro no volume que Vladímir Vladimiróvitch, Volódia para os íntimos, dedica às suas memórias, o assunto que eu tão ardilosamente elaborara. Assim pensava em minha inocência de leitor incompleto de sua Obra Completa Mas obraS completaS não sugere que haveria ObraS IncompletaS, fessora?

Leitura vigilante nas estepes da noite. Noites insones pormenorizadas indiscretamente por ambos escribas em suas respectivas autobiografias Apócrifas!, seria o caso de dizer, e digo-o

Minha proverbial modéstia, Campeão Mundial da Modéstia, chamou-me um beatnik de nome esquecido, não admitiria que usasse publicamente uma data de significado meramente pessoal, as tais datas íntimas da crônica jornalística Por favor, madame, não confunda estas com os dias da mulher, por assim dizer.

Enfim, para ser claro, declaro que nunca tirei proveito do fato do meu aniversário coincidir, sem que eu tivesse nenhuma participação nisso, com os de Edgar Allan Poe, de Paul Cezanne, de Jota Watt, de Auguste Comte e de muitos mais, ignotos, preteridos, injustiçados pela mídia, para me tornar interessante entre os fãs que a bem da verdade nunca tive. Deixo que outros, tá me entendendo?, façam disso uma efeméride literária, que assim tratam tudo que lhes diz respeito nesta aldeia. Tal data, casual sempre, se bem que causal no caso, não encontrou albergue em minha Obra Incompleta (sic, senhor Raimundo Silva, sem gracinhas gramaticais – anotação (posterior?) acrescida por mão anônima(?) – N. do C.), inédita, como todo mundo virá a saber algum dia se o meu MB cumprir sua tarefa à risca. Não, damas e cavalheiros (é bom afastar vocês, vez por outra, da porta das casas de banho públicas – Ass.: Mão Anônima – N. do C.), eu, mais tímido que Volódia, mais modesto que Grishka, preferi tratar da  morte do Pai dos Filósofos, no dizer  do platônico Ficino. E deixem-me acrescentar, visto estarmos num grupo de adultos que, mais previsor que Xiko K., mais decidido que o macedônico Fernández, tomarei em minhas próprias mãos o Destino, por assim dizer, de tais rascunhos inconseqüentes! Aproveito a oportunidade para agradecer ao nosso analista do sistema o novo impulso que deu à minha vida, obrigado, Herr Doktor Young Froid!

A partir de hoje ninguém mais, eu disse NIN-GUÉM, virá a lucrar, em fama ou dólares marcados, com a obra d’Ele Eu Mesmo!

Sim, voltemos ao redil, meus fiéis e caros compatriotas, disse enquanto devolvia o Colt ao coldre, antes de oferecer uma rodada de tequila a todos os figurantes.

Pois então, eu nunca incluiria, como poderia vir a ser comprovado facilmente, se as minhas anotações viessem à luz de néon das vitrines, contra todas as disposições em contrário devidamente explicitadas no meu testamento, este sim a ser publicado em edição bilíngüe por um testamenteiro prestativo, nunca incluí, melhor dizendo, o fato desportivo de sempre ter escolhido jogar de goleiro no meu time, ao invés de correr como os outros rapazes, na pitoresca expressão de nosso diretor de cena, russo naturalisticamente. É bem verdade que entre meus papéis poderia ser encontrado um texto confidencial que trata do assunto sob um ponto de vista insólito À maneira de Anton Pavlóvitch, meu caro!, zomba já sabem quem. Nele, antecipo-me a declarar, evitando equívocos  difíceis de desfazer e qualquer aproximação temática com o livro de Piotr Manke, explicações a posterior soam sempre pouco convincentes,  não me detenho a analisar Os Pathos do Guarda-redes ao Por de Sol, antes, trato da deficiência qualitativa do último defensor da cidadela por excesso de senso de justiça. Não fossem meus artigos serem incinerados na pira comum do esquecimento coletivo, e convidaria o leitor virtual deste a conferir a verdade naquele.

Tenho por fórmula, vício ou princípio estrutural, ou tudo isso ao mesmo tempo, usar três itens, e/ou motivos, no mínimo, em cada um dos meus escritos. Mania inofensiva, inda mais sendo eu meu único leitor, os outros, já sabemos, eles os açambarcaram.

Desejo encerrar  minha participação neste magno evento com a coda de uma pecinha despretensiosa para violoncelo solo, o arco empunhado por mão inspirada, embora inexperiente, poderia escrever um deles, parodiando meu estilo lírico dos sábados à tarde e das festas juvenis, às que compareço no caráter de paraninfo.

Datas são motivo recorrente de Grishka, Vladímir Vladimiróvitch faz uso do tema musical de modo nem sempre importuno. Numa bagatela, curiosamente muito popular entre os tradutores, calha acontecer a dupla citação do título de uma sonata para violino e piano, citação bifronte, para falar com propriedade, e tanto russa quanto germânica. Grisha Gueorguévitich leva sua paixão pelo calendário ao ponto de datar uma dessas imprudentes notas americanas (sic) que têm valor muito diferente e o mesmo tamanho e cor, apresso-me a acrescentar. Tal imprudência, em sua hora, foi sábio conselho de economia de Henry Ford, o dos carros, ao então presidente dos USA, cujo nome lhe esquecemos.

Houve um compatriota nas noites de exílio, que para preencher a solidão, antes de ser capaz de comunicação com os nativos, segundo prezam dizer os anglo-americanos nos seus filmes de “aventuras”, como alguém recém chegado a Zembla, ou que sem notícia prévia aterrizasse em Tlön, dedicava-se a compor equações verbais. Por motivos óbvios, como a seguir se verá, guardo apenas uma, e esta incompleta. No caso, uma simples seqüência. Outras havia que por sua complexidade e número de componentes, seria impossível conservar de cor (vinham nomes antes de): O Henry-Henry James-James Joyce-Joyce Cary; seguiam-se outros nomes de escritores de língua inglesa e a seqüência tendia a se sintetizar: O Henry-James-Joyce-Cary, antes de passar para o segundo estágio, que permitia a convivência de diversas entidades na mesma instância: HenryFordMadoxFord, eis um nó que a memória se nega a desatar, and so on.

Porque intuo algo semelhante em relação a eles, disse abanando as mãos como se eu estivesse na sua frente e não atrás, como determina o regulamento Fora as costumeiras revelações indiscretas que sem pejo de ferir alguém despejam periodicamente na imprensa, visando uma publicidade de gosto duvidoso, se não descaradamente deplorável.

Por Alá!, exclama o oleiro, pois a argila resiste à pressão dos dedos, insiste em permanecer argila, nega-se à curva que em vão as palmas das mãos tentam lhe impor. Porque o tempo urge, ele é obrigado a apresentar os dados como o acaso os lança. Que o leitor se avenha, que se agarre como se agarrar possa, brada a pancarta fincada na arena deserta, à espera dos contendores, cada qual com sua razão e preferência.Lavamos as mãos, poderia ser o anúncio de sabonete que aqui promovemos a divisa, porque Volódia, na talvez única referência de Grishka, que até lhe esquece o nome, embora insista em que queria e queria se lembrar, e só vem a a ser identificado pelo jornalista que o entrevistava ao mencionar Manolita, título do seu romance mais popular, já que não seu melhor livro, atrevemo-nos a dizer, Volódia, dizíamos então, teria declarado, segundo a citação de Grisha, que pretendendo organizar uma antologia de páginas mestras da ruski literaturï, não consegue incluir nenhuma de Dosty Prosa russa, dissera Gueorgui Gueorguévitch na entrevista, mas eu gosto de tomar-lhe os modos, é minha pequena e secreta vingança. GG às vezes cita em galego e imediatamente transcreve a expressão do original anglo-saxão, já V.V. manipula o english, o Deutsch, o français, o ruski e num romance quatro palavras no idioma de GG, e depois (entre parênteses) a versão na língua em que o texto esteja sendo publicado, se bem que outras vezes o processo seja inverso. Volódia, numa das menções que faz a Dosty, poucas se comparadas com o número de vezes que a patriarcal figura do conde Liev Nikolaiévitch comparece à sua obra, lembra que Fiódor Mikhailóvitch é o autor de O Duplo. Por mera coincidência, percebe?, é o mesmo conto que O Outro cita em Cambridge, ao norte de Boston, faz questão de frisar, hum! Para completar a equação, sou tentado a acrescentar O Farsante e O Idiota e por que não Os Falsários?, este de autoria de MB, o que equivale a duas equações de segundo grau ou equação dupla: plural e autor novo na lista, este, por sua vez, poderá representar uma nova e tripla equação: judeu-“tcheco”-de língua alemã, condição esta  que o autoriza como possível matriz de outras equações. Para fim de conversa, sua conseqüência lógica aporta um título que poderá servir de corolário, caso renunciemos ao Mundo Antigo ou limitemos nosso campo de jogo ao calendário gregoriano ou a qualquer outra instância, todas arbitrárias, que exclua o plural e/ou os poetas latinos: A Metamorfose (Die Verwandlung). (Ufa!, esta foi de lascar. – Nova interferência, ou contribuição, como quiserdes, da Mão Anônima  – N. do C.).

Meu Leitor, se tal entidade existisse ou viesse a existir, não deveria estranhar o tom deste depoimento. Tenho vivido a ambigüidade desde William Wilson até Veinticinco de Agosto, 1983, com parada obrigatória no estranho caso do Doktor Kafka und Herr Max Brod. Sou O Escamoteado, O Inominável Homem das Neves, segundo estamos cansados de ouvir!

Nesta altura parece que o texto deveria se juntar ao rol das obras que tenta desmascarar, salvando as distâncias, naturalmente Tal seria o caso, em verdade vos digo, se a palavra viesse à luz, meu Pai não permita. Ela explicaria de uma vez por todas aquelas e muitas outras falácias literárias, bastaria conferir a variedade de nomes  com que O Outro comparece  na escritura para saber que estão a falar de mim.

Não há necessidade de se estender sobre o número de vezes, que Volódia usa e abusa da figura que nos ocupa (Eu, hein?). Que eu saiba, nunca alude a GG. Ignorância? Vingança? Álibi? Hum! O Mundo Existe Porque Eu o Contemplo, o dístico, grafado em grave alfabeto antigo, resume a atitude deles a meu respeito. O célebre professor Jotabson respondeu à consulta sobre Vladímir Vladimiróvitch lecionar literatura: não se convidam elefantes para dar aulas de zoologia. A apropriação do pronome EU pelo narrador que estamos a tratar, parece-me suspeita, excessivamente enfática, declaradamente autoritária.O caso não poderia ser mais simples do que prevê nossa terapia, Herr Doktor? No que tange à minha vida particular sabemos a quê nos ater, não é verdade?, e o leitor não tem nada com isso (Leitor em caixa baixa, senhor Raimundo, pois é do comum que se está a falar, apesar da caixa alta do leitor desta frase, assim tratado por força das circunstâncias. – A Mão Anônima não se rende! – N. do C.).

Nada cobiço, sequer pretendo figurar na Obra de Alguém, apenas reclamo o meu quinhão do que quer que seja neste emaranhado de temas que não tem Todorov que desate. Justo é reconhecer, contudo, que Volódia foi mais generoso, deixando pelo menos um texto no qual ocupo o lugar de honra, honra entre aspas faz favor brigado, segundo é fácil deduzir de um trecho de conversação registrado em Volódia’s Dúzia, na nova ortografia de Pindorama, conversação na qual me acusa de ter levado a passear sábios cidadãos de Sião  por Belgrado-Berlim-Bruxelas, tome nota da letra inicial destas cidades, que está a pedir  capítulo aparte Por que não Adis Abeba-Azul-Aracaju, hein? E para confirmar o assunto em pauta, o qual seja descarregar nas costas de outrem o peso das conseqüências de nossos próprios erros, não é assim?, me atribui desígnios mesquinhos, e quando por fim se estabelece em Boston, outra vez a escarlate letra do substituto, e agora não é Edgar Allanitch Poesky, intrinsecamente ligado a quem vos fala pelo signo de Capricórnio? E naquela metrópole do norte, custava-lhe escrever Antofagasta?, acredita ter se libertado da presença homônima, eis que continua a receber mensagens da outra existência, da qual finalmente se livra concedendo ao chantagista o pequeno valor pecuniário por ele exigido, valor este, diga-se de passagem, que nenhum extrato da minha periclitante conta corrente chegou a registrar.

Eu disse, retomando o fulcro narrativo, que Volódia foi mais generoso, e não só pela modesta quantia paga mor de se ver livre da presença incômoda, ato tanto mais fácil de realizar visto ser apenas virtual, ficcional, como se dizia antigamente. Porém, peca do mesmo defeito de todos os anteriores. Atribui aO Outro o nome do narrador que, a bem da verdade, ficamos sem conhecer, visto V.V. se recusar a revelá-lo na peça literária sobre a qual estamos debruçadas com afinco, procurando concluir nossa tese de mestrado Ensaio ao Crepúsculo, Forjei este título poético hoje, ao alvorecer, enquanto Ele repousava olimpicamente nos braços de Morfeu e eu e minhas colegas de turma, umas graças!, retoiçávamos pelo campus universitário, longe do labirinto acadêmico e seus meandros burocráticos Russifique tudo, minha querida (moya dushen’ka)!

A sinonímia, mezhdu prochim (por falar nisso), tem se mostrado o recurso mais acessível para tratar literariamente a anomalia em questão, e que segundo o próprio Volódia, no mesmo volume de suas obras completas, o ilustre Doktor Herman Brink denomina singelamente Mania Referencial. Porque é desta rica variante de interpretação do universo que estamos a tratar, de maneira um tanto parabólica, se se quer, conforme sua natureza sutil, não do grosseiro Conheço você de algum lugar!, com que os motoqueiros e outros sátiros motorizados ou de veículos de tração a sangue, skatistas (sic! sic! sic!) e patineurs, mormente, costumam abordar ninfetas de melenas fulvas, ainda que artificiais, que sem segundas intenções transitam vespertinamente pelas veredas destes tristes trópicos Tem se insinuado no presente estudo que a sinonímia é o modo mais fácil de se atingir O Outro, será também a mais eficaz?Hum! por assim dizer, diz meu Orientador, desorientado. Por exemplo, exemplifica, Jota Cortazarévitch, dizia eu, continua dizendo, tentou uma variação que eu não estou certo de que seja a melhor,  mas enfim, é uma variante, e é disso que estamos a tratar, não é? Assim ele, com neopravdannay a zhestokost’ (crueldade injustificada), opta por uma alternativa em que O Original, por assim dizer, topa com O Outro em gestação, digamos assim, para variar. Destarte, O Outro, O Duplo, a bem dizer, é encontrado pelo original (atenção, Sr. Raimundo, na grafia de eu, o outro, original. Aspas e caixa baixa terão alternância com caixa alta e omissão de aspas, segundo o narrador ou o usurpador tomem a palavra. Está-se de facto a se cercar a fortaleza e conto com seus inestimáveis préstimos para levar a bom termo esta cruzada. De mais a mais, dispenso suas graçolas lisboetas, como já disse algures e nem é bom repetir, mor de pouparmos o leitor do censurável espetáculo de nossas desavenças. Aliás, para por em pratos limpos as nossas relações, desejo explicitar que se naquela lamentável história  durante o cerco de Lisboa, eu disse ao editor Não é morte de homem, foi porque tenho apreço por si e sou da opinião de que todos temos o direito ao pão de cada dia enquanto não se for convocado a comparecer à bela Estocolmo (Gamla Stan) às vésperas de seu crudelíssimo inverno (vide postais anexas). Facto este fatal, o da convocação, para os escribas e do qual, quer me parecer, futuramente nem os modestos revisores estarão livres, ora que até um autor de língua lusitana (deixemos assim, provisoriamente) foi contemplado com o galardão máximo da solene Academia Sueca (toda adjetivação é insuficiente ao se falar da Veneza nórdica e de suas instituições). Ficam a advertência e os meus cumprimentos, prezado senhor, e deixe-me rematar o parágrafo para ir dormir, que já são quase seis horas da manhã. Isto tem de bom o gênero anotação: não precisamos pedir desculpas ao leitor pela digressão (nem pela cacofonia! anota a famosa Mão – N. do C.) E foi assim, minhas crianças, que o Cruel Original, havendo detectado O Duplo na adolescência, pálida rosa amarela, decide-se pelo final do jogo dovol’no skucho (é uma pena!), e interrompe o processo evolutivo daquele que viria a ser Ele, se este não tomasse as devidas providências. Não me pergunteis de que jeito  efetua seu intento, satisfazei-vos com meu relatório e observai que o epíteto com o qual Ele é identificado nesta sentença, revela-se suficientemente explícito para merecer maiores comentários, pois não? Moral da história: mais uma vez o Doktor Young Froid e eu fomos ludibriados! Eto unizitel’no (é humilhante)! Aqui se interrompe o manuscrito ou, se houver continuação, não acerto a encontrá-la na barafunda de minha mesa. Passarei então ao datiloscrito, no dizer de Volódia, depois de um sono reparador e quero crer bem merecido.

Eis-me aqui, novamente, acorrentado e a remar ao ritmo do tambor, e neste mar, não é menor o perigo pelas vagas serem pátrias Po razschyotu do moemu (pelas minhas contas) tendes apenas mais dez minutos de consulta, interrompe-me cerimoniosamente o Doktor Young Froid, pretendeis tocar o barco a toque de caixa alta e baixa, ou preferis que peneiremos vossa infância? Quais as cores que vos inebriavam aos três meses de idade? Na escrita usáveis com dupla freqüência o signe de interrogação, como é aconselhável? Inquire o bondoso terapeuta, transcrevendo literalmente a construção e terminologia de sua língua mãe, aqui mencionada para não fugirmos demais do repertório dos seus afazeres Falemos de efemérides, peço-lhe para arredondar a deixa Seja, se tal é vosso íntimo desejo Ladno (oquei)!

Não quero abusar da paciência daquele leitor virtual para quem inconfessadamente todos escrevemos, protelando a revelação da efeméride à qual se alude desde o início deste relatório. Trata-se apenas do ano de nascimento dos recrutas Volódia Gueorguévitch e Grisha Vladimiróvitch, general, vide Nabor; Posliédnie Novosti, Paris, 1935 e ou Viesná v fialte, NY, Tchekhov, 1955. Segundo revelaram em seus respectivos ensaios de autobiografia, como se não soubéssemos de quem estão a mangar, hein, Herr Doktor? Se não puder russificar privatize, que está na moda, encoraja-me Vladímir Vladimiróvitch; Speak, memory. An Autobiography revisited, USA, 1947; também Georgie Gueorguévitch Burgov, An Autobiographical Essay, NY, E. P. Dutton, 1970  Zhivo (depressa)! Ambos autores decidiram que tal evento, o respectivo nascimento quero dizer Zhivo! Acontecido no penúltimo ano do século dezenove e por algum motivo que me escapa, é digno de menção. Georgie ou Grisha, que vem a ser o mesmo Zhivo! é mais enfático a respeito. De facto, reitera, em mais de uma entrevista, que 1899 não é o último ano do século, visto a série, toda série numérica decimal, encerrar-se na dezena. Meu não-leitor, por escassez de textos, gostaria de dizer Zhivo! poderá deduzir facilmente que tanto Grishka quanto Volódia centenariam seus nascimentos no ano que não tarda a ter início. Agosto e Abril respectivamente, repare na letra inicial dos meses. Por que, se fizeram tantos esforços  para encontrarem suas vozes literárias, se de distintas formas ludibriaram  minha vigilância, por que, é o caso de se perguntar Zhivo! negligenciaram a publicação deste dado e de outros que me reservo para melhor ocasião? Permita-me discordar do termo negligência, tanto Gê quanto Vô, utilizam o dado além da  constância biográfica. Volódia faz participar de sua festinha de aniversário Shakespeare e Shirley Temple, quanto a Grisha, basta retornar à página 4 deste relatório para encontrar uma referência ligeiramente disfarçada. Oh, sim, ai de mim! a senhora acaba de enfiar a unha na ferida com a precisão de um punhal maneirista na mão primorosa do madrigalista Carlo Gesualdo, príncipe de Venosa. É justamente esse trecho da  Memory de Volódia Vladimiróvitch que se insinua na primeira página  deste relatório E se a senhora quiser mais um dado revelador do complô, ei-lo, dois pontos, Volódia convoca Shakespeare em suas Memory, Grishka aloja na memory do mesmo bardo britânico a data do seu natalício, ligeiramente disfarçada, como monsieur A, está entendendo? Dupin pode facilmente deduzir Feche a boca e comprove  minha afirmação na Obra Completa, insisto, d’Os Outros Como vê quis supor um descuido inocente, Padre Brown, porém o tiro saiu pela retaguarda, isto porque testemunhas desqualificadas deram sua contribuição ao enredo, enredo no mau sentido, claro, e agora o leitor deles está mais perdido que cachorro em caminhão de mudança, que o meu leitor, se o tivesse, sempre saberia a quantas andamos e que estamos entrando na reta final ou cerimônia de encerramento do encontro fortuito de duas bengalas e uma máquina de escever sobre esta escrivaninha Zhivo! e que o texto conclui com um dos truques preferidos pelos velhos magos, o qual seja a duplicidade dos protagonistas e a incógnita do significado da revelação Perguntar-se-ia o meu leitor, qual a intenção ao desvelar, ou relembrar(lhe) tal efeméride Zhivo! Eis algo que estou incapacitado para responder sem admitir, a socapa, que o sentido talvez seja também uma incógnita para o redator desta Crazy’s Memory, pois em virtude das peripécias de nossas atribuladas existências, vemo-nos obrigados a ditar e transcrever, respectivamente, suprindo a visão ausente de um dos personagens, o desconhecimento quase total do galego do outro, salvo aquelas quatro palavras no capítulo de sua obra que dedica a esse idioma e que nesta pressa não atino a achar, e a precariedade pecuniária do terceiro, como já alguém revelou algures, temos dito! Bem dito, meu caro Jota Elle, e no tempo regulamentar!

Mozhno pridti teper’, bárin (posso ir agora, patrão)?

MARÍTIME de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


com o Sr. Cruz e Souza andei

nessa miséria de signos

nesses bares q. o mar vomita pra fora

e eram de estar longe em alto azul

cercados de peixes frescos

brancas almas do mar cobertas de

espumas ácidas

::os peixes:: escamas-vidas

recobertos de mares etéreos

os peixes presas fáceis de se pegar com as mãos

com um poeta de negrísse extrema atordoei

sóis açoreanos e amei lindas mulheres ébanos

negríssimas almas ao meu terno branco de linho

importado do Paraguay

alvo imaculado um legítimo linho chinês

com um poema de terra inscrito na lapela

há um linho asiático como imagino

a vestir-me assim tão bem

há um poeta uma poesia uns peixes

e mulheres lindas no meu dizer de mar

um feitiço nas pedras da cidade

& e um trabalho honesto no coração

do signo q. não dê trabalho.

Exercício pornofinia PULP nº 8 – por ennio villavelha



“Hoje em dia, o campo da ficção está coalhado de narrativas sobre sensibilidades de uma criança que chega à maioridade numa granja de frangos, ou sobre uma prostituta que despe o glamour de sua profissão”.

John Cheever

“Um pouco mais e eles serão cúmplices. Ela vai lhe explicitar desejos, dos mais secretos. Vai lhe falar dos seios, das fendas, de sexo. Ela vai lhe excitar a textura, dar vida… Sua matéria. Vai lhe encher de fantasias, de gozo, de carnes. Ela vai lhe contar o proibido, o imoral. Vai lhe falar o que as bocas lavadas calam com pudor. Ela vai se despir da vergonha. Um pouco mais e eles serão cúmplices, ali mesmo, sobre a mesa da escrivaninha. A mão da mulher alisa o papel em branco. Mas recua”.

Cassandra Rios

Ser uma puta cheia de encantos, esse é o atributo para continuar participando desta vida. Puta é uma palavra de muito respeito, difícil de condicionar e pasteurizável com facilidade por bocas com hálito de cu por seres humanos com cabeça de porco e, também, por todos aqueles de banho tomado que usam lavanda com essência de rosas brancas. Palavra que nunca se aproxima do impiedoso démodé; mesmo assim fica embaraçoso se referir à pátria descrevendo-a dentro do que equivale uma puta, ou ter que descrever a um pai a qualidade de sua filha através de. Isto é, a preocupação aqui vai de peso a peso, pois cada um conhece os demônios que carrega e as salas que frequenta. Mas todos bem sabem que não há como definhar argumentações etimológico-faggot-cristão-analítico encima de uma puta, quero dizer, encima do vocábulo puta. Puta, puta,… Que gostoso.Muitas vezes as pessoas se quer desconfiam de determinadas lobas…

Saber vender é poder se vender, e é isso que a aristocracia e a plebe procuram por sobre a nata de seus desejos, pessoas vazias, mas com a carapaça bem grossa como um hímen de égua.

Neste quadro se encaixa Mina, com este nomezinho miserável que é uma estranha abreviação de Mariana, o tipo da mulher feia bonita. Com notório conhecimento do poder da lábia-majore muxibenta e pelancuda. Só sai de casa com calças que a deixa como um pedaço de carne embalado a vácuo, para poder desmontar o magistrado, o pessoal da obra, mulheres casadas insatisfeitas e todo o resto do mundo, inclusive os cães se dão sobremaneira muito bem com o perfume natural dela mesclado ao Chanel n° 5 fake. Carrega um curioso mullet preto que parece ter saído da cabeça do MacGyver, só faltando o papel de balinha o chiclete mastigado e então confeccionada uma bomba H.

Admite só a necessidade do vento encarregado de soprar em sua direção, o resto está garantido, o resto são insignificâncias que acabam revelando que todo homem e mulher tem o seu preço, exibindo um ácido corrosivo com uma segurança de dar nojo. Uma nódoa encima de qualquer coisa que valha a ética popular.

Diametralmente oposta à esquina onde reside Mina, funciona uma padaria bem limpinha com várias qualidades de pessoas e quitutes mil. Pendurado na parede adjacente ao microondas um quadro onde se vê a foto de um homem com o semblante áspero, barba e testa compridas, no seu paletó riscado à posteriori uma inscrição ilegível e impronunciável, carimbada roxa no sépia do papel e o nome Albert datado de1896 a 1927. Imagem deslocada estranhamente naquele espaço, porém notável até para a pessoa mais LSD25 do mundo. Notável. Nunca acendeu tanto a válvula da curiosidade volátil como foi com Mina. Aqueles olhos claros não identificáveis nos tons da foto. Serão azuis? Verdes? Ardósia talvez. Que ázigo era aquele um! Que tipo miserável com o olhar tão cheio de candura e segurança. Entretanto tratou de procurar os eufemismos antes de dejetar perguntas a esmo. Isso sem ter constatado que o dono da padaria e também dono da foto já manjava o rosto dela há alguns dias e sentia certo frescor tedioso impregnado, cara de quem vira a noite e sempre pega a primeira fornada de pão; para não comer. Além dos bicos dos peitinhos, além dos bicos dos peitinhos sem sutiã naquele frio matinal, toda porn gonzo, toda sexo propositalmente. Ohhhh que deve ter uma guilhotina entre as pernas, pensava o corajoso padeiro por desejar uma ferramenta tão perigosa ainda mais sob o domínio de uma mulher.

Repentinamente Mina perguntou para o primeiro que estava atrás do balcão que se aproximou:

Quem é aquele homem da foto?

Não sei não senhora, vou perguntar pro seu Ernesto – respondeu o funcionário.

Porra, você olha pra essa foto todos os dias e não sabe quem é? – retrucou, mas naquele tom “velhos amigos e a apenas um átimo de segundo te conheço”.

Ernesto punheteiro. Nunca se saiu bem com as mulheres. Sofreu com traições de suas namoradinhas na fase púbere. As gurias se cansavam por ter ao lado não um possível homem em formação, mas sim um amigo sonso com a libido de um maracujá de gaveta. Confuso a cada frase, a cada passada de mão um empreendimento arriscado. Sempre fora delgado e meio corcunda, cheio de tiques nervosos, mas não de todo irrecuperável. Depois de adulto passou a comer mais e de maneira melhor as mulheres, mas elas sempre se queixavam que seu pau era muito longo e fino demais, ”não mete tudo não se não você me empala”, isso aquilo e aquela conversa. Talvez por isso cunhara predileção por mulheres com cara de puta.

Quando assumiu a padaria que era do pai, adquiriu uma mania para se divertir nos momentos que ficava ali sozinho, um estranho hábito de abrir a gaveta da caixa registradora para soltar traques fedegosos encima do dinheiro, depois a fechava com um chute comedido para não quebrá-la.

Olhou incontidamente aquela cena e logo se aproximou:

Bom dia!

Oi quem é aquele homem da foto?

Olha, eu perdi o rumo genealógico da minha família. Mas acho que era tio do meu avô, muito chegado, muito querido… Só mantenho essa foto ainda junto de mim porque um cara me ofereceu um dinheiro legal pela moldura, ele disse que voltava dentro de poucos dias, mas já passaram semanas e nada! Por sinal é uma moldura muito bonita. – respondeu Ernesto olhando fixamente para o rosto Mina como se dono fosse de um par de olhos de vidro. Nada de pestanejos.

Sem riscar um palito de fósforo Mina deixou evidente que tinha interesse naquele artefato vintage esquecido ali. Eurodólar, Cruzado, Libra, URV, HPV, nada distancia ou estraga seu interesse. Talvez igual a observar a massa de um bolo aviltar-se com vontade de comê-lo logo.

Seguinte, adorei o cara da foto e já que pra você é a moldura que interessa então que tal você me deixar levar foto?

MMMMMMM… Que tal a gente tomar um capuccino? Aí conversamos – respondeu.

Que tal a gente tomar um capuccino? Brincadeira! Eu quero uma cerveja, mais tarde, afinal a que horas tu sai?

A hora que você quiser!!!

Agora então! – vendo chover a exultação do peito de Ernesto.

Vou dar uma saída senhores, não deixem os pasteis esturricarem, o palmito é da Amazônia, nem falei… – gritou para o seu funcionário que ficou “enfeitiçado” com o naipe daquela singular, enxugou-a com os olhos tal qual seu patrão, porém discretamente, com certo pesar, como sempre fazem nesses lugares, não deu muita atenção para a origem do palmito, não mesmo.

Saíram da padaria sem perguntar nomes, tão resolvidos e tão assustadoramente rápidos quanto uma ejaculação precoce. Mina elaborou num instante o que fazer, onde fazer e o que fazer. Rumou obstinadamente para sua casa:

Adoro cerveja, só que to ficando uma barrigudinha.

Deixa ver… Bobagem, ta ótima – Ernesto já trincando suas náuseas.

Moro aqui pertinho, a gente pode tomar lá em casa mesmo se não for problema pra você. É?

De jeito maneira!

Parecia que já estavam cientes que foderiam como dois discípulos da putaria desregrada, vingança sexual contra si mesmos.

A penitencia acumulada pustulenta do prazer. É uma das virtudes dos excitados incontroláveis. Maravilha para o prazer imediato, maravilha para a enforcadora vagina que quer ser coagida num tribuno ao Nobre Arquiduque das Trevas, com dor e cólera.

Arreganha bem gostoso que é pra sangrar, tem que sangrar com socos – fermentou o pensamento do moço.Enquanto caminhavam, trocavam pequenos olhares envolvidos por frases suculentas. Imoralidades docinhas entre dois desconhecidos.

E configura-se então a particularíssima verdade universal. Eis aí mais ou menos o exemplo do instante em que todos traem diariamente uns aos outros, maridos e mulheres, beatas e padres, judeus ortodoxos e formigas, namorados e namoradas, poodles e menininhas. O calor sobe e só é preciso um motivo não pontual para que seja estabelecido um vinculo amigável tendencioso e se desenvolva uma relação velada, idiotizante e animal. E assim nos comportamos todos via de regra, sem exceções, neste sanitário social fodido e pastoso como um herpes-genital salobro. Há quem diga que a coceirinha é gostosa, quase como criar um bicho de pé.

Ao chegarem à casa de Mina, uma pilha de louça e nenhum copo esperando os recém sejam lá o que forem. Uma foto do Ronald Biggs 2×3 metros na parede dos fundos, garrafas, cordões-cheirosos, pezinhos de feijão plantados em latas de atum.  Sabor de casa de mulher solteira e desempedida dos compromissos jesuítas.

Seguinte, eu não sou do tipo que diz: Vamos entrando, mas, por favor, não repare a bagunça!.

Que isso, eu já percebi. Você tem um jeito bem…

…Bem o que, bem piranha é isso???

Foi o tempo de ressoar último acorde diminuto aumentado menor daquela voz, para que enchesse a boca dele com sua xoxota já sem calcinha, vestida até ali em uma saia curta de cetim magenta, e uma camiseta branca dos Miracle Workers. Deixou-o chupando, azeda ainda do suor e da porra de outrem da noite anterior. Enquanto a singeleza do capiau o fez pensar que era apenas precipitação de urina, de séquito de buceta. Há dias não via uma, então foi com sede, de maneira nenhuma anularia aquela situação quente, úmida. Estava gostoso ali. Sua língua não pararia. O bálsamo sexual chamou os órgãos para a foda. Um pé na cadeira e uma buceta projetada com vontade para frente, seguida de pródigas goladas nas cervejas quase que arrancadas da geladeira d’um lado, tomadas no gargalo mesmo.  Uma enfiada voraz, uma rolada maldosa, com tudo, quase na intenção de machucar – algumas leitoras sabem do que se trata – mas ela não deixou por menos, queria muito sentir por dentro um pau quente, não deixou de ser também para ela uma forma para aliviar a coceira causada por pequenos ferimentos.

Meteeee, meeeeeeeeeeeeeeeteeee, hummm, ouuuuuuuuuuuuuuuu, uaaraaa uou, uou. Pica, pica, pica, me pica vai, vai, come together right now over mêlée mete, te, ti, ti, ti… $%¨*&hjrg…

Depois de toda essa sistematização enfim Ernesto se voltou para o canto, enxugou as porras e o corrimento da donzela. Contemplou o post coitum, admirou.

Admirou.

. . . . .

Eeeeeee, e sobre a foto? Acho que seria uma boa se você ficasse com a moldura e tudo logo! Presente!

Caralho? Mentira?

Verdade!

Ai, muito obrigada!!!

Que isso. – falsa modéstia pairando.

Mina, realizou logo que a postura de Ernesto fora em demasia infanto-juvenil. Porra, o cara já tinha negociado a merda e me dá assim… Um malfeito! Partindo desta pequena serifa da personalidade de Ernesto, o subjugou ao valor de um quilo de merda – foi a primeira imagem que lhe veio naquele instante.

Vamos? – ponderou Mina.

Já?

Já sim, vamos lá buscar minha foto linda. Vou colocar naquela parede ali, do lado do Ronald Biggs.

Quem é esse aí?

Ninguém cara. Chega de questionário! – rebateu com uma raivazinha encantadora de puta que sabe ganhar fácil essas múmias com saco.

Vamos então. Olha que já deve ter pastel quentinho.

Delícia. Hummm. Eu quero comer uns vinte. Não, uns trinta!

Qual é o teu nome mesmo guria esfomeada?

É melhor eu dizer mesmo antes que eu morra de inanição. É Mina.

Mina? Tua mãe era criança quando te deu a luz ou era daquele tipo que gosta de ler as mãos dos outros, tem mandalas em todos cantos…

Nenhum dos dois. Meu nome é Mariana. E qual mesmo o teu nome, sujeito dos pastéis?

Ernesto. Prazer!

Pois é, o prazer se foi há alguns minutos! Mas foi um prazer sim, sem dúvida. – com esta rebatida sem sal mesmo.

Se eu notei?

É querido. – respondeu sebosa.

Em poucas semanas pastéis dados por afabilidade se transformaram em dinheiro, presentes, piranhagem. Gastos abruptos e desnecessários.

O pastel de palmito no pastel de cabelo e mais presentes, para a Vagina. Naquela altura não mais havia mulher/homem, só a buceta e o pau, nada de amor próprio em supino por todos os lados. Torrar tudo é quase gozar ininterruptamente, até dar febre!

O fosso do porém é que, tanto Mina quanto Ernesto não contavam com as contiguidades da cabeça do garoto que trabalhava na padaria (tanto para cima quanto para baixo, tanto para o bem quanto para o mal). Ali naquela função há uns dois meses antes de Mina tomar de assalto a única razão de ele ter permanecido no emprego: seu patrão Ernesto.

O garoto apaixonado por seu empregador, o que parecia particularmente estranho, pois enquanto jovem e aparentemente saudável, o veadinho poderia comer e ser comido por seus pares no mundo gay. Mas estava satisfeito, feliz mesmo por assim dizer, paixão ninguém escolhe como dizem as más línguas. Entretanto jamais deixou transparecer seu homossexualismo, mantido na mais misteriosa discrição.

Gerado ali um contrafeito. Além do que, dizem que os homossexuais-homens enchergam melhor que as mulheres, neste caso ao menos relativamente um pouco melhor que a moça em questão.

No final da manhã de um sábado qualquer Ernesto recrutou o garoto para ir até a casa de Mina entregar a ela o desjejum: pães, frios, uma cerveja escura. Ao se aproximar dela ficou surpreendido um bocado de si consigo, quase lhe sapecou um afrangalhado sopapo involuntário, daqueles que na meninice eternizam e efeminam o cidadão entre os amigos, mesmo que este já seja considerado o “ventilado” do bando.

Olha aqui sua vagabunda não pense você que sai ganhando todo mundo assim de lambuja! Conheço tua casca! Essa máscara aí cai fácil ouviu sua aproveitadora! – nesse momento endireitou-se e falou grosso, apesar da mediocridade do tema tratado.

Aí garotão, senta aqui – resvalou Mina respingando saliva.

Senta aqui é o caralho no seu cu! Puta rapariga! Sugadora!

Aaaeeh? – foi em direção a ele a todo vapor.

Olha some enquanto pode.

Vem se foder dentro de mim, vem… – novamente a moça fez troça com a irregularidade emocional do rapaz.

Vou!

E foi sim pra cima dela, inscrevendo nas costelas uma garfada que alcançou o osso perto do seio direito. Em prantos e com medo, enquanto Mina revidou, esmurrando-o acima da altura dos ombros, durante duradouros quinze minutos.

Iminente voltou para um diálogo de mão única, visivelmente abalado, com um papagaio dentro de si, falando até o que poderia vir a sentir por Ernesto.

Mina ouviu, mas não por piedade, ouviu por que lhe apeteceu ouvir, piedade é liberar uma rodada de boquete pra um grupo de adolescentes sem perspectiva de encontrar uma mulher fácil. Isso era nada além de curioso, e estranho de se ver.

… E é isso! – concluiu o garoto.

É isso. E você quer o que afinal? Olha aqui. Agora se você quer dar trepar com teu patrão diga você a ele!

Você quer é continuar usando o coitado do Ernesto. Isso não. Eu sou é doida por ele – falou o garoto

Doida?!!!? Demorou se consagrar, mas já liberou o canil com vontade eihn?

E daí, me deixa tá! Você fica aí achando que ganha todo mundo com essas camisetinhas de banda de rock e esse seu papo fiado? Aprendeu essa merda onde? Na classe-média? A mim não querida, eu não caio nesta armadilha não. Sou melhor que você.

Sou uma self-made girl babaca!

Vai tomar no cu com esse seu palavreado fodido. Você se fez foi sacaneando os outros. E eu não vou mais me trocar com você!

Ela o deixou seguir. Com a frieza da certeza de que ele não diria nada a Ernesto. Imprecou a si.

Ernesto, Ernesto!!! – Gritou o rapaz no corredor dos fundos da padaria. Sem que ninguém o visse. Mas a qualquer possível ouvinte transpareceria o cheiro do pavor, da coisa introvertida, passional.

O que foi rapaz, para de gritos aqui dentro da minha padaria porra! Ta ficando demente caralho! Logo você que nunca me deu problema, vai querer cagar agora? E que porra foi essa ai na sua cara, levou uma surra caralho?

Foi aquela mulher, aquela acomodada maldita. A sua Mina! Aquela mulher te usa como usa todos com quem ela cruza, aquilo é o Rei Midas das Sanguessugas.

Já estapeando e puxando o rapaz pela camisa

Porra, ela me espancou porque eu descobri que ela te usa, ela só faz isso, desde o começo.

Isso é problema meu.

Foram as pressas percorrendo o trecho não muito longo da padaria até a casa de Mina.

O guri nunca se dera a um desprazer tão fulminante e vergonhoso, sendo puxado pela camisa já suja de sangue, desmoralizado por um amor kitsch, dentro de seu mundo estava muita coisa arruinada, se doía por fora, mas dentro muito mais, por dentro eram ferrões de arraia conseguidos de maneira rápida e quase gratuita, uma idolatria por um babaca, concluiu penoso olhando por dentro e já atravessando cabisbaixo o portão de Mariana. Nesses momentos em que a cabeça enfraquece mas que não se mantem iludida para o mundo real, ou ao menos para o mundo que for imposto.

Ele veio me agredir! Ele foi lá te contar? – rosnou Mariana

Vem cá porra! Agora eu quero ouvir que porra de conversa é essa!!! Tu bate na minha mulher…

Ca-la-bo-ca – vociferou Ernesto, a cada sílaba um soco na nuca do guri.

Isso meu bem!

É isso nada! Que tu é puta eu sabia, quero na verdade… Só ta a gente aqui. – Correu e trancou as portas fechou as janelas e abriu uma cerveja.

Ta bom, esse cara aí é um veado! Ta doido pra cheirar seu rabo!

Tenho maior respeito pelos viados, até inclusive já comi alguns…

… Aí Mariana, já comeu um viado? – Há algum tempo Ernesto não sentia aquele calor, que só os sujeitos que transam com vacas e porcas sentem, dizem os zoofílicos que isso ocorre principalmente no furor de um final de comoção. E ele sentiu.

Não gente, por favor, não gente – garoto acossado por duas cobras, que se apreciavam dentro daquela situação.

Levantou com medo dos dois. Juntou-se ao Ronald Biggs por ali e pediu calma.

Não fica preocupado, esses machucadinhos saram logo.

Eu só to querendo de ir cara. Ela já falou qual era minha, e eu percebi também que sou eu quem estava sobrando todo o tempo – falou rasteiramente como quem pede perdão ao carrasco pelos pecados que não cometeu.

Era só excesso de zelo por seu objeto de amor que agora impetrava sua estada por mais um pouco, mesmo que de maneira não razoável.

Agora no infeliz momento onde não há pavimentação e que as piadas mais engraçadas se perdem com o ar rarefeito, resta a desesperança, pois esperança é coisa de gente manhosa, nessa altura ou é ou não é.

Enquanto os três semblantes assustados tentavam fugir dali, sem mais entender como aquele enxame havia se iniciado. Mina foi a única, com sua verve de rato atemorizado, a insurgir contra aquele desaforo esquizofrênico.

Reflexivas as seis garrafas que estavam perante seu derradeiro golpe de vista foram arremessadas numa lamborada só na cabeça de Ernesto. Com as rédeas do medo no comando. Ninguém ali imaginava onde findaria aquele momento, na fauna e flora intestinal pelo modo de como atolados em merda pura.

Cambaleante Ernesto retirou-se. Deixou Mina e o garoto confusos ainda mais. Após uma troca de soluços e olhares.

Nenhum deles ousou se mexer enquanto o revolto varava o portão.

Chegou em casa, lugar por muito não visitado. Foi ao encontro de uma flanela áspera socada dentro de uma almofada qualquer. Foi até cozinha e bebeu água direto da torneira, acendeu um filtro vermelho dando três fortes tragadas e o dispensou no chão sem o apagar.

Ernesto sugava da memória a lembrança de uma senhora que o havia elogiado dentro de sua padaria por um motivo qualquer relacionado à sexualidade. Lembrança que sempre o fazia derramar duas teimosinhas gotas de lágrimas. Orgulhava-se como a maioria das pessoas mesquinhas se orgulham de detalhes microscópicos.

O súbito fora reconhecer a paixão por Mina e pelo rapaz, não admitida a si mesmo na clausura do macho que gosta de outro, que em contrapartida adora a natureza feminina.

Olhou pra cima, abriu a boca no mesmo instante em que levou a mão com os punhos cerrados, com um calibre 22 já apertando o gatilho, e sentiu a bala sendo cuspida cano a fora até alcançar seu maxilar inferior.

Não surtiu o efeito devido. Espetou novamente a arma na boca, desta vez no fundo da garganta, balbuciando alguma coisa como: eu sei que você ta assombrado, mas vai dar tudo certo.

Mantendo-se sentado neste meio tempo.

Funcionou, mas levou alguns minutos para que a visão começasse a perder o foco até que de uma vez por todas enegrecesse.

O que era moral agora? Quem eram os amantes: Mina, o garoto, ou não também. Ainda teve a chance de pensar quão bom seria se as putas e enrustidos carregassem, mesmo que lá no cu-do-conde das vontades, o sentimento que jogasse fora o catarro cheio de condicionantes de personalidade, colocado diariamente em todas as correntes sanguíneas, para que ao menos estes ajudassem a lavar todas as almas absortas sofridas; tão bem quanto conhaque em boca de bêbado.

QUADRO DESCRITO PARA CEGOS – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr


Botticelli: O Nascimento de Vênus (1485) 1,72 x 2,78 m – Galeria Degli Uffizi, Florença.

Está no mar

quase tocando a ilha.

E é como uma música longínqua

o olhar distante de Vênus.

Sua nudez tem gosto salgado de lágrimas secas.

Seus cabelos claros e imensos

parecem ter movimento marinho, de algas nas marés.

Uma mão, como folha de parreira cobre

a maçã sensual do coração.

A outra com seu cabelo esconde o púbis,

um esconder que é mais uma carícia velada.

Seus pés sentem o prazer de tocar a borda e os drapejados

de uma concha,

sobre a qual está

com leveza de asa sobre o corpo da borboleta.

No ar, contra seu vento

Zéfiro sopra Vênus, com um hálito de maresia

não o sopro que apaga, nas o sopro que reavive.

Seu corpo flutua

e sustenta asas apenas decorativas.

Seu véu enleia, mas seus membros o dominam

como mão de pescador, a rede.

Clóris o enlaça

e trança os dedos de junco em sua cintura.

Flores brancas em torno deles,

cheias de perfumes mornos pelo sol mediterrâneo.

Ambos têm pés de pavão.

Ante às árvores,

com odor de jardins

Flora vestida de primavera.

Vinda numa dança

de gestos musicais,

espera Vênus tocar a terra

para cobrir sua nudez.

Mas o manto, parece, se recusa

esconder algo tão belo.

MUITO ALÉM DA ILUSÃO de rosa DeSouza / ilha de santa catarina



A Verdade é o amor puro.
Sentimento livre de malícia;
a força que gera o mundo.

Que o neguem, que o sujem de moral,
Jamais algo será capaz de o macular.
Ele existe, persiste; constante; causal.

Pobre de espírito quem nunca amou.
Incapaz de entender do cosmos a vibração
Alma moribunda, cega vastidão.

Esses veem lodo na flor, grito no suspiro,
Prece na certeza; temem enfrentar-se,
Repugnam a beleza; desvirtuar-se.

Mesmo magoada, sem o ver, sem esperança.
Sem entrega, sem calor, sem brilho, sem vento
A lua escura ama o sol porque o sabe por dentro.

Silencioso é o amor verdadeiro,
Nutre-se emanando partículas sutis,
Purgatório feliz…

O caminho é rico nas translações,
A razão satisfaz o vazio inspirando paz,
na harmonia de um amor superior.

Tranquilo, incondicional…
O que os outros sentem? Tanto faz…
Nem passional, nem circunstancial,
somente inalterável e imortal…

SEM TÍTULO. de joanna andrade / miami.usa

O  Pingo da chuva

soa como um tiro surdo.

Pára o tempo  nas asas do beija-flor

grita  o vento do Norte

ensimesmado

forte e grave e frio

o passado

-Voilà! diz ele

As gotas do olhar molhado

nas palavras escritas em azul celeste escorrem…..

Um silencio ao tilintar dos sinos

Um coração jogado dentro do peito

Uma era consagrada

Um tempo sustentado

en passant

MULHER, meu nome é MULHER ! de fátima de souza / rio de janeiro

No princípio eu era Eva
Nascida para a felicidade de Adão
E meu paraíso tornou-se trevas
Porque ousei libertação!

Mais tarde fui Maria
Meu pecado remiria
Dando à luz Aquele
Que traria a salvação!
Mas isso não bastaria
Para eu encontrar perdão!

Passei a ser Amélia
“A mulher de verdade”
Para a sociedade!
Não tinha a menor vaidade
Mas sonhava com igualdade!

Muito tempo depois
Decidi: “Não dá mais!
Quero minha dignidade,
Tenho meus ideais!”
Mas o preconceito atroz
Meus 129 nomes queimou
Então o mundo acordou
Diante da chama lilás!

Hoje não sou só esposa ou filha;
Sou pai, mãe, arrimo de família;
Sou ourives, taxista, piloto de avião,
Policial feminina, operária em construção!
Ao mundo peço licença
Para atuar onde quiser!
Meu sobrenome é Competência
O meu nome é Mulher!

ORAÇÃO para NOSSA SENHORA dos INSONES – de julio saraiva / são paulo


Ó nossa senhora mãe dos insones

velai por minhas noites em claro

dai-me o sagrado som dos rolling stones

que nessas horas me serve de amparo

livrai-me da farsa do psiquiatra

o diazepan me põe transtornado

minha cabeça vai até sumatra

eu por aqui permaneço acordado

de certas leituras poupai-me também

são bem piores que qualquer remédio

porque na verdade o sono até vem

mas de tão agitado não me faz bem

é sono ruim é sono de tédio

afastai-o de mim para sempre  – amém

Receita de poesia – de claudia regina telles


Capturar a imagem de alguma insignificância que voa,

um vento que passa,

um corpo que brinca de alegria,

uma agonia de dor,lamentos de amantes,

saudades, solidão.

Caso você não tenha este ingredimentes a sua disposição,

imagine-os, que é a mesma coisa.

Coloque tudo e vá adicionando e  misturando palavras.

Cuidado como exagero;

Servir quente ou fria, tanto faz

Excelente para todas as ocasiões

sempre que sentir vontade

ou que doer o ferimento ou cicatriz;

publicado no livro de conchas e de clarices/ 2007

PACO DE LUCÍA: Concierto de Aranjuez Part2

UM clique no centro do vídeo

JUSTIÇA? MAS QUE JUSTIÇA? por vera lúcia kalaari / portugal

É inconcebível quando se diz que se pretende uma justiça moderna, nas decisões muitas vezes importantes que alguns têm que tomar , e que nós tenhamos tantas vezes esta tendência em nos referirmos a castigos bárbaros os infligidos no Terceiro Mundo ,,quer porque nos julgamos bons cristãos ou porque nos cremos bons muçulmanos, quer ainda por supor sermos superiores.

Eis-nos chegados ao extremo das respostas explicativas que não influenciam em nada a nossa tranquilidade, perante as nossas mesas bem abastecidas, fonte do nosso trabalho de defensores, não para ajudar o povo a melhores compreensões, educativas ou outras, mas contribuindo, isso sim, para a sua exterminação. Devemos até, segundo alguns entendidos, espalhar o terror a fim de causar temor, o que fará dos países ditos civilizados os super-poderosos. E, muitas vezes, nas decisões irreflectidas que se tomam por esse mundo fora, ditadas em reuniões regadas  com  deliciosos vinhos tintos, fruto de belas uvas cultivadas em campos modernos, encantados com as honras que nos são atribuídas por sermos civilizados, acabamos por atingir uma certa estatura material traduzida por numerosos ‘’abichanços,’’ causadas, em si mesmas ,pela miséria em que mergulhamos esses mesmos povos. E eis que nos consideramos heróis da justiça/ carrasco e não da justiça educadora, correctora e protectora.

Mas de facto onde está o verdadeiro ladrão? O nosso fim aqui não é defender o larápio mas denunciar tantas condenações severas que podem chegar à amputação de membros, por vezes pelo roubo duma simples galinha, que servirá, quem sabe, para matar a fome a alguém. Porque saciar um estômago faminto, eliminando o criminoso,  apontar com o dedo o pobre vadio aniquilado por mil males da sociedade moderna ,é em si mesmo um problema. Condenar um ladrão profissional a pena de prisão que mais tarde o vai educar e orientar ,é   proteger uma sociedade que temos por missão guardar e não destruir. Mas será isso que se faz? Ponho as minhas dúvidas.

A própria indiferença que temos do que se passa neste mundo onde se praticam tantos excessos, faz-nos esquecer o que  acontece dentro das nossas portas. Condeno sistematicamente e energicamente todos os roubos, mas deploro amargamente que tantos saiam impunes por roubos muito maiores. A sociedade  moderna é falsa em todas as escalas…Desde o pequeno ladrão, ao burguês, senhor do nosso bairro, tão bem assente no respeito quase unânime das massas, mas que não deixa de ter acções pouco louváveis se quiséssemos investigar a fundo a sua vida. É uma verdade que o maior ladrão dos ladrões, é o homem com possibilidades monetárias. Inspira tanta confiança que nem ousamos suspeitar dele. :É o Presidente que esvazia o Cofre Público em benefício das suas gavetas…É o Ministro que faz o mesmo…É o Director que, em pouquíssimo tempo, embora o seu salário não o permita, constrói vivendas em nome da prima ou do irmão…

Ladrão é aquele Perito Contabilista que não se priva de engolir cêntimos de um modo lógico nas suas escritas…Ladrão és tu, Funcionário, que deténs o poder das Caixas do Estado e que vais aí abasteceres-te à tua maneira porque encontraste técnicas de roubo que escapam e escaparão ainda…Ladrão és tu que dás trabalhos do Estado a particulares pagos com lucros de 100 % porque obténs assim um ganho de 50%…

Ladrão és tu, Embaixador, que tendo esvaziado os cofres simulas o roubo destes últimos… Ladrão és tu que aumentas as tuas contas de despesas de representação enquanto não ofereces senão o que mais barato vem no cardápio…Ladrão és tu que vives no meio de facturas certas mas falsas… Ladrão és tu que surripias destramente os menos ágeis…Ladrão és tu que brincas aos Advogados  e que não te privas de tornar mais pesado o dossier dum inocente, em detrimento de fundos que encaixas…Ladrão és tu, Procurador, que faz desaparecer o dossier dum culpado teu amigo, mediante alguns tostões…Ladrão és tu, Presidente do Supremo Tribunal que se serve da autoridade dos seus galões para arrancar a um pobre iletrado os seus terrenos…Ladrão és tu, Director da Alfândega que não hesitas em fazer entrar mercadorias em teu nome, isentas assim de todas as taxas e que metes calmamente no bolso chorudas gorjetas…Ladrão és tu, rico comerciante, que rouba em pequenas despesas as grandes lojas, graças à tua cumplicidade…

Eis aqui uma série de exemplos de ladrões a que podemos chamar ‘’ladrões de ouro’’ porque estão muito bem instalados .Estas citações são verdadeiras. E ainda resta uma grande lista… Nos quatro continentes deste mundo civilizado. Uma vez, de quando em quando, um deles é apanhado… Não pela Lei… Mas antes por ajustes de contas entre descontentes, invejosos e outras causas: desentendimentos, traições…

Está já provado que se chegou ao extremo de, nalguns países, fomentadores de golpes de Estado se aproveitarem  de ladrões para derrubarem os regimes.

Que seria  destas sociedades civilizadas, se acontecesse o mesmo que em países do Terceiro Mundo, onde até se amputa uma orelha a um jovem de 17 anos, por ter roubado…uma borracha?

Não há dúvida: Este nosso mundo, é mesmo um mundo cão.

OTTO NUL e sua poesia IV – palma sola.sc

A PEDRA PURA

A pedra dura

A dura pedra

A flor in natura

Que madruga

Que matura

Na brancura

Na planura

De sua postura

A hora que passa

Soa prematura

O vento que sopra

Irrompe na rua

No meio da chuva

E da pedra pura



.

A VOZ DO POEMA

A voz do poema

Fez-se ouvir

Em meio à praça

Clara como a luz

Nada pretendia dizer

Era apenas uma voz

Sem pretensões

Que ecoava forte

Uma voz bela

Distinta de tudo

“Clamantis in deserto”

O povo em volta

Alheio a tudo

Não a ouvia


.

NUMA MANHÃ TRISTE

(a Jeanne Hebuterne)

Foi assim como se contou

Numa manhã cinza

Em que garoava

Estava meio friorenta

Tinha-se sabido da morte

De Modigliani dia antes

Você estava grávida

De um filho dele

Foi até à janela

Numa rua miserável

Olhou o céu triste

Tudo era triste

Depois de considerar tudo

Ou nada jogou-se da janela

E resolveu partir com ele

Com seu filho recém-nato

CRUSOÉ por hamilton alves / ilha de santa catarina

Lembro-me que, quando certa vez fiz esforço para fazer a leitura correta, em inglês, desse livro (ou melhor, desse personagem) de Daniel Defoe, “Robinson Crusoé”, Silveira de Souza, sempre simplificando as coisas, dizia-me:

– Leia Crusoé assim como se lê mesmo.

O encontro com essa obra de Defoe deu-se, para mim, de forma inusitada. Foi um acontecimento como o seria para qualquer outro que o encontrasse e o lesse em idênticas circunstâncias. Encontrei um exemplar, já velho, sem a capa, sem as primeiras páginas, num cesto de minha mãe, onde guardava petrechos de costura, carretéis de linha, tesoura, dedal, coisas desse tipo.

Empreendi a leitura de um jato, tal a forma com que a estória me enredou do começo ao fim de forma fascinante, com o naufrágio de Crusoé nas costas de uma Ilha, de como se salvou, de como marcava o calendário ou os dias que passava na Ilha fazendo um sinal de corte a canivete num tronco de árvore, de como construiu uma casa no alto para escapar ao risco de um animal feroz, de como voltava ao barco que naufragara para recolher coisas de que precisaria se utilizar na sua nova forma de vida e o fato mais empolgante, totalmente imprevisível, de seu encontro com Sexta-Feira, que desde então passou a ser seu único amigo na Ilha, de quem primeiro descobrira pegadas, constatando que não estava só ali.

Praticamente, essa obra de Defoe foi a primeira da literatura clássica (ignorava isso naquela época, entre meus doze ou treze anos), que li com um frenesi que dura até hoje. Foi, na verdade, um fato novo em minha vida meio insípida da adolescência (não tão insípida assim, pois o gibí à época era a minha leitura predominante).

Saí desse livro com outra visão de todas as coisas. Algo que me marcaria para sempre, de que jamais esqueceria.

Crusoé, Sexta-Feira, a sobrevivência na Ilha, a espera de que um dia pudesse encontrar algum barco que o descobrisse ali para levá-lo de volta à civilização, os fatos corriqueiros ocorridos na Ilha, tudo isso passou por muitos anos (até hoje) a ser um motivo de meu encantamento.

Mas o que me fascina ainda agora foi a forma como afundei nessa estória de Defoe, num quarto mal iluminado por uma lâmpada fraca, sem janela, em que levei dois ou três dias envolvido com as peripécias de Crusoé e seu amigo Sexta-Feira. Essa foi, sem dúvida, a parte da estória que até hoje me acompanha como um marco de fantasia sem igual.

CARTA MAIOR: EDITORIAL (convenção dos tucanos)

O apelo de uma candidatura que veio para ‘unir o Brasil’, embutido no discurso de José Serra, neste sábado, e embalado como ‘novidade’ nas manchetes dos jornalões, não poderia ser mais artificial. Primeiro, porque pretende tirar de Lula justamente o seu apanágio, um governo de livre transito entre vários setores da sociedade. Algo que até os adversários reconhecem e os empresários –para desgosto da esquerda— festejam. Segundo, porque esse traço de governo não está ancorado apenas na personalidade conciliatória do Presidente, mas decorre de avanços sociais e econômicos reais que, de fato, permitiram uma maior repartição da riqueza criando um sentido de pertencimento raro numa sociedade excludente. De onde os estrategistas do candidato demotucano pensam que vêm os 80% de popularidade de um governante atacado e hostilizado sem trégua pela mídia que os apóia? Terceiro, porque não poderia haver algo mais imiscível do que a idéia de ‘união’ e o prontuário arestoso de José Serra –um tucano rejeitado até por seus pares, famoso pela intolerância e a perseguição implacável a adversários e jornalistas; alguém cujo ferramental político sempre foi a ação soturna regada a dossiês e denúncias plantadas na mídia. Como, enfim, aquele que rachou o próprio partido para impor seu projeto personalista de poder, poderá convencer o Brasil que veio unir o país derrotando Lula?

(Carta Maior; 10-04)

VOLTANDO DO INTERIOR DA BRASIL de tonicato miranda / curitiba


para Jane

longe de casa, na estrada distante

entre urubus e pombos desconhecidos

voando rasante sob o sol escaldante

vou singrando a pele do sertão Brasil

entre curvas e retas, verdes e barros

a saudade pulsando o peito e a camisa

sem chuva fina, nem vento, nem brisa

a curiosidade do olhar rodando o pescoço

para ver a casa da fazenda tomando sol

nua e branca, toda exposta em pele e osso

minha voz tão muda, quilômetros depois

balbucia teu nome como quem faz uma reza

triste pensar como as pessoas viajam tão sós

vida estrangeira no próprio país, vida lesa

oh saudade sem remédio, sem receita ou bula

não bula comigo assim, tira da boca o travo

laranja azeda chupada na beira da estradinha

rumar pra casa voltando ao doce e ao amargo

é mais que preciso, é tudo que esta vidinha

deseja de nós ao ouvir a voz do coração

São José do Rio Preto

9/8/2009.

DIÁRIO DA SOLIDÃO: “Ao pescador Wagner Itanhaem” – de ewaldo schleder / ilha de santa catarina

SONETO AO MAR II

Wagner Itanhaem, pescador

.

No mar me alivio,
Com o mar me cofesso,
O costão é minha alegria,
E a puxada do peixe, eu venero…

Suas límpidas águas a navegar,
linhas ao fundo a arremessar,
escutar a melodia de suas ondas
tocar a areia a beira mar..

Navegar junto a suas lajes,
e ao fundo mergulhar,
querer descobrir seus mistérios…

e o homem a te maltratar,
jogando sua podridão e seus desejos,
e eu na praia a lamentar e chorar


.

Ao pescador Wagner Itanhaem

o pescador

(na linha o anzol)

risca o horizonte

e fisga o sol

OUTRA FACE DO MAL por zuleika dos reis / são paulo

Um dia desses, alguém que não sei – há várias pressuposições – armou-me, nas sombras, uma cilada, visando desestabilizar minha relação com outra pessoa. E o conseguiu, plenamente, talvez por saber onde estava a minha brecha na alma, porque eu reagi exatamente de acordo com o que este ser, que agiu nas sombras, esperava. Com a minha reação institui-se uma Grande Sombra entre a minha alma e a alma daquele outro ser profundamente amado.

Seria simples maldizer este ser que agiu nas sombras, dizer que ele é o mal – logo eu sou o bem, no caso, o bem sacrificado pelo mal. Foi o meu impulso primeiro, o meu impulso natural julgar assim.

No entanto, depois de passados os primeiros dias da dor mais acerba e irremediável, compreendi: Não houvesse na minha alma a tal brecha, por onde a ação daquele ser que agiu nas sombras poderia penetrar?

Por causa dessa brecha na minha alma, onde foi plantada a semente de uma dúvida espúria e terrível, acabei por acusar  um ser muito amado por algo de que ele era absolutamente inocente.

Agora, diante do estrago incomensurável, só me resta ficar à espera de um perdão que não sei se algum dia virá.

Escrevo estas coisas apenas para me refletir no espelho onde poderia projetar a imagem do rosto do bem, um rosto do bem duramente atingido pelo mal. Não posso ver-me assim, nem projetar sobre o outro a face do mal.

A vida vai muito além dos rótulos. Antes de crucificarmos ao outro, melhor seja crucificarmos a nós mesmos ou então instituirmos um Jardim do Perdão, no qual estejamos todos com a Face da Inocência original.

.

Na tarde de 23 de março de 2010.

ALGOZES de joão batista do lago / são luis



O tom democrático que deblateras

Saciando tua sede de ditadura

É como a voz dos canalhas: vituperas

Sobre a liberdade de todas as gentes

Que passam a vida como indigentes

Na solitária indução da utópica

Sensação de serem livres

Teu pusilânime discurso

Esconde os horrores de 64

Quantos corpos há [ainda]

Na clandestinidade cemiterial

Escondida nos quintais da dominação?

Dezenas!

Centenas!… Ou milhares?

Os que morreram pela dignidade

São anjos que guiam a paz e a liberdade

Já, vocês, senhores donos do mundo,

Como canalhas e vagabundos

Insistem em esconder os cadáveres:

Produtos do cálice de fel ofertado

Sob a tirania de algozes encomendados

Não findará a vida

Sem que antes seja resgatada

A glória de ver nossos mortos

Enterrados em nossos quintais

Lá, seus ossos produzirão flores e rosas

E nos dirão:

A liberdade é a virtude suprema do ser

MARILDA CONFORTIN e seus POETRIX / curitiba

FINDO PRECONCEITO

No caixão,

Pretos e brancos

Viram cinza

POBREZA DE ESPÍRITO

Quem tem dinheiro

e não tem valores,

é um miserável.

IGUARIAS

Olho no olho

Língua al dente

E o corpo todo ensopado

USUFRUTO

Entrego-te meu corpo

E te asseguro o direito

De gozar plenamente

ARMADILHA

Alheia à teia

O moço almoça

A moça

ELEIÇÕES 2010 NA WEB: Começam as práticas deploráveis – por luis sucupira

EM 6 DE ABRIL DE 2010.

Pelo que se desenha, antes mesmo de começar, a campanha eleitoral deste ano irá derrubar velhos conceitos sobre como fazer uma campanha política na Internet. De acordo com matéria do jornalista Luiz Queiroz, do site Convergência Digital (05/04) – “o deputado Brizola Neto (PDT-RJ) postou mensagem no Twitter, informando que uma empresa de informática estaria registrando domínios na Internet com objetivo de criar sites com o intuito específico de atacar a candidatura presidencial da ex-ministra Dilma Rousseff (PT).”
Pelo apurado a empresa é detentora de um domínio criado para realçar as qualidades do candidato do PSDB na Internet (www.amigosdoserra.com.br), o que supostamente a vincula com a candidatura tucana. A empresa também registrou dois outros endereços eletrônicos, deixando clara a intenção de atacar a imagem da candidata do PT à Presidência da República. O mais grave, foi ter supostamente usado CNPJs diferentes nos registros de domínios. Os CNPJs pesquisados no site da Receita Federal aparecem como “inexistentes”. A DDM também atende pelo nome “Duo Database Marketing Serviços e Sistemas Ltda” e seu endereço eletrônico é www.ddm.com.br. O curioso é que tanto os seus CNPJs, quanto os endereços comerciais deixam margem para dúvidas sobre suas existências por serem imprecisos e/ou incorretos. Estão registrados no nome da empresa os seguintes domínios na Internet: – amigosdoserra.com.br– dilmanao.com.br – gentequemente.com.br – joseserraoficial.com.br – jotaserra.com.brjozeserra.com.br – jserra.com.br.

CNPJs e telefones inválidos – por que e para quê?
Na Receita Federal, quando pesquisado o CNPJ da empresa DDM (05/04) usado junto ao Registro.br – do Comitê Gestor da Internet do Brasil – (n° 066.514.423/0001-38) ele foi apontado como inexistente. Hoje à tarde ele aparece como válido. (Aliás, o Comitê Gestor da Internet deveria ter um software que rejeitasse CNPJs falsos – é a máxima da casa de ferreiro espeto de pau). Também com CNPJs inexistentes, a DDM teria registrado os domínios: “www.dilmanao.com.br” – “www.gentequemente.com.br” e “www.amigosdoserra.com.br“; com o CNPJ n°000.660.111/0001-24, inválido até ontem (05/04), hoje à tarde aparece como CNPJ válido. O telefone para contato com a empresa também chama a atenção: (11 – 11111111). Além disso, a empresa informa dois endereços comerciais diferentes.

Mas não é só a empresa DDM que está atrás de confusão. O Instituto Social Democrata (do PSDB), também mantém um domínio na web que, servirá para atacar diretamente aos adversários ao longo da campanha (www.petralhas.com.br). O candidato José Serra conta ainda com o endereço eletrônico www.serra45.com.br, que foi registrado diretamente pelo PSDB. Além disso, o Instituto mantém registrados os seguintes domínios: – blogdojoseserra.com.br – blogdoserra.com.br – eagora.blog.br – jose-sera.com.br – jose-sera45.com.br – josesera.com.br – josesera2010.com.br – josesera45.com.br – joseserra.blog.br – joseserra2010.com.brpetralhas.com.br – serra2010.com.br – sitedojoseserra.com.br – sitedoserra.com.br.

O segredo não é mais secreto…
Outra estratégia adotada por partidos políticos na web é enviar emails com notícias falsas a respeito da vida de candidatos e seus familiares. Tais emails são imediatamente repassados sem nenhuma análise crítica. O fato é que tais sites serviriam para disseminar de forma anônima fatos e ataques em vez de discutir propostas. Este tipo de estratégia funcionou quando a Web era 1.0 e seus usuários meros consumidores de informação sem espírito crítico. Hoje tais estratégias ou abordagens só ajudam a promover o candidato contrário, pois mostra que, longe de discutir propostas, o que pode vir a pegar mesmo serão acusações sem o mínimo de provas.

O fato é que, se isso era uma estratégia para ser mantida em segredo, agora não é mais e ganha notória desconfiança dos propósitos de determinadas candidaturas quando se apresentam na web. É por causa deste tipo de gente – ‘profissionais’ – que aparecem certos senadores querendo amordaçar a Internet. Mas nós estamos de olho e na Web-Livre ninguém mexe. Não sem que a gente faça um barulho muito grande.

Que as eleições deste ano na Internet sejam uma festa democrática da liberdade de expressão e não um festim diabólico onde a libertinagem deixa de ser a exceção. Em política, principalmente, segredo só existe entre duas pessoas quando uma delas morreu. Estamos de olho. A empresa de informática DDM Desenvolvimento de Software S/S Ltda tem, de fato, muitas explicações a dar sobre algumas curiosidades levantadas pelo portal ‘Convergência Digital’.

Convergência Digital
WM – ilustração do site

A TRAVESSA DOS INCONTINENTES por josé carlos fernandes / curitiba


O mictório do Mercado das Flores custa R$ 0,50, mesmo preço de um pastel de banana nos arredores da Praça Tiradentes. Sei não, mas tem muita gente ficando com a segunda opção. O resto da história, perguntem ao muro da catedral.

A Travessa Padre Júlio de Campos, no Centro de Curitiba, rivaliza em extensão com a Luiz Xavier, conhecida como a menor avenida do mundo. É minúscula. A numeração vai de 0 a 33 e pode ser percorrida com 30 passos, os mesmos necessários para cruzar de ponta a ponta um apartamento de 100 metros quadrados.

Mas “tamanho não é documento”. Apesar da falta de atrativos – não tem shopping, cine privé, 1,99 nem nada –, a Júlio cumpre heroicamente sua função urbana: serve de atalho entre a Barão do Serro Azul e a Sal danha Marinho. Não fica um minuto sem uso. Seria um mimo parisiense, não tivesse se tornado o palmo de petit-pavé mais catinguento das araucárias.

Exato. A travessinha concentra os piores índices de bolos fecais e litros de ácido úrico da paróquia. Esse dado ainda carece de comprovação científica, mas é empiricamente verificável. Raro um passante do atalho que não tape as narinas – como se temesse ser contaminado pelo Ébola. Os que não o fazem são acometidos pela súbita ex pressão de quem tomou Olina com Leite de Magnésia. Não ra ro, passantes são acometidos por sinais de delirium tremens. Não houve óbitos. Salvam-se do desconforto apenas os portadores de deficiências olfativas crônicas e os porcatchones, que de resto se sentem em casa.

O fato é que a ruazinha se tornou a República dos Inconti nentes. Se de um lado serve para encurtar caminhos das almas apressadas, por outro se presta a aliviar a bexiga e intestinos dos corpos desesperados, cujos im perativos costumam ser implacáveis. “Não estranho mais tanto cocô. Tem até filho que mata pai…”, protesta o vovô de guarda-chuva.

De acordo com testemunhos, cuecas são arriadas à luz do dia, oferecendo a visão do inferno para os condôminos da Rua João Moreira Garcez. “E não é só mendigo não. Vem muito engravatado”, garante um observador, para quem a transformação da travessa num mictório não é uma questão de classe social, mas da condição humana. “Eu faço xixi aqui sim. Queria que eu fizesse nas calças?”, defende-se um qualquer, com fúria de titã, mas momentaneamente impedido de gestos mais bruscos.

A penumbra da Júlio e a aridez das ruínas das Ferragens Hauer, logo ali, devem atiçar os esfíncteres sensíveis. Dos males o menor, o surto tem garantido emprego para funcionários do Serviço de Limpeza Pública. Diariamente, a prefeitura faz jorrar litros de água para manter os níveis de civilidade municipal e evitar que turistas – em curso pelo marco zero da Praça Tiradentes – não comparem Curitiba a Mumbai. Seria o fim: além de fria e congestionada, fedida.

Quem mais tem acumulado perdas com a conversão da travessa em mictório é a Catedral Metropolitana, onde um tal Júlio de Campos trabalhou em 1882. Plantada ali desde 1876, viu engarrafamentos de carroças, a Guerra do Pente, o golpe de 64. Mas, guris, não viu nada que se compare aos odores de agora – são em escala caximbenses.

O que se há de fazer. Houvesse a Lei de Talião, seria Curitiba uma terra de eunucos. Fossem coladas atrás da catedral placas com os dizeres “Deus tudo vê” e “Deus castiga”, estaria a Igreja reeditando o catecismo. Para piorar, os produtos orgânicos deixados como donativos atrás do templo não podem ser negociados no Câmbio Verde. Tempos difíceis, esses.

Resta recorrer às mães, para que eduquem os seus no uso de banheiros e no respeito ao patrimônio público. Quando os pimpolhos estiverem apertados, evitem, senhoras, abrir-lhes a braguilha e indicar-lhes o poste mais próximo, como se fossem pinchers. Não é bonitinho.

Um dia, já barbado, ele vai reprisar a “operação xixi ao vento”. Há de procurar um cantinho sem descuidar das medidas de segurança: botará um olho nos pés, outro ao redor, feito um Quasímodo. Como se pudesse deter as águas de um rio. Que cara de pau.

gp.

a pequena rua a que se refere o texto de jc fernandes é esta, à direita, em que caminha uma pessoa de vermelho. é atrás da Igreja Matriz de Curitiba. (foto livre).

ilustração do site.

Morre Ivo Rodrigues, vocalista da banda Blindagem / curitiba

foto de marcelo elias.

Músico tinha 61 anos e não resistiu a complicações de um câncer. Corpo será velado no Teatro Guaíra; enterro está programado para 17 horas, no Cemitério Municipal

O vocalista da banda Blindagem, Ivo Rodrigues Jr., morreu aos 61 anos na noite desta quinta-feira (8) no Hospital de Clínicas de Curitiba, vítima de uma parada cardiorrespiratória decorrente de complicações em função de um câncer.

O velório acontecerá a partir das 9h no hall do Teatro Guaíra. O cortejo partirá às 16h30 aoCemitério Municipal, onde às 17h horas acontecerá o sepultamento. Ivo era casado e deixa dois filhos.

Segundo a assessoria de imprensa do músico, há um mês a equipe médica que o acompanhava detectou um tumor no canal da uretra do músico, mas o câncer já estava em estágio avançado. Em julho do ano passado, ele foi submetido a um transplante de fígado, em razão de uma cirrose hepática.


História

Ivo nasceu em Porto Alegre (RS), mas com três anos de idade se mudou para Curitiba com a família. O músico assumiu o vocal da banda Blindagem em 1969, uma das mais tradicionais do Paraná. Além de se manter por três décadas nos microfones da banda, o vocalista também se notabilizou por manter sólida parceria com o poeta curitibano Paulo Leminski.

O contato com a música começou cedo, com a participação de programas de auditórios em rádios e em programas de calouros na televisão. Em 1966, foi eleito o melhor cantor do Sul do Brasil, conquistando o “Troféu Barra Limpa”, em um programa apresentado por Júlio Rosemberg na TV Paranaense. Com isso, ganhou como prêmio um programa de duas horas, o “Juventude Alegria”, que passou a ser transmitido na emissora nas tardes de sábado.

Na Blindagem, participou de momentos históricos para o rock paranaense. Com um som agressivo e performático, variando do lírico ao pesado, a banda participou de festivais memoráveis, como o de Águas Claras. Entre os momentos mais importantes do grupo, a banda foi a responsável pela montagem do legendário espetáculo Rocky Horror Show, em 1982.

O primeiro disco foi gravado em 1981, pela Continental, com o título “Blindagem”. No mesmo ano, a banda lançou dois compactos. Em 1983, vieram mais dois compactos, com as músicas “Malandrinha” e “Me provoque pra ver”. Outro single foi lançado em 1985, pela Polygram, com a música “Operário Padrão”. O outro LP, “Cara x Coroa”, foi lançado de maneira independente em 1987.

Os trabalhos da banda tiveram reedições e versões em CD. O novo disco foi lançado em 1997, com o título “Dias Incertos”. Em junho de 2008, a Blindagem lançou seu DVD “Rock em Concerto – Banda Blindagem e Orquestra Sinfônica do Paraná”, gravado ao vivo na primeira apresentação do Rock em Concerto, em setembro de 2007.

felipe anibal.

gp

jb vidal, rettamozo e IVO RODRIGUES no pub Kapelle, falando, óbviamente, sobre música em 2008. foto da MARA proprietária do pub.

meu grande amigo IVO RODRIGUES entregou as moedas para o barqueiro. eu e outros amigos já estamos sentindo saudades.  como singela homenagem, pois não posso despedir-me dele em razão da distância, publico, entre tantas, a última composição feita para ele e sobre ele:

POEMA PARA LEVAR NO  BOLSO                      – jb vidal/2008

para IVO RODRIGUES ( BANDA BLINDAGEM)

não sou tempo

nem espaço

sou átomo desprendido

sou canção universal

faço vilas e cidades

estradas e corredores

canto a vida

canto a glória

canto o homem

canto a história

não canto

os canhões e as espadas

nucleares de outrora

canto almas repudiadas

canto santo em procissão

o verbo que se fez carne

mas carne não tem perdão

canto à Deus e querubins

aos céus e o próprio chão

canto pois ao todo tudo

canto o início e o fim

OUTONO de philomena gebran / curitiba

Sei que o outono

chegou

Não porque o tempo

passou

Não porque a cidade

esfriou

Não porque a chuva

chegou

Não porque o vento

soprou

Não porque a montanha

embrumou.

Sei que o outono

chegou

porque meu flamboaiam

chorou


ÔNTICO de joão batista do lago / são luis



Onde me encontro no teu mundo,
Onde o caos que organiza sobras (e),
Que desvela a lamparina dos dias,
Que revela a ventura de não me ser-te,
Que transgride o ardor da ânsia de viver a
Eternidade de sempre ser o eterno ser?

Não me sei como teu outro na desventura do mundo,
Nem me sei tranquilo no verso escondido, que soçobra das
Noites claras e mal dormidas, um silenciar agudo e miserável,
Conjugando verbos sânscritos pelas noites que me varam,
Que me açoitam e vergastam a alma perdida de todos os tempos.

A arte em mim é um mundo possível!
É lá que guardo todos os meus gritos,
Todos os meus silêncios,
É lá que se me faço guerra,
É lá que se me vejo: ser da paz.

Meu mundo – de existência concreta e múltipla –
Vagueia pelos interiores recônditos,
Ignoto, incógnito…
Existente no âmago mais profundo e íntimo de me ser
Apenas um na poeira do tempo e do ser.

TRANSIFIGURAÇÃO por lucas paolo / são paulo


Urubu bumba cá em meus olhinhos salteadores que pululicam fora das órbitas. Obturação obtuariosa. Maldito zumbadezum e creque de dente: biquinho bonitinho retira restinojos ratueirados de meus dentes. Pra ele: nata amarelada do leite. Pra mim: espinho da rosa o rosado mamilo que me sangra esverdeado. E a estátua sempre chora e chora liquefeita aguardente: pro santo! Ave Maria! A dissonância disacordiosa me mantém no transe. Noite Transfigurada. E pesa em delongadas iminências de finalização. E nada. Nada e nada e nada e nada ena da enad a enada… e dou-me em mim e não mais sozinha, o ataúde de Maldonado recebe uma visita tardia. O sono desvelado e a eterna solidão. Meu velório sepulcral sepultado por um rapazote indistinguível. De cabelo encaspado e casacão, a mão direita já se figura no pescoço e a carótida escorrega. Dedão no pomo de adão e o esganamento inerme. Um beijo e a língua arroxeada que lambe fora e marca a alvura cadavérica e as mordiscadas na bochecha flácida. Purê de batata e a mãozinha leprosa escorrega pelo polido terno azul-escuro e invade as calças, apalpa as nádegas, enfia dedos e a cabeça porco espinho em roçadura com a gravata mostarda. E, de repente, as mãos unem-se em reza e o homenzinho firma-se no genuflexório e põe-se a chorar e chorar e chorar as lágrimas que parecem não ser suas. Eu me ponho a seu lado, cerimoniosa. A carpidação acaba eu sufoco em abraços o estranho e desvaneço seu rosto fincado por minhas compridas unhas negras com beijos lancinantes e ele ri e ri e ri eriçado pelo pavor. Na jocosidade gargalhosa, reconheço Maldonado. Ele me leva pra casa, me estabefa com ódio. Até o cair do sono doce sono primaveril.

SERÁ QUE EVOLUÍMOS? por josé antonio oliveira de rezende /são joão del-Rei

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres as visitas. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite… tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança… Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam…. era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade…
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos… até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail… Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!… – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite…

Que saudade do compadre e da comadre!

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Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.

BBB10, a grana obtida com os pés na lama – por bezerra couto / são paulo

Globo obtém faturamento recorde, mas se rebaixa ao nível de Ratinho e assemelhados no patético espetáculo proporcionado pela décima versão do Big Brother Brasil



O Big Brother Brasil é mais ou menos como o Congresso Nacional. Você pode optar por levar a vida sem dar a menor bola pra ele, e mesmo assim ele terá forte influência sobre o ar que você respira. Ok, do BBB não saem leis que impactam o nosso dia a dia em tudo.

Mas, em torno dele, destilam-se julgamentos, opiniões, práticas e emoções reveladoras das atitudes de milhões de brasileiros em relação a temas como sexualidade, violência e respeito ao próximo. O BBB e as reações que ele desperta no público ajudam a mostrar o Brasil naquilo que temos de mais essencial – nossos valores morais.

E foi isso o que me assustou no tal BBB 10, essa décima e lamentável versão do Big Brother levada ao ar pela TV Globo. Porque, gente, aquilo é o que o Brasil não pode ser!

Imagina alguém falar assim: “A maneira como ela foi batendo no peito e apontando o dedo para mim era para mim (sic) ter quebrado o dedo dela e dado um monte de porrada e ter deixado ela desmaiada no hospital”. (aqui em vídeo de 36 segundos). O autor da afirmação, o gaúcho Marcelo Dourado, 37 anos, lutador de vale-tudo que carrega no corpo uma suástica tatuada, tornou-se o vencedor da competição, faturando a bolada de R$ 1,5 milhão. Não tem algo de errado nisso?

Dourado considerou normal falar assim de outra participante, lésbica assumida, que nada tinha feito a não ser questionar, de modo respeitoso, mas destemido, o seu comportamento “no jogo”. A defesa aberta do uso da violência apareceu em outro momento em que, sem mais nem menos, o bad boy disparou: “Tô com vontade de quebrar um bar”. Dourado explicou como se faz isso. Juntam-se alguns amigos, pegam-se motos, escolhe-se o alvo, e os marmanjos entram lá para quebrar tudo, por puro divertimento.

Advogado não sou, mas fiquei com a sensação de que é disso que tratam os artigos 286 e 287 do Código Penal. Ou seja,talvez Dourado tenha incorrido em duas condutas criminosas, incitação ao crime e apologia de crime. Nos dois casos, os episódios foram escondidos pela Globo. O primeiro fato difundiu-se pelo You Tube. O segundo, nem isso. A emissora não deveria ter imediatamente retirado do programa o autor da ameaça? E por que proteger quem adotou uma conduta, no mínimo, bastante questionável? Nas edições da Globo, que serviram de base para boa parte do público definir o seu voto, Dourado foi tratado mais ou menos como o Collor contra o Lula em 1989. Collor, que já à época inspirava temores em quem era minimamente informado e educado, aparecia na TV retratado sempre positivamente. O que houve agora? Vontade de manter no programa alguém que dava audiência? Acidente de trabalho?

Não vi também nenhum sinal de bom senso em veículos jornalísticos que “cobriram” o BBB. Na internet ou na mídia impressa, a mídia se concentrou no supérfluo, no acessório ou em manifesta tietagem, bem própria do pior tipo de jornalismo de celebridades. Nas redes sociais, sobretudo no Twitter, o clima foi de guerra aberta. Autointituladas “máfias” pró-Dourado digladiaram-se com grupos LGBT e com alguns sensatos de plantão, em defesa do vencedor da competição. Os sensatos, claro, perderam. Em questão, a óbvia e indiscutível homofobia de Dourado, que a Globo estranhamente também procurou suavizar ou negar.

Última terça-feira, na final do BBB 10, o apresentador Pedro Bial deu o derradeiro dos inúmeros golpes que ele próprio assacou nas últimas semanas contra a sua reputação profissional… meu Deus, Bial, tão bom jornalista que você é, pra que entrar numa dessas, meu camarada?!

… Bial afirmou: “Se Dourado é homofóbico, no BBB ele não foi”. Não? O cara diz que perdeu o apetite ao ouvir a conversa em que outro participante, gay, se refere a uma boate GLS, levanta-se, declarando-se enojado, e joga fora toda a comida do prato, e não é homofóbico? Por mais que tenha tentado disfarçar seus sentimentos contra gays, lésbicas & cia., Dourado deixou claro que considera aberração qualquer comportamento fora do universo da heterossexualidade (confiram aqui).

Homofobia é só uma das dimensões da grande aberração que foi o BBB 10. A aberração maior não foi perpetrada nem por Marcelo Dourado nem pelos seus fãs, que brindaram o maior rival do seu ídolo, o dublê de maquiador e drag queen Dicésar, com milhares de ameaças de morte, tão logo este saiu da casa.

Foi o comportamento da Globo a grande aberração do BBB 10. Ela fez de tudo para “a casa” ferver. Juntou pitiboy com drag queen, mais dois homossexuais assumidos e ainda dançarina de boate, modelo masculino tonto, policial ninfomaníaca, editor de sitepornográfico, homens sarados, mulheres bonitas, todos tratados por Bial ora como heróis, ora como integrantes de um “zoológico humano”. E Bial falou várias vezes que todo mundo tinha que “se entregar”, “se jogar”. Foi explícito no incentivo ao sexo, hétero ou homossexual, adúltero ou não, transmitido em tempo real.

Para botar fogo na casa, a Globo não se importou em submeter os participantes a humilhações. As “provas” incluíram o uso de algemas, confinamento em um quarto todo branco, longas competições de resistência, inclusive aguentando espuma de detergente de louça sobre os cabelos e os olhos durante horas. Lançaram-se ainda os participantes uns contra os outros. Eles foram, por exemplo, obrigados a apontar “o mais falso” do grupo. Sem falar que a emissora se sentiu no direito de recriar as relações existentes entre os brothers com uma ficção, na qual atribuiu a cada qual o papel que quis, muitas vezes fazendo brincadeiras de péssimo gosto sobre a sexualidade dos participantes.

Comercialmente falando, uma loucura! Somente na final, mais de 154 milhões de votos, comemorados ao vivo por Bial como recorde em todos os Big Brothers realizados no mundo. Sabe lá quanto i$$o não representa pra Globo, que recebe parte da receita das ligações telefônicas. A indústria do detergente lançado sobre os cabelos dos brothers foi uma dos 29 anunciantes do programa. Era um merchan atrás do outro. De carro, moto, cola, empresa de telefonia, refrigerante, óculos, chocolate, protetor solar, biscoito, tempero de cozinha, cosméticos, marca de combustível, construtora… um massacre.

Globo e seus patrocinadores agora festejam, mas acho que deviam pensar melhor no que andam fazendo. O BBB 10 foi uma excrescência, que seguiu a fórmula de Ratinho e os piores exemplares do ramo no que diz respeito à exploração de fraquezas humanas. O exibicionismo, a falsidade, a futilidade e a apologia da violência não podem ser boas parceiras de quem pretende ter lugar no futuro. Será que essas empresas avaliaram direito o conteúdo que estão emprestando às suas marcas ao se associarem a um empreendimento tão vergonhoso, tão afrontoso à dignidade das pessoas? O eventual retorno financeiro positivo no curto prazo compensaria os danos futuros, inevitáveis se evoluirmos – como acredito que evoluiremos – em nosso estado, digamos, civilizatório?

Já podemos, apesar de tudo, estar em evolução, sabiam? Confirmando uma tendência mundial, o Big Brother está em queda livre de audiência no Brasil. Na final da última terça-feira, a audiência média apurada pelo Ibope foi de 40 pontos. No primeiro BBB, foi de 59 pontos (saiba mais).

Que bom. Porque há uma distinção fundamental entre BBB e Congresso. Este é fundamental para a democracia, ainda que ocupado por alguns brothers ainda mais esquisitos que o Dourado. A saída de cena da outra “casa” faria um grande bem à cidadania.

FLORIANÓPOLIS: “O NOME ESTÁ PRESCRITO” por sérgio da costa ramos – florianópolis

Por achar o assunto pouco relevante, não tinha a intenção de meter a minha colher nessa história de mudar o nome de Florianópolis.

Agora, que o assunto esteve na mídia e na academia universitária – com acadêmicos sugerindo novo batismo de gosto duvidoso, “Açorianópolis” –, há leitores cobrando minha opinião.

Vou dá-la. Quando afirmo que o assunto carece de importância, não me refiro ao ato de bajulaçãoparlamentar que batizou a capital catarinense com o nome do seu algoz. Esse gesto é, sem dúvida, repelente. Decorridos 117 anos, porém, irrelevante se torna a “politização” e a “emocionalização” do episódio. O tempo se encarregou de cimentar, senão a mágoa, o vínculo entre o nome e o homenageado. Poucas pessoas associam automaticamente o toponímico ao marechal alagoano, e, menos ainda, à sanha criminosa de seu capataz Moreira Cézar.

Nem por ser amarga, a história deixa de ser história. Revitalizar a mágoa, agora, é renovar um talho antigo por um corte fresco. A ferida sangrou e cicatrizou – não cabe reabrir o talho.

À época, a “homenagem” significou uma capitulação. Hoje, não teria o menor sentido, assim como Tel-Aviv não aceitaria chamar-se “Hitlerópolis” ou Hiroxima ser batizada de Enola Gay – o nome do avião que despejou a bomba atômica sobre a cidade.

Esquisita, contudo, será uma reação tão tardia e extemporânea, 117 anos depois, como se durante todo esse tempo o povo florianopolitano tivesse apoiado a bajulação “pessoal” dos deputados da então Assembleia Provincial. Pelo antigo “desconforto”, melhor será considerar que a palavra Florianópolis tem o seu radical lastreado em Flor, Floripa – e…, vida que segue, como diria o João Saldanha.

Mudar o nome é tarefa difícil e pouco realista. Na ex-URSS, que se habituou a substituir nomes tradicionais de cidades importantes, homenageando líderes de plantão, tudo o que se produziu foi caos e confusão. Houve época em que nem mesmo o Correio russo sabia dizer ao certo o nome dos lugares. Quando um decreto do governo revisionista de Kruschev pôs fim, em 1961, ao nome Stalingrado, a cidade às margens do Volga permaneceu “pagã” por sete dias. Durante uma semana não se pôde mandar para lá uma carta ou um telegrama. Podia-se telefonar, apenas, para “aquele lugar”.

Stalingrado faria o “percurso” completo. Originalmente, chamava-se Tsarisyn. No curto espaço de 30 anos chamou-se, sucessivamente, Volvogrado e Stalingrado. Como “Cidade de Stalin”, escreveu página heróica da Segunda Guerra Mundial, resistindo aos borzeguins do nazifascismo. Hoje, a cidade voltou a se chamar Tsarisyn. Assim como Leningrado voltou a se chamar São Petersburgo.

Como o nome original de Floripa, Desterro, não é amável, melhor deixar como está. Detestáveis serão delírios do tipo Açorianópolis, Y-Jurerê-Mirim, Meiembipe e outras cogitações aberrantes, como um dia foram “Ondina” e “Exiliópolis”. Mais palatável seria a simplificação total. “Santa Catarina”, como, aliás, Sebastião Caboto batizou a Ilha. Mas se bem, ou mal, a história sedimentou o nome “Florianópolis”, melhor faremos em reverenciar todos os anos os mortos de Anhatomirim, como Hiroxima reverencia os seus, todo mês de agosto.

E, vida que segue, vamos todos trabalhar.

MÁGICA VIRTUAL, VOCÊ NÃO ACREDITA? ENTÃO CLIQUE NO SÍMBOLO

ENGANO – de tonicato miranda /curitiba

um telefone brota do silêncio balançando meu olhar/trinados no ar concedem cara aos olhos do susto/

borboletas me mordam/quem fala?, diz a voz vomitando da garganta o marrom da surpresa/

distante 1000 km o outro som demora dois micros segundos para se associar à mente receptora/

é a memória imprimindo no HD em contraluz o corpo imagem da voz logo reconhecida/boa noite! e a voz explicita o que não é mais preciso/agonia-me agora que ela se apagou da caixa de metal o seu mutismo/uma cachaça é preciso degustar para a intransigência da notícia/alguém diz que vem/meu corpo mais do que minha vontade não querem ser hospedeiros/levanto-me caio na noite como quem cai de um penhasco/sorte que o despenhadeiro tem apenas metro e meio/torço o tornozelo da arrogância/mendigo uma lástima/ninguém para dá-la/ninguém para aliviar e agora sou mal/talvez assassine alguém naquela esquina/talvez me jogue debaixo de um trem/fuga da fuga, pois aqui não passam estes monstros de ferro e desespero/hoje não é noite de assassinos e suicidas/melhor entrar num cinema e ver um velho filme de Godard/correndo com carros alucinados pela cidade/melhor mais dois goles de cachaça ou um malbec de Mendoza caso sobre algum para isto/para isto vou ligar de volta/enxotar o susto com meus ouvidos completamente tamponados de vozes distantes/desculpe-me; foi engano.

CIDINHA CAMPOS, deputada estadual no RIO DE JANEIRO, faz depoimento GRAVÍSSIMO e seus pares seguem rindo. é o regime da CANALHOCRACIA. / rio de janeiro

a deputada estadual do Estado do Rio de Janeiro CIDINHA CAMPOS faz um pronunciamento contundente sobre a corrupção na assembléia legislativa e outros órgãos. vale assistir até o final. o povo brasileiro agradece.

UM clique no centro do vídeo:

Centenário de Chico Xavier inspira produções no cinema e na TV /são paulo


Médium é tema de quatro filmes, além do já lançado por Daniel Filho.
Doutrina espírita também será o mote de novela e seriado na TV Globo.

O cinema se rende à popularidade de Chico Xavier (1910-2002) e no ano do centenário do médium mineiro a doutrina espírita é tema de diversas produções nacionais. Além de “Chico Xavier”, cinebiografia que entrou em cartaz na última sexta-feira (2), vem aí “As cartas”, “As mães de Chico”, “E a vida continua” e “Nosso lar”.
Nelson Xavier, que faz em performance brilhante como o líder espírita no longa de Daniel Filho, volta a interpretar o médium em “As mães de Chico”, de Glauber Filho – diretor de outra longa-metragem do gênero, “Bezerra de Menezes – o diário de um espírito” (2008).

Segundo o ator, as filmagens começarão no final deste ano, em Fortaleza.
“É como se eu fizesse outro personagem. No filme do Glauber vou interpretar o Chico já velhinho, em seus últimos anos de vida”, diz Nelson, que em “Chico Xavier” vive o médium dos 59 aos 65 anos.
O ator explica que líder religioso não é o principal foco de “As mães de Chico”. “O destaque mesmo são as mulheres que perderam seus filhos e tiveram contato com as mensagens psicografadas”.

Olhar semelhante sobre o espiritismo faz o documentário “As cartas”, de Cristiana Grumbach (assistente de direção de “Edifício Master”). Em fase de finalização, o filme tem lançamento previsto para setembro e retratará a história de cinco famílias que recebem cartas das mãos do médium.

Depoimento para o filme “As Cartas”.

A cineasta define “As cartas” com um “filme de conversas”. “Tento mostrar qual é o sentimento de receber uma mensagem supostamente vinda do ‘outro mundo’ e como essas mães identificam seus filhos naquelas palavras”, diz Cristiana.

“Em minhas pesquisas, apurei que o Chico dava uma atenção especial às mães. Ele considerada que um filho morrer antes dos pais era algo fora do natural”, diz a diretora. “Meu documentário tenta descrever o impacto das cartas na trajetória dessas famílias”.

Cidade dos anjos
Best seller entre os mais de 400 livros psicografado por Chico Xavier, “Nosso lar”, atribuído ao espírito André Luiz, é tema do longa-metragem do diretor Wagner de Assis (“A cartomante”). Com o mesmo título da obra do médium, o filme tem estreia prevista para 3 setembro.

“Nosso lar” retrata com ares tecnológicos a “cidade espiritual” descrita o livro psicografado por Xavier. Em algumas cenas do filme, o plano para onde as almas são encaminhadas – segundo prega a doutrina espírita – é mostrado com trens e construções high-tech. Até a computadores os “personagens desencarnados” tem acesso.
Produzido em parceria com a filial brasileira dos estúdios Fox, “Nosso lar” deve surpreender com cenários e fotografia caprichados, como mostra trechos do trailer já divulgado pela distribuidora.
O protagonista André Luiz é interpretado pelo ator Renato Prieto, que tem como colegas de elenco Othon Bastos, Werner Shünemann, Ana Rosa e Paulo Goulart – esse dois últimos, adeptos do espiritismo, também estão em “Chico Xavier”.

Autor do documentário “O médium”, o ator e diretor Paulo Figueiredo se prepara para lançar mais um filme sobre a doutrina espírita, “E a vida continua”. Baseado em uma compilação dos livros de Xavier, a produção está em sua reta final e deve ser lançada ainda em 2010.

Espiritismo na TV
E não foi apenas o cinema que voltou suas câmeras para a doutrina espírita. Uma novela e um seriado sobre a religião irão ao ar na Rede Globo.

A “programação espírita” começará no próximo dia 12, data de lançamento da novela “Escrito nas estrelas”.

Desenvolvida por Elizabeth Jhin, a trama que substituirá “Cama de gato” na faixa das 18h contará a história de um jovem médico, Daniel (Jayme Matarazzo), que morre em um acidente de carro e tenta se comunicar com o pai, vivido por Humberto Martins.

A novela “Escrito nas Estrelas” vai falar de um jovem que tenta se comunicar com o pai.
“Daniel não se contenta com a morte e acaba ficando num plano intermediário. Mas acaba voltando várias vezes a Terra para proteger o pai e a menina que ele conhece e se encanta pouco antes de sofrer o acidente”, adiantou Matarazzo.
Para o segundo semestre está prevista a estreia da série “A cura”, de João Emmanuel Carneiro (autor da novela “A favorita” e colaborador de vários folhetins de Gilberto Braga).
O ator Selton Mello interpretará um médium que realiza cirurgias espirituais no interior de Minas Gerais e enfrenta o questionamento da comunidade científica.

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Dolores Orosco

Do G1, em São Paulo

O POETA MANOEL DE ANDRADE comenta:

Comentário:

Parabenizo o autor e o editor.
Uma matéria com todos os pingos nos “is”.

Quando os sobreviventes da ditadura subiram ao poder todos tínhamos, senão a certeza, pelo menos a esperança, de que toda essa lama seria removida dos porões da nossa história. Mas ela ainda está aí, parte inconfessavelmente lacrada na consciência delituosa de muitos generais, temerosos que essa “Caixa de Pandora” , se aberta, possa redesenhar seus “Retratos de Dorian Gray”, com os traços e as cores repugnantes de novos crimes. Outra parte dessa lama está espalhada na sala de visitas da nação, nessa triste exposição de valas escavadas, ossadas anônimas, documentos revelados, acusações irrefutáveis, nos retratos de alguns carrascos e na memória empestada de um tempo cujos anais recendem esse odor intenso e insuportável.

Até quando suportaremos essa imensa vergonha perante o mundo, perante as nações vizinhas que tiveram a coragem e a decência histórica de transformá-la em justiça. Até quando, todos nós brasileiros, sobreviventes ou herdeiros da tragédia, filhos dessa nação maravilhosa, viveremos tatuados com essa nódoa infamante.

Há algum tempo publiquei neste site o longo poema, CÂNTICO PARA OS SOBREVIVENTES, escrito em 2003 e contando todo esse rastro de dor e resistência em nossa história. No ensejo desse corajoso artigo quero partilhar também minhas acusações e meu testemunho poético citando alguns dos seus versos:

(…)E agora que o tempo secou a imensa lama
e os sobreviventes saíram das trincheiras;
agora que exumamos nossas vítimas
e os verdugos a tudo assistem impunemente;
perguntamos se o tempo também secou o rio de lágrimas,
se o coração das mães já despiu o amargo luto
se os órfãos receberam as respostas
se os amantes encontraram outros braços.

Pergutamos se todos os dossiês já foram abertos
se todas as senhas foram decifradas
porque prostituiram a justiça impunemente
e se os pretorianos já cumpriram a penitência.
Perguntamos se todos os nossos mortos já receberam sepultura
se a história já revelou o preço da tragédia
e quem arrancará de nossa carne esse espinho lancinante.

Perguntamos…, até quando durará essa cumplicidade e esse silêncio
quando será revogado esse decreto
e em que tribunal responderão enfim os acusados.(…)

Manoel de Andrade

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leia a matéria comentada AQUI

BIANCHON por hamilton alves / ilha de santa catarina

Bianchon, na obra de Balzac, é o estudante de medicina que conhecemos na novela “O pai Goriot”, um dos momentos culminantes na obra do grande escritor.

Sabemos que, na hora da morte (ou muito doente), Balzac o chamou para socorrê-lo.

Delirava? Ou enlouquecera?

Creio que não.

Um escritor às vezes imprime vida de tal forma as suas criaturas que as concebe como se fossem de carne e osso.

Na minha obra literária, embora autor de quatro novelas (uma das quais editada há pouco), não me acode um único personagem a que pudesse atribuir uma existência real como Balzac fez com Bianchon, a ponto de, no momento mais crucial de sua vida, convocá-lo para que lhe amenizasse o transe por que estava passando da vida à morte.

Difícil é, para o leitor, sair das páginas de uma novela dessa grandeza sem experimentar que os personagens, a maioria deles, ganhem vida em sua imaginação – e Bianchon, ainda estudante, na pensão Vauquer, na rue Saint Genovève, na Paris do século XIX, é seguramente uma dessas que permanecem vivas ou assim se tornam para nós.

Não será, apenas, o caso de Bianchon, que mais tarde aparece, já médico profissionalizado, nos demais romances do escritor, mas de tantos outros que se recolhem à grande literatura, como, só para citar alguns, Madame Bovary, Ana Karênina, Mildred e Phillip (de Servidão Humana, de Maughan), Conceição, de “Missa do Galo”, de Machado de Assis, Gustav Aschembach, de “Morte em Veneza”, de Thomas Mann, para não falar de Dom Quixote, que se alçou talvez às alturas na fantasia popular, mas, no caso dele, bem diferente dos demais citados. Quixote incorporou-se na memória coletiva como símbolo da grandeza do heroísmo sem causa ou de uma causa produto de uma loucura.

Com Madame Bovary, (como contei numa breve narrativa), sonhei que tivéramos um encontro num bar de Santo Antonio de Lisboa. Súbito, surgiu, não sei de onde, a figura de um de seus amantes, o que lhe havia recusado todo o apoio no seu final dramático.

Chamou-me a atenção para sua presença ou aproximação nefasta (ela o detestava) e tivemos que sair sem dar-nos a perceber.

Sonhar com uma criatura ficcional é o mesmo que lhe imprimir vida (o sonho é uma forma, ainda que precária, de expressá-la).

Quando Balzac apela por Bianchon, na hora da agonia, reflete bem o que se passa em seu espírito. Na visão dele, fascinado por esse personagem, ou sabendo-o vivo como quem mais vive, considera-o como o médico (produto de sua imaginação), que lhe pode trazer conforto aos últimos momentos.

Bem curiosa, sem dúvida, essa relação entre realidade e ficção, em que, em certos momentos, torna-se bastante difícil lhe traçar os limites.

BOTÃO DE DESLIGAR por alceu sperança / cascavel.pr

Rei não faz campanha.

A não ser na ficção.

Ou na Espanha.

***

Uma antiga história-em-quadrinhos (The Wizard of Id), da dupla Brant & Parker, mostra-nos um rei, talvez concorrente do espanhol, em campanha eleitoral. O cruel reizinho dos quadrinhos vai à sacada do palácio e começa o blablablá: – Votem em mim e eu prometo plano de saúde grátis para todos! (aplausos) Casa de graça! (vivas) Roupa de graça!(hurras) Tíquetes-refeição de graça! (todos de joelhos) E empregos para todos!

Diante da última promessa, a plateia emudece. O rei, surpreso, pergunta se alguém tem algo a dizer. Aí um súdito mais descarado ergue-se e pergunta: “Se nós vamos ter tudo de graça, pra que trabalhar?”

A Dinamarca montou o mais invejável sistema de justiça social possível nos marcos do capitalismo. Algo de muito sadio naquele reino. A perspectiva do sujeito ficar sem trabalhar por conta do desenvolvimento tecnológico não dá tremeliques de medo, porque o Estado-pai acolhe os desempregados sob suas generosas asas e o trabalho já feito garantiu uma bela poupança para o futuro.

O seguro-desemprego e a estrutura de apoio equivalem a felizes férias remuneradas até encontrar o novo trabalho. O emprego que se acha depois dessas férias é compatível com o desenvolvimento da ciência e da técnica. Já tem toda a educação que precisa. Se adoece, é socorrido por bons hospitais.

Numa frase: lá, a flexibilização das relações trabalhistas casa-se harmoniosamente com a segurança do trabalhador.

É a tal da flexi-segurança. O sucesso que a flexi, para os íntimos, vem tendo na Dinamarca, estimulou os demais países a fazer o mesmo. Em todos os lugares, flexibilizam-se as relações de trabalho, destroem-se os sindicatos, apelida-se de “atrasado” qualquer movimento de defesa do ser humano ameaçado pela destruição ambiental e pela maluquice gerada pelo desemprego ou pela superexploração do trabalho.

Todos se julgam Dinamarcas. Se dá certo lá, onde antigamente havia algo de podre, segundo Hamlet, vai dar certo também aqui, onde temos políticos sadios e bem nutridos, pensam os incautos.

Mas aqui o trabalhador expulso do emprego extinto não tem garantia de manutenção de renda, a não ser um seguro-desemprego que míngua rapidamente, bem antes de arranjar a próxima colocação.

O caráter semi-periférico da nossa economia e o limitado desenvolvimento científico mostram que o desempregado de hoje não vai para plantas novas, mas para empregos piores, com remuneração mais baixa. Ou cai na informalidade, que fica na penumbra entre a clandestinidade e o crime. Aqui não se festeja mais gente chegando à riqueza, mas mais gente chegando à pobreza.

E, trabalhando ou não, o cara fica doente e não tem socorro. A estrutura de saúde pública é um espanto de incompetência e falastronice. A conseqüência disso é que temos contratos e leis dignos da Dinamarca e respeito aos trabalhadores digno de Uganda.

É por isso que se diz na Europa, onde a flexi-segurança já é norma, que no Brasil e na América Latina, para onde ela está vindo, acelerada, vai se chamar, naturalmente, flexi-insegurança. É como tem sido chamada nos países que agora está quebrando na Europa, os tais PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha).

Quando a grita do povo ficar ensurdecedora, os luliberais vão perguntar onde é que fica o botão de desligar essa gente mal-agradecida. A imprensa não pode expor uma só das inúmeras contradições do establishment pequeno-burguês social-democrata dominante que é fustigada até pelo Chefe, imagine pelos áulicos.

Como não há botão, só restará reprimir e encarcerar. Explica-se porque já há tropas de elite e cadeias mais amplas.

PÁSCOA DIETÉTICA por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Antigamente, as criancinhas passavam a manhã do domingo procurando ovos de Páscoa no jardim, acompanhadas pelos pais, que se divertiam com os bordões Está frio! Está quente!

Hoje, os “produtos” de Páscoa entram pelos olhos e pelos poros de adultos e crianças, nunca se comeu tanto chocolate, nem tantas calorias concentradas nesse néctar de cacau.

Por isso, vou logo avisando: não aceito ganhar barras de chocolate recheadas com amendoim e castanhas – as minhas preferidas.

Mal-acostumado pelos políticos, que nos habituaram à palavra volátil, e a renunciar às renúncias, suspeito que“aquele” meu regime só vá começar mesmo na segunda-feira, pois amanhã é dia de bacalhau – e… chocolate de sobremesa.

Toda Páscoa entreguei-me, como uma criança, à orgia do cacau. Sem falar na grande comezaina e na libação ilimitada – tudo em homenagem ao Ressuscitado. Aleluia! – afinal, não é apenas um refrão repetido nas assembleias de Deus. Aleluia quer dizer alegria, júbilo, regozijo, exultação.

Pois eis me aqui, recusando o saboroso chocolate que me ofereceis, o opíparo almoço, a adega generosa. Estou mesmo disposto a inverter o calendário litúrgico, fazendo do domingo de Páscoa o meu dia de jejum. Aliás, se tivesse algum juízo ou senso de estética, jejuaria durante os próximos 365 dias, precisamente até a Páscoa de 2011.

Seria o jejum do asceta e do anacoreta. Sem querer ser blasfemo, aspiro a um corpinho assim como o de São Francisco de Assis, que se satisfazia em dividir o pão e o alpiste com os seus passarinhos – e, entre os humanos, com aquele senador de Pernambuco, o transparente Marco Maciel, o único político-faquir, que, estando de “frente”, parece estar de “perfil”.

Meu ideal de magreza, mais do que de misticismo, se alimenta, também, de romantismo. Confesso-vos que me sentiria muito bem acomodado na carcaça de um poeta do século 19, mórbido como um Beaudelaire, esquálido como um Gonçalves Dias ou um Castro Alves. Sou aspirante – remoto, é bem verdade – a um honrado par de saboneteiras, única garantia de que não estarei ingressando na dinastia dos Momos e que o regime iniciado nesta Páscoa “estará funcionando”.

Pena que este mundo seja feito de gordos dilemas e de adiposos paradoxos. Ao lado desse ascético ideal de magreza, cultivo em cada célula uma obscena compulsão pelos prazeres da boa mesa. Comer bem sempre foi uma das boas coisas da vida, uma das festas permanentes do palato. Pena que os coelhinhos da Lacta e da Nestlé, e os deuses da gastronomia, como Henrique VIII, e da libação, como Dionísio (o nome grego de Baco), não me tenham contemplado com uma saudável e quilométrica “Taenya Saginata”, a popular “bicha solitária”, que me permitiria comer todo o chocolate que quisesse sem engordar.

Regimes – cada vez mais exóticos – abundam por aí. Um deles receita comer-se só abacaxi, segundo o livro e os conselhos de uma certa Judy Mazel – cuja única serventia, para ela, é engordar a sua própria conta bancária. De tanto comer abacaxi, sem perder um grama, amanheci, um dia, com a calça do pijama rasgada. Um espanto: lá de dentro, como uma hemorroida ecológica, vicejava uma espinhenta coroa de abacaxi, que ia me saindo cola afora…

Só esta espinhosa metamorfose já seria suficiente para que abandonasse o insólito método. Acabei desistindo no dia em que, convidado para uma churrascada, cheguei com o meu abacaxi debaixo do braço. Sem vocação para “Carmen Miranda”, caí em mim. Joguei fora a fruta tropical e me reconciliei com todas as picanhas da festa, com a voracidade de quem satisfazia um amor longamente reprimido.

Minha salvação está mesmo no ascetismo, na devoção. Começo hoje mesmo – neste sábado de Aleluia e neste domingo pascal – a comer alfaces, brócolis e rúculas. Hei de chegar ao verão esbelto como um atleta olímpico, os músculos rajando a pele como rijos cipós.

– Me Tarzan! You, pobres chocólatras…

PARA VOCÊ ! dos PALAVREIROS DA HORA

FELIZ PÁSCOA !!!

PÁSCOA quer dizer passagem, mudança,
transformação de uma situação ruim para outra muito melhor.

Passagem da morte para a vida, do desespero para
a esperança.

É a festa religiosa mais importante no calendário cristão
A VITÓRIA DA VIDA SOBRE A MORTE.

A ressureição de JESUS CRISTO, nos sinaliza a cada ano essa possibilidade de mudança.

E quando desejamos “FELIZ PÁSCOA!”, estamos
dizendo aos nossos amigos:

Feliz vida nova!

Coragem e fé!

Não desanime!

Jesus Ressuscitou!

Ele venceu a morte e pode dar a você, também,
uma vida nova, é só você deixar!

FELIZ PÁSCOA!

DUAS ALMAS de alceu wamosy / uruguaiana.rs

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e sob este teto encontrarás carinho:
eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.
Há de ficar comigo uma saudade tua…
Hás de levar contigo uma saudade minha…

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Alceu de Freitas Wamosy (Uruguaiana, 14 de fevereiro de 1895 — Santana do Livramento, 13 de setembro de 1923) foi um jornalista e poeta brasileiro.

Filho de José Afonso Wamosy, de origem húngara e Maria de Freitas, foi um poeta simbolista publicou seu primeiro livro de poesia, Flâmulas, em 1913, enquanto já trabalhava como colaborador no jornal fundado por seu pai, A Cidade, em Alegrete.

Poeta simbolista,escreveu poemas cheios de desencanto, em uma produção que se destacou no sul do país e é uma das mais significativas do Simbolismo brasileiro.

Em 1917 adquiriu o jornal O Republicano, no qual permaneceu trabalhando até seu falecimento em 1923. Republicano ferrenho, lutou na Revolução Federalista, combatendo em Santa Maria Chica, Pontes do Ibirapuitá e Ponche Verde, onde foi ferido mortalmente.

É patrono de uma cadeira da Academia Rio-Grandense de Letras. Foi homenageado como patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 1967.

wiki.

RAPSÓDIA SOBRE A PALAVRA de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O som crocante da chuva é sua palavra.

O doce da cana é sua palavra

e o rum sua ira.

O urro da onça é sua palavra.

O vôo da borboleta é sua palavra.

A beleza do pavão é sua palavra.

As fotos de Cartier Bresson

é sua palavra,

e seu discurso.

O amargor benigno do boldo

é sua palavra.

Seu nome é sua palavra

mais intima.

Seu nome é seu coração,

sua mão

e o cabelo que cai.

Seu nome tem a mesma cicatriz que você tem

e é seu osso,

e o sexo escolhido.

Seu nome envelhece.

E a ferida no seu corpo

é uma ferida no seu nome.

Pequena Reflexão sobre a Semana Santa e a Páscoa – por zuleika dos reis / são paulo

Sejamos nós cristãos católicos, ortodoxos, evangélicos…; judeus, islâmicos, budistas, hinduístas, agnósticos, ateus… curvemo-nos todos diante do Mistério, ou da possibilidade do Mistério: o Deus-homem vem ao Mundo e se dá ao Sacrifício, ao Sacro-Ofício, morre em seu corpo de carne como o nosso e ressuscita neste mesmo corpo para nos dar o Testemunho da Imortalidade.

Lembremo-nos do verso imortal de Fernando Pessoa: “O Mito é o nada que é tudo” e, seja qual for a nossa crença ou o tamanho da nossa descrença, coloquemo-nos todos juntos, na comunhão deste momento de irrupção do Tempo Sagrado no interior do tempo profano. Deixemo-nos tocar, deixemo-nos impregnar. Se a nossa descrença já impregnou todas as coisas, se nos sentimos impermeáveis a toda e qualquer Revelação, a qualquer Utopia de cunho sagrado ou humano, ainda assim suspendamos nossos juízos por um instante para comungarmos  a Grandeza anunciada nestes dias, a da morte e a da ressurreição do homem-Deus.
Incontáveis de nós estamos morrendo nas guerras, nas guerrilhas, nas emboscadas urbanas, em emboscadas dentro das próprias famílias; incontáveis de nós estamos morrendo nas cidades e nos campos devastados pela fome e pelas doenças; incontáveis de nós estamos morrendo de inanição emocional, em castelos de sempre precárias muralhas;incontáveis de nós estamos morrendo órfãos de nós mesmos, reféns da terrível solidão de não mais nos reconhecermos nos pensamentos nem nos atos de cada dia.Há infinitos modos de morrer, de se matar e de matar e a nossa morada, a Terra, está infestada deles.
Por um instante que seja, sintamo-nos Um Só, unidos através da miséria e da riqueza da nossa condição de seres humanos que seguem carregando a certeza ou a nostalgia do Deus dentro, ao redor e/ou além de nossa infinita pequenez. Sintamo-nos Um, com toda a nossa Esperança tornada ato, nossa Esperança impossível de ser extirpada, semente bendita para sempre, semente sempre-viva replantada, desde todo o Sempre, apesar da legião de mortos no mundo, apesar das injustiças de toda espécie que vêm se perpetuando há milênios.