Arquivos Diários: 1 abril, 2010

DUAS ALMAS de alceu wamosy / uruguaiana.rs

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e sob este teto encontrarás carinho:
eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.
Há de ficar comigo uma saudade tua…
Hás de levar contigo uma saudade minha…

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Alceu de Freitas Wamosy (Uruguaiana, 14 de fevereiro de 1895 — Santana do Livramento, 13 de setembro de 1923) foi um jornalista e poeta brasileiro.

Filho de José Afonso Wamosy, de origem húngara e Maria de Freitas, foi um poeta simbolista publicou seu primeiro livro de poesia, Flâmulas, em 1913, enquanto já trabalhava como colaborador no jornal fundado por seu pai, A Cidade, em Alegrete.

Poeta simbolista,escreveu poemas cheios de desencanto, em uma produção que se destacou no sul do país e é uma das mais significativas do Simbolismo brasileiro.

Em 1917 adquiriu o jornal O Republicano, no qual permaneceu trabalhando até seu falecimento em 1923. Republicano ferrenho, lutou na Revolução Federalista, combatendo em Santa Maria Chica, Pontes do Ibirapuitá e Ponche Verde, onde foi ferido mortalmente.

É patrono de uma cadeira da Academia Rio-Grandense de Letras. Foi homenageado como patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 1967.

wiki.

RAPSÓDIA SOBRE A PALAVRA de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O som crocante da chuva é sua palavra.

O doce da cana é sua palavra

e o rum sua ira.

O urro da onça é sua palavra.

O vôo da borboleta é sua palavra.

A beleza do pavão é sua palavra.

As fotos de Cartier Bresson

é sua palavra,

e seu discurso.

O amargor benigno do boldo

é sua palavra.

Seu nome é sua palavra

mais intima.

Seu nome é seu coração,

sua mão

e o cabelo que cai.

Seu nome tem a mesma cicatriz que você tem

e é seu osso,

e o sexo escolhido.

Seu nome envelhece.

E a ferida no seu corpo

é uma ferida no seu nome.

Pequena Reflexão sobre a Semana Santa e a Páscoa – por zuleika dos reis / são paulo

Sejamos nós cristãos católicos, ortodoxos, evangélicos…; judeus, islâmicos, budistas, hinduístas, agnósticos, ateus… curvemo-nos todos diante do Mistério, ou da possibilidade do Mistério: o Deus-homem vem ao Mundo e se dá ao Sacrifício, ao Sacro-Ofício, morre em seu corpo de carne como o nosso e ressuscita neste mesmo corpo para nos dar o Testemunho da Imortalidade.

Lembremo-nos do verso imortal de Fernando Pessoa: “O Mito é o nada que é tudo” e, seja qual for a nossa crença ou o tamanho da nossa descrença, coloquemo-nos todos juntos, na comunhão deste momento de irrupção do Tempo Sagrado no interior do tempo profano. Deixemo-nos tocar, deixemo-nos impregnar. Se a nossa descrença já impregnou todas as coisas, se nos sentimos impermeáveis a toda e qualquer Revelação, a qualquer Utopia de cunho sagrado ou humano, ainda assim suspendamos nossos juízos por um instante para comungarmos  a Grandeza anunciada nestes dias, a da morte e a da ressurreição do homem-Deus.
Incontáveis de nós estamos morrendo nas guerras, nas guerrilhas, nas emboscadas urbanas, em emboscadas dentro das próprias famílias; incontáveis de nós estamos morrendo nas cidades e nos campos devastados pela fome e pelas doenças; incontáveis de nós estamos morrendo de inanição emocional, em castelos de sempre precárias muralhas;incontáveis de nós estamos morrendo órfãos de nós mesmos, reféns da terrível solidão de não mais nos reconhecermos nos pensamentos nem nos atos de cada dia.Há infinitos modos de morrer, de se matar e de matar e a nossa morada, a Terra, está infestada deles.
Por um instante que seja, sintamo-nos Um Só, unidos através da miséria e da riqueza da nossa condição de seres humanos que seguem carregando a certeza ou a nostalgia do Deus dentro, ao redor e/ou além de nossa infinita pequenez. Sintamo-nos Um, com toda a nossa Esperança tornada ato, nossa Esperança impossível de ser extirpada, semente bendita para sempre, semente sempre-viva replantada, desde todo o Sempre, apesar da legião de mortos no mundo, apesar das injustiças de toda espécie que vêm se perpetuando há milênios.