Arquivos Diários: 3 abril, 2010

PÁSCOA DIETÉTICA por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Antigamente, as criancinhas passavam a manhã do domingo procurando ovos de Páscoa no jardim, acompanhadas pelos pais, que se divertiam com os bordões Está frio! Está quente!

Hoje, os “produtos” de Páscoa entram pelos olhos e pelos poros de adultos e crianças, nunca se comeu tanto chocolate, nem tantas calorias concentradas nesse néctar de cacau.

Por isso, vou logo avisando: não aceito ganhar barras de chocolate recheadas com amendoim e castanhas – as minhas preferidas.

Mal-acostumado pelos políticos, que nos habituaram à palavra volátil, e a renunciar às renúncias, suspeito que“aquele” meu regime só vá começar mesmo na segunda-feira, pois amanhã é dia de bacalhau – e… chocolate de sobremesa.

Toda Páscoa entreguei-me, como uma criança, à orgia do cacau. Sem falar na grande comezaina e na libação ilimitada – tudo em homenagem ao Ressuscitado. Aleluia! – afinal, não é apenas um refrão repetido nas assembleias de Deus. Aleluia quer dizer alegria, júbilo, regozijo, exultação.

Pois eis me aqui, recusando o saboroso chocolate que me ofereceis, o opíparo almoço, a adega generosa. Estou mesmo disposto a inverter o calendário litúrgico, fazendo do domingo de Páscoa o meu dia de jejum. Aliás, se tivesse algum juízo ou senso de estética, jejuaria durante os próximos 365 dias, precisamente até a Páscoa de 2011.

Seria o jejum do asceta e do anacoreta. Sem querer ser blasfemo, aspiro a um corpinho assim como o de São Francisco de Assis, que se satisfazia em dividir o pão e o alpiste com os seus passarinhos – e, entre os humanos, com aquele senador de Pernambuco, o transparente Marco Maciel, o único político-faquir, que, estando de “frente”, parece estar de “perfil”.

Meu ideal de magreza, mais do que de misticismo, se alimenta, também, de romantismo. Confesso-vos que me sentiria muito bem acomodado na carcaça de um poeta do século 19, mórbido como um Beaudelaire, esquálido como um Gonçalves Dias ou um Castro Alves. Sou aspirante – remoto, é bem verdade – a um honrado par de saboneteiras, única garantia de que não estarei ingressando na dinastia dos Momos e que o regime iniciado nesta Páscoa “estará funcionando”.

Pena que este mundo seja feito de gordos dilemas e de adiposos paradoxos. Ao lado desse ascético ideal de magreza, cultivo em cada célula uma obscena compulsão pelos prazeres da boa mesa. Comer bem sempre foi uma das boas coisas da vida, uma das festas permanentes do palato. Pena que os coelhinhos da Lacta e da Nestlé, e os deuses da gastronomia, como Henrique VIII, e da libação, como Dionísio (o nome grego de Baco), não me tenham contemplado com uma saudável e quilométrica “Taenya Saginata”, a popular “bicha solitária”, que me permitiria comer todo o chocolate que quisesse sem engordar.

Regimes – cada vez mais exóticos – abundam por aí. Um deles receita comer-se só abacaxi, segundo o livro e os conselhos de uma certa Judy Mazel – cuja única serventia, para ela, é engordar a sua própria conta bancária. De tanto comer abacaxi, sem perder um grama, amanheci, um dia, com a calça do pijama rasgada. Um espanto: lá de dentro, como uma hemorroida ecológica, vicejava uma espinhenta coroa de abacaxi, que ia me saindo cola afora…

Só esta espinhosa metamorfose já seria suficiente para que abandonasse o insólito método. Acabei desistindo no dia em que, convidado para uma churrascada, cheguei com o meu abacaxi debaixo do braço. Sem vocação para “Carmen Miranda”, caí em mim. Joguei fora a fruta tropical e me reconciliei com todas as picanhas da festa, com a voracidade de quem satisfazia um amor longamente reprimido.

Minha salvação está mesmo no ascetismo, na devoção. Começo hoje mesmo – neste sábado de Aleluia e neste domingo pascal – a comer alfaces, brócolis e rúculas. Hei de chegar ao verão esbelto como um atleta olímpico, os músculos rajando a pele como rijos cipós.

– Me Tarzan! You, pobres chocólatras…