Arquivos Diários: 4 abril, 2010

Centenário de Chico Xavier inspira produções no cinema e na TV /são paulo


Médium é tema de quatro filmes, além do já lançado por Daniel Filho.
Doutrina espírita também será o mote de novela e seriado na TV Globo.

O cinema se rende à popularidade de Chico Xavier (1910-2002) e no ano do centenário do médium mineiro a doutrina espírita é tema de diversas produções nacionais. Além de “Chico Xavier”, cinebiografia que entrou em cartaz na última sexta-feira (2), vem aí “As cartas”, “As mães de Chico”, “E a vida continua” e “Nosso lar”.
Nelson Xavier, que faz em performance brilhante como o líder espírita no longa de Daniel Filho, volta a interpretar o médium em “As mães de Chico”, de Glauber Filho – diretor de outra longa-metragem do gênero, “Bezerra de Menezes – o diário de um espírito” (2008).

Segundo o ator, as filmagens começarão no final deste ano, em Fortaleza.
“É como se eu fizesse outro personagem. No filme do Glauber vou interpretar o Chico já velhinho, em seus últimos anos de vida”, diz Nelson, que em “Chico Xavier” vive o médium dos 59 aos 65 anos.
O ator explica que líder religioso não é o principal foco de “As mães de Chico”. “O destaque mesmo são as mulheres que perderam seus filhos e tiveram contato com as mensagens psicografadas”.

Olhar semelhante sobre o espiritismo faz o documentário “As cartas”, de Cristiana Grumbach (assistente de direção de “Edifício Master”). Em fase de finalização, o filme tem lançamento previsto para setembro e retratará a história de cinco famílias que recebem cartas das mãos do médium.

Depoimento para o filme “As Cartas”.

A cineasta define “As cartas” com um “filme de conversas”. “Tento mostrar qual é o sentimento de receber uma mensagem supostamente vinda do ‘outro mundo’ e como essas mães identificam seus filhos naquelas palavras”, diz Cristiana.

“Em minhas pesquisas, apurei que o Chico dava uma atenção especial às mães. Ele considerada que um filho morrer antes dos pais era algo fora do natural”, diz a diretora. “Meu documentário tenta descrever o impacto das cartas na trajetória dessas famílias”.

Cidade dos anjos
Best seller entre os mais de 400 livros psicografado por Chico Xavier, “Nosso lar”, atribuído ao espírito André Luiz, é tema do longa-metragem do diretor Wagner de Assis (“A cartomante”). Com o mesmo título da obra do médium, o filme tem estreia prevista para 3 setembro.

“Nosso lar” retrata com ares tecnológicos a “cidade espiritual” descrita o livro psicografado por Xavier. Em algumas cenas do filme, o plano para onde as almas são encaminhadas – segundo prega a doutrina espírita – é mostrado com trens e construções high-tech. Até a computadores os “personagens desencarnados” tem acesso.
Produzido em parceria com a filial brasileira dos estúdios Fox, “Nosso lar” deve surpreender com cenários e fotografia caprichados, como mostra trechos do trailer já divulgado pela distribuidora.
O protagonista André Luiz é interpretado pelo ator Renato Prieto, que tem como colegas de elenco Othon Bastos, Werner Shünemann, Ana Rosa e Paulo Goulart – esse dois últimos, adeptos do espiritismo, também estão em “Chico Xavier”.

Autor do documentário “O médium”, o ator e diretor Paulo Figueiredo se prepara para lançar mais um filme sobre a doutrina espírita, “E a vida continua”. Baseado em uma compilação dos livros de Xavier, a produção está em sua reta final e deve ser lançada ainda em 2010.

Espiritismo na TV
E não foi apenas o cinema que voltou suas câmeras para a doutrina espírita. Uma novela e um seriado sobre a religião irão ao ar na Rede Globo.

A “programação espírita” começará no próximo dia 12, data de lançamento da novela “Escrito nas estrelas”.

Desenvolvida por Elizabeth Jhin, a trama que substituirá “Cama de gato” na faixa das 18h contará a história de um jovem médico, Daniel (Jayme Matarazzo), que morre em um acidente de carro e tenta se comunicar com o pai, vivido por Humberto Martins.

A novela “Escrito nas Estrelas” vai falar de um jovem que tenta se comunicar com o pai.
“Daniel não se contenta com a morte e acaba ficando num plano intermediário. Mas acaba voltando várias vezes a Terra para proteger o pai e a menina que ele conhece e se encanta pouco antes de sofrer o acidente”, adiantou Matarazzo.
Para o segundo semestre está prevista a estreia da série “A cura”, de João Emmanuel Carneiro (autor da novela “A favorita” e colaborador de vários folhetins de Gilberto Braga).
O ator Selton Mello interpretará um médium que realiza cirurgias espirituais no interior de Minas Gerais e enfrenta o questionamento da comunidade científica.

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Dolores Orosco

Do G1, em São Paulo

O POETA MANOEL DE ANDRADE comenta:

Comentário:

Parabenizo o autor e o editor.
Uma matéria com todos os pingos nos “is”.

Quando os sobreviventes da ditadura subiram ao poder todos tínhamos, senão a certeza, pelo menos a esperança, de que toda essa lama seria removida dos porões da nossa história. Mas ela ainda está aí, parte inconfessavelmente lacrada na consciência delituosa de muitos generais, temerosos que essa “Caixa de Pandora” , se aberta, possa redesenhar seus “Retratos de Dorian Gray”, com os traços e as cores repugnantes de novos crimes. Outra parte dessa lama está espalhada na sala de visitas da nação, nessa triste exposição de valas escavadas, ossadas anônimas, documentos revelados, acusações irrefutáveis, nos retratos de alguns carrascos e na memória empestada de um tempo cujos anais recendem esse odor intenso e insuportável.

Até quando suportaremos essa imensa vergonha perante o mundo, perante as nações vizinhas que tiveram a coragem e a decência histórica de transformá-la em justiça. Até quando, todos nós brasileiros, sobreviventes ou herdeiros da tragédia, filhos dessa nação maravilhosa, viveremos tatuados com essa nódoa infamante.

Há algum tempo publiquei neste site o longo poema, CÂNTICO PARA OS SOBREVIVENTES, escrito em 2003 e contando todo esse rastro de dor e resistência em nossa história. No ensejo desse corajoso artigo quero partilhar também minhas acusações e meu testemunho poético citando alguns dos seus versos:

(…)E agora que o tempo secou a imensa lama
e os sobreviventes saíram das trincheiras;
agora que exumamos nossas vítimas
e os verdugos a tudo assistem impunemente;
perguntamos se o tempo também secou o rio de lágrimas,
se o coração das mães já despiu o amargo luto
se os órfãos receberam as respostas
se os amantes encontraram outros braços.

Pergutamos se todos os dossiês já foram abertos
se todas as senhas foram decifradas
porque prostituiram a justiça impunemente
e se os pretorianos já cumpriram a penitência.
Perguntamos se todos os nossos mortos já receberam sepultura
se a história já revelou o preço da tragédia
e quem arrancará de nossa carne esse espinho lancinante.

Perguntamos…, até quando durará essa cumplicidade e esse silêncio
quando será revogado esse decreto
e em que tribunal responderão enfim os acusados.(…)

Manoel de Andrade

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leia a matéria comentada AQUI

BIANCHON por hamilton alves / ilha de santa catarina

Bianchon, na obra de Balzac, é o estudante de medicina que conhecemos na novela “O pai Goriot”, um dos momentos culminantes na obra do grande escritor.

Sabemos que, na hora da morte (ou muito doente), Balzac o chamou para socorrê-lo.

Delirava? Ou enlouquecera?

Creio que não.

Um escritor às vezes imprime vida de tal forma as suas criaturas que as concebe como se fossem de carne e osso.

Na minha obra literária, embora autor de quatro novelas (uma das quais editada há pouco), não me acode um único personagem a que pudesse atribuir uma existência real como Balzac fez com Bianchon, a ponto de, no momento mais crucial de sua vida, convocá-lo para que lhe amenizasse o transe por que estava passando da vida à morte.

Difícil é, para o leitor, sair das páginas de uma novela dessa grandeza sem experimentar que os personagens, a maioria deles, ganhem vida em sua imaginação – e Bianchon, ainda estudante, na pensão Vauquer, na rue Saint Genovève, na Paris do século XIX, é seguramente uma dessas que permanecem vivas ou assim se tornam para nós.

Não será, apenas, o caso de Bianchon, que mais tarde aparece, já médico profissionalizado, nos demais romances do escritor, mas de tantos outros que se recolhem à grande literatura, como, só para citar alguns, Madame Bovary, Ana Karênina, Mildred e Phillip (de Servidão Humana, de Maughan), Conceição, de “Missa do Galo”, de Machado de Assis, Gustav Aschembach, de “Morte em Veneza”, de Thomas Mann, para não falar de Dom Quixote, que se alçou talvez às alturas na fantasia popular, mas, no caso dele, bem diferente dos demais citados. Quixote incorporou-se na memória coletiva como símbolo da grandeza do heroísmo sem causa ou de uma causa produto de uma loucura.

Com Madame Bovary, (como contei numa breve narrativa), sonhei que tivéramos um encontro num bar de Santo Antonio de Lisboa. Súbito, surgiu, não sei de onde, a figura de um de seus amantes, o que lhe havia recusado todo o apoio no seu final dramático.

Chamou-me a atenção para sua presença ou aproximação nefasta (ela o detestava) e tivemos que sair sem dar-nos a perceber.

Sonhar com uma criatura ficcional é o mesmo que lhe imprimir vida (o sonho é uma forma, ainda que precária, de expressá-la).

Quando Balzac apela por Bianchon, na hora da agonia, reflete bem o que se passa em seu espírito. Na visão dele, fascinado por esse personagem, ou sabendo-o vivo como quem mais vive, considera-o como o médico (produto de sua imaginação), que lhe pode trazer conforto aos últimos momentos.

Bem curiosa, sem dúvida, essa relação entre realidade e ficção, em que, em certos momentos, torna-se bastante difícil lhe traçar os limites.

BOTÃO DE DESLIGAR por alceu sperança / cascavel.pr

Rei não faz campanha.

A não ser na ficção.

Ou na Espanha.

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Uma antiga história-em-quadrinhos (The Wizard of Id), da dupla Brant & Parker, mostra-nos um rei, talvez concorrente do espanhol, em campanha eleitoral. O cruel reizinho dos quadrinhos vai à sacada do palácio e começa o blablablá: – Votem em mim e eu prometo plano de saúde grátis para todos! (aplausos) Casa de graça! (vivas) Roupa de graça!(hurras) Tíquetes-refeição de graça! (todos de joelhos) E empregos para todos!

Diante da última promessa, a plateia emudece. O rei, surpreso, pergunta se alguém tem algo a dizer. Aí um súdito mais descarado ergue-se e pergunta: “Se nós vamos ter tudo de graça, pra que trabalhar?”

A Dinamarca montou o mais invejável sistema de justiça social possível nos marcos do capitalismo. Algo de muito sadio naquele reino. A perspectiva do sujeito ficar sem trabalhar por conta do desenvolvimento tecnológico não dá tremeliques de medo, porque o Estado-pai acolhe os desempregados sob suas generosas asas e o trabalho já feito garantiu uma bela poupança para o futuro.

O seguro-desemprego e a estrutura de apoio equivalem a felizes férias remuneradas até encontrar o novo trabalho. O emprego que se acha depois dessas férias é compatível com o desenvolvimento da ciência e da técnica. Já tem toda a educação que precisa. Se adoece, é socorrido por bons hospitais.

Numa frase: lá, a flexibilização das relações trabalhistas casa-se harmoniosamente com a segurança do trabalhador.

É a tal da flexi-segurança. O sucesso que a flexi, para os íntimos, vem tendo na Dinamarca, estimulou os demais países a fazer o mesmo. Em todos os lugares, flexibilizam-se as relações de trabalho, destroem-se os sindicatos, apelida-se de “atrasado” qualquer movimento de defesa do ser humano ameaçado pela destruição ambiental e pela maluquice gerada pelo desemprego ou pela superexploração do trabalho.

Todos se julgam Dinamarcas. Se dá certo lá, onde antigamente havia algo de podre, segundo Hamlet, vai dar certo também aqui, onde temos políticos sadios e bem nutridos, pensam os incautos.

Mas aqui o trabalhador expulso do emprego extinto não tem garantia de manutenção de renda, a não ser um seguro-desemprego que míngua rapidamente, bem antes de arranjar a próxima colocação.

O caráter semi-periférico da nossa economia e o limitado desenvolvimento científico mostram que o desempregado de hoje não vai para plantas novas, mas para empregos piores, com remuneração mais baixa. Ou cai na informalidade, que fica na penumbra entre a clandestinidade e o crime. Aqui não se festeja mais gente chegando à riqueza, mas mais gente chegando à pobreza.

E, trabalhando ou não, o cara fica doente e não tem socorro. A estrutura de saúde pública é um espanto de incompetência e falastronice. A conseqüência disso é que temos contratos e leis dignos da Dinamarca e respeito aos trabalhadores digno de Uganda.

É por isso que se diz na Europa, onde a flexi-segurança já é norma, que no Brasil e na América Latina, para onde ela está vindo, acelerada, vai se chamar, naturalmente, flexi-insegurança. É como tem sido chamada nos países que agora está quebrando na Europa, os tais PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha).

Quando a grita do povo ficar ensurdecedora, os luliberais vão perguntar onde é que fica o botão de desligar essa gente mal-agradecida. A imprensa não pode expor uma só das inúmeras contradições do establishment pequeno-burguês social-democrata dominante que é fustigada até pelo Chefe, imagine pelos áulicos.

Como não há botão, só restará reprimir e encarcerar. Explica-se porque já há tropas de elite e cadeias mais amplas.