BIANCHON por hamilton alves / ilha de santa catarina

Bianchon, na obra de Balzac, é o estudante de medicina que conhecemos na novela “O pai Goriot”, um dos momentos culminantes na obra do grande escritor.

Sabemos que, na hora da morte (ou muito doente), Balzac o chamou para socorrê-lo.

Delirava? Ou enlouquecera?

Creio que não.

Um escritor às vezes imprime vida de tal forma as suas criaturas que as concebe como se fossem de carne e osso.

Na minha obra literária, embora autor de quatro novelas (uma das quais editada há pouco), não me acode um único personagem a que pudesse atribuir uma existência real como Balzac fez com Bianchon, a ponto de, no momento mais crucial de sua vida, convocá-lo para que lhe amenizasse o transe por que estava passando da vida à morte.

Difícil é, para o leitor, sair das páginas de uma novela dessa grandeza sem experimentar que os personagens, a maioria deles, ganhem vida em sua imaginação – e Bianchon, ainda estudante, na pensão Vauquer, na rue Saint Genovève, na Paris do século XIX, é seguramente uma dessas que permanecem vivas ou assim se tornam para nós.

Não será, apenas, o caso de Bianchon, que mais tarde aparece, já médico profissionalizado, nos demais romances do escritor, mas de tantos outros que se recolhem à grande literatura, como, só para citar alguns, Madame Bovary, Ana Karênina, Mildred e Phillip (de Servidão Humana, de Maughan), Conceição, de “Missa do Galo”, de Machado de Assis, Gustav Aschembach, de “Morte em Veneza”, de Thomas Mann, para não falar de Dom Quixote, que se alçou talvez às alturas na fantasia popular, mas, no caso dele, bem diferente dos demais citados. Quixote incorporou-se na memória coletiva como símbolo da grandeza do heroísmo sem causa ou de uma causa produto de uma loucura.

Com Madame Bovary, (como contei numa breve narrativa), sonhei que tivéramos um encontro num bar de Santo Antonio de Lisboa. Súbito, surgiu, não sei de onde, a figura de um de seus amantes, o que lhe havia recusado todo o apoio no seu final dramático.

Chamou-me a atenção para sua presença ou aproximação nefasta (ela o detestava) e tivemos que sair sem dar-nos a perceber.

Sonhar com uma criatura ficcional é o mesmo que lhe imprimir vida (o sonho é uma forma, ainda que precária, de expressá-la).

Quando Balzac apela por Bianchon, na hora da agonia, reflete bem o que se passa em seu espírito. Na visão dele, fascinado por esse personagem, ou sabendo-o vivo como quem mais vive, considera-o como o médico (produto de sua imaginação), que lhe pode trazer conforto aos últimos momentos.

Bem curiosa, sem dúvida, essa relação entre realidade e ficção, em que, em certos momentos, torna-se bastante difícil lhe traçar os limites.

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