BOTÃO DE DESLIGAR por alceu sperança / cascavel.pr

Rei não faz campanha.

A não ser na ficção.

Ou na Espanha.

***

Uma antiga história-em-quadrinhos (The Wizard of Id), da dupla Brant & Parker, mostra-nos um rei, talvez concorrente do espanhol, em campanha eleitoral. O cruel reizinho dos quadrinhos vai à sacada do palácio e começa o blablablá: – Votem em mim e eu prometo plano de saúde grátis para todos! (aplausos) Casa de graça! (vivas) Roupa de graça!(hurras) Tíquetes-refeição de graça! (todos de joelhos) E empregos para todos!

Diante da última promessa, a plateia emudece. O rei, surpreso, pergunta se alguém tem algo a dizer. Aí um súdito mais descarado ergue-se e pergunta: “Se nós vamos ter tudo de graça, pra que trabalhar?”

A Dinamarca montou o mais invejável sistema de justiça social possível nos marcos do capitalismo. Algo de muito sadio naquele reino. A perspectiva do sujeito ficar sem trabalhar por conta do desenvolvimento tecnológico não dá tremeliques de medo, porque o Estado-pai acolhe os desempregados sob suas generosas asas e o trabalho já feito garantiu uma bela poupança para o futuro.

O seguro-desemprego e a estrutura de apoio equivalem a felizes férias remuneradas até encontrar o novo trabalho. O emprego que se acha depois dessas férias é compatível com o desenvolvimento da ciência e da técnica. Já tem toda a educação que precisa. Se adoece, é socorrido por bons hospitais.

Numa frase: lá, a flexibilização das relações trabalhistas casa-se harmoniosamente com a segurança do trabalhador.

É a tal da flexi-segurança. O sucesso que a flexi, para os íntimos, vem tendo na Dinamarca, estimulou os demais países a fazer o mesmo. Em todos os lugares, flexibilizam-se as relações de trabalho, destroem-se os sindicatos, apelida-se de “atrasado” qualquer movimento de defesa do ser humano ameaçado pela destruição ambiental e pela maluquice gerada pelo desemprego ou pela superexploração do trabalho.

Todos se julgam Dinamarcas. Se dá certo lá, onde antigamente havia algo de podre, segundo Hamlet, vai dar certo também aqui, onde temos políticos sadios e bem nutridos, pensam os incautos.

Mas aqui o trabalhador expulso do emprego extinto não tem garantia de manutenção de renda, a não ser um seguro-desemprego que míngua rapidamente, bem antes de arranjar a próxima colocação.

O caráter semi-periférico da nossa economia e o limitado desenvolvimento científico mostram que o desempregado de hoje não vai para plantas novas, mas para empregos piores, com remuneração mais baixa. Ou cai na informalidade, que fica na penumbra entre a clandestinidade e o crime. Aqui não se festeja mais gente chegando à riqueza, mas mais gente chegando à pobreza.

E, trabalhando ou não, o cara fica doente e não tem socorro. A estrutura de saúde pública é um espanto de incompetência e falastronice. A conseqüência disso é que temos contratos e leis dignos da Dinamarca e respeito aos trabalhadores digno de Uganda.

É por isso que se diz na Europa, onde a flexi-segurança já é norma, que no Brasil e na América Latina, para onde ela está vindo, acelerada, vai se chamar, naturalmente, flexi-insegurança. É como tem sido chamada nos países que agora está quebrando na Europa, os tais PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha).

Quando a grita do povo ficar ensurdecedora, os luliberais vão perguntar onde é que fica o botão de desligar essa gente mal-agradecida. A imprensa não pode expor uma só das inúmeras contradições do establishment pequeno-burguês social-democrata dominante que é fustigada até pelo Chefe, imagine pelos áulicos.

Como não há botão, só restará reprimir e encarcerar. Explica-se porque já há tropas de elite e cadeias mais amplas.

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