ENGANO – de tonicato miranda /curitiba

um telefone brota do silêncio balançando meu olhar/trinados no ar concedem cara aos olhos do susto/

borboletas me mordam/quem fala?, diz a voz vomitando da garganta o marrom da surpresa/

distante 1000 km o outro som demora dois micros segundos para se associar à mente receptora/

é a memória imprimindo no HD em contraluz o corpo imagem da voz logo reconhecida/boa noite! e a voz explicita o que não é mais preciso/agonia-me agora que ela se apagou da caixa de metal o seu mutismo/uma cachaça é preciso degustar para a intransigência da notícia/alguém diz que vem/meu corpo mais do que minha vontade não querem ser hospedeiros/levanto-me caio na noite como quem cai de um penhasco/sorte que o despenhadeiro tem apenas metro e meio/torço o tornozelo da arrogância/mendigo uma lástima/ninguém para dá-la/ninguém para aliviar e agora sou mal/talvez assassine alguém naquela esquina/talvez me jogue debaixo de um trem/fuga da fuga, pois aqui não passam estes monstros de ferro e desespero/hoje não é noite de assassinos e suicidas/melhor entrar num cinema e ver um velho filme de Godard/correndo com carros alucinados pela cidade/melhor mais dois goles de cachaça ou um malbec de Mendoza caso sobre algum para isto/para isto vou ligar de volta/enxotar o susto com meus ouvidos completamente tamponados de vozes distantes/desculpe-me; foi engano.

Uma resposta

  1. Muito, muito boa esta tua prosa poética frenética e lúcida, querido amigo Tonicato. Muito boa, mesmo.
    Abraço da
    Zuleika.

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