Arquivos Diários: 8 abril, 2010

OUTONO de philomena gebran / curitiba

Sei que o outono

chegou

Não porque o tempo

passou

Não porque a cidade

esfriou

Não porque a chuva

chegou

Não porque o vento

soprou

Não porque a montanha

embrumou.

Sei que o outono

chegou

porque meu flamboaiam

chorou


ÔNTICO de joão batista do lago / são luis



Onde me encontro no teu mundo,
Onde o caos que organiza sobras (e),
Que desvela a lamparina dos dias,
Que revela a ventura de não me ser-te,
Que transgride o ardor da ânsia de viver a
Eternidade de sempre ser o eterno ser?

Não me sei como teu outro na desventura do mundo,
Nem me sei tranquilo no verso escondido, que soçobra das
Noites claras e mal dormidas, um silenciar agudo e miserável,
Conjugando verbos sânscritos pelas noites que me varam,
Que me açoitam e vergastam a alma perdida de todos os tempos.

A arte em mim é um mundo possível!
É lá que guardo todos os meus gritos,
Todos os meus silêncios,
É lá que se me faço guerra,
É lá que se me vejo: ser da paz.

Meu mundo – de existência concreta e múltipla –
Vagueia pelos interiores recônditos,
Ignoto, incógnito…
Existente no âmago mais profundo e íntimo de me ser
Apenas um na poeira do tempo e do ser.

TRANSIFIGURAÇÃO por lucas paolo / são paulo


Urubu bumba cá em meus olhinhos salteadores que pululicam fora das órbitas. Obturação obtuariosa. Maldito zumbadezum e creque de dente: biquinho bonitinho retira restinojos ratueirados de meus dentes. Pra ele: nata amarelada do leite. Pra mim: espinho da rosa o rosado mamilo que me sangra esverdeado. E a estátua sempre chora e chora liquefeita aguardente: pro santo! Ave Maria! A dissonância disacordiosa me mantém no transe. Noite Transfigurada. E pesa em delongadas iminências de finalização. E nada. Nada e nada e nada e nada ena da enad a enada… e dou-me em mim e não mais sozinha, o ataúde de Maldonado recebe uma visita tardia. O sono desvelado e a eterna solidão. Meu velório sepulcral sepultado por um rapazote indistinguível. De cabelo encaspado e casacão, a mão direita já se figura no pescoço e a carótida escorrega. Dedão no pomo de adão e o esganamento inerme. Um beijo e a língua arroxeada que lambe fora e marca a alvura cadavérica e as mordiscadas na bochecha flácida. Purê de batata e a mãozinha leprosa escorrega pelo polido terno azul-escuro e invade as calças, apalpa as nádegas, enfia dedos e a cabeça porco espinho em roçadura com a gravata mostarda. E, de repente, as mãos unem-se em reza e o homenzinho firma-se no genuflexório e põe-se a chorar e chorar e chorar as lágrimas que parecem não ser suas. Eu me ponho a seu lado, cerimoniosa. A carpidação acaba eu sufoco em abraços o estranho e desvaneço seu rosto fincado por minhas compridas unhas negras com beijos lancinantes e ele ri e ri e ri eriçado pelo pavor. Na jocosidade gargalhosa, reconheço Maldonado. Ele me leva pra casa, me estabefa com ódio. Até o cair do sono doce sono primaveril.