Arquivos Diários: 11 abril, 2010

CRUSOÉ por hamilton alves / ilha de santa catarina

Lembro-me que, quando certa vez fiz esforço para fazer a leitura correta, em inglês, desse livro (ou melhor, desse personagem) de Daniel Defoe, “Robinson Crusoé”, Silveira de Souza, sempre simplificando as coisas, dizia-me:

– Leia Crusoé assim como se lê mesmo.

O encontro com essa obra de Defoe deu-se, para mim, de forma inusitada. Foi um acontecimento como o seria para qualquer outro que o encontrasse e o lesse em idênticas circunstâncias. Encontrei um exemplar, já velho, sem a capa, sem as primeiras páginas, num cesto de minha mãe, onde guardava petrechos de costura, carretéis de linha, tesoura, dedal, coisas desse tipo.

Empreendi a leitura de um jato, tal a forma com que a estória me enredou do começo ao fim de forma fascinante, com o naufrágio de Crusoé nas costas de uma Ilha, de como se salvou, de como marcava o calendário ou os dias que passava na Ilha fazendo um sinal de corte a canivete num tronco de árvore, de como construiu uma casa no alto para escapar ao risco de um animal feroz, de como voltava ao barco que naufragara para recolher coisas de que precisaria se utilizar na sua nova forma de vida e o fato mais empolgante, totalmente imprevisível, de seu encontro com Sexta-Feira, que desde então passou a ser seu único amigo na Ilha, de quem primeiro descobrira pegadas, constatando que não estava só ali.

Praticamente, essa obra de Defoe foi a primeira da literatura clássica (ignorava isso naquela época, entre meus doze ou treze anos), que li com um frenesi que dura até hoje. Foi, na verdade, um fato novo em minha vida meio insípida da adolescência (não tão insípida assim, pois o gibí à época era a minha leitura predominante).

Saí desse livro com outra visão de todas as coisas. Algo que me marcaria para sempre, de que jamais esqueceria.

Crusoé, Sexta-Feira, a sobrevivência na Ilha, a espera de que um dia pudesse encontrar algum barco que o descobrisse ali para levá-lo de volta à civilização, os fatos corriqueiros ocorridos na Ilha, tudo isso passou por muitos anos (até hoje) a ser um motivo de meu encantamento.

Mas o que me fascina ainda agora foi a forma como afundei nessa estória de Defoe, num quarto mal iluminado por uma lâmpada fraca, sem janela, em que levei dois ou três dias envolvido com as peripécias de Crusoé e seu amigo Sexta-Feira. Essa foi, sem dúvida, a parte da estória que até hoje me acompanha como um marco de fantasia sem igual.

CARTA MAIOR: EDITORIAL (convenção dos tucanos)

O apelo de uma candidatura que veio para ‘unir o Brasil’, embutido no discurso de José Serra, neste sábado, e embalado como ‘novidade’ nas manchetes dos jornalões, não poderia ser mais artificial. Primeiro, porque pretende tirar de Lula justamente o seu apanágio, um governo de livre transito entre vários setores da sociedade. Algo que até os adversários reconhecem e os empresários –para desgosto da esquerda— festejam. Segundo, porque esse traço de governo não está ancorado apenas na personalidade conciliatória do Presidente, mas decorre de avanços sociais e econômicos reais que, de fato, permitiram uma maior repartição da riqueza criando um sentido de pertencimento raro numa sociedade excludente. De onde os estrategistas do candidato demotucano pensam que vêm os 80% de popularidade de um governante atacado e hostilizado sem trégua pela mídia que os apóia? Terceiro, porque não poderia haver algo mais imiscível do que a idéia de ‘união’ e o prontuário arestoso de José Serra –um tucano rejeitado até por seus pares, famoso pela intolerância e a perseguição implacável a adversários e jornalistas; alguém cujo ferramental político sempre foi a ação soturna regada a dossiês e denúncias plantadas na mídia. Como, enfim, aquele que rachou o próprio partido para impor seu projeto personalista de poder, poderá convencer o Brasil que veio unir o país derrotando Lula?

(Carta Maior; 10-04)

VOLTANDO DO INTERIOR DA BRASIL de tonicato miranda / curitiba


para Jane

longe de casa, na estrada distante

entre urubus e pombos desconhecidos

voando rasante sob o sol escaldante

vou singrando a pele do sertão Brasil

entre curvas e retas, verdes e barros

a saudade pulsando o peito e a camisa

sem chuva fina, nem vento, nem brisa

a curiosidade do olhar rodando o pescoço

para ver a casa da fazenda tomando sol

nua e branca, toda exposta em pele e osso

minha voz tão muda, quilômetros depois

balbucia teu nome como quem faz uma reza

triste pensar como as pessoas viajam tão sós

vida estrangeira no próprio país, vida lesa

oh saudade sem remédio, sem receita ou bula

não bula comigo assim, tira da boca o travo

laranja azeda chupada na beira da estradinha

rumar pra casa voltando ao doce e ao amargo

é mais que preciso, é tudo que esta vidinha

deseja de nós ao ouvir a voz do coração

São José do Rio Preto

9/8/2009.

DIÁRIO DA SOLIDÃO: “Ao pescador Wagner Itanhaem” – de ewaldo schleder / ilha de santa catarina

SONETO AO MAR II

Wagner Itanhaem, pescador

.

No mar me alivio,
Com o mar me cofesso,
O costão é minha alegria,
E a puxada do peixe, eu venero…

Suas límpidas águas a navegar,
linhas ao fundo a arremessar,
escutar a melodia de suas ondas
tocar a areia a beira mar..

Navegar junto a suas lajes,
e ao fundo mergulhar,
querer descobrir seus mistérios…

e o homem a te maltratar,
jogando sua podridão e seus desejos,
e eu na praia a lamentar e chorar


.

Ao pescador Wagner Itanhaem

o pescador

(na linha o anzol)

risca o horizonte

e fisga o sol

OUTRA FACE DO MAL por zuleika dos reis / são paulo

Um dia desses, alguém que não sei – há várias pressuposições – armou-me, nas sombras, uma cilada, visando desestabilizar minha relação com outra pessoa. E o conseguiu, plenamente, talvez por saber onde estava a minha brecha na alma, porque eu reagi exatamente de acordo com o que este ser, que agiu nas sombras, esperava. Com a minha reação institui-se uma Grande Sombra entre a minha alma e a alma daquele outro ser profundamente amado.

Seria simples maldizer este ser que agiu nas sombras, dizer que ele é o mal – logo eu sou o bem, no caso, o bem sacrificado pelo mal. Foi o meu impulso primeiro, o meu impulso natural julgar assim.

No entanto, depois de passados os primeiros dias da dor mais acerba e irremediável, compreendi: Não houvesse na minha alma a tal brecha, por onde a ação daquele ser que agiu nas sombras poderia penetrar?

Por causa dessa brecha na minha alma, onde foi plantada a semente de uma dúvida espúria e terrível, acabei por acusar  um ser muito amado por algo de que ele era absolutamente inocente.

Agora, diante do estrago incomensurável, só me resta ficar à espera de um perdão que não sei se algum dia virá.

Escrevo estas coisas apenas para me refletir no espelho onde poderia projetar a imagem do rosto do bem, um rosto do bem duramente atingido pelo mal. Não posso ver-me assim, nem projetar sobre o outro a face do mal.

A vida vai muito além dos rótulos. Antes de crucificarmos ao outro, melhor seja crucificarmos a nós mesmos ou então instituirmos um Jardim do Perdão, no qual estejamos todos com a Face da Inocência original.

.

Na tarde de 23 de março de 2010.

ALGOZES de joão batista do lago / são luis



O tom democrático que deblateras

Saciando tua sede de ditadura

É como a voz dos canalhas: vituperas

Sobre a liberdade de todas as gentes

Que passam a vida como indigentes

Na solitária indução da utópica

Sensação de serem livres

Teu pusilânime discurso

Esconde os horrores de 64

Quantos corpos há [ainda]

Na clandestinidade cemiterial

Escondida nos quintais da dominação?

Dezenas!

Centenas!… Ou milhares?

Os que morreram pela dignidade

São anjos que guiam a paz e a liberdade

Já, vocês, senhores donos do mundo,

Como canalhas e vagabundos

Insistem em esconder os cadáveres:

Produtos do cálice de fel ofertado

Sob a tirania de algozes encomendados

Não findará a vida

Sem que antes seja resgatada

A glória de ver nossos mortos

Enterrados em nossos quintais

Lá, seus ossos produzirão flores e rosas

E nos dirão:

A liberdade é a virtude suprema do ser

MARILDA CONFORTIN e seus POETRIX / curitiba

FINDO PRECONCEITO

No caixão,

Pretos e brancos

Viram cinza

POBREZA DE ESPÍRITO

Quem tem dinheiro

e não tem valores,

é um miserável.

IGUARIAS

Olho no olho

Língua al dente

E o corpo todo ensopado

USUFRUTO

Entrego-te meu corpo

E te asseguro o direito

De gozar plenamente

ARMADILHA

Alheia à teia

O moço almoça

A moça