JUSTIÇA? MAS QUE JUSTIÇA? por vera lúcia kalaari / portugal

É inconcebível quando se diz que se pretende uma justiça moderna, nas decisões muitas vezes importantes que alguns têm que tomar , e que nós tenhamos tantas vezes esta tendência em nos referirmos a castigos bárbaros os infligidos no Terceiro Mundo ,,quer porque nos julgamos bons cristãos ou porque nos cremos bons muçulmanos, quer ainda por supor sermos superiores.

Eis-nos chegados ao extremo das respostas explicativas que não influenciam em nada a nossa tranquilidade, perante as nossas mesas bem abastecidas, fonte do nosso trabalho de defensores, não para ajudar o povo a melhores compreensões, educativas ou outras, mas contribuindo, isso sim, para a sua exterminação. Devemos até, segundo alguns entendidos, espalhar o terror a fim de causar temor, o que fará dos países ditos civilizados os super-poderosos. E, muitas vezes, nas decisões irreflectidas que se tomam por esse mundo fora, ditadas em reuniões regadas  com  deliciosos vinhos tintos, fruto de belas uvas cultivadas em campos modernos, encantados com as honras que nos são atribuídas por sermos civilizados, acabamos por atingir uma certa estatura material traduzida por numerosos ‘’abichanços,’’ causadas, em si mesmas ,pela miséria em que mergulhamos esses mesmos povos. E eis que nos consideramos heróis da justiça/ carrasco e não da justiça educadora, correctora e protectora.

Mas de facto onde está o verdadeiro ladrão? O nosso fim aqui não é defender o larápio mas denunciar tantas condenações severas que podem chegar à amputação de membros, por vezes pelo roubo duma simples galinha, que servirá, quem sabe, para matar a fome a alguém. Porque saciar um estômago faminto, eliminando o criminoso,  apontar com o dedo o pobre vadio aniquilado por mil males da sociedade moderna ,é em si mesmo um problema. Condenar um ladrão profissional a pena de prisão que mais tarde o vai educar e orientar ,é   proteger uma sociedade que temos por missão guardar e não destruir. Mas será isso que se faz? Ponho as minhas dúvidas.

A própria indiferença que temos do que se passa neste mundo onde se praticam tantos excessos, faz-nos esquecer o que  acontece dentro das nossas portas. Condeno sistematicamente e energicamente todos os roubos, mas deploro amargamente que tantos saiam impunes por roubos muito maiores. A sociedade  moderna é falsa em todas as escalas…Desde o pequeno ladrão, ao burguês, senhor do nosso bairro, tão bem assente no respeito quase unânime das massas, mas que não deixa de ter acções pouco louváveis se quiséssemos investigar a fundo a sua vida. É uma verdade que o maior ladrão dos ladrões, é o homem com possibilidades monetárias. Inspira tanta confiança que nem ousamos suspeitar dele. :É o Presidente que esvazia o Cofre Público em benefício das suas gavetas…É o Ministro que faz o mesmo…É o Director que, em pouquíssimo tempo, embora o seu salário não o permita, constrói vivendas em nome da prima ou do irmão…

Ladrão é aquele Perito Contabilista que não se priva de engolir cêntimos de um modo lógico nas suas escritas…Ladrão és tu, Funcionário, que deténs o poder das Caixas do Estado e que vais aí abasteceres-te à tua maneira porque encontraste técnicas de roubo que escapam e escaparão ainda…Ladrão és tu que dás trabalhos do Estado a particulares pagos com lucros de 100 % porque obténs assim um ganho de 50%…

Ladrão és tu, Embaixador, que tendo esvaziado os cofres simulas o roubo destes últimos… Ladrão és tu que aumentas as tuas contas de despesas de representação enquanto não ofereces senão o que mais barato vem no cardápio…Ladrão és tu que vives no meio de facturas certas mas falsas… Ladrão és tu que surripias destramente os menos ágeis…Ladrão és tu que brincas aos Advogados  e que não te privas de tornar mais pesado o dossier dum inocente, em detrimento de fundos que encaixas…Ladrão és tu, Procurador, que faz desaparecer o dossier dum culpado teu amigo, mediante alguns tostões…Ladrão és tu, Presidente do Supremo Tribunal que se serve da autoridade dos seus galões para arrancar a um pobre iletrado os seus terrenos…Ladrão és tu, Director da Alfândega que não hesitas em fazer entrar mercadorias em teu nome, isentas assim de todas as taxas e que metes calmamente no bolso chorudas gorjetas…Ladrão és tu, rico comerciante, que rouba em pequenas despesas as grandes lojas, graças à tua cumplicidade…

Eis aqui uma série de exemplos de ladrões a que podemos chamar ‘’ladrões de ouro’’ porque estão muito bem instalados .Estas citações são verdadeiras. E ainda resta uma grande lista… Nos quatro continentes deste mundo civilizado. Uma vez, de quando em quando, um deles é apanhado… Não pela Lei… Mas antes por ajustes de contas entre descontentes, invejosos e outras causas: desentendimentos, traições…

Está já provado que se chegou ao extremo de, nalguns países, fomentadores de golpes de Estado se aproveitarem  de ladrões para derrubarem os regimes.

Que seria  destas sociedades civilizadas, se acontecesse o mesmo que em países do Terceiro Mundo, onde até se amputa uma orelha a um jovem de 17 anos, por ter roubado…uma borracha?

Não há dúvida: Este nosso mundo, é mesmo um mundo cão.

Uma resposta

  1. Querida amiga: texto soberbo, absolutamente verdadeiro.
    Abraço grande
    Zuleika.

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