QUADRO DESCRITO PARA CEGOS – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr


Botticelli: O Nascimento de Vênus (1485) 1,72 x 2,78 m – Galeria Degli Uffizi, Florença.

Está no mar

quase tocando a ilha.

E é como uma música longínqua

o olhar distante de Vênus.

Sua nudez tem gosto salgado de lágrimas secas.

Seus cabelos claros e imensos

parecem ter movimento marinho, de algas nas marés.

Uma mão, como folha de parreira cobre

a maçã sensual do coração.

A outra com seu cabelo esconde o púbis,

um esconder que é mais uma carícia velada.

Seus pés sentem o prazer de tocar a borda e os drapejados

de uma concha,

sobre a qual está

com leveza de asa sobre o corpo da borboleta.

No ar, contra seu vento

Zéfiro sopra Vênus, com um hálito de maresia

não o sopro que apaga, nas o sopro que reavive.

Seu corpo flutua

e sustenta asas apenas decorativas.

Seu véu enleia, mas seus membros o dominam

como mão de pescador, a rede.

Clóris o enlaça

e trança os dedos de junco em sua cintura.

Flores brancas em torno deles,

cheias de perfumes mornos pelo sol mediterrâneo.

Ambos têm pés de pavão.

Ante às árvores,

com odor de jardins

Flora vestida de primavera.

Vinda numa dança

de gestos musicais,

espera Vênus tocar a terra

para cobrir sua nudez.

Mas o manto, parece, se recusa

esconder algo tão belo.

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