Exercício pornofinia PULP nº 8 – por ennio villavelha



“Hoje em dia, o campo da ficção está coalhado de narrativas sobre sensibilidades de uma criança que chega à maioridade numa granja de frangos, ou sobre uma prostituta que despe o glamour de sua profissão”.

John Cheever

“Um pouco mais e eles serão cúmplices. Ela vai lhe explicitar desejos, dos mais secretos. Vai lhe falar dos seios, das fendas, de sexo. Ela vai lhe excitar a textura, dar vida… Sua matéria. Vai lhe encher de fantasias, de gozo, de carnes. Ela vai lhe contar o proibido, o imoral. Vai lhe falar o que as bocas lavadas calam com pudor. Ela vai se despir da vergonha. Um pouco mais e eles serão cúmplices, ali mesmo, sobre a mesa da escrivaninha. A mão da mulher alisa o papel em branco. Mas recua”.

Cassandra Rios

Ser uma puta cheia de encantos, esse é o atributo para continuar participando desta vida. Puta é uma palavra de muito respeito, difícil de condicionar e pasteurizável com facilidade por bocas com hálito de cu por seres humanos com cabeça de porco e, também, por todos aqueles de banho tomado que usam lavanda com essência de rosas brancas. Palavra que nunca se aproxima do impiedoso démodé; mesmo assim fica embaraçoso se referir à pátria descrevendo-a dentro do que equivale uma puta, ou ter que descrever a um pai a qualidade de sua filha através de. Isto é, a preocupação aqui vai de peso a peso, pois cada um conhece os demônios que carrega e as salas que frequenta. Mas todos bem sabem que não há como definhar argumentações etimológico-faggot-cristão-analítico encima de uma puta, quero dizer, encima do vocábulo puta. Puta, puta,… Que gostoso.Muitas vezes as pessoas se quer desconfiam de determinadas lobas…

Saber vender é poder se vender, e é isso que a aristocracia e a plebe procuram por sobre a nata de seus desejos, pessoas vazias, mas com a carapaça bem grossa como um hímen de égua.

Neste quadro se encaixa Mina, com este nomezinho miserável que é uma estranha abreviação de Mariana, o tipo da mulher feia bonita. Com notório conhecimento do poder da lábia-majore muxibenta e pelancuda. Só sai de casa com calças que a deixa como um pedaço de carne embalado a vácuo, para poder desmontar o magistrado, o pessoal da obra, mulheres casadas insatisfeitas e todo o resto do mundo, inclusive os cães se dão sobremaneira muito bem com o perfume natural dela mesclado ao Chanel n° 5 fake. Carrega um curioso mullet preto que parece ter saído da cabeça do MacGyver, só faltando o papel de balinha o chiclete mastigado e então confeccionada uma bomba H.

Admite só a necessidade do vento encarregado de soprar em sua direção, o resto está garantido, o resto são insignificâncias que acabam revelando que todo homem e mulher tem o seu preço, exibindo um ácido corrosivo com uma segurança de dar nojo. Uma nódoa encima de qualquer coisa que valha a ética popular.

Diametralmente oposta à esquina onde reside Mina, funciona uma padaria bem limpinha com várias qualidades de pessoas e quitutes mil. Pendurado na parede adjacente ao microondas um quadro onde se vê a foto de um homem com o semblante áspero, barba e testa compridas, no seu paletó riscado à posteriori uma inscrição ilegível e impronunciável, carimbada roxa no sépia do papel e o nome Albert datado de1896 a 1927. Imagem deslocada estranhamente naquele espaço, porém notável até para a pessoa mais LSD25 do mundo. Notável. Nunca acendeu tanto a válvula da curiosidade volátil como foi com Mina. Aqueles olhos claros não identificáveis nos tons da foto. Serão azuis? Verdes? Ardósia talvez. Que ázigo era aquele um! Que tipo miserável com o olhar tão cheio de candura e segurança. Entretanto tratou de procurar os eufemismos antes de dejetar perguntas a esmo. Isso sem ter constatado que o dono da padaria e também dono da foto já manjava o rosto dela há alguns dias e sentia certo frescor tedioso impregnado, cara de quem vira a noite e sempre pega a primeira fornada de pão; para não comer. Além dos bicos dos peitinhos, além dos bicos dos peitinhos sem sutiã naquele frio matinal, toda porn gonzo, toda sexo propositalmente. Ohhhh que deve ter uma guilhotina entre as pernas, pensava o corajoso padeiro por desejar uma ferramenta tão perigosa ainda mais sob o domínio de uma mulher.

Repentinamente Mina perguntou para o primeiro que estava atrás do balcão que se aproximou:

Quem é aquele homem da foto?

Não sei não senhora, vou perguntar pro seu Ernesto – respondeu o funcionário.

Porra, você olha pra essa foto todos os dias e não sabe quem é? – retrucou, mas naquele tom “velhos amigos e a apenas um átimo de segundo te conheço”.

Ernesto punheteiro. Nunca se saiu bem com as mulheres. Sofreu com traições de suas namoradinhas na fase púbere. As gurias se cansavam por ter ao lado não um possível homem em formação, mas sim um amigo sonso com a libido de um maracujá de gaveta. Confuso a cada frase, a cada passada de mão um empreendimento arriscado. Sempre fora delgado e meio corcunda, cheio de tiques nervosos, mas não de todo irrecuperável. Depois de adulto passou a comer mais e de maneira melhor as mulheres, mas elas sempre se queixavam que seu pau era muito longo e fino demais, ”não mete tudo não se não você me empala”, isso aquilo e aquela conversa. Talvez por isso cunhara predileção por mulheres com cara de puta.

Quando assumiu a padaria que era do pai, adquiriu uma mania para se divertir nos momentos que ficava ali sozinho, um estranho hábito de abrir a gaveta da caixa registradora para soltar traques fedegosos encima do dinheiro, depois a fechava com um chute comedido para não quebrá-la.

Olhou incontidamente aquela cena e logo se aproximou:

Bom dia!

Oi quem é aquele homem da foto?

Olha, eu perdi o rumo genealógico da minha família. Mas acho que era tio do meu avô, muito chegado, muito querido… Só mantenho essa foto ainda junto de mim porque um cara me ofereceu um dinheiro legal pela moldura, ele disse que voltava dentro de poucos dias, mas já passaram semanas e nada! Por sinal é uma moldura muito bonita. – respondeu Ernesto olhando fixamente para o rosto Mina como se dono fosse de um par de olhos de vidro. Nada de pestanejos.

Sem riscar um palito de fósforo Mina deixou evidente que tinha interesse naquele artefato vintage esquecido ali. Eurodólar, Cruzado, Libra, URV, HPV, nada distancia ou estraga seu interesse. Talvez igual a observar a massa de um bolo aviltar-se com vontade de comê-lo logo.

Seguinte, adorei o cara da foto e já que pra você é a moldura que interessa então que tal você me deixar levar foto?

MMMMMMM… Que tal a gente tomar um capuccino? Aí conversamos – respondeu.

Que tal a gente tomar um capuccino? Brincadeira! Eu quero uma cerveja, mais tarde, afinal a que horas tu sai?

A hora que você quiser!!!

Agora então! – vendo chover a exultação do peito de Ernesto.

Vou dar uma saída senhores, não deixem os pasteis esturricarem, o palmito é da Amazônia, nem falei… – gritou para o seu funcionário que ficou “enfeitiçado” com o naipe daquela singular, enxugou-a com os olhos tal qual seu patrão, porém discretamente, com certo pesar, como sempre fazem nesses lugares, não deu muita atenção para a origem do palmito, não mesmo.

Saíram da padaria sem perguntar nomes, tão resolvidos e tão assustadoramente rápidos quanto uma ejaculação precoce. Mina elaborou num instante o que fazer, onde fazer e o que fazer. Rumou obstinadamente para sua casa:

Adoro cerveja, só que to ficando uma barrigudinha.

Deixa ver… Bobagem, ta ótima – Ernesto já trincando suas náuseas.

Moro aqui pertinho, a gente pode tomar lá em casa mesmo se não for problema pra você. É?

De jeito maneira!

Parecia que já estavam cientes que foderiam como dois discípulos da putaria desregrada, vingança sexual contra si mesmos.

A penitencia acumulada pustulenta do prazer. É uma das virtudes dos excitados incontroláveis. Maravilha para o prazer imediato, maravilha para a enforcadora vagina que quer ser coagida num tribuno ao Nobre Arquiduque das Trevas, com dor e cólera.

Arreganha bem gostoso que é pra sangrar, tem que sangrar com socos – fermentou o pensamento do moço.Enquanto caminhavam, trocavam pequenos olhares envolvidos por frases suculentas. Imoralidades docinhas entre dois desconhecidos.

E configura-se então a particularíssima verdade universal. Eis aí mais ou menos o exemplo do instante em que todos traem diariamente uns aos outros, maridos e mulheres, beatas e padres, judeus ortodoxos e formigas, namorados e namoradas, poodles e menininhas. O calor sobe e só é preciso um motivo não pontual para que seja estabelecido um vinculo amigável tendencioso e se desenvolva uma relação velada, idiotizante e animal. E assim nos comportamos todos via de regra, sem exceções, neste sanitário social fodido e pastoso como um herpes-genital salobro. Há quem diga que a coceirinha é gostosa, quase como criar um bicho de pé.

Ao chegarem à casa de Mina, uma pilha de louça e nenhum copo esperando os recém sejam lá o que forem. Uma foto do Ronald Biggs 2×3 metros na parede dos fundos, garrafas, cordões-cheirosos, pezinhos de feijão plantados em latas de atum.  Sabor de casa de mulher solteira e desempedida dos compromissos jesuítas.

Seguinte, eu não sou do tipo que diz: Vamos entrando, mas, por favor, não repare a bagunça!.

Que isso, eu já percebi. Você tem um jeito bem…

…Bem o que, bem piranha é isso???

Foi o tempo de ressoar último acorde diminuto aumentado menor daquela voz, para que enchesse a boca dele com sua xoxota já sem calcinha, vestida até ali em uma saia curta de cetim magenta, e uma camiseta branca dos Miracle Workers. Deixou-o chupando, azeda ainda do suor e da porra de outrem da noite anterior. Enquanto a singeleza do capiau o fez pensar que era apenas precipitação de urina, de séquito de buceta. Há dias não via uma, então foi com sede, de maneira nenhuma anularia aquela situação quente, úmida. Estava gostoso ali. Sua língua não pararia. O bálsamo sexual chamou os órgãos para a foda. Um pé na cadeira e uma buceta projetada com vontade para frente, seguida de pródigas goladas nas cervejas quase que arrancadas da geladeira d’um lado, tomadas no gargalo mesmo.  Uma enfiada voraz, uma rolada maldosa, com tudo, quase na intenção de machucar – algumas leitoras sabem do que se trata – mas ela não deixou por menos, queria muito sentir por dentro um pau quente, não deixou de ser também para ela uma forma para aliviar a coceira causada por pequenos ferimentos.

Meteeee, meeeeeeeeeeeeeeeteeee, hummm, ouuuuuuuuuuuuuuuu, uaaraaa uou, uou. Pica, pica, pica, me pica vai, vai, come together right now over mêlée mete, te, ti, ti, ti… $%¨*&hjrg…

Depois de toda essa sistematização enfim Ernesto se voltou para o canto, enxugou as porras e o corrimento da donzela. Contemplou o post coitum, admirou.

Admirou.

. . . . .

Eeeeeee, e sobre a foto? Acho que seria uma boa se você ficasse com a moldura e tudo logo! Presente!

Caralho? Mentira?

Verdade!

Ai, muito obrigada!!!

Que isso. – falsa modéstia pairando.

Mina, realizou logo que a postura de Ernesto fora em demasia infanto-juvenil. Porra, o cara já tinha negociado a merda e me dá assim… Um malfeito! Partindo desta pequena serifa da personalidade de Ernesto, o subjugou ao valor de um quilo de merda – foi a primeira imagem que lhe veio naquele instante.

Vamos? – ponderou Mina.

Já?

Já sim, vamos lá buscar minha foto linda. Vou colocar naquela parede ali, do lado do Ronald Biggs.

Quem é esse aí?

Ninguém cara. Chega de questionário! – rebateu com uma raivazinha encantadora de puta que sabe ganhar fácil essas múmias com saco.

Vamos então. Olha que já deve ter pastel quentinho.

Delícia. Hummm. Eu quero comer uns vinte. Não, uns trinta!

Qual é o teu nome mesmo guria esfomeada?

É melhor eu dizer mesmo antes que eu morra de inanição. É Mina.

Mina? Tua mãe era criança quando te deu a luz ou era daquele tipo que gosta de ler as mãos dos outros, tem mandalas em todos cantos…

Nenhum dos dois. Meu nome é Mariana. E qual mesmo o teu nome, sujeito dos pastéis?

Ernesto. Prazer!

Pois é, o prazer se foi há alguns minutos! Mas foi um prazer sim, sem dúvida. – com esta rebatida sem sal mesmo.

Se eu notei?

É querido. – respondeu sebosa.

Em poucas semanas pastéis dados por afabilidade se transformaram em dinheiro, presentes, piranhagem. Gastos abruptos e desnecessários.

O pastel de palmito no pastel de cabelo e mais presentes, para a Vagina. Naquela altura não mais havia mulher/homem, só a buceta e o pau, nada de amor próprio em supino por todos os lados. Torrar tudo é quase gozar ininterruptamente, até dar febre!

O fosso do porém é que, tanto Mina quanto Ernesto não contavam com as contiguidades da cabeça do garoto que trabalhava na padaria (tanto para cima quanto para baixo, tanto para o bem quanto para o mal). Ali naquela função há uns dois meses antes de Mina tomar de assalto a única razão de ele ter permanecido no emprego: seu patrão Ernesto.

O garoto apaixonado por seu empregador, o que parecia particularmente estranho, pois enquanto jovem e aparentemente saudável, o veadinho poderia comer e ser comido por seus pares no mundo gay. Mas estava satisfeito, feliz mesmo por assim dizer, paixão ninguém escolhe como dizem as más línguas. Entretanto jamais deixou transparecer seu homossexualismo, mantido na mais misteriosa discrição.

Gerado ali um contrafeito. Além do que, dizem que os homossexuais-homens enchergam melhor que as mulheres, neste caso ao menos relativamente um pouco melhor que a moça em questão.

No final da manhã de um sábado qualquer Ernesto recrutou o garoto para ir até a casa de Mina entregar a ela o desjejum: pães, frios, uma cerveja escura. Ao se aproximar dela ficou surpreendido um bocado de si consigo, quase lhe sapecou um afrangalhado sopapo involuntário, daqueles que na meninice eternizam e efeminam o cidadão entre os amigos, mesmo que este já seja considerado o “ventilado” do bando.

Olha aqui sua vagabunda não pense você que sai ganhando todo mundo assim de lambuja! Conheço tua casca! Essa máscara aí cai fácil ouviu sua aproveitadora! – nesse momento endireitou-se e falou grosso, apesar da mediocridade do tema tratado.

Aí garotão, senta aqui – resvalou Mina respingando saliva.

Senta aqui é o caralho no seu cu! Puta rapariga! Sugadora!

Aaaeeh? – foi em direção a ele a todo vapor.

Olha some enquanto pode.

Vem se foder dentro de mim, vem… – novamente a moça fez troça com a irregularidade emocional do rapaz.

Vou!

E foi sim pra cima dela, inscrevendo nas costelas uma garfada que alcançou o osso perto do seio direito. Em prantos e com medo, enquanto Mina revidou, esmurrando-o acima da altura dos ombros, durante duradouros quinze minutos.

Iminente voltou para um diálogo de mão única, visivelmente abalado, com um papagaio dentro de si, falando até o que poderia vir a sentir por Ernesto.

Mina ouviu, mas não por piedade, ouviu por que lhe apeteceu ouvir, piedade é liberar uma rodada de boquete pra um grupo de adolescentes sem perspectiva de encontrar uma mulher fácil. Isso era nada além de curioso, e estranho de se ver.

… E é isso! – concluiu o garoto.

É isso. E você quer o que afinal? Olha aqui. Agora se você quer dar trepar com teu patrão diga você a ele!

Você quer é continuar usando o coitado do Ernesto. Isso não. Eu sou é doida por ele – falou o garoto

Doida?!!!? Demorou se consagrar, mas já liberou o canil com vontade eihn?

E daí, me deixa tá! Você fica aí achando que ganha todo mundo com essas camisetinhas de banda de rock e esse seu papo fiado? Aprendeu essa merda onde? Na classe-média? A mim não querida, eu não caio nesta armadilha não. Sou melhor que você.

Sou uma self-made girl babaca!

Vai tomar no cu com esse seu palavreado fodido. Você se fez foi sacaneando os outros. E eu não vou mais me trocar com você!

Ela o deixou seguir. Com a frieza da certeza de que ele não diria nada a Ernesto. Imprecou a si.

Ernesto, Ernesto!!! – Gritou o rapaz no corredor dos fundos da padaria. Sem que ninguém o visse. Mas a qualquer possível ouvinte transpareceria o cheiro do pavor, da coisa introvertida, passional.

O que foi rapaz, para de gritos aqui dentro da minha padaria porra! Ta ficando demente caralho! Logo você que nunca me deu problema, vai querer cagar agora? E que porra foi essa ai na sua cara, levou uma surra caralho?

Foi aquela mulher, aquela acomodada maldita. A sua Mina! Aquela mulher te usa como usa todos com quem ela cruza, aquilo é o Rei Midas das Sanguessugas.

Já estapeando e puxando o rapaz pela camisa

Porra, ela me espancou porque eu descobri que ela te usa, ela só faz isso, desde o começo.

Isso é problema meu.

Foram as pressas percorrendo o trecho não muito longo da padaria até a casa de Mina.

O guri nunca se dera a um desprazer tão fulminante e vergonhoso, sendo puxado pela camisa já suja de sangue, desmoralizado por um amor kitsch, dentro de seu mundo estava muita coisa arruinada, se doía por fora, mas dentro muito mais, por dentro eram ferrões de arraia conseguidos de maneira rápida e quase gratuita, uma idolatria por um babaca, concluiu penoso olhando por dentro e já atravessando cabisbaixo o portão de Mariana. Nesses momentos em que a cabeça enfraquece mas que não se mantem iludida para o mundo real, ou ao menos para o mundo que for imposto.

Ele veio me agredir! Ele foi lá te contar? – rosnou Mariana

Vem cá porra! Agora eu quero ouvir que porra de conversa é essa!!! Tu bate na minha mulher…

Ca-la-bo-ca – vociferou Ernesto, a cada sílaba um soco na nuca do guri.

Isso meu bem!

É isso nada! Que tu é puta eu sabia, quero na verdade… Só ta a gente aqui. – Correu e trancou as portas fechou as janelas e abriu uma cerveja.

Ta bom, esse cara aí é um veado! Ta doido pra cheirar seu rabo!

Tenho maior respeito pelos viados, até inclusive já comi alguns…

… Aí Mariana, já comeu um viado? – Há algum tempo Ernesto não sentia aquele calor, que só os sujeitos que transam com vacas e porcas sentem, dizem os zoofílicos que isso ocorre principalmente no furor de um final de comoção. E ele sentiu.

Não gente, por favor, não gente – garoto acossado por duas cobras, que se apreciavam dentro daquela situação.

Levantou com medo dos dois. Juntou-se ao Ronald Biggs por ali e pediu calma.

Não fica preocupado, esses machucadinhos saram logo.

Eu só to querendo de ir cara. Ela já falou qual era minha, e eu percebi também que sou eu quem estava sobrando todo o tempo – falou rasteiramente como quem pede perdão ao carrasco pelos pecados que não cometeu.

Era só excesso de zelo por seu objeto de amor que agora impetrava sua estada por mais um pouco, mesmo que de maneira não razoável.

Agora no infeliz momento onde não há pavimentação e que as piadas mais engraçadas se perdem com o ar rarefeito, resta a desesperança, pois esperança é coisa de gente manhosa, nessa altura ou é ou não é.

Enquanto os três semblantes assustados tentavam fugir dali, sem mais entender como aquele enxame havia se iniciado. Mina foi a única, com sua verve de rato atemorizado, a insurgir contra aquele desaforo esquizofrênico.

Reflexivas as seis garrafas que estavam perante seu derradeiro golpe de vista foram arremessadas numa lamborada só na cabeça de Ernesto. Com as rédeas do medo no comando. Ninguém ali imaginava onde findaria aquele momento, na fauna e flora intestinal pelo modo de como atolados em merda pura.

Cambaleante Ernesto retirou-se. Deixou Mina e o garoto confusos ainda mais. Após uma troca de soluços e olhares.

Nenhum deles ousou se mexer enquanto o revolto varava o portão.

Chegou em casa, lugar por muito não visitado. Foi ao encontro de uma flanela áspera socada dentro de uma almofada qualquer. Foi até cozinha e bebeu água direto da torneira, acendeu um filtro vermelho dando três fortes tragadas e o dispensou no chão sem o apagar.

Ernesto sugava da memória a lembrança de uma senhora que o havia elogiado dentro de sua padaria por um motivo qualquer relacionado à sexualidade. Lembrança que sempre o fazia derramar duas teimosinhas gotas de lágrimas. Orgulhava-se como a maioria das pessoas mesquinhas se orgulham de detalhes microscópicos.

O súbito fora reconhecer a paixão por Mina e pelo rapaz, não admitida a si mesmo na clausura do macho que gosta de outro, que em contrapartida adora a natureza feminina.

Olhou pra cima, abriu a boca no mesmo instante em que levou a mão com os punhos cerrados, com um calibre 22 já apertando o gatilho, e sentiu a bala sendo cuspida cano a fora até alcançar seu maxilar inferior.

Não surtiu o efeito devido. Espetou novamente a arma na boca, desta vez no fundo da garganta, balbuciando alguma coisa como: eu sei que você ta assombrado, mas vai dar tudo certo.

Mantendo-se sentado neste meio tempo.

Funcionou, mas levou alguns minutos para que a visão começasse a perder o foco até que de uma vez por todas enegrecesse.

O que era moral agora? Quem eram os amantes: Mina, o garoto, ou não também. Ainda teve a chance de pensar quão bom seria se as putas e enrustidos carregassem, mesmo que lá no cu-do-conde das vontades, o sentimento que jogasse fora o catarro cheio de condicionantes de personalidade, colocado diariamente em todas as correntes sanguíneas, para que ao menos estes ajudassem a lavar todas as almas absortas sofridas; tão bem quanto conhaque em boca de bêbado.

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