Arquivos Diários: 17 abril, 2010

CIRO GOMES arrasa com ZE SERRA – sao paulo

Serra ao ser descoberto “que detesta pobre porque e burro” processa Ciro Gomes.

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Chomsky: o que está em jogo na questão do Irã – David Goessmann/Fabian Scheidler – Freitag

Noam Chomski

Em entrevista à publicação alemã Freitag, Noam Chomsky fala da pressão dos EUA e de Israel sobre o Irã e seu significado geopolítico. “O Irã é percebido como uma ameaça porque não obedeceu às ordens dos Estados Unidos. Militarmente essa ameaça é irrelevante. Esse país não se comportou agressivamente fora de suas fronteiras durante séculos. Israel invadiu o Líbano, com o beneplácito e a ajuda dos EUA, até cinco vezes em trinta anos. O Irã não fez nada parecido”, afirma.


Barak Obama obteve em 2009 o Prêmio Nobel da Paz enquanto enviava mais tropas ao Afeganistão. O que ocorreu com a “mudança” prometida?

Chomsky: Sou dos poucos que não está desiludido com Obama porque não depositei expectativas nele. Eu escrevi sobre as posições de Obama e suas perspectivas de êxito antes do início de sua campanha eleitoral. Vi sua página na internet e para mim estava claro que se tratava de um democrata moderado ao estilo de Bill Clinton. Há, claro, muita retórica sobre a esperança e a mudança. Mas isso é como uma folha em branco, onde se pode escrever qualquer coisa. Aqueles que se desesperaram com os últimos golpes da era Bush buscaram esperanças. Mas não existe nenhuma base para expectativa alguma uma vez que se analise corretamente a substância do discurso de Obama.

Seu governo tratou o Irã como uma ameaça em função de seu programa de enriquecimento de urânio, enquanto países que possuem armas nucleares como Índia, Paquistão e Israel não sofrem a mesma pressão. Como avalia essa maneira de proceder?

Chomsky: O Irã é percebido como uma ameaça porque não obedeceu às ordens dos Estados Unidos. Militarmente essa ameaça é irrelevante. Esse país não se comportou agressivamente fora de suas fronteiras durante séculos. O único ato agressivo se deu nos anos 70 sob o governo do Xá, quando, com apoio dos EUA, invadiu duas ilhas árabes. Naturalmente ninguém quer que o Irã ou qualquer outro país disponha de armas nucleares. Sabe-se que esse Estado é governado hoje por um regime abominável. Mas apliquem-se os mesmos rótulos aplicados ao Irã a sócios dos EUA como Arábia Saudita ou Egito e só se poderá o Irã em matéria de direitos humanos. Israel invadiu o Líbano, com o beneplácito e a ajuda dos EUA, até cinco vezes em trinta anos. O Irã não fez nada parecido.

Apesar disso, o país é considerado como uma ameaça…
Chomsky: Porque o Irã seguiu um caminho independente e não se subordina a nenhuma ordem das autoridades internacionais. Comportou-se de modo similar ao que fez o Chile nos anos setenta. Quando este país passou a ser governador pelo socialista Salvador Allende foi desestabilizado pelos EUA para produzir “estabilidade”. Não se tratava de nenhuma contradição. Era preciso derrubar o governo de Allende – a força “desestabilizadora” – para manter a “estabilidade” e poder restaurar a autoridade dos EUA. O mesmo fenômeno ocorre agora na região do Golfo. Teerã se opõe à autoridade dos EUA.

Como avalia o objetivo da comunidade internacional ao impor graves sanções a Teerã?
Chomsky: A comunidade internacional: curiosa expressão. A maioria dos países do mundo pertence ao bloco não alinhado e apóiam energicamente o direito do Irã de enriquecer urânio para fins pacíficos. Tem repetido com freqüência e abertamente que não se consideram parte da denominada “comunidade internacional”. Obviamente pertencem a ela só aqueles países que seguem as ordens dos EUA. São os EUA e Israel que ameaçam o Irã. E essa ameaça deve ser tomada seriamente.

Por que razões?
Chomsky: Israel dispõe neste momento de centenas de armas atômicas e sistemas de lançamento. Destes últimos, os mais perigosos provem da Alemanha. Este país fornece submarinos nucleares Dolphin, que são praticamente invisíveis. Podem ser equipados com mísseis nucleares e Israel está preparado para deslocar esses submarinos para o Golfo. Graças à ditadura egípcia, os submarinos israelenses podem passar pelo Canal de Suez.

Não sei se isso foi noticiado na Alemanha, mas há aproximadamente duas semanas a Marinha dos EUA informou que construiu uma base para armas nucleares na ilha Diego Garcia, no oceano Índico. Ali seriam estacionados os submarinos equipados com mísseis nucleares, inclusive o chamado “destruidor de bunkers”. Trata-se de projéteis que podem atravessar muros de cimento de vários metros de espessura. Foram pensados exclusivamente para uma intervenção no Irã. O destacado historiador militar israelense Martin Levi van Creveld, um homem claramente conservador, escreveu em 2003, imediatamente após a invasão do Iraque, que “depois desta invasão os iranianos ficaram loucos por ainda não terem desenvolvido nenhuma arma atômica”. Em termos práticos: há alguma outra maneira de impedir uma invasão? Por que os EUA ainda não ocuparam a Coréia do Norte? Porque ali há um instrumento de dissuasão. Repito: ninguém quer que o Irã tenha armas nucleares, mas a probabilidade de que o Irã empregue armas nucleares é mínima. Isso pode ser comprovado nas análises dos serviços secretos estadunidenses. Se Teerã quisesse equipar-se com uma só ogiva nuclear, provavelmente o país seria arrasado. Uma fatalidade deste tipo não é do gosto dos clérigos islâmicos no governo: até agora eles não mostraram nenhum impulso suicida.

O que pode fazer a União Européia para dissipar a tensão desta situação tão explosiva?
Chomsky: Poderia reduzir o perigo de guerra. A União Européia poderia exercer pressão sobre Índia, Paquistão e Israel, os mais proeminentes não assinantes do Tratado de Não Proliferação Nuclear, para que finalmente o assinem. Em outubro de 2009, quando se protestou contra o programa atômico iraniano, a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) aprovou uma resolução, que Israel desafiou, para que este país assinasse o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares e permitisse o acesso de inspetores internacionais aos seus sistemas nucleares. A Europa e os EUA trataram de bloquear essa resolução. Obama fez Israel saber imediatamente que não devia prestar nenhuma atenção a esta resolução.

É interessante o que acontece na Europa desde que a Guerra Fria acabou. Quem acreditou na propaganda das décadas anteriores devia esperar que a OTAN se dissolvesse em 1990. Afinal, a organização foi criada para proteger a Europa das “hordas russas”. Agora já não existem “hordas russas”, mas a organização se expande e viola todas as promessas que fez a Gorbachev, que foi suficientemente ingênuo para acreditar no que disseram o presidente Bush e o chanceler Kohl, a saber: que a OTAN não se deslocaria um centímetro na direção do leste europeu. Na avaliação dos analistas internacionais, Gorbachev acreditou em tudo o que eles disseram. Não foi muito sábio. Hoje a OTAN expandiu a grandes territórios do Leste e segue sua estratégia de controlar o sistema mundial de energia, os oleodutos, gasodutos e rotas de comércio. Hoje é uma mostra do poder de intervenção dos EUA no mundo. Por que a Europa aceita isso? Por que não se coloca de pé e olha de frente para os EUA?

Ainda que os EUA pretendam seguir sendo uma superpotência militar, a sua economia praticamente desmoronou em 2008. Faltaram bilhões de dólares para salvar Wall Street. Sem o dinheiro da China, os EUA talvez tivessem entrada em bancarrota.
Chomsky: Fala-se muito do dinheiro chinês e especula-se muito a partir deste fato sobre um deslocamento do poder no mundo. A China poderia superar os EUA? Considero essa pergunta uma expressão de extremismo ideológico. Os Estados não são os únicos atores no cenário mundial. Até certo ponto são importantes, mas não de modo absoluto. Os atores, que dominam seus respectivos Estados, são sobretudo econômicos: os bancos e as corporações. Se examinamos quem controla o mundo e determina a política, vamos nos abster de afirmar um deslocamento do poder mundial e da força de trabalho mundial. A China é o exemplo extremo. Ali se dão interações entre empresas transnacionais, instituições financeiras e o Estado na medida em que isso serve a seus interesses. Esse é o único deslocamento de poder, mas não proporciona nenhuma manchete.

CM.
Tradução para a Carta Maior: Katarina Peixoto

Fonte original: http://www.freitag.de/politik/1013-iran-obama-weltordnung-sanktionen

PERSONAS por jorge lescano / são paulo

Dentre as minhas anotações esporádicas com que o Fado quis me punir, frustrando qualquer Destino de Escritor, no dizer d’O Outro, tirando as aliterações, que são minhas e ali estão para suprir suas rimas, há uma que por algum tempo satisfez minha modesta vaidade, expressão esta menos incongruente do que o senso comum tende a acreditar, o senhor não acha?

Encontrava eu na supracitada anotação, algo que o estilo sensacionalista  da Pálida História Universal do Fogo vulgarizou, se a senhora está me entendendo.

Aquele breve artigo hoje protege da poeira o fundo de alguma gaveta. Não guardo nenhuma ilusão sobre ele. Se fosse publicado, não faltaria quem o associasse, seja pela forma, seja pelo tema, com suas obras menores, como apreciam dizer os críticos quando escrevem sobre eles dA Pessoa em Questão ou d’O Outro, quero dizer.

De fato, eis que encontro no volume que Vladímir Vladimiróvitch, Volódia para os íntimos, dedica às suas memórias, o assunto que eu tão ardilosamente elaborara. Assim pensava em minha inocência de leitor incompleto de sua Obra Completa Mas obraS completaS não sugere que haveria ObraS IncompletaS, fessora?

Leitura vigilante nas estepes da noite. Noites insones pormenorizadas indiscretamente por ambos escribas em suas respectivas autobiografias Apócrifas!, seria o caso de dizer, e digo-o

Minha proverbial modéstia, Campeão Mundial da Modéstia, chamou-me um beatnik de nome esquecido, não admitiria que usasse publicamente uma data de significado meramente pessoal, as tais datas íntimas da crônica jornalística Por favor, madame, não confunda estas com os dias da mulher, por assim dizer.

Enfim, para ser claro, declaro que nunca tirei proveito do fato do meu aniversário coincidir, sem que eu tivesse nenhuma participação nisso, com os de Edgar Allan Poe, de Paul Cezanne, de Jota Watt, de Auguste Comte e de muitos mais, ignotos, preteridos, injustiçados pela mídia, para me tornar interessante entre os fãs que a bem da verdade nunca tive. Deixo que outros, tá me entendendo?, façam disso uma efeméride literária, que assim tratam tudo que lhes diz respeito nesta aldeia. Tal data, casual sempre, se bem que causal no caso, não encontrou albergue em minha Obra Incompleta (sic, senhor Raimundo Silva, sem gracinhas gramaticais – anotação (posterior?) acrescida por mão anônima(?) – N. do C.), inédita, como todo mundo virá a saber algum dia se o meu MB cumprir sua tarefa à risca. Não, damas e cavalheiros (é bom afastar vocês, vez por outra, da porta das casas de banho públicas – Ass.: Mão Anônima – N. do C.), eu, mais tímido que Volódia, mais modesto que Grishka, preferi tratar da  morte do Pai dos Filósofos, no dizer  do platônico Ficino. E deixem-me acrescentar, visto estarmos num grupo de adultos que, mais previsor que Xiko K., mais decidido que o macedônico Fernández, tomarei em minhas próprias mãos o Destino, por assim dizer, de tais rascunhos inconseqüentes! Aproveito a oportunidade para agradecer ao nosso analista do sistema o novo impulso que deu à minha vida, obrigado, Herr Doktor Young Froid!

A partir de hoje ninguém mais, eu disse NIN-GUÉM, virá a lucrar, em fama ou dólares marcados, com a obra d’Ele Eu Mesmo!

Sim, voltemos ao redil, meus fiéis e caros compatriotas, disse enquanto devolvia o Colt ao coldre, antes de oferecer uma rodada de tequila a todos os figurantes.

Pois então, eu nunca incluiria, como poderia vir a ser comprovado facilmente, se as minhas anotações viessem à luz de néon das vitrines, contra todas as disposições em contrário devidamente explicitadas no meu testamento, este sim a ser publicado em edição bilíngüe por um testamenteiro prestativo, nunca incluí, melhor dizendo, o fato desportivo de sempre ter escolhido jogar de goleiro no meu time, ao invés de correr como os outros rapazes, na pitoresca expressão de nosso diretor de cena, russo naturalisticamente. É bem verdade que entre meus papéis poderia ser encontrado um texto confidencial que trata do assunto sob um ponto de vista insólito À maneira de Anton Pavlóvitch, meu caro!, zomba já sabem quem. Nele, antecipo-me a declarar, evitando equívocos  difíceis de desfazer e qualquer aproximação temática com o livro de Piotr Manke, explicações a posterior soam sempre pouco convincentes,  não me detenho a analisar Os Pathos do Guarda-redes ao Por de Sol, antes, trato da deficiência qualitativa do último defensor da cidadela por excesso de senso de justiça. Não fossem meus artigos serem incinerados na pira comum do esquecimento coletivo, e convidaria o leitor virtual deste a conferir a verdade naquele.

Tenho por fórmula, vício ou princípio estrutural, ou tudo isso ao mesmo tempo, usar três itens, e/ou motivos, no mínimo, em cada um dos meus escritos. Mania inofensiva, inda mais sendo eu meu único leitor, os outros, já sabemos, eles os açambarcaram.

Desejo encerrar  minha participação neste magno evento com a coda de uma pecinha despretensiosa para violoncelo solo, o arco empunhado por mão inspirada, embora inexperiente, poderia escrever um deles, parodiando meu estilo lírico dos sábados à tarde e das festas juvenis, às que compareço no caráter de paraninfo.

Datas são motivo recorrente de Grishka, Vladímir Vladimiróvitch faz uso do tema musical de modo nem sempre importuno. Numa bagatela, curiosamente muito popular entre os tradutores, calha acontecer a dupla citação do título de uma sonata para violino e piano, citação bifronte, para falar com propriedade, e tanto russa quanto germânica. Grisha Gueorguévitich leva sua paixão pelo calendário ao ponto de datar uma dessas imprudentes notas americanas (sic) que têm valor muito diferente e o mesmo tamanho e cor, apresso-me a acrescentar. Tal imprudência, em sua hora, foi sábio conselho de economia de Henry Ford, o dos carros, ao então presidente dos USA, cujo nome lhe esquecemos.

Houve um compatriota nas noites de exílio, que para preencher a solidão, antes de ser capaz de comunicação com os nativos, segundo prezam dizer os anglo-americanos nos seus filmes de “aventuras”, como alguém recém chegado a Zembla, ou que sem notícia prévia aterrizasse em Tlön, dedicava-se a compor equações verbais. Por motivos óbvios, como a seguir se verá, guardo apenas uma, e esta incompleta. No caso, uma simples seqüência. Outras havia que por sua complexidade e número de componentes, seria impossível conservar de cor (vinham nomes antes de): O Henry-Henry James-James Joyce-Joyce Cary; seguiam-se outros nomes de escritores de língua inglesa e a seqüência tendia a se sintetizar: O Henry-James-Joyce-Cary, antes de passar para o segundo estágio, que permitia a convivência de diversas entidades na mesma instância: HenryFordMadoxFord, eis um nó que a memória se nega a desatar, and so on.

Porque intuo algo semelhante em relação a eles, disse abanando as mãos como se eu estivesse na sua frente e não atrás, como determina o regulamento Fora as costumeiras revelações indiscretas que sem pejo de ferir alguém despejam periodicamente na imprensa, visando uma publicidade de gosto duvidoso, se não descaradamente deplorável.

Por Alá!, exclama o oleiro, pois a argila resiste à pressão dos dedos, insiste em permanecer argila, nega-se à curva que em vão as palmas das mãos tentam lhe impor. Porque o tempo urge, ele é obrigado a apresentar os dados como o acaso os lança. Que o leitor se avenha, que se agarre como se agarrar possa, brada a pancarta fincada na arena deserta, à espera dos contendores, cada qual com sua razão e preferência.Lavamos as mãos, poderia ser o anúncio de sabonete que aqui promovemos a divisa, porque Volódia, na talvez única referência de Grishka, que até lhe esquece o nome, embora insista em que queria e queria se lembrar, e só vem a a ser identificado pelo jornalista que o entrevistava ao mencionar Manolita, título do seu romance mais popular, já que não seu melhor livro, atrevemo-nos a dizer, Volódia, dizíamos então, teria declarado, segundo a citação de Grisha, que pretendendo organizar uma antologia de páginas mestras da ruski literaturï, não consegue incluir nenhuma de Dosty Prosa russa, dissera Gueorgui Gueorguévitch na entrevista, mas eu gosto de tomar-lhe os modos, é minha pequena e secreta vingança. GG às vezes cita em galego e imediatamente transcreve a expressão do original anglo-saxão, já V.V. manipula o english, o Deutsch, o français, o ruski e num romance quatro palavras no idioma de GG, e depois (entre parênteses) a versão na língua em que o texto esteja sendo publicado, se bem que outras vezes o processo seja inverso. Volódia, numa das menções que faz a Dosty, poucas se comparadas com o número de vezes que a patriarcal figura do conde Liev Nikolaiévitch comparece à sua obra, lembra que Fiódor Mikhailóvitch é o autor de O Duplo. Por mera coincidência, percebe?, é o mesmo conto que O Outro cita em Cambridge, ao norte de Boston, faz questão de frisar, hum! Para completar a equação, sou tentado a acrescentar O Farsante e O Idiota e por que não Os Falsários?, este de autoria de MB, o que equivale a duas equações de segundo grau ou equação dupla: plural e autor novo na lista, este, por sua vez, poderá representar uma nova e tripla equação: judeu-“tcheco”-de língua alemã, condição esta  que o autoriza como possível matriz de outras equações. Para fim de conversa, sua conseqüência lógica aporta um título que poderá servir de corolário, caso renunciemos ao Mundo Antigo ou limitemos nosso campo de jogo ao calendário gregoriano ou a qualquer outra instância, todas arbitrárias, que exclua o plural e/ou os poetas latinos: A Metamorfose (Die Verwandlung). (Ufa!, esta foi de lascar. – Nova interferência, ou contribuição, como quiserdes, da Mão Anônima  – N. do C.).

Meu Leitor, se tal entidade existisse ou viesse a existir, não deveria estranhar o tom deste depoimento. Tenho vivido a ambigüidade desde William Wilson até Veinticinco de Agosto, 1983, com parada obrigatória no estranho caso do Doktor Kafka und Herr Max Brod. Sou O Escamoteado, O Inominável Homem das Neves, segundo estamos cansados de ouvir!

Nesta altura parece que o texto deveria se juntar ao rol das obras que tenta desmascarar, salvando as distâncias, naturalmente Tal seria o caso, em verdade vos digo, se a palavra viesse à luz, meu Pai não permita. Ela explicaria de uma vez por todas aquelas e muitas outras falácias literárias, bastaria conferir a variedade de nomes  com que O Outro comparece  na escritura para saber que estão a falar de mim.

Não há necessidade de se estender sobre o número de vezes, que Volódia usa e abusa da figura que nos ocupa (Eu, hein?). Que eu saiba, nunca alude a GG. Ignorância? Vingança? Álibi? Hum! O Mundo Existe Porque Eu o Contemplo, o dístico, grafado em grave alfabeto antigo, resume a atitude deles a meu respeito. O célebre professor Jotabson respondeu à consulta sobre Vladímir Vladimiróvitch lecionar literatura: não se convidam elefantes para dar aulas de zoologia. A apropriação do pronome EU pelo narrador que estamos a tratar, parece-me suspeita, excessivamente enfática, declaradamente autoritária.O caso não poderia ser mais simples do que prevê nossa terapia, Herr Doktor? No que tange à minha vida particular sabemos a quê nos ater, não é verdade?, e o leitor não tem nada com isso (Leitor em caixa baixa, senhor Raimundo, pois é do comum que se está a falar, apesar da caixa alta do leitor desta frase, assim tratado por força das circunstâncias. – A Mão Anônima não se rende! – N. do C.).

Nada cobiço, sequer pretendo figurar na Obra de Alguém, apenas reclamo o meu quinhão do que quer que seja neste emaranhado de temas que não tem Todorov que desate. Justo é reconhecer, contudo, que Volódia foi mais generoso, deixando pelo menos um texto no qual ocupo o lugar de honra, honra entre aspas faz favor brigado, segundo é fácil deduzir de um trecho de conversação registrado em Volódia’s Dúzia, na nova ortografia de Pindorama, conversação na qual me acusa de ter levado a passear sábios cidadãos de Sião  por Belgrado-Berlim-Bruxelas, tome nota da letra inicial destas cidades, que está a pedir  capítulo aparte Por que não Adis Abeba-Azul-Aracaju, hein? E para confirmar o assunto em pauta, o qual seja descarregar nas costas de outrem o peso das conseqüências de nossos próprios erros, não é assim?, me atribui desígnios mesquinhos, e quando por fim se estabelece em Boston, outra vez a escarlate letra do substituto, e agora não é Edgar Allanitch Poesky, intrinsecamente ligado a quem vos fala pelo signo de Capricórnio? E naquela metrópole do norte, custava-lhe escrever Antofagasta?, acredita ter se libertado da presença homônima, eis que continua a receber mensagens da outra existência, da qual finalmente se livra concedendo ao chantagista o pequeno valor pecuniário por ele exigido, valor este, diga-se de passagem, que nenhum extrato da minha periclitante conta corrente chegou a registrar.

Eu disse, retomando o fulcro narrativo, que Volódia foi mais generoso, e não só pela modesta quantia paga mor de se ver livre da presença incômoda, ato tanto mais fácil de realizar visto ser apenas virtual, ficcional, como se dizia antigamente. Porém, peca do mesmo defeito de todos os anteriores. Atribui aO Outro o nome do narrador que, a bem da verdade, ficamos sem conhecer, visto V.V. se recusar a revelá-lo na peça literária sobre a qual estamos debruçadas com afinco, procurando concluir nossa tese de mestrado Ensaio ao Crepúsculo, Forjei este título poético hoje, ao alvorecer, enquanto Ele repousava olimpicamente nos braços de Morfeu e eu e minhas colegas de turma, umas graças!, retoiçávamos pelo campus universitário, longe do labirinto acadêmico e seus meandros burocráticos Russifique tudo, minha querida (moya dushen’ka)!

A sinonímia, mezhdu prochim (por falar nisso), tem se mostrado o recurso mais acessível para tratar literariamente a anomalia em questão, e que segundo o próprio Volódia, no mesmo volume de suas obras completas, o ilustre Doktor Herman Brink denomina singelamente Mania Referencial. Porque é desta rica variante de interpretação do universo que estamos a tratar, de maneira um tanto parabólica, se se quer, conforme sua natureza sutil, não do grosseiro Conheço você de algum lugar!, com que os motoqueiros e outros sátiros motorizados ou de veículos de tração a sangue, skatistas (sic! sic! sic!) e patineurs, mormente, costumam abordar ninfetas de melenas fulvas, ainda que artificiais, que sem segundas intenções transitam vespertinamente pelas veredas destes tristes trópicos Tem se insinuado no presente estudo que a sinonímia é o modo mais fácil de se atingir O Outro, será também a mais eficaz?Hum! por assim dizer, diz meu Orientador, desorientado. Por exemplo, exemplifica, Jota Cortazarévitch, dizia eu, continua dizendo, tentou uma variação que eu não estou certo de que seja a melhor,  mas enfim, é uma variante, e é disso que estamos a tratar, não é? Assim ele, com neopravdannay a zhestokost’ (crueldade injustificada), opta por uma alternativa em que O Original, por assim dizer, topa com O Outro em gestação, digamos assim, para variar. Destarte, O Outro, O Duplo, a bem dizer, é encontrado pelo original (atenção, Sr. Raimundo, na grafia de eu, o outro, original. Aspas e caixa baixa terão alternância com caixa alta e omissão de aspas, segundo o narrador ou o usurpador tomem a palavra. Está-se de facto a se cercar a fortaleza e conto com seus inestimáveis préstimos para levar a bom termo esta cruzada. De mais a mais, dispenso suas graçolas lisboetas, como já disse algures e nem é bom repetir, mor de pouparmos o leitor do censurável espetáculo de nossas desavenças. Aliás, para por em pratos limpos as nossas relações, desejo explicitar que se naquela lamentável história  durante o cerco de Lisboa, eu disse ao editor Não é morte de homem, foi porque tenho apreço por si e sou da opinião de que todos temos o direito ao pão de cada dia enquanto não se for convocado a comparecer à bela Estocolmo (Gamla Stan) às vésperas de seu crudelíssimo inverno (vide postais anexas). Facto este fatal, o da convocação, para os escribas e do qual, quer me parecer, futuramente nem os modestos revisores estarão livres, ora que até um autor de língua lusitana (deixemos assim, provisoriamente) foi contemplado com o galardão máximo da solene Academia Sueca (toda adjetivação é insuficiente ao se falar da Veneza nórdica e de suas instituições). Ficam a advertência e os meus cumprimentos, prezado senhor, e deixe-me rematar o parágrafo para ir dormir, que já são quase seis horas da manhã. Isto tem de bom o gênero anotação: não precisamos pedir desculpas ao leitor pela digressão (nem pela cacofonia! anota a famosa Mão – N. do C.) E foi assim, minhas crianças, que o Cruel Original, havendo detectado O Duplo na adolescência, pálida rosa amarela, decide-se pelo final do jogo dovol’no skucho (é uma pena!), e interrompe o processo evolutivo daquele que viria a ser Ele, se este não tomasse as devidas providências. Não me pergunteis de que jeito  efetua seu intento, satisfazei-vos com meu relatório e observai que o epíteto com o qual Ele é identificado nesta sentença, revela-se suficientemente explícito para merecer maiores comentários, pois não? Moral da história: mais uma vez o Doktor Young Froid e eu fomos ludibriados! Eto unizitel’no (é humilhante)! Aqui se interrompe o manuscrito ou, se houver continuação, não acerto a encontrá-la na barafunda de minha mesa. Passarei então ao datiloscrito, no dizer de Volódia, depois de um sono reparador e quero crer bem merecido.

Eis-me aqui, novamente, acorrentado e a remar ao ritmo do tambor, e neste mar, não é menor o perigo pelas vagas serem pátrias Po razschyotu do moemu (pelas minhas contas) tendes apenas mais dez minutos de consulta, interrompe-me cerimoniosamente o Doktor Young Froid, pretendeis tocar o barco a toque de caixa alta e baixa, ou preferis que peneiremos vossa infância? Quais as cores que vos inebriavam aos três meses de idade? Na escrita usáveis com dupla freqüência o signe de interrogação, como é aconselhável? Inquire o bondoso terapeuta, transcrevendo literalmente a construção e terminologia de sua língua mãe, aqui mencionada para não fugirmos demais do repertório dos seus afazeres Falemos de efemérides, peço-lhe para arredondar a deixa Seja, se tal é vosso íntimo desejo Ladno (oquei)!

Não quero abusar da paciência daquele leitor virtual para quem inconfessadamente todos escrevemos, protelando a revelação da efeméride à qual se alude desde o início deste relatório. Trata-se apenas do ano de nascimento dos recrutas Volódia Gueorguévitch e Grisha Vladimiróvitch, general, vide Nabor; Posliédnie Novosti, Paris, 1935 e ou Viesná v fialte, NY, Tchekhov, 1955. Segundo revelaram em seus respectivos ensaios de autobiografia, como se não soubéssemos de quem estão a mangar, hein, Herr Doktor? Se não puder russificar privatize, que está na moda, encoraja-me Vladímir Vladimiróvitch; Speak, memory. An Autobiography revisited, USA, 1947; também Georgie Gueorguévitch Burgov, An Autobiographical Essay, NY, E. P. Dutton, 1970  Zhivo (depressa)! Ambos autores decidiram que tal evento, o respectivo nascimento quero dizer Zhivo! Acontecido no penúltimo ano do século dezenove e por algum motivo que me escapa, é digno de menção. Georgie ou Grisha, que vem a ser o mesmo Zhivo! é mais enfático a respeito. De facto, reitera, em mais de uma entrevista, que 1899 não é o último ano do século, visto a série, toda série numérica decimal, encerrar-se na dezena. Meu não-leitor, por escassez de textos, gostaria de dizer Zhivo! poderá deduzir facilmente que tanto Grishka quanto Volódia centenariam seus nascimentos no ano que não tarda a ter início. Agosto e Abril respectivamente, repare na letra inicial dos meses. Por que, se fizeram tantos esforços  para encontrarem suas vozes literárias, se de distintas formas ludibriaram  minha vigilância, por que, é o caso de se perguntar Zhivo! negligenciaram a publicação deste dado e de outros que me reservo para melhor ocasião? Permita-me discordar do termo negligência, tanto Gê quanto Vô, utilizam o dado além da  constância biográfica. Volódia faz participar de sua festinha de aniversário Shakespeare e Shirley Temple, quanto a Grisha, basta retornar à página 4 deste relatório para encontrar uma referência ligeiramente disfarçada. Oh, sim, ai de mim! a senhora acaba de enfiar a unha na ferida com a precisão de um punhal maneirista na mão primorosa do madrigalista Carlo Gesualdo, príncipe de Venosa. É justamente esse trecho da  Memory de Volódia Vladimiróvitch que se insinua na primeira página  deste relatório E se a senhora quiser mais um dado revelador do complô, ei-lo, dois pontos, Volódia convoca Shakespeare em suas Memory, Grishka aloja na memory do mesmo bardo britânico a data do seu natalício, ligeiramente disfarçada, como monsieur A, está entendendo? Dupin pode facilmente deduzir Feche a boca e comprove  minha afirmação na Obra Completa, insisto, d’Os Outros Como vê quis supor um descuido inocente, Padre Brown, porém o tiro saiu pela retaguarda, isto porque testemunhas desqualificadas deram sua contribuição ao enredo, enredo no mau sentido, claro, e agora o leitor deles está mais perdido que cachorro em caminhão de mudança, que o meu leitor, se o tivesse, sempre saberia a quantas andamos e que estamos entrando na reta final ou cerimônia de encerramento do encontro fortuito de duas bengalas e uma máquina de escever sobre esta escrivaninha Zhivo! e que o texto conclui com um dos truques preferidos pelos velhos magos, o qual seja a duplicidade dos protagonistas e a incógnita do significado da revelação Perguntar-se-ia o meu leitor, qual a intenção ao desvelar, ou relembrar(lhe) tal efeméride Zhivo! Eis algo que estou incapacitado para responder sem admitir, a socapa, que o sentido talvez seja também uma incógnita para o redator desta Crazy’s Memory, pois em virtude das peripécias de nossas atribuladas existências, vemo-nos obrigados a ditar e transcrever, respectivamente, suprindo a visão ausente de um dos personagens, o desconhecimento quase total do galego do outro, salvo aquelas quatro palavras no capítulo de sua obra que dedica a esse idioma e que nesta pressa não atino a achar, e a precariedade pecuniária do terceiro, como já alguém revelou algures, temos dito! Bem dito, meu caro Jota Elle, e no tempo regulamentar!

Mozhno pridti teper’, bárin (posso ir agora, patrão)?