Arquivos Diários: 21 abril, 2010

A CARTA DA DESOBEDIÊNCIA por max quint / ouro preto.mg

Como se não bastasse a crise em que a Igreja católica vive, no momento, com freqüentes denúncias de padres incorrendo em graves práticas de pedofilia (atos de libido) contra principalmente menores, o que os inimigos da Igreja, declarados ou não, se esmeram em explorar da maneira mais sórdida imaginável através de ridículas charges, piadas grotescas, etc., vem o teólogo suíço Hans Kung, através de Carta Aberta aos fiéis do mundo todo e, especialmente, aos bispos, convocar todos a uma reação em prol da reforma da Igreja, conclamando principalmente para pontos controversos e tradicionalmente contra os fundamentos essenciais do sacerdócio, um dos quais é o celibato.

Diz o teólogo Kung, a certa altura de sua carta:

“O uso do vernáculo na liturgia, as mudanças dos regulamentos que governam casamentos mistos, a afirmação de tolerância, democracia e direitos humanos, a abertura para uma atitude ecumênica, e muitas outras reformas do Vaticano II, só foram alcançados pela pressão tenaz debaixo para cima”.

Kung, desafiadoramente, como se pode notar, conclama os bispos para uma reação à linha adotada por Bento XVI em seu episcopado de 5 anos. É a manifesta tendência a deflagrar-se, no seio da igreja, a desobediência. O que é, sem dúvida, o pior que pode ocorrer, neste momento, por tantos motivos, à Igreja católica, que precisa, sim, de um consenso entre seus bispos e o Papa para bem definir-se uma posição que não se afaste de seus princípios e fundamentos tradicionais, a fim de encontrar-se o melhor e mais adequado rumo para seus destinos.

Kung descreve um quadro de defecção sintomática na Igreja, com redução de seu corpo de sacerdotes, esvaziamento das paróquias, dos seminários, para bem mostrar a crise atual, que se alastra, segundo ele, de forma preocupante, para propor as soluções que entende serem as que recolocarão as coisas em seus devidos lugares.

Entre essas mudanças estaria a abertura para o celibato, sugerindo que nem por não serem celibatários os padres perderiam a consideração de seus bispos ou de outras autoridades eclesiásticas, continuando tudo a correr normalmente no seio da Igreja. O que significaria, no fundo, a tomada de uma medida como o fim do celibato na Igreja católica? O atual Papa Bento XVI não quer ouvir nem falar disso. Por que? Simples: isso seria o primeiro passo para a Igreja se desintegrar e aprofundar mais ainda a crise de fé, se há uma crise assim neste momento. Foi Cristo que fundou o sacerdócio, ao dizer “quem quiser vir depois de Mim abandone seus bens, sua família e siga-Me”. Não se podem misturar de forma alguma sacerdócio e deveres familiares. Não se pode servir, como diz a doutrina cristã, a dois senhores.

Quanto aos gestos de tolerância da Igreja, não podem ser tão grandes que pactuem com a desestruturação moral do mundo atual, com os casamentos mistos, de que falou Kung, num tom que parece indicar que até a isso a Igreja deve se dobrar passivamente.

Volta a pregar, no fim de sua Carta Aberta, o teólogo Kung: “Incontáveis pessoas perderam sua confiança na Igreja Católica. Somente admitindo aberta e honestamente esses problemas e realizando resolutamente as reformas necessárias a confiança poderá ser recuperada”.

Kung deflagra perigosamente um dissenso no seio da Igreja. Oxalá, não esteja colaborando para aprofundar ainda mais a crise atual. Tudo o que a Igreja católica precisa neste momento é de coesão em torno de pontos essenciais ou de um ideário que não a afaste de seus fundamentos básicos, e que não a desfigure, como parece pretender, claramente, o teólogo Hans Kung.

21 DE ABRIL por sérgio da costa ramos / florianópolis

O barbudo é alto, tem cabelos longos e aparenta uns 46 anos, por aí. O senhor calvo tem cabelos apenas nas têmporas, os lábios são finos e abrigam um sorriso simpático. Aparenta uns 75 anos. Encontraram-se num abraço de longa efusão, pois nem se conheciam pessoalmente embora um soubesse do outro há séculos. Suas idades são meras referências, pois era as que tinham quando encarnados hoje, tanto o jovem quanto o mais velho, flutuam nas estratosferas celestiais.


Teriam conversa para mais de duas horas, que é o tempo mínimo de prosa quando dois mineiros se encontram. Mineiros e da mesma cidade de São João del Rey. Primeiro, relembraram a terrinha, que habitaram em épocas distantes uma da outra. Na procissão mais tradicional da cidade, a de Nossa Senhora do Carmo, o senhor calvo tinha lugar cativo sob o pálio – como autoridade que era. O barbudo costumava assistir ao cortejo enquanto garoto, antes de se mudar para Vila Rica. Tinha dois irmãos padres, mas ele próprio não pudera concluir os estudos, ficara órfão aos 11 anos.

Não foi um encontro qualquer, sobretudo porque consumado em alguma cápsula intertemporal. Dois filhos de São João del Rey, dois mineiros, dois heróis. Um, o “patrono cívico”da nação brasileira”, o outro, o “pai da Nova República”.

O mais moço (no momento da desencarnação) cumprimentou o mais velho com certa reverência:

– Dr. Tancredo! – quanta satisfação! Os meus respeitos! Lá de cima acompanhei o seu trabalho pela redemocratização…

– Tiradentes! Venha de lá o abraço do meu herói predileto! Conheço você desde o meu caderno do curso primário. Era você na capa e o Hino Nacional na contracapa! Como vai essa barba?

– Por aqui continua moda, o senhor sabe. O Mestre gosta de todos à sua imagem e semelhança…E o seu divertículo, como vai?

– Já não dói, depois que aqueles médicos torturadores de Brasília e São Paulo pararam de me costurar. E o seu pescoço?

– Às vezes ainda sinto um pouco. Naquele tempo a corda era das boas…

Trocadas as amabilidades, os dois vultos da história passaram em revista os últimos acontecimentos do Brasil e do mundo, os homens entregues à traição, às falcatruas, à desonestidade:

– Parece que a coisa tá feia lá embaixo, principalmente na política e na igreja…

– Na igreja? – espantou-se o barbudo.

– Pra você ver… – lamentou o careca.

– E no Brasil?

– Pra variar, a economia vai bem e o povo vai mal – como disse um dia um daqueles generais.

– Uma pena _ lastimou-se o Alferes. Uma insatisfação assim pode se transformar numa grande revolta.

– E o governo, insensível como todos, mantém a carga fiscal em alta. É “derrama” todo ano! Mais o Imposto de Renda, que tem o leão por símbolo.

– Nada a ver com o Avaí, espero _ atalhou o militar, que acompanhava os acontecimentos esportivos.

– Não! _ fez o doutor Tancredo. Falo de um leão de garras estatais, não de um lúdico bichano…

Ambos concordaram que alguma coisa precisava ser feita pela democracia brasileira, tão carecida de boas vitaminas, a coitadinha. Na qualidade de “santos” e de mártires, nem precisaram pedir audiência ao Senhor. Passaram por todos os santos e foram direto à sala de Deus, com quem privavam de grande intimidade:

– O Brasil, outra vez? – e o Senhor fez um ríctus de puro tédio. Do que se trata, agora?

– Muitos fichas sujas são candidatos…

– E o que devo fazer?

– Chama esses candidatos aqui pra cima…

– Impossível! Teria que matar metade do Brasil!

Passaram para a preocupação seguinte.

– E qual é? _ perguntou o Todo Poderoso, impaciente.

– Não é com o Brasil… – infelizmente.

– E com quem é?

– Com o Papa… JULIA BACK