21 DE ABRIL por sérgio da costa ramos / florianópolis

O barbudo é alto, tem cabelos longos e aparenta uns 46 anos, por aí. O senhor calvo tem cabelos apenas nas têmporas, os lábios são finos e abrigam um sorriso simpático. Aparenta uns 75 anos. Encontraram-se num abraço de longa efusão, pois nem se conheciam pessoalmente embora um soubesse do outro há séculos. Suas idades são meras referências, pois era as que tinham quando encarnados hoje, tanto o jovem quanto o mais velho, flutuam nas estratosferas celestiais.


Teriam conversa para mais de duas horas, que é o tempo mínimo de prosa quando dois mineiros se encontram. Mineiros e da mesma cidade de São João del Rey. Primeiro, relembraram a terrinha, que habitaram em épocas distantes uma da outra. Na procissão mais tradicional da cidade, a de Nossa Senhora do Carmo, o senhor calvo tinha lugar cativo sob o pálio – como autoridade que era. O barbudo costumava assistir ao cortejo enquanto garoto, antes de se mudar para Vila Rica. Tinha dois irmãos padres, mas ele próprio não pudera concluir os estudos, ficara órfão aos 11 anos.

Não foi um encontro qualquer, sobretudo porque consumado em alguma cápsula intertemporal. Dois filhos de São João del Rey, dois mineiros, dois heróis. Um, o “patrono cívico”da nação brasileira”, o outro, o “pai da Nova República”.

O mais moço (no momento da desencarnação) cumprimentou o mais velho com certa reverência:

– Dr. Tancredo! – quanta satisfação! Os meus respeitos! Lá de cima acompanhei o seu trabalho pela redemocratização…

– Tiradentes! Venha de lá o abraço do meu herói predileto! Conheço você desde o meu caderno do curso primário. Era você na capa e o Hino Nacional na contracapa! Como vai essa barba?

– Por aqui continua moda, o senhor sabe. O Mestre gosta de todos à sua imagem e semelhança…E o seu divertículo, como vai?

– Já não dói, depois que aqueles médicos torturadores de Brasília e São Paulo pararam de me costurar. E o seu pescoço?

– Às vezes ainda sinto um pouco. Naquele tempo a corda era das boas…

Trocadas as amabilidades, os dois vultos da história passaram em revista os últimos acontecimentos do Brasil e do mundo, os homens entregues à traição, às falcatruas, à desonestidade:

– Parece que a coisa tá feia lá embaixo, principalmente na política e na igreja…

– Na igreja? – espantou-se o barbudo.

– Pra você ver… – lamentou o careca.

– E no Brasil?

– Pra variar, a economia vai bem e o povo vai mal – como disse um dia um daqueles generais.

– Uma pena _ lastimou-se o Alferes. Uma insatisfação assim pode se transformar numa grande revolta.

– E o governo, insensível como todos, mantém a carga fiscal em alta. É “derrama” todo ano! Mais o Imposto de Renda, que tem o leão por símbolo.

– Nada a ver com o Avaí, espero _ atalhou o militar, que acompanhava os acontecimentos esportivos.

– Não! _ fez o doutor Tancredo. Falo de um leão de garras estatais, não de um lúdico bichano…

Ambos concordaram que alguma coisa precisava ser feita pela democracia brasileira, tão carecida de boas vitaminas, a coitadinha. Na qualidade de “santos” e de mártires, nem precisaram pedir audiência ao Senhor. Passaram por todos os santos e foram direto à sala de Deus, com quem privavam de grande intimidade:

– O Brasil, outra vez? – e o Senhor fez um ríctus de puro tédio. Do que se trata, agora?

– Muitos fichas sujas são candidatos…

– E o que devo fazer?

– Chama esses candidatos aqui pra cima…

– Impossível! Teria que matar metade do Brasil!

Passaram para a preocupação seguinte.

– E qual é? _ perguntou o Todo Poderoso, impaciente.

– Não é com o Brasil… – infelizmente.

– E com quem é?

– Com o Papa… JULIA BACK

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: