ENEACÓRDIO DA TRISTEZA de tonicato miranda / curitiba


para Jane e Tom Jobim

A tristeza não tem brilho, nem é limpa

ela é como a sujeira das cortinas ao léu

das casas da periferia nos poemas do Gerson Maciel

A tristeza não tem limites ou latitudes

ela está em todos os poros do seu corpo

seja você um manequim ou redondo como um porco

A tristeza o lança à cela e às grades

ela é prisão sem cor nas paredes, não tem janela

onde reina o silêncio e a luz é sempre de vela

A tristeza embora solitária é nascida de outro

é sempre uma mulher deixando-nos em abandono

e nosso coração vadio, cão perdido sem dono

A tristeza é amiga e inimiga

ela é o toque do perigo, o seu próprio irmão

um revólver pode lhe matar por sua outra mão

A tristeza é quando…

nem mais meu eu consciente está por aqui

há muito partiu numa onda para o Havaí

É quando emprestamos um poema da Clarice

juntamos uma rosa roubada com muito apreço

enviando pelo correio ao nosso próprio endereço

É quando viajamos em pensamento a um Cabo Frio

velas e mastros menos navegadores, quase ausentes

quando ficamos a um triz de não estarmos mais dementes

A tristeza é quando o triste

está maior dentro do que fora de mim

quando, mais do que sentimentos, ela pode ser o fim

4 Respostas

  1. Costumo desejar felicidades a meus amigos, no entanto, no teu caso caro Tonicato, triste és bem melhor! Então, desejo que essa tristeza inspiradora tenha sempre um lugarzinho em tua vida.
    Marilda

  2. você está melhor do que nunca.]
    que grande obra, meu caro Tonicato

  3. Grande poeta Miranda. Um poema, sem piedade, sobre a tristeza.
    Bonito, em tudo. E sem receio, de desagradar.
    Parabéns.

  4. Belíssimo, meu caro Tonicato Miranda.
    Belíssimo.

    Destaco, entretanto, estes versos:

    “(…)

    É quando emprestamos um poema da Clarice

    juntamos uma rosa roubada com muito apreço

    enviando pelo correio ao nosso próprio endereço

    É quando viajamos em pensamento a um Cabo Frio

    velas e mastros menos navegadores, quase ausentes

    quando ficamos a um triz de não estarmos mais dementes

    (…)”.

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