O SER POÉTICO EM RODRIGO DE HARO: “ANDANÇAS DE ANTÔNIO” por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

Nas cinqüenta e sete estampas/poemas, ou como diz o autor, sinopses memoráveis para o cinematógrafo, que compõe o livro Andanças de Antônio, Rodrigo de Haro, mostra a força plástico-imagética de sua poesia. Ser volátil (o livro, a criação) e como é próprio do poeta, nenhuma fronteira pode impedir as invasões da percepção livre. O livro é bem editado pela catarinense Editora Insular, no formato tradicional e em bom papel, com retrato pictórico do artista na pena de Martinho de Haro. Belo frontispício a um livro de poesia, em que a figura do poeta, regente da orquestra de signos concentra o foco das atenções. No caso de Rodrigo de Haro, tal fato se justifica, ainda mais, pois o mesmo é também pintor e desenhista, sendo autor do dibujo de capa do livro. Estranha figura de cabeça branco-negra, em movimento, e de onde por um cordão tênue, sobressai ao lado direito do corpo, uma máscara negra, com vazados de olhos e boca em branco. Uma peça afrobrazuka, de movimento e flexão corpórea, remetendo à carnavalização do eu.

Devo admitir que ainda existe vida inteligente na Academia. Rodrigo de Haro, neste livro, é mais que eficiente com a linguagem, atingindo o patamar do transcendente, do simbólico, do ambíguo, em algumas passagens, o que é próprio do poeta, cheio, desse psiquismo mundano que só faz bem pra arte. Perdoem minha sinceridade de poeta e crítico à margem, senhor de si e de seu destino. Estive no lançamento do livro (Livraria Livros & Livros, Florianópolis – centro-) e entro agora no seu mundo de imagens e construções verbais. Deparo-me com coisas como: Mas o granito lento se esboroa./Insistes. Com prego torto/riscas meu nome na parede. Alguns poemas trazem nomes que remetem ao mundo da pintura, como Sala com paisagem de Castagneto ou Estampa de cão sentado numa cadeira. Gostei particularmente, dos fechos aos poemas, como se pode ver de Encontro na sala da Ordem da Capela do Menino Deus quando o poeta conclui que o passado é feroz, destrói as pontes./Frio peixe dos sonos./Viola sem cordas. Em Li muitos livros esta noite gostei da sentença final ao poema: Nada permanece. Nada/quer morrer. Em tom e pose aristocrática, mais adiante o poeta, expõe em Os silêncios de Antônio que invenção e alumbramento/nossa monarquia voltará. Não resta dúvida, que há uma postura deliberada do poeta, em ver as coisas (objetário do livro) de um prisma bem particular seu, aliás, o que faz a diferença e dá personalidade poética ao autor. Há uma sanha boba na poesia brasileira de hoje, de o cara querer ser Drummond, Bandeira, João Cabral… como se a expressão pessoal, nada valesse, e melhor seria arriscar o que “parece” teria dado certo. Cúmulo da mediocridade, a fala que não é sua, e que trazes para ti como se fosses. A essa classe apta na conformação, e repetição/diluição do outro, consagro os versos a seguir do próprio Rodrigo de Haro, Em 1974, talvez: O bufão, os poetas são/meras cabeças expostas/nas sombras. Melhor seria te calares. Um dos mais belos poemas do livro é Escrito em Veneza, no qual o poeta surpreende em brasilidade com versos como estes: Gomezius/Pereira na sua “Pérola Antonina”:/ Ocelus de Lucania e/ainda Rodrigues de Castro. Todos /admitem esta cristalina/verdade:/“A terra é imóvel.” O poeta de Andanças de Antônio sabe dosar as imagens, sem excessos ou redundâncias, vícios comuns de linguagem, quando a matéria as vezes é mais de crônica até, do que de poesia, como se infere de alguns poemas. Tudo/é inacabado e aspira/ao vazio da rua em que nas-/cestes:sibilino, arbóreo,/transparente e lúcido/sopro na colina. A figura do poeta, realmente transita muitas fronteiras da percepção, espaços tomados com destreza, extraindo sínteses históricas, visões de sombras e fantasmas, memória e flagelação. Há também um quê de humor na fala quando perpassa o poeta algumas paisagens. A ilha (Desterro) comparece, nunca se vergando às voláteis pressões do tempo, vida coletiva e individual, que nasce progride e morre. Quebra-se por vezes a Ode, circula/aos pedaços pelas ruas. Em poucas linhas/a herética receita se ilumina. Estes versos de Escrita, configuram bem o mosaico que deve ser a construção do poeta no tempo, no espaço (intra-extra-memoriam). O objeto da poesia é liso como bagre, volátil, diáfano, ambíguo, hábil à estranhas prestidigitações, e nas mãos do poeta, expande estrelas no céu da lira entusiasmada. Numa imagem surrealista diz o poeta no final de Uma caçada: Obstinado fitas/o disco vagaroso entre os chifres da matrona/que urina prodigiosa, rodeada de cães. Outro final glorioso, para a poesia e o ofício de consagração das coisas, aparece claro em Mobinogion, Pan-Fei: A terra, repleta de/mortos, está cansada, e também pede/para morrer. É nisso que Rodrigo de Haro, mesmo trazendo o estigma (negativo para alguns, como é o meu caso e positivo para outros) da academia é bom, converter um nada em poesia, uma lembrança qualquer no ar, transformada em poema consistente, como no caso do mezzo-francês Marcel: No escrínio empoado da máscara/exibes encore os olhos levantinos et/une orchidée adorna tua lapela ofegante. No último poema do livro Mãe conduz seu filho para olhar um fantasma a aparente simplicidade do texto é enganatória, pois os núcleos de significação avançam verso sobre verso, culminando o poema com esta constatação: Imobiliza-se/o leite das fontes, leite/que pinga dos meus lábios/sobre tábuas mal-pregadas. No final, uma imagem belíssima expande o dom visionário do poeta: Afastas a tranca, des-/dobras a geometria do jardim/como toalha sobre a mesa/onde pássaros não tombam./Com gelo e lama amassas/o rígido alimento dos fantasmas. Dá pra se dizer que o Andanças de Antônio traz bem à mostra o talento de Rodrigo de Haro, numa poética de força (no conteúdo) e graça (no estético), na forma livre e adjetivada, que é espelho da alma vivant e criativa do autor.

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