Arquivos Diários: 24 abril, 2010

AMOR FINA – de marilda confortin / curitiba

(composição musical de Gerson Bientinez)

O que mata,

não é a dor de perder quem se ama.

Enquanto maltrata

ainda há chama

há seiva

há gana

há chance

de reascender.

O que mata,

não é a lembrança,

é a indiferença.

Não é o que se pensa,

é o que se dispensa.

Não, a vida não acaba

quando o mundo desaba

“eu que aprenda a levantar”

A vida fenece

quando anoitece e endiece

na rotina,

nada começa,

nada termina,

o amor desvanece,

neblina.

A vida termina,

quando o coração adormece,

amortece,

amorfina.

UTOPIA & BARBÁRIE, de SILVIO TENDLER

Utopia e Barbárie, de Silvio Tendler é um documentário que trafega por alguns dos mais polêmicos episódios dos últimos séculos. Temas como o Holocausto, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, a Revolução de Outubro e o ano de 1968 no mundo, inclusive no Brasil, são retratados com imagens e depoimentos surpreendentes, de quem sonhou e lutou pela liberdade.

UM clique no centro do vídeo:

.

O SENTIDO DAS COISAS por zuleika dos reis / são paulo



O sentido das coisas não se perde de repente. O sentido das coisas vai se perdendo aos poucos, de maneira insidiosa. As coisas vão perdendo sabor, até que a língua não sinta mais nada. As coisas vão perdendo cor, até só restarem cinzas do que um dia foi cor. As coisas vão perdendo forma, até a invisibilidade feita de nadas intocáveis. As coisas, sem cheiro. As coisas, sem saber nenhum. De tudo restam os pensamentos, o olfato, o tato, a visão, o paladar, sem objetos reais.  Restam os nadas, sem saber, cheiro, forma, cor, sabor.

O sentido das coisas não se perde nunca. O sentido das coisas permanece, quando nós perdemos o sentido das coisas. Permanece, algures, alhures, nenhures. Permanece, nos outros; em cada outro, outro sentido de cada coisa, sentido alheio  desde sempre e para sempre ao nosso paladar, à nossa visão, ao nosso tato, ao nosso olfato, ao nosso pensamento. Por isso, não há palavra nem silêncio nosso que permitam ao outro alcançar o sentido da perda do sentido das coisas  em nós. Por isso não há silêncio nem palavra que permitam ao outro fazer-nos recuperar o sentido das coisas, através do sentido das coisas que permanece nele, no outro. Também nada cala nem fala ao outro, da nossa fala ou mudez, quando esse outro nos tenta comunicar a perda do sentido das coisas em si próprio, a sua própria perda do sentido das coisas.

Quando o outro nos diz que perdeu o sentido das coisas, nós tentamos compreender tal perda de sentido a partir do único referencial que temos: o modo como o sentido das coisas se articula em nós, se não o perdemos;  como se articulou, se já não o temos. Este modo de articulação, se ainda em nós, não nos permite, a não ser através de analogias precaríssimas, apreender a real natureza da perda do sentido das coisas no outro. Se já não temos o nosso próprio sentido das coisas, não nos sendo possível reconstituí-lo, nem pelos órgãos dos sentidos, nem pelo pensamento, a tarefa de sintonizar, minimamente que seja, com a natureza da perda do sentido das coisas no outro, tal tarefa se torna absolutamente impossível.

Quando o sentido das coisas se perdeu em nós e o sentido das coisas se perdeu no outro, sendo esse outro um próximo demasiadamente próximo, nos dói infinitamente mais a perda do sentido das coisas  neste outro demasiado próximo, do que a perda do sentido das coisas em nós próprios. E, mais ainda do que a dor de saber da perda do sentido das coisas  neste próximo-amado dói-nos não nos ser possível  devolver, a este amado, o seu próprio-perdido sentido das coisas, muito menos doar-lhe  o nosso também pretérito sentido das coisas, que já não nos pertence mais.

O sentido das coisas é preciso? Por que e para quê as coisas precisam de sentido? Por nós? Para nós? O segredo, que não existe, talvez seja apenas ficarmos com as coisas, entre as coisas, apenas sendo e existindo com elas. Sem sentido nenhum.