Arquivos Diários: 25 abril, 2010

O CRONISTA ORAL por hamilton alves / ilha de santa catarina

Cronistas somos todos, tanto os que se apresentam por escrito em livros e jornais quanto os orais, que são mais numerosos, e compõem uma fauna mais estranha mas não menos interessante.

Lembro-me de um desses tipos que, de manhã cedo, no refeitório de um hotel, ainda com os pulmões congestionados, descrevia as peripécias que tinha vivido em certa cidade, em que guardara a mala no aeroporto, esquecendo-se dela na hora do embarque. Promoveu uma busca depois infrutífera. Empenhou para isso todos os funcionários da empresa aérea e o resultado foi que não foi recuperada. Aí emendou um assunto noutro, de um amigo que, em Buenos Aires, colocara a mala no bagageiro do taxi. Saltara antes da mulher, que ficaria à espera dele no hotel. O taxista, sem querer, levara a mala. Procurara se lembrar do número da placa do taxi, mas lá se fora a mala. O que trouxe não poucos incômodos ao casal, que, por isso mesmo, com a perda de valores, teve que encurtar a temporada na cidade. Fora mais longe. Contara de uma viagem à Europa, em que num metrô fora surripiado por um punguista, que o deixou numa séria encruzilhada de permanecer os dias a que se propusera ou vir de volta.

As pessoas, em volta o ouviam, ora interessadas, ora enfastiadas. Não era um momento propício para revelar tais desventuras, mas mandava brasa em seus temas, pouco se importando quem gostasse ou não. Além de que tinha o dado de que sua voz era rouquenha e tornava às vezes difícil acompanhar o desenrolar das estórias.

Havia ainda o detalhe de que, enquanto desenrolava a narrativa, soltava perdigotos à esquerda e à direita para desagrado geral.

A certa hora, afastou-se do grupo, onde certamente as pessoas já demonstravam certo desprazer de ouvi-lo. Percebi que se arrastava para os meus lados e certamente procuraria continuar a desenrolar suas desditosas viagens por este mundo.

Vi-o, súbito, deitar os olhos em mim.

– Que farei? – angustiado me perguntei. – É

agora que vai iniciar outra fase de seu repertório de desditas e me escolherá para vítima.

O cara era seco, comprido, calvo, era o tipo dessas pessoas que aparecem em todos os locais imbuidos desse propósito de falar sobre qualquer coisa, seja o que for, em ocasiões as mais inoportunas.

Fingi que não o tinha visto. Fugi para um canto do refeitório.

Mas com a mesma voz rouquenha desfilava numa mesa próxima outro episódio igualmente aborrecido. A voz se fazia ouvir destacadamente no recinto, pairando sobre todas as demais.

Deduzi, assim, que cronistas somos todos, orais ou verbais, temos que levar o tema de nossa imaginação ao primeiro que se dispor a ouvir as nossas bem urdidas mentiras.

PERGAMINHO de vera lúcia kalaari / portugal

FICA O DITO de otto nul / palma sola.sc

Fica o dito

Sem dizer nada

E o aflito

No conflito

Visceral

Na capital

Sob o estrépito

decrépito

À rua nua

E crua

Sob o avesso

Do direito

Ainda que travesso

Levado a peito