Arquivos Diários: 27 abril, 2010

“CHICO XAVIER,” o filme – por dr. rosinha / curitiba

“Vai lamber ferida”

Quando criança, ouvia periodicamente a frase “vai lamber ferida”. Nunca soube o porquê nem como surgiu esta frase. Mais tarde, ouvi o Brizola, após uma derrota eleitoral, dizendo que se retiraria por uns dias e, como o gado, iria lamber suas feridas.

Lamber as próprias feridas, termo mais conhecido, é citado, como Brizola fez, após uma derrota política, amorosa ou de negócios. Derrotados se retiram e vão ruminar seus erros ou dores num canto solitário. Vão procurar a resposta para a ferida aberta.

Estas duas situações surgiram enquanto assistia a “Chico Xavier – o filme”. Logo no início, a madrasta do menino Chico, interpretado por Matheus Costa, manda-o lamber uma ferida. O menino é submetido literalmente a lamber uma ferida. É nojento, mas é feito para mostrar como foi difícil a vida do garoto.

Órfão de mãe, mantinha com ela diálogos longos, que poderiam ser fantasias de crianças. Por essas “fantasias”, era uma criança absorta e sonhadora. Por isso, reprimida.

Fui ver o filme esperando um libelo do espiritismo. O filme mostra a vida sofrida de um homem profundamente humano e religioso, e que, possuído de um espírito superior, somente busca o bem.

Nunca estudei o espiritismo. Nunca li nada mais profundo sobre Chico Xavier ou escritos dele. Portanto, fui ao filme sem nenhum preconceito ou informação prévia sobre o mesmo. Fui de espírito desarmado.

Na infância, no interior do Paraná, ouvia falar do Chico Xavier e de caravanas que partiam da região para ir ao encontro dele. Todos iam imbuídos de fé e na busca de cura para seus males físicos ou espirituais. Também lembro que ele usava peruca, tema abordado no filme. Esperava que o filme fosse basicamente um rosário dessas curas. Não é. Aparecem estes tipos de cenas, mas são poucas.

Há momentos de descontração, como quando ele recebe uma família tomada por maus espíritos e pede ao seu auxiliar que use o “peso do evangelho”, se necessário. Usar o peso do mesmo era fazer a leitura, com muita fé, de uma passagem bíblica. O seu auxiliar entendeu outra coisa e fez uso de outra maneira.

Outro momento de descontração é quando Chico faz sua primeira viagem de avião e, ao passar por uma turbulência, é tomado de medo. Medo de morrer. Neste momento, aparece Emmanuel, que pede a ele que pelo menos morra com educação. O que será morrer com educação?

No inicio da década de 1970 a TV Tupi, hoje extinta, tinha um programa chamado “Pinga Fogo”. Esse programa era transmitido ao vivo e durava uma hora. O convidado do dia 28 de junho de 1971 foi Chico Xavier, e neste dia o programa durou mais de três horas. O filme tem como espinha dorsal esta entrevista.

O filme Chico Xavier é baseado no livro “As muitas vidas de Chico Xavier”, escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior. A partir do “Pinga Fogo”, é reconstituída a infância do menino em Pedro Leopoldo e o restante de sua vida, como as primeiras psicografias de Chico ainda jovem, interpretado por Ângelo Antonio, em Uberaba.

Roteiro bem construído e sem ser piegas, o filme leva a alguns momentos de emoção. Não às lágrimas.

Emocionante e bem posta é a música. Egberto Gismonti. Gismonti nos tem dado uma imensa e bem postada obra como Sonho’70, Academia De Danças, Dança Das Cabeças, Carmo, Mágico, Circense, Fantasia, Alma e tantos outros trabalhos.

A música de Gismonti eleva o filme e dá a ele um espírito. Eleva também o espirito de quem assiste. A música contribui para que se saia do filme de espirito limpo, quase que flutuando.

O filme apresenta um drama paralelo: um casal que teve um filho morto e que paira a dúvida entre um acidente ou um assassinato. Este casal espera uma carta psicografada.

Nelson Xavier é quem interpreta Chico na vida adulta. Não poderia ser outro ator, pois Nelson não só tem a coincidência do mesmo sobrenome, tem a semelhança física e desempenha a tarefa com profundo profissionalismo.

Fui ao cinema imaginando ver um filme meramente espírita. Enganei-me. É um filme humano e que nos coloca a lamber nossas próprias feridas.

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR)

JORGE LUÍS BORGES, escritor de bairro – por jorge lescano / são paulo


Não fosse a fama e os fatos da vida de Jorge Luís Borges seriam menos interessantes que sua obra. Nasceu em 24 de agosto de 1899 em Buenos Aires.  Aos 15 anos viaja para Europa em companhia dos seus pais, que se estabelecem em Genebra. Lá faz seus estudos secundários. Volta à Argentina em 1921, depois de ter passado pela França, Itália, Portugal e Espanha. Por volta de 1937 ingressou no seu primeiro emprego de tempo integral. Antes trabalhara em tarefas editoriais menores. Escreveu para o jornal Crítica, a revista El Hogar e para cine-jornal.

Na biblioteca municipal onde trabalhava, a sudoeste do centro de Buenos Aires, escreveu A Biblioteca de Babel, A Loteria da Babilônia e outros contos que lhe dariam fama internacional. Em 1946, depois de ter sido promovido a fiscal de galináceos e coelhos nos mercados municipais, pede demissão da prefeitura e passa a ministrar aulas e palestras. Viaja por toda a Argentina e Uruguai. Fala de literatura, cabala, poesia germânica medieval, sufismo, as sagas islandesas, Dante, expressionismo, Cervantes.

Em 1961 divide com Samuel Beckett o Prêmio Formentor, outorgado por editores europeus graças a uma tradução dos seus contos para o francês, publicada quase trinta anos antes. É o inicio da fama e do mito do Bardo Cego. Sua obra é traduzida para todas as línguas européias, o árabe e o hebraico. O prêmio é quase equivalente ao Nobel, que não chegou a ganhar. Suas opiniões políticas têm muito a ver com esta omissão, à qual se referia ironicamente como uma antiga tradição nórdica.

Borges, escritor cosmopolita, que não duvidou em se utilizar quase todo o acervo cultural da humanidade, era, explicitamente, um escritor argentino. Poucos, talvez nenhum escritor argentino tenha reivindicado para sua família tantos fatos da história do seu país. Isto consta em seus escritos assim como em muitas das centenas, talvez milhares, de entrevistas que concedeu ao longo de sua longa vida em diversos países. Ainda que não chamasse a atenção para esses fatos, toda sua obra se encarregaria de lhe denunciar a origem. Na obra deste autor não percebemos a Argentina dos jornais e das agências de turismo, antes, outra, forjada em Buenos Aires pelas classes ilustradas suas contemporâneas.

Seria possível lhe atribuir a reinvenção do labirinto. Um labirinto arquetípico, platônico. Outros apenas admitem o tabu deste tema na literatura depois dele, são menos os que lhe reconhecem o mérito de ter atualizado um motivo presente exaustivamente em obras maneiristas.

Buenos Aires é uma cidade de ruas paralelas, os quarteirões formando quadriláteros quase perfeitos. Talvez a perfeição do quadrilátero fosse a primitiva intenção dos fundadores, isto se percebe nos esboços originais da cidade. Borges parece não tê-la sentido assim, deu aos seus passeios uma forma circular. Visitava sempre os mesmos lugares. Se acrescentarmos a estas caminhadas a penumbra de sua cegueira progressiva, poderemos encontrar — ou justificar —  a presença em sua obra desta forma arquitetônica tão venerada quanto inútil.

Este homem que como Quevedo, como Voltaire, como Goethe, como Wells, como algum outro mais aspirou menos ser um literato que uma literatura, extraiu do sul da cidade seus temas e personagens.

O sul era, para Borges, menos uma referência geográfica que um ideal. Isto afirma em O sul conto que destacava como sua narração melhor acabada, na qual inclui um dado biográfico da maior importância em sua evolução como escritor.

Dahlmann, protagonista da obra, é um pacato bibliotecário que sofre um acidente numa escadaria escura enquanto carregava um exemplar de As mil e uma noites. O próprio Borges, na véspera de Natal de 1938, é ferido na testa por uma janela aberta e recém pintada, isto provocará uma septicemia e ele passará duas semanas entre a vida e a morte. Quando volta a escrever, tenta algo que nunca tivesse escrito, um conto. Escreve Pierre Menard, autor do Quixote, uma de suas obras de maior influência não só na ficção como na crítica contemporânea.

Buenos Aires e seus arredores estão sempre presentes. Dentre muitos exemplos, Borges nos esclarece que os losangos do vitral que aparecem no conto A morte e a bússola, localizado em Genebra, fazem parte da paisagem de uma rua do sul de Buenos Aires, e que a quinta Triste-le-Roy, do mesmo conto, é uma transposição de um hotel de Adrogué, localidade ao sul de Buenos Aires, onde a família costumava passar temporadas na época de férias.

Jorge Luís Borges cresceu no bairro de Palermo e praticamente até sua morte morou no lado norte da cidade. Isto poderia sugerir uma curiosa constatação: enquanto sua obra fixava um espaço limitado da cidade, ele, morador de sua antípoda, cumpria o papel de turista, que sempre criticou, de forma implícita, na literatura. De fato, a cor local do sul foi retratada por um homem do norte. Suspeito que esta conclusão não seria do seu agrado.