Arquivos Mensais: maio \31\UTC 2010

OTTO NUL e sua poesia VI / ilha de santa catarina

OS ECOS IMORTAIS

Que venham das alturas

Os ecos imortais

E das planuras

As formas abissais

Que perambulem à noite

Os bêbados trágicos

Na madrugada sofram

Os poetas mágicos

Que adormeçam

No seio das putas

Os filhos das putas

Que desfrute a paz

No meio da lama

O réprobo contumaz


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INCÓGNITA

Me envolvo com a manhã,

Com a tarde,

Com a noite;

Tiro daí uma lição

Quanto à manhã, à tarde

Ou à noite;

Na manhã sou mais eu,

À tarde menos eu,

À noite sou em plenitude;

De que me valem, porém,

A manhã, a tarde, a noite,

Se não sei quem  sou?

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POEMA SEM TINO

Nunca mais farei

Um poema como manda

O bom figurino

Meio sem tino

Debochado e torto

Meio vivo, meio morto

Sem alma nem palma

Sem dama nem ama

Sem rima

Sem prima

Sem metro

Sem treta

Poema para dizer tudo

De ficar-se mudo

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O escritor WILSON BUENO está MORTO /curitiba

O escritor Wilson Pinto Bueno, de 61 anos, foi encontrado morto dentro de sua residência, no bairro Santa Cândida, em Curitiba as 19h30 desta segunda-feira. Ainda não se sabe qual foi a causa da morte, mas havia sinais de violência.

Wilson Bueno nasceu em Jaguapitã, no Norte do Paraná, em 1949, mas morava em Curitiba desde a década de 1970. Ele era considerado um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos. Foi apresentado aos leitores brasileiros em 1986, pelo poeta curitibano Paulo Leminski, com a publicação da coletânea de contos Bolero’s Bar. Com a novela Mar paraguayo, lançada em 1992, ganhou projeção nacional e internacional.

O escritor foi o criador e editor, durante oito anos, do suplemento de ideias Nicolau, considerado o Melhor Jornal Cultural do Brasil pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), em 1987. Ele também era cronista do jornal “O Estado do Paraná”, da revista “Ideias” e colaborador do caderno cultural do jornal O Estado de São Paulo.

gp.

CONVERSA COM A TRISTEZA por tonicato miranda / curitiba


Não sei por quais cavalgadas chegou, senti apenas a presença dela passando por mim como um vento avassalador; qual o perfume que nos roda a cabeça colocando nosso olhar nas costas. Falo da tristeza. Ela veio aos galopes convidando-me para beber vinhos.

Estou em Sorocaba trabalhando e a ouvir fados. Hoje desprezei o jazz e a bossa nova – resolvi ouvir fados. Não sei se foi Pessoa. Não sei se foram os meus três amigos portugueses. Ou se foi a distância de casa. Sempre distante dela estou. Hoje vivo na estrada, e dos ônibus de algumas companhias quase já lhes reconheço os estofamentos e poltronas. Sei apenas que a tristeza passou por aqui deixando em mim uma mágoa invasora. Ela é vírus invadindo-me a alma, navegando-me nas veias, em visita aos meus órgãos internos para prostrar-me como um nada.

Ah, como são tristes estes portugueses. Ah, como é triste qualquer canção na distância. Nenhuma vontade tenho de sair para jantar… (dia anterior)

—–mmm—–

Agora novamente na hora do almoço não tenho vontade de sair para comer. Neste momento estou sem Internet. Não quero comprar outro cartão de 24h para usá-lo por apenas uma hora. Por isto resolvo dar continuidade à tristeza ouvindo Rita Ribeiro e uma das suas canções. “…Uma noite sem você é muito tempo, e uma vida é muito pouco…” São dois versos de uma beleza triste arrebatadora. No entanto, a música pode mais do que as palavras nesta canção. Sendo mais triste do que a letra. Isto me impressiona.

Parecia claro para nós apaixonados pela linguagem, ser a palavra a razão de tudo. Mentira. Mentira. A música pode mais. Ela é causadora de loucas vertigens nos nossos corações e tímpanos. A música e seus múltiplos instrumentos podem nos matar devagarzinho. Pode nos diminuir em fado triste, achatando nossas virtudes; rolando nossas cabeças até os pés e arrastar-nos ao nível de um chinelo gasto, mesmo que nada caminhemos. Agora entendo as pessoas com depressão. Agora entendo o choro calado dos desvalidos. Agora entendo a tristeza estampada no olhar da moça feia. Entendo a ausência de sorrisos nos rostos dos desprezados.

Não sei classificar a tristeza. Será terá ela escalas? Será mais dolorida entre aqueles vivendo a orfandade repentina de parentes e amigos? Ou serão mais tristes os que sofrem a dor do amor não correspondido? O que dizer então dos amargurados com a indiferença dos vizinhos, dos colegas, parentes e do mundo ao redor? Qual será o mais triste riso na face dos desprezados? Qual a cor do seu sorriso? Amarelo ovo ou creme torturado? Tivessem asas alçariam vôo indo para o alto das pedras do planeta para chorarem calados.

A tristeza dói a dor de estar presente e estar fora do próprio corpo. Uma pessoa caminha lá fora junto aos automóveis. Ela vem ao encontro do meu olhar e sacode ligeiramente a bolsa. Vem se aproximando bem devagar. O olhar a zero grau do seu pescoço demonstra-me estar triste. Será está ela como eu, ouvindo músicas tristes no pensamento? Por que me preocupar com a sua tristeza quando eu mesmo estou aqui arrebatado por minha própria tristeza? Nuvens brancas no céu suavizam o azul espacial gerando sombras em pedaços da cidade. Faz calor, mas sinto um frio arrepiando-me a espinha. Talvez seja o ar condicionado. Acho é mais provável seja o fato de estar sem camisa, de estar com a alma desagasalhada do calor de uma mulher.

É melhor espantar a tristeza antes que ela acabe com o resto do meu dia. Vou conversar com ela.

__ Escuta aqui ô tristeza, quem lhe deu o direito de entrar sem ser convidada?

__ Ué, não gosta da minha presença?

__ Preciso trabalhar, minha senhora.

__ De fato não lhe entendo. Você já não afirmou para mim, mesmo quando estava ausente cuidando de muitas dores, de que precisava de mim para produzir bons poemas?

__ Espera lá! Não entendo onde está a relação de uma coisa com a outra. Poemas são imagens, não são verdades fixas.

__ Ah, então é assim. Você me usa e depois me descarta. Sirvo então ao propósito de apenas inspirá-lo para a produção de beleza? – falou ela meio indignada, colocando as mãos nas cadeiras.

__ Calma. Não é bem assim. Admito ser mais intenso em mim – e chego a ficar mais perto da beleza, quando estou triste e produzo poemas. Mas daí a você querer montar acampamento na minha vida. Isto não é possível. Sai fora, Chôô!!

__ Sabe, meu caro, você é uma pessoa muito ingrata. Estou sempre disponível a todos seus chamados. E veja bem, sou uma pessoa muito ocupada. Você não imagina quantas pessoas são tristes no mundo. Os tristes têm população dez vezes maior do que os alegres. E tenho de dar conta de todos, evitando que se martirizem; se suicidem; se joguem dos trens; se atirem do alto dos edifícios; se atirem sob as rodas dos automóveis. Na maioria das vezes consigo virar a amargura em tristeza de grau menor. Quando consigo surgem os poetas domingueiros, os escritores de fim de semana, mas mesmo assim alguns eu perco para a Dona Morte. E aí…

__ …chega, chega! Você já me convenceu. Pode ficar mais cinco minutos, até acabar a música. Mas depois vá embora que tenho muito a fazer. Olha lá. Veja se aquele piloto de avião que vai lá em cima não está ficando triste. Muda o grau de tristeza dele, se não ele joga todos no chão e não quero mais saber de tragédias por aqui.

Agora penso que já poderei ir almoçar, Dona Tristeza já se foi. A conversa foi boa, mas não estou disposto a perpetuar este estado de espírito. Prefiro virar do triste para o romântico que é o grau menor de tristeza. Nele o choro é discreto e o humor é cúmplice do humor dos outros. Românticos não têm credos, têm delicadeza, adoram jardins, estradinhas e dias azuis. Gostam mesmo é de olhar e apreciar. Bebem porque é o jeito de fazer amigos ou de se deixar estar em companhia das imagens e dos pensamentos. A saudade é companhia sempre presente. Amam amores antigos apenas pelo sabor de velejar em ondas de saudades.

Românticos são pessoas sempre a dar, um nada querendo receber em troca. Românticos podem ser totalmente egoístas com seu próprio amor. No entanto, como precisam do espelho dos seus amores, jamais os despreza. E por não quererem ficar totalmente sozinhos amam qualquer um, amam qualquer uma; sejam elas gordinhas, baixinhas, magrinhas, belinhas, feinhas; com vestido de linha, com calça comprida e umbigo de fora ou para dentro; tanto faz, ele é sempre um bom rapaz.

Pronto já não estou mais triste, apenas ligeiramente romântico. Vamos à comida.

O TEÓLOGO de hamilton alves / santa catarina

Estava numa confeitaria, quando entrou porta a dentro um sujeito alto, camisa branca de mangas compridas, calças seguras por um suspensório, que fazia um “V” às costas, sapatos pretos de longo uso. Era corpulento, sem pressa, calculando os passos dados, buscando com o olhar um lugar vago (o recinto estava repleto). Tinha ralos cabelos brancos, uma calva bem acentuada no cocoruto.

Pôs os olhos na minha mesa, onde havia uma cadeira vaga.

Pediu-me licença, até por sugestão do garçon ali se alojou. Vi o momento em que baixou todo seu peso à cadeira, que o recebeu de forma que me pareceu um pouco desconfortável.

Olhou de um lado e outro. Fitou-me com seus olhos pouco definidos atrás de uns óculos de lentes muito grossas, como que me examinando e, de certo, se perguntando:

– Quem será esse gajo?

Seu olhar, sob têmporas espessas, era simpático, como disposto a confraternizar com qualquer pessoa. Embora mantivesse uma cara fechada. De nariz rubicundo, o rosto formava um triângulo, cuja base se situava à testa e o vértice no queixo.

Enquanto esperava ser servido – e isso demorou além de sua expectativa, esfregava uma mão à outra, como quem esperasse o desenlace de qualquer coisa ou o início de um contato humano.

O contato imediato só poderia ser comigo.

Grunhiu qualquer coisa consigo mesmo, como se reclamasse do pouco conforto da cadeira.

– O assento poderrria serrr maisss larrrgo. Vejo-me mal inssstalado. – disse.

Sua fala revelou ser de origem francesa ou, no mínimo, inglesa.

– De um modo geral não gosto de nada nessa confeitaria. – disse-lhe.

Aos poucos, tateando, avançávamos para um diálogo mais fecundo.

– O senhor é professor?

– Como adivinhaarrr? (arrastou nos “erres”).

– Sua aparência o indica claramente.

– Ó, minha pobre aparrrência!…

– Que leciona?

– Teologia.

– É uma ciência que me interessa muito.

Fez um ar de bom acolhimento a essas palavras, como se lhe parecesse estranho que a alguém ainda interessasse, em nosso tempo, um tal assunto.

– Não é o que se obserrrva em nossas univerrrsidades. Deus parece não despertar mais o interrrresse de ninguém. Tenho poucosss alunosss no currrrso.

– Como o senhor definiria Deus?

– (tinha essa pergunta engatilhada, mas sem coragem de formulá-la).

– Muito simplesss (chiou)… É o criadorrr de todasss asss coisasss.

– Mas hoje parece que essa ideia vai perdendo terreno.

– Sim, sabe-se dissssso. O mundo se materrrrializa a olhosss vistosss. Onde o materrrialismo vai nos levarrr?!

O garçon lhe trouxe o lanche.

Não quis molestá-lo com mais perguntas. Pedi-lhe licença e me despedi.

RUMOREJANDO ditados juquianos – por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (De ditados juquianos).

A matemática,

Desenvolve

O raciocínio;

A prática,

Desenvolve

O tirocínio.

(E a globalização

Desenvolve

O morticínio…)

Constatação II

E como dizia aquela mãe extremosa, se referindo ao seu filhinho do coração de 35 anos que vivia dando golpes na praça: “Ele é um pobre de um incompreendido”.

Constatação III (Passível de mal entendido).

Ela colocou os ovos dele na geladeira.

Constatação IV

Sem dúvida, era um mau genro. Quando a sogra entrou numa escola de pára-quedismo, se pôs a distribuir, a torto e a direito, sementes e mudas de roseiras, abacaxi e daquele gênero de cacto bem espinhento…

Constatação V (Interlocutor chato).

A conversa

Converge,

Tergiversa,

Submerge…

Constatação VI

Rico aborda educadamente; pobre, baixa intempestivamente.

Constatação VII

Não se deve confundir despontar com desapontar, até porque, ao despontar a sogra no portão da sua casa você não deixa de sedesapontar.

Constatação VIII

Não se deve confundir preterido com preferido, muito embora, às vezes, o preferido é preterido como naquela história, que vocês tão bem conhecem – embora, ainda, não tenha passado na televisão –, do filho pródigo que volta à casa paterna e o pai manda servi-lo do bom e do melhor, coisa que para o preferido nunca havia sido feito.

Constatação IX

Rico negaceia; pobre, tira o corpo fora.

Constatação X

Impretérito perfeito não tem nada a ver com pretérito imperfeito, até porque impréterito não existe.

Constatação XI

Quebrou a munheca*.

Quando, pelos amigos largado,

Em casa entrou,

Todo cambaleante, torto,

Menos vivo que morto,

Que meleca !

De susto, quase expirou:

A mulher, no começo tão amada,

Tinha se mandado.

Não mais agüentou

O que se tornou

Uma empreitada…

Coitada!

Coitado!

*Quebrar a munheca = Embriagar-se.

Constatação XII

Pobre vende a alma; rico, faz concessões.

Constatação XIII

O rei estava nu. Claro, ele estava se preparando para entrar no banho.

Constatação XIV

Deu na mídia: “A Confederação Nacional da Indústria – CNI, em documento entregue aos presidenciáveis, citou que o país pode ter renda per capita de ricos até 2040”. Vai-se a esperança deste assim chamado escriba de fazer parte dos ricos, tendo em vista a sua – minha – provecta idade. E já que falamos sobre o assunto, a CNI nada falou quanto à distribuição de renda que em nosso país sempre foi a pior do mundo.

Constatação XV (Teoria da Relatividade para principiantes).

É muito melhor que baixem as ações na Bolsa de Valores do que a tua frágil libido. No entanto, dependendo do número de ações que você tenha, baixando estas, o fato poderá ocasionar a baixa daquelas…

Constatação XVI

Do meu Amigo o psicanalista Davy Bogomoletz: “Minha aplicação da Lei de Newton ao problema econômico: O dinheiro atrai o dinheiro na razão direta das quantias e na razão inversa do quadrado da necessidade!”

Constatação XVII

O  técnico da Argentina fez a seguinte afirmação: ‘Se  a Argentina ganhar a Copa do Mundo, eu fico nu no Obelisco em Buenos Aires’. Data vênia, como diriam os nossos juristas e provavelmente os juristas dos  nossos hermanos, mas Rumorejando acha que  tal visão viria a empanar a alegria dos argentinos e, principalmente, das  argentinas. Pra quem não se interessa por futebol, somente pela referida soturna visão de Maradona pelado.

DÚVIDAS CRUCIAIS.

Dúvida I

E quem diria que a palavra fomentar, que quer dizer “promover o desenvolvimento, o progresso de”, também quer dizer “lixar-se; danar-se” ? (Houaiss)

Dúvida II

Foi o cético que passou a não acreditar até nas suas próprias palavras ?

Dúvida III (Via pseudo-haicai).

No bate, rebate

Até o gandula

Entrou no embate ?

Dúvida IV

Intercâmbio é quando os gaúchos trocam de time, passando do Grêmio para o Internacional ?

Dúvida V (Via pseudo-haicai).

Só naquele instante,

O ancião achou viagra

Interessante ?

Dúvida VI

Fugiram da casamata,

Do xilindró,

Usando só

Um abridor de lata ?

Dúvida VII

A expressão “cunhada” foi cunhada pela sua cunhada ou pela cunhada da sua cunhada ?

Dúvida VIII

Será que sem embreagem

E com o freio de mão puxado

Aumenta o teor de frenagem

Do perdulário

Das finanças, o secretário

Do vosso estado ?

Dúvida IX

O prezado leitor está em dúvida em quem votar ou em quem não votar nestas próximas eleições?

Dúvida X

E o prezado leitor também está apavorado com a seleção do Dunga?

FÁBULA CONFABULADA (INDIGNA DO MILLÔR).

Numa província chinesa, daquelas que muitos chamariam “bem no interiorzão”, vivia uma população pacata e ordeira como corresponde a quem vive nesses lugares. Trabalhavam a terra para de ela tirar o seu sustento, que no Ocidente se chama de cultura de subsistência, naturalmente estando expostos às condições climáticas para obter uma melhor ou pior safra, já que irrigação que é bom, nem pensar. Evidentemente havia também artesãos, pequenos comerciantes, um ou outro profissional liberal, mas efetivamente, a maioria se ocupava da terra.

O fim de semana, limitado apenas ao Domingo, era dedicado ao futebol, esporte que estava começando a se tornar muito popular, a exemplo de tantos outros países, principalmente do Ocidente. À medida que o esporte se difundia no país, também na província ganhava, cada vez mais, status. A evolução foi tamanha que se formou o time do lugar que disputava partidas amistosas com as províncias vizinhas, quando então se verificava que não eram tão amistosas assim, já que, muitas vezes, acabava em pancadaria, com envolvimento de jogadores, torcedores e outros “ores”, como, vejam só, quem diria, doutores. Sem deixar, é claro, de sobrar para o juiz, como é muito comum nesses casos suceder também no Ocidente. Mas, tudo isso, já é outra história.

A coisa começou a se tornar tão apaixonante, como soe acontecer com este esporte, que resolveram importar um técnico para treinar a equipe, procurando trazer de um país, chamado Brasil, que ficava do outro lado do mundo e que era considerado pela sua própria população, como “o melhor do mundo”, muito embora não tivesse sido campeão numa certa copa, perdendo de goleada de um país que, até então, sempre havia se destacado pelos seus vinhos e queijos e que tinha a fama de viver para comer ao invés de comer para viver, conforme, quem possui o dom da observação, depara algo similar em todo o reino animal. Bem, naturalmente, tudo isso de “gourmet” ou “gourmant”, não deve ser confundido, pois se trata de outra história que, pelo menos por ora, não vem absolutamente ao caso.

Mas, voltemos ao assunto, procurando se dispersar o menos possível: O primeiro técnico cogitado, que ao longo de toda sua carreira havia se mostrado supersticioso, invocando sempre o número 13, foi descartado pelo fato de haverem chegado a conclusão de que, se mandinga desse resultado, os campeonatos lá no Brasil terminariam com todos os times juntos em primeiro lugar. Ou em último, dependendo da pessoa, que estivesse analisando a colocação dos times, fosse otimista ou pessimista; o segundo técnico lembrado, também foi descartado por haver feito referência ao seu próprio bumbum, alegando ser feio e, com isso, não se propondo a posar nu para revistas especializadas. Julgaram que era uma espécie de marketing ao revés, pois achavam que o retro estava, ao não enaltecer essa sua parte pudenda, exatamente querendo chamar atenção sobre ela, o que não lhes parecia muito ético.

No fim, acabaram optando pela prata da casa, escolhendo o melhor jogador do time para ser o técnico. Aí, como não poderia deixar de ser, verificou-se a famosa Lei de Peter que diz que todo sujeito ascende numa escala hierárquica até atingir o seu nível de incompetência.

De cara, Rah Teh Ven, esse era o seu nome, começou a sugerir que o time jogasse sem se prender a esquemas rígidos. Até aqui, tudo bem. O time, assim, perdia e ganhava ou ganhava e perdia, dependendo se seja otimista ou pessimista. Mais tarde, Rah Teh Ven começou a fazer experiências, baseado em fórmulas de retrancas, copiadas de alguns técnicos brasileiros, que segundo os entendidos, são os mais entendidos no intrincado assunto: volantes atrasados, volantes adiantados, meio de campo com quatro apoiadores, três, sem nenhum, zagueiros líberos, zagueiros híbridos, zagueiros promovidos a beques, beques promovidos a zagueiros, uma barafunda total. O time, como diriam os entendidos, não os acima mencionados, mas os comentaristas esportivos, que parecem, por seus comentários, ser mais entendidos do que os outros entendidos, os técnicos, nunca mais fez as pazes com a vitória. Era derrota em cima de derrota. Rah Teh Ven, de ídolo como jogador, teve, como técnico, até de se mudar para outra província. Lá, constitui família e aos filhos proibiu, patriarcalmente, que se falasse em futebol para todo o sempre. O que, é claro, provocou muitos ressentimentos na família. O que, convenhamos, comumente acontece na maioria delas. Principalmente quando o assunto é herança. Mas, isso, já vem a se constituir numa outra história.

MORAL: Não se mexe em time que está ganhando e perdendo.

AS RUÍNAS DA CRISE e o SONHO QUE RESSURGE – por alceu sperança / cascavel.pr


Uma espécie de Oscar Niemeyer da Geografia, o professor Milton Santos (1926–2001) foi um dos grandes brasileiros do século XX. Seu pensamento é, ao mesmo tempo, luz e frescor para orientar os patriotas que ainda teimam em sonhar com um País justo e uma humanidade feliz, apesar do luliberalismo aqui dentro e do neoescravismo financeirizado que domina o planeta.

Nos seus últimos dias sobre a Terra, nosso grande geógrafo alegava que mesmo em meio a toda essa bagunça mundial está surgindo um novo mundo. Para ele, ao contrário do que tanto se disse, a história universal não acabou: “Ela apenas começa”.

De onde, diabos, Santos tirou esse novo mundo cuja história só começou?

Antes, o que havia era uma história de lugares, regiões, países, sustentava Santos. As histórias podiam ser, no máximo, continentais, em função dos impérios que se estabeleceram em uma escala mais ampla.

A história universal era só a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes. O mundo era formado de frações separadas ou escassamente relacionadas do planeta.

“Somente agora a humanidade faz sua entrada na cena histórica como um bloco, entradarevolucionária, graças à interdependência das economias, dos governos, dos lugares”.

Diante disso, o movimento do mundo conhece uma só pulsação, ainda que as condições sejam diversas segundo continentes, países, lugares, valorizados pela sua forma de participação na produção dessa nova história.

A mesma materialidade atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso será uma condição para a construção de um mundo mais humano, bastando que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana.

Claro que o avanço da ciência e da técnica está agora apropriado pela máquina injusta do capitalismo, mas, segundo Santos, “quando sua utilização for democratizada, essas técnicas doces estarão a serviço do homem”. De resto, há ainda a mutação do homem biológico, por conta dos progressos e das promessas da engenharia genética.

Temos, assim, que os avanços da ciência e da técnica serão apropriados pela humanidade numa progressão pós-capitalista, apropriação feita por um homem que não será o atual, mas um novo homem, que reconstruirá a si mesmo como uma nova espécie sobre a Terra.

Se ainda ontem não havia CD e hoje ele já está quase obsoleto, nada do que usamos agora, coisa alguma de toda a parafernália que consideramos evoluída terá qualquer utilidade dentro de alguns poucos anos.

As mudanças no mundo material e na vida humana estarão a cavaleiro de transformações agudas na sociedade, na economia, na cultura e na espiritualidade.

A correspondente mutação filosófica do homem será, na visão de Milton Santos, “capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa e também do planeta”, pois “nesse emaranhado de técnicas dentro do qual estamos vivendo, o homem descobre suas novas forças”.

Isso também dá em uma nova política, bem diferente desse mar de egoísmo e safadeza que aí está, com candidatos arrogantes se julgando melhores que os outros, igualmente arrogantes e personalistas, arremedos desumanos encarnando práticas vis e criminosas.

“Ousamos, desse modo, pensar que a história do homem sobre a Terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória” – esta, a maravilhosa sentença que Milton Santos nos deixou em seus últimos instantes de vida.

EIS O HOMEM – de marco aurélio campos / porto alegre

I

Brotei do ventre da pampa
Que é Pátria na minha terra
Sou resumo de uma guerra
Que ainda tem importância,
E, diante de tal circunstância,
Segui os clarins farroupilhas
E devorando coxilhas,
Me transformei em distância.

II

Sou do tipo que numa estrada
Só existe quando está só.
Sou muito de barro e pó.
Sou tapera, fui morada.
Sou a velha cruz falquejada
Num cerne de curunilha.
Sou raiz, sol farroupilha,
Renascendo estas manhãs,
Sou o grito dos
tahãs
Voejando sobre as coxilhas.

III

Caminho como quem anda
Na direção de si mesmo.
E de tanto andar a esmo,
Fui de uma a outra banda,
E se a inspiração me comanda,
Da trilha logo me afasto
E até sementes de pasto
Replanto pelas vermelhas
Estradas velhas parelhas,
Ao repisar no meu rastro.

IV

Sou a alma cheia e tão longa,
Onde as saudades rebrotam
Como os caminhos que voltam
Substituindo os espinhos,
E a perda de alguns carinhos
Velhos e antigos afrontes,
Surgiram muitos, aos montes,
Nesta minha vida aragana,
Destas andanças veterana,
De ir descampando horizontes.

V

Sou a briga de touros
No gineceu do rodeio.
Improtério em tombo feio,
Quando o índio cai de estouro.
Sou o ruído que o couro faz,
Ao roçar no capim.
Sou o rin-tim-tim da espora
Em aço templado.
E trago o silêncio guardado,
Do pago dentro de mim.

VI

Fazendo vez de oratório,
Sou cacimba destampada,
De boca aberta, calada,
Como a espera do ofertório.
Como vigia em velório,
Que tem um jeito que é tão seu.
Tem muito de terra… é céu,
Que a gente sente ajoelhando,
De mãos postas levantando
O pago inteiro para Deus.

VII

Sou o sono do cusco amigo,
Dormindo sobre o borralho.
Sou vozerio do trabalho,
Na guerra ou na paz – sou perigo.
Sou lápide de jazigo
Perdido nalgum potreiro.
Sou manha de caborteiro,
Sou voz rouca de cordeona,
Cantando triste e chorona,
Um canto chão brasileiro.

VIII

Sou a graxa da picanha
Na bexiga enfumaçada,
Sou cebo de rinhonada.
Me garantindo a façanha.
Sou voz de campanha,
Que nos lançantes se some.
Sou boi-ta-tá – lobisomem.
Sou a santa ignorância.
Sou o índio sem infância,
Que sem querer ficou homem.

IX

Sou Sepé Tiarajú,
Rio Uruguai, rio-mar azul,
Sou o cruzeiro do sul,
A luz guia do índio cru.
Sou galpão, charla, Sou chirú,
de magalhanicas viagens,
Andejei por mil paisagens,
Sem jamais sofrer sogaço.
Cresci juntando pedaços
De brasileiras coragens.

X

Sou enfim, o sabiá que canta,
Alegre, embora sozinho.
Sou gemido do moinho,
Num tom triste que encanta.
Sou pó que se levanta,
Sou raiz, sou sangue, sou verso.
Sou maior que a história grega.
Eu sou Gaúcho, e me chega
P’rá ser feliz no universo.

MESTIÇA de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

MESTIÇA

Mestiça afronta ao estabelecido.

Mestiço, abro clareiras na mata.

Mestiço, mastigo folhas

amargas.

Mestiço, arremedo macacos no topo

das altas árvores.

Mestiço, um peso

o peso das eras

me puxa pra trás

puxa relança

ao infinito.

Assim

é que também faço

e persisto.

No espaço duma vertigem e outra

embatem forças ocultas. Teu espíritho, meu espíritho, de sóis e luas repartidos, sofrem as vis agressões. É de tempera boa essa ferradura. É de tempera boa essa espada. São de tempera especial, esses golpes milenares em defesa pessoal.

As ogivas da morte, não estouram no meu chão. Não estouram na minha sede, não estouram na minha fome, não estouram na minha persistência de criador.

Acrescente

uma moeda de cobre

um metal qualquer

um adereço

no teu sonho

teu fazer

espectre a lua de frente

e subverta todos os sóis

dos dias seguintes

só pra ver como é

que fica.

Vem pelos séculos

nosso olhar

transternecido

nosso ver

crer, transfigurar

os transfinitos

almas perpassando

objetos.

Descalabro

do pensar

beligerante, eclético

trúnfico e imperial

a palavra vindo

e destruindo os sóis

arremessados de lado

e a voz fosforeando

céu acima na escuridão.

O fósforo

de tuas palavras

acende

iracriadora

no meu

coração.

A iracriadora

repercute no sempre

de todas as épocas

porque é voz lançada

ao infinito

transdiz o indizível

e revela os espaços

ocultos do orbe

em transe

de altosonhar.

Existe

o baixo sonhar

e sempre andei ali

escaravelhando

pós ardidos

de contigo, reergui

o gesto, a voz

o ímpeto e agora laboro

magmas alternados

de beleza e furor

explícitos zêlos

atônitas investidas

nos fatos.

Espírithos invictos no labor dos livros me desafiam

:golpes baixos no dizer:

agridem por mero deleite

a voz que poéticocircunda o entrelivros e delibera e torce as coisas de razão desrazão.

Comigo é assim despachado o despacho do dizer nos pacotes endereçados pra alguém no futuro que pouco ou nada me diz.

Na luta de facas, tu vinhas e eu me defendia com golpes marciais

as facas lampiavam na escuridão dos muquiviras e eu me defendia defendia. As lâminas finas, cromadas lampiavam na escuridão dos muquiviras e eu me defendia

defendia.

Em poeta e anjo e semioticista eu lançava mão de signos espérios ágeis no gatilho e mesmo assim tu te chegavas ostensivo, lampiando as facas afiadas no meu brilho.

Acrescente um punhado de feijão no prato, um punhado de arroz e um ovo frito fenomenal. Sacias a tua fome. Um poema como esse prato cheio, interfere em outras espheras. Interfere

educa o trauseunte peregrino. Um signo vive dum prato feito. Um signo, um homem, um centauro, um ente libertino. Dum prato feito a nossa fome. Dum prato feito, a nossa ira santa. Dum prato feito, o nosso amor. Dum prato feito, a imagem da musa crescida de sóis insuspeitos. Em poeta e centauro e ente reciclínio não me deixo abater pela cantilena negra do baixo espíritho. Uma proeza, a voz que poéticocircunda nossas ações de inventor

criador, filósofo pré promaduro, no caminho de todos os caminhos.

Luas e luas, sóis e sóis espelhos nos espelhos

linhas de pensar o impensado, tresandos de verbos novos fazendo pecado. Em poeta, me tentam imagens lindas. Me tentam, conceitos complexos, construções do alto espíritho. Mitigo

a dor maior, mitigo a ilusão esplêndida que dói

frente ao objetário vida.

A ARTE e a FAVELA por joão batista do lago / são luis

A Favela-arte e o alegre lirismo da Arte-favela    (03/ 2006)

Como categorizar ou classificar o documentário “Falcão…” exibido na noite do último domingo[1], pelo programa “Fantástico, o show da vida”, da Rede Globo de Televisão, do Brasil, sobre as reais condições de vida dos viventes em favelas, no Rio de Janeiro – Cidade Maravilhosa? O que dizer do impacto que causou (o que não deveria, pois, essa é uma realidade comum a todos nós) ao outro lado, – à burguesia deificada pela pós-modernice imanente no imaginário da identidade brasileira -, ao ver-se refletida no espelho surrealista da grotesca sociedade nacional? Que caminhos tomar, a partir deste evento “espetacular e mitológico”, dessa fantasmagoria, desse babelismo favélico[2], que nos faz alegres e nos remetem a pensamentos tais quais: “ainda bem que não sou eu…”, “o que eu tenho a ver com isso se não moro no Rio de Janeiro…”, “isso é problema dos governos…”, “eu faço a minha parte…”, “venha para o meio…”?
Permito-me dizer que o relatório concreto[3] final (ou quase final!) da pesquisa feita em diversos morros favelados da suburbana “Princesinha do Mar”, que resultou neste documentário telemático, é uma obra de arte… Arte do submundo fantástico! Arte da degradação do ser! Arte da história do homem! Arte da história da consciência humana! Arte da teoria da sociedade! Arte da crítica e da razão! Arte do Aufklärung! Mas, também, é preciso dizer: é arte da auto-afirmação da burguesa pós-modernice que canta em verso e prosa toda a alegria da favela-arte que é mercadejada no imaginário coletivo do mercado animista[4]. É, sobretudo, a afirmação de uma arte inclusiva da exclusão… arte da reclusão… arte da guetização… arte da segregação… É, assim, todo o lirismo da arte contido em si.
O documentário desvela, ao mesmo tempo, uma tipologia dialética do Eu louco foucaultiano numa direção rastreadora do mimetismo e da metamorfose kafkiana. Gostaria mesmo de não ter essa representação imagética desse sanatório geral, mas só ela me é possível após as imagens do aqui e agora, do real e do realismo puros, apresentadas em rede nacional de televisão. Pena que três quartos (ou mais até!) dos expectadores foram dormir sem quaisquer ânsias de vomição, pois, senso comum: a pobreza, a fome, a miséria, a desigualdade, a falta de trabalho… tão essenciais para o desenvolvimento e o progresso da burguesa sociedade que dorme em berço esplêndido – e tudo o mais! – regem, como mitos sacralizados, a vida dessas almas seculares que não mais são tocadas pelos dedos dos deuses capazes de lhes proporcionar a felicidade na terra. Mesmo que momentaneamente amarguradas serão embaladas nesta noite pelos sonhos opiáticos da burguesa solidariedade (ou pena!?) cristã. Que pena!
A cavernosidade do documentário é tanta que provoca letargia imanente não deixando eliminar o monstro e toda sua monstruosidade latente imbricada numa filosofia niilista que veda os olhos da esperança por mais otimistas que queiramos ou desejamos ser. E ainda que o fato se dê no aqui e agora, ele revela a pré-história do ser humano incapaz de resolver seus antagonismos, mesmo que à cada dia mais se eleve ao nível das tecnologias esperançosas (nada mais que falsas verdades!) de uma alteridade capaz de resgatá-lo num progresso sei-lá-do-quê.
Não há como não desesperançar quando nos interiorizamos ou retornamos a essa caverna do humano onde somos assassinados após ver toda a beleza da luz, do sol, da lua, do dia, da noite, dos rios, dos pássaros, das árvores, das rosas, das flores!… Não há como não desesperançar quando nos vemos apenas um mercado onde o modo de produção é a miséria… a fome… a desigualdade… a injustiça…
O que esperar, então, desta obra de arte que retrata e reflete o eu-nós-eu-em-si nessa droga de favela-arte da droga da arte-favela em todo o seu lirismo dogmático?
– O burguês prêmio por mostrar a dialética da negação estética da favela-arte que é comercializada no mercado negro da ética acrítica e amoral – “uma pré-história do idealismo, da imanência, do espírito exaltando-se a si mesmo, da subjetividade dominadora, em que é preciso enfatizar as configurações do mito e da pós-modernidade, da natureza e da história, do antigo e do novo, do sempre idêntico e do outro, da decadência e da salvação”.[5]
Mas, “Falcão…” também nos remete para uma verificação da dialética da cultura da miséria imanente no humano que, em si, é o Eros lírico da arte fetichizada. De certa maneira nos mostra a forma e o conteúdo dessa mísera democracia libidinosa presente no aqui e agora que pensamos está além de nós, quando, em verdade, ocorre dentro da infra-estrutura política, social e econômica, no interior de cada elemento individual do sócio-histórico, isto é, da sociedade, numa pulsão prazerosa da catástrofe e do caos.
Por acaso não é a miséria a estética subjetivista de uma sociedade que contém em si diversidade de emoções e sentimentos que a suscita? Que a torna bela? Que a faz atraente? Que a deseja? Que a erotiza? Que a transforma em mito? Que a consome? Que a subjuga? Que a exclui? Que a faveliza? Que a discrimina? Que a domina? Que a naturaliza, enfim, e a desclassifica?
“Com o recuo da luta de classes em pleno dia, a contradição mudou de forma: ela tem agora a aparência de uma despolitização das massas numa cidade que era, ela própria, cada vez mais politizada. À medida que a separação entre Estado e sociedade desaparece, e o poder social se torna político sem mediação, vê-se aumentar objetivamente o antigo desequilíbrio entre a igualdade inserida no direito e a desigualdade efetivada na repartição das oportunidades de agir politicamente. Esse mesmo processo, aliás, tem também por efeito o fato de ele mesmo perder seu caráter permanente e sua acuidade na cabeça dos homens. A sociedade que, embora seja política por natureza, não está mais separada do Estado, continua a ser concebida como uma entidade separada do Estado nas formas do Estado liberal de direito – essa sociedade funcionaliza cada vez mais seus cidadãos para fins oficiais mutantes, mas, para isso, os privatiza em sua consciência”[6]
É, pois, preciso pensar, entender e compreender – de uma vez por todas – que o morro e toda a sua história de miséria imanente e miseráveis imanentes, e não menos mitológicos e fetichizados, não estão além ou aquém do humano, não estão além ou aquém do sagrado, não estão além ou aquém da metafísica, não estão além ou aquém da racionalidade, não estão além ou aquém da sociedade, não estão além ou aquém do capital e do capitalismo, não estão além ou aquém do Estado. Estão em si. Encontram-se tatuados nas suas essências espirituais e delas jamais podem afastar-se ou desgarrar-se ou desintegrar-se.
Seria, então, a lírica arte de M. V. Bill, a pré-configuração latente de um tipo de profecia que se cumpre por si mesma sobre a forma e conteúdo dos moradores em favelas? Ou, seria, ao contrário, a materialidade real da catástrofe e do caos, que sempre estamos jogando para baixo do tapete das subjetividades latentes, como evitação do reconhecimento, compreensão e entendimento da verdade objetiva?

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[1] 19 de março de 2006.
[2] 1 Ora, toda a terra tinha uma só língua e um só idioma.
2 E deslocando-se os homens para o oriente, acharam um vale na terra de Sinar; e ali habitaram.
3 Disseram uns aos outros: Eia pois, façamos tijolos, e queimemo-los bem. Os tijolos lhes serviram de pedras e o betume de argamassa. 4 Disseram mais: Eia, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo cume toque no céu, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra.
5 Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam;
6 e disse: Eis que o povo é um e todos têm uma só língua; e isto é o que começam a fazer; agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.
7 Eia, desçamos, e confundamos ali a sua linguagem, para que não entenda um a língua do outro.
8 Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade.
9 Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a linguagem de toda a terra, e dali o Senhor os espalhou sobre a face de toda a terra. (Gênesis. 11, 1-9.)
[3] Por estudo concreto, entende-se: um relato da sociedade como, totalidade. Porque somente neste relato é que a consciência, que os homens podem ter em cada momento de sua existência, aparece em suas relações essenciais. Por um lado, aparece como algo que, subjetivamente, se justifica, se compreende e se deve compreender a partir da situação social e histórica, como alguma coisa de “justo”; e, ao mesmo tempo, aparece como alguma coisa que, objetivamente, é passageira com relação à essência do desenvolvimento social, que não se conhece nem se expressa adequadamente, e pois como “falsa consciência”. Por outro lado, essa mesma consciência aparece sob essa mesma relação como carente subjetivamente dos alvos que a si mesma assinalou, ao mesmo tempo em que aparece visando e atingindo os alvos objetivos do desenvolvimento social, desconhecidos dela e que ela não desejou. Essa determinação, duplamente dialética, da “falsa consciência” não mais permite tratá-la restringindo-se a descrever o que os homens pensaram, sentiram ou desejaram efetivamente sob determinadas condições históricas, nas determinadas situações de classe etc. O que ai está é apenas o material, e, para dizer a verdade, muito importante, dos estudos históricos propriamente ditos. Estabelecendo-se a relação com a totalidade concreta, donde saem as determinações dialéticas, supera-se a mera descrição e alcança-se a categoria da possibilidade objetiva. E relacionando-se a consciência à totalidade da sociedade, descobrem-se os pensamentos e os sentimentos que os homens teriam tido, em uma situação vital determinada, se tivessem sido capazes de perceber perfeitamente essa situação e os interesses que daí decorrem tanto no que se refere à ação imediata como à estrutura, conforme a esses interesses, de toda a sociedade. Descobrem-se, pois, os pensamentos, etc., que são conformes à sua situação objetiva. Em nenhuma sociedade o número de tais situações é ilimitado. Mesmo se a sua tipologia está elaborada graças às pesquisas minuciosamente aprofundadas, tem-se por resultado alguns tipos fundamentais claramente distintos uns dos outros e cujo caráter essencial está determinado pela tipologia da posição dos homens no processo da produção. Pois a consciência de classe é a reação racional adequada que deve, dessa maneira, ser adjudicada a uma determinada situação típica no processo de produção. Essa consciência não é nem a soma nem a média do que os indivíduos que formam a classe, tomados separadamente, pensam, sentem, etc. Entretanto, a ação historicamente decisiva da classe como totalidade está determinada, em última instância, por essa consciência e não pelo pensamento etc., do indivíduo. E essa ação não pode ser conhecida a não ser a partir dessa consciência. (Consciência de Classe – György Lukács. 1920).
[4] Um bom exemplo disto é o filme Cidade de Deus (Fernando Meirelles), e mais remotamente Pixote (Hector Babenco), que, tal qual o documentário, fala sobre a vida e o comportamento das pessoas que moram nos morros e favelas do Rio de Janeiro, a partir de uma abordagem criminológica. Em Pixote a linguagem utilizada foi a do autor do filme. Cidade de Deus aborda o tema a partir de uma linguagem do sujeito interno, mas contada na terceira pessoa. A “fita” recebeu da burguesia pós-moderna – nacional e internacional – comentários apologéticos muito além do seu real valor estético. Aliás, este, sequer foi analisado do ponto de vista artístico-social. Mataforicamente pode-se afirmar que, neste caso, tem-se produzido um verdadeiro “Salmos” (o que prevejo para este documentário) sobre esta obra que, diga-se de passagem, não foi a primeira e tampouco será a última. O importante é notar que tanto nos filmes anteriores quanto neste caso (do documentário) percebe-se a clarividente profecia que se cumpre por si mesma que é “uma definição falsa da situação que provoca uma nova conduta a qual, por sua vez, converte em verdadeiro o conceito originalmente falso. A validade especiosa da profecia que se cumpre por si mesma perpetua o reinado do erro, pois o ‘profeta’ mencionará o curso real dos acontecimentos como prova de que tinha razão desde o princípio” (Robert K. Merton) mas, que não é sequer pautada para um debate esclarecedor no seio da sociedade (intra e extra) que, mais uma vez, surge no cenário como massa de manobra para as dominações latentes dos tais incluídos ou como mais recentemente apregoa a propagandística católico-cristã: os do meio.
[5] Resumo micrológico dos pensamentos (aleatórios) dos frankfurtianos Max Horkheimer, Theodor Adorno e Walter Benjamim.
[6] A Escola de Frankfurt – Wiggershaus, Rolf, 2002, p. 584.

LULA no Editorial do LE MONDE (25.05.10) – no Brasil, demos e tucanos vão ao desespero / paris

Editorial do Mundo.

O BRASIL DE LULA EM TODAS AS FRENTES

Tradução Sergio Faria

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Lula aqui, o Brasil  lá! O mundo está repleto de declarações do Presidente brasileiro e das ações não só futebolísticas de seus cidadãos.

Ouvimos Luiz Inácio Lula da Silva repreender a Alemanha pela sua relutância em salvar a Grécia, e, também, oferecer sua mediação no conflito  entre Israelitas e palestinos.

Nós o vimos tentando resolver a questão nuclear iraniana junto com os turcos, e apoiar os argentinos em seu conflito contra os Ingleses na questão da Ilhas Malvinas e do petróleo que tem lá.

Mas “o homem mais popular do mundo”,  como disse Barack Obama não se apóia somente no seu carisma para falar em voz alta. Ele encarna um  Brasil em plena forma que,  depois da crise, acompanha a China e a Índia em termos de crescimento.

A Petrobras, empresa de petróleo que é a mais lucrativa da América Latina, a Vale, líder mundial em ferro, a Embraer poderia superar a Boeing e a Airbus antes do tempo, são as jóias de uma economia industrial de primeira ordem.

Na agricultura o crescimento é semelhante, e deu ao Brasil  o título de “celeiro do mundo. Soja, açúcar, etanol, café, frutas, algodão, galinhas,etc.. tornaram-no um competidor formidável para os agricultores europeus.

Em 2008 o Brasil tornou-se consciente das suas capacidades económicas. Até então, ele negociou na Organização Mundial do Comércio, mas um pouco frio. A crise dos Estados Unidos e o colapso da produção industrial dos chamados países avançados, o persuadiu que era o tempo para a ofensiva.

Agora o Brasil é brilhantemente representado pelo seu ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que pressiona para uma forte conclusão das negociações da Rodada Doha. Em comparação, os Estados Unidos parecem ter parado em outra era: a do protecionismo.

Menos temida que a da China e da Índia, bilionárias em população, mais considerada que uma Rússia rentista de suas matérias primas, o Brasil é o verdadeiro porta-voz das economias emergentes que contribuem para o crescimento mundial. O eixo econômico do mundo que se desloca em direção ao sul, permite afirmar, com razão, que se substituem assim os países do Norte em avaria de vitalidade por melhores representantes em organismos internacionais, começando pelo Banco Mundial e pelo  FMI. Sem mencionar o Conselho de Segurança das Nações Unidas, em que o Brasil quer manter um assento permanente.

Porque “o século XXI pertence aos países que não tiveram sua chance”, e porque ele se considera pessoalmente ” em meio de carreira política”, Lula (65) poderá apresentar sua candidatura à Secretaria Geral da ONU em 2012.  Ele deverá também lutar para melhorar o G20, que ele considera com uma influência “muito fraca”.

Nós não acabamos ainda de ouvir o ex-metalúrgico, um amigo das favelas e dos investidores. Nós não acabamos ainda de falar  do Brasil no alvorecer de seus “trinta anos gloriosos”.

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Edito du Monde

Le Brésil de Lula sur tous les fronts

LE MONDE | 24.05.10

Lula par-ci, Brésil par-là ! Le monde bruisse des déclarations du président brésilien et des hauts faits pas seulement footballistisques de ses concitoyens.

On a entendu Luiz Inacio Lula da Silva tancer l’Allemagne pour ses réticences à sauver la Grèce, et proposer sa médiation dans le conflit israélo-palestinien.

On l’a vu essayer de désamorcer avec les Turcs le dossier nucléaire iranien, et soutenir les Argentins dans leur conflit contre les Britanniques à propos des Malouines et de leur pétrole.

Mais “l’homme le plus populaire du monde”, selon Barack Obama, ne s’appuie pas seulement sur son charisme pour parler haut et fort. Il incarne un Brésil en pleine forme qui, après un passage à vide dû à la crise, talonne la Chine et l’Inde en termes de croissance.

Petrobras, le groupe pétrolier qui est l’entreprise la plus lucrative d’Amérique latine, Vale, leader mondial du fer, l’avionneur Embraer qui pourrait bien damer le pion à Boeing et Airbus avant longtemps, ne sont que les fleurons d’une économie industrielle de premier ordre.

Côté agricole, la montée en puissance est comparable, et a valu au Brésil le titre de “grenier du monde”. Soja, sucre, éthanol, café, fruits, coton, poulets, etc. en font un concurrent redoutable pour les éleveurs européens.

C’est en 2008 que le Brésil a pris conscience de ses capacités économiques. Jusque-là, il négociait à l’Organisation mondiale du commerce, mais de façon un peu frileuse. La crise partie des Etats-Unis et l’effondrement de la production industrielle des pays dits avancés l’ont persuadé que l’heure était à l’offensive.

Désormais, c’est le Brésil, brillamment représenté par son ministre des affaires étrangères, Celso Amorim, qui pousse le plus fort pour une conclusion des négociations du cycle de Doha. En comparaison, les Etats-Unis semblent englués dans un protectionnisme d’un autre temps.

Moins redouté que la Chine ou l’Inde, milliardaires en population, mieux considéré qu’une Russie rentière de ses matières premières, le Brésil est le véritable porte-parole de ces économies émergentes qui tirent la croissance mondiale. L’axe économique du monde se déplaçant vers le Sud, il peut réclamer à bon droit que ceux qui se substituent ainsi aux pays du Nord en panne de vitalité soient mieux représentés dans les instances internationales, à commencer par la Banque mondiale et le Fonds monétaire international (FMI). Sans oublier le Conseil de sécurité de l’ONU, au sein duquel le Brésil souhaite détenir un siège de membre permanent.

Parce que “le XXIe siècle sera le siècle des pays qui n’ont pas eu leur chance”, et parce qu’il s’estime personnellement “à la moitié de [son] parcours politique”, Lula (65 ans) pourrait présenter sa candidature au secrétariat général de l’ONU en 2012. Il devrait aussi militer pour améliorer le G20, dont il juge l’influence “très faible”.

On n’a pas fini d’entendre l’ancien métallo, ami des favelas et des investisseurs. On n’a pas fini d’entendre parler d’un Brésil à l’aube de ses “trente glorieuses”.

Article paru dans l’édition du 25.05.10

http://www.lemonde.fr/

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F E I T O U M C Ã O – por jorge lescano / são paulo

Em 30.5.99, conceituado jornal desta polis publicou 18 versões do primeiro período de A Metamorfose, de Franz Kafka. Os autores atendiam assim ao convite do órgão jornalístico. Jota L., por não ser escritor cotado na praça, ficou fora do páreo. Nos autos do espólio, no entanto, foi achado este texto de sua autoria.

“Essa é boa! – exclamou saltando da cama e apressando-se a enfiar as calças -. Que terá acontecido comigo?” – pensou a seguir. Não era um sonho, de fato, suas pernas, lamentavelmente finas, agitavam-se, impotentes, diante de seus olhos. “Que tal se eu dormisse mais um pouco e esquecesse toda esta estupidez?” – continuou a meditar sem se mexer da cama. Aquilo era absolutamente impossível, pois estava acostumado a dormir do lado direito e a situação em que se encontrava, de costas dentro da carapaça abaulada, impedia-o de virar-se para tal posição.

Do seu travesseiro volveu o olhar para a janela. Além da névoa e da chuva nas vidraças, podia observar à senhora idosa do outro lado da rua, que parecia olhá-lo com uma curiosidade fora do comum. Estava sentada muito ereta, com um pequeno chapéu de pele e um boá também de pele; exibia um pesado regalo, no qual o braço estava enfiado até o cotovelo.

Alguém devia tê-lo caluniado, pois em resposta ao seu toque de campainha ao lado da cabeceira, ouviu uma batida e em seguida entrou um homem que nunca vira na casa. Era magro, conquanto bem constituído, e usava um terno preto bem cortado, provido de um cinto e de toda espécie de pregas, bolsos, fivelas e botões, que dava à roupa uma aparência muito prática, embora não se pudesse precisar a verdadeira finalidade daquilo tudo.

“Quem é o senhor?” – soergueu a cabeça no leito. O homem se dirigiu à porta abrindo-a ligeiramente, como para prestar contas a alguém que evidentemente estava por trás dela. “Ele quer saber quem é o senhor?” Como resposta, ouviu-se no aposento contíguo uma gargalhada que soou como se viesse de várias pessoas. Embora o desconhecido não pudesse saber com aquela risada coisa alguma que já não soubesse, disse, como quem joga um livro sobre a mesa: “Não pode sair, está preso!” “É o que parece, mas por quê?” – e em seguida lembrou-se de suas pernas lamentavelmente finas agitando-se impotentes diante de seus olhos.

Tornou a avistar a senhora idosa que, com sua curiosidade senil, mudara de janela, postando-se na que ficava bem em frente para poder observar melhor.

Um dos senhores acabava de agarrá-lo pela garganta, o outro lhe enterrou a faca no coração e a revolveu duas vezes. Com os olhos mortiços, ele ainda viu as duas mulheres na janela escancarada apesar do frio, cada qual com o braço na cintura da outra, rosto contra rosto, vendo o desenlace, e bruscamente a mãe se inclinou para fora o mais possível, atirando os braços para frente enquanto a irmã afundava o rosto nas mãos.

A revista posterior do quarto denunciou a presença do livro sobre a escrivaninha; na página de rosto, liam-se as seguintes palavras:

“Quando o ungeheueres Ungeziefer acordou, ele ainda estava ali. Este, vendo que aquele movimentava seu ventre dividido em nítidas ondulações horizontais procurando a posição lateral, escapuliu-se, deixando uma pequena abertura pela qual se esgueirou para dentro o homem que ele nunca vira mais gordo.

“Vejamos – disse este para seus botões, fivelas, bolsos, pregas e cinto – Essa é boa!, onde está ele?”.

DA SÉRIE PALAVRÕES – por ewaldo schleder / ilha de santa catarina

Vidal, dia desses você me disse para ler no seu blog um processo de posts motivado pelo uso discutível de uma palavra, só uma: um anglicismo (outrora) escatológico. Coisa que teve um primeiro momento ainda em janeiro deste 2010 e voltou a se manifestar em maio agora. Fiz o que você disse, pois li sim. E mais: fui buscar o significado da palavra. E achei. Está lá, no meu dicionário web (http://www.dicionarioweb.com.br). Bursite significa um processo inflamatório das bolsas serosas. Não confundir com artrite nem com artrose ou qualquer outra arte – seja rite ou seja rose. Dentre suas causas destaca-se o uso excessivo de articulações e de movimentos repetitivos. Não especifica quais tipos de articulações; se políticas, sociais, culturais, empresariais ou apenas de mídia. Quanto às repetições, estas podem ser quaisquer delas, desde que associadas a esforço físico, mínimo que seja, todavia sempre mono-direcionado, constante e intenso. Burshit é uma enfermidade que cheira mal; contudo, por sua condição orgânica, conspira aliada ao próprio tempo: células mortas e células vivas interagindo, carregadas de metamorfose. Não vou dizer aqui merdamorfose. Incidiria assim num neologismo chulo. O assunto é(?) sério. Especulo se Bullsite resulta de um ataque de pitbull. Ou são páginas, portais, sites sobre acidentes em corridas de touros, farras do boi? Bem, essas já seriam propriamente amostras notórias de bullshit. Em todos os casos, há tratamento e tantas vezes cura. No entanto, recomenda-se dias de descanso para juntas afetadas. Se for no calcanhar, mudar de sapato. Se o mal atacar cotovelos ou joelhos, trocar de posições, jamais de membros. A lista é longa. Sempre, entretanto, bom para bursite é dar um gelo, envolto em uma toalha entre a bolsa e a pele. Tem mais, muito mais, a ser considerado; a partir de sintomas e localizações. Só sei te dizer, Vidal, que quem já a teve – eu, por exemplo – garante que bursite é uma merda. Acupuntura funciona muito bem. Melhor consultar um médico, especialista.

COISAS de MARIA JOÃO recebe A CORDA EM SI / ilha de santa catarina

Café Pequeno recebe A Corda em Si.
O duo apresenta a interpretação de canções brasileiras a partir de uma instrumentação reduzida: Contrabaixo acústico – Mateus Costa e Voz – Fernanda Rosa.
O diálogo entre esses dois instrumentos acontece no contraponto de duas melodias que descreve o cenário musical presente na poesia das canções, identificando a concepção sonora do duo na sobreposição de melodias sem a necessidade do uso constante de acordes.
Grupo Musical A Corda em Si – Contrabaixo e Voz

O CASO DA CÉLULA SINTÉTICA por hamilton alves / ilha de santa catarina

Ouvi o disparo dos fogos de artifício atirados por ateus conhecidos quando souberam da notícia de que o biólogo americano Craig Venter teria criado a célula sintética, com  o que pretendiam consolidar sua tese da inexistência de Deus. A célula é uma forma de produzir vida – e na opinião de Venter isso prova que a vida não provém de uma potência especial.

Ao mesmo tempo que anunciava o novo engenho no campo da biogenética ou da engenharia genética, reconhecia que tal célula teria que se submeter a certos controles de segurança, sob pena de desencadear doenças e os cientistas (isso ele não disse) perderem o controle de seu mecanismo, como uma nova espécie de dr. Mabuse ou outro monstro semelhante do saber humano, que acha que tem poder para tudo na manipulação do conhecimento.

Mas o dr. David Baltimore, prêmio Nobel de medicina, repôs as coisas em seus devidos lugares, quando declarou que “Venter está superestimando o seu feito. A descoberta tem valor de uma nova técnica científica, mas não tem poder de mudar nada no campo conceitual”.

Ora, diante disso, nota-se que os ateus estão se antecipando no desfrute de seu triunfo de que a vida agora não depende mais de uma força ou de um poder sobrenatural ou de outra qualquer origem, mas o próprio homem poderá, doravante, criá-la com o advento da tal célula sintética.

Diz o comentário de um jornal que “há fronteiras objetivas para aquilo que o homem pode por e dispor num genoma. E isso num ser simplório como Mycoplasma, que nem núcleo celular tem (a bactéria é classificada como organismo procarioto)”. E mais: ”O genoma humano é milhares de vezes maior que a bactéria inventada por Venter”. E ainda: “Está longe o tempo  – se é que algum dia virá – em que a biologia será capaz de sintetizar células para remendar órgãos humanos”.

Em suma, os ateus ouviram cantar o galo mas não sabem onde, como de rotina.

Ainda que a técnica científica avance, como tem avançado admiravelmente, nos últimos tempos, na questão que diz respeito estritamente à produção de vida, ainda creio que seja impossível consegui-la em laboratórios ou seja lá de que  modo for.

A natureza ainda é senhora toda poderosa nesse campo.

Quando o homem tentar mexer nos poderes da natureza, suponho, a reação não tardará.

Não foi sem certo receio que a notícia da descoberta da célula sintética foi anunciada. Um outro  mecanismo seria necessário criar para controlar os seus eventuais efeitos devastadores sobre a vida.

Ainda é muito cedo para os ateus cantarem vitória. Se é que o conseguirão algum dia.

REGINALDO FERNANDES (REGI), convida:

TRAVESSIA – de manoel de andrade / curitiba

A praia quase deserta

a manhã despertando na luz dos elementos

o céu e o mar buscando os seus azuis

as águas que se iluminam lentamente

o vôo preguiçoso das gaivotas

a serenidade de uma vela na distância

as ondas que se quebram mansamente

o enigma dessa paz que só o mar nos concede.

Meus olhos perscrutam o impossível

na invisível beleza marítima da vida.

Minha alma penetra no âmago majestoso da paisagem

e viaja longamente pelo instante mágico do tempo.

Mar, imenso mar

meu olhar flutua na imobilidade do teu corpo iluminado

nestas canoas batidas pela luz ao largo da baía

nestes pescadores curtidos pelo sol e pelo azul

a recolher, de longe em longe, seus frutos de escamas coloridas.

Beijo-te na salgada madeira destes  barcos  recolhidos,

te abraço no velho homem remendando sua rede.

Caminho neste estuante cenário de água e areia

recordo-me menino neste banquete de espumas flutuantes

na frescura das ondas que morrem aos meus pés

mergulho no teu ritmo

e danço contigo no encanto desta valsa milenar.

Atlântico, meu Atlântico

águas que não conheço nas distâncias do horizonte

esse mar visto apenas das areias

da foz exuberante das correntes

da barra destes rios que tu acolhes

águas fundas, águas rasas

águas doces que cruzei.

Recortados litorais do sul

meu norte

minha praia

meu idioma açoriano

meu salgado fruto

minha fritura, meu peixe, meu pirão

roteiro prematuro dos meus passos

itinerário incansável em meus pés descalços

íntimos recantos de baías e enseadas

antigo esconderijo dos corsários

história nas estórias de velhos habitantes.

Mar, imenso mar

planície total e palpitante

miragem  e sedução

misteriosa  superfície  nos caminhos do destino

o mar de todas as proas

esse território dos meus sonhos.

Navegar, não naveguei…

as águas do Titicaca foram minha gota de oceano no alto da Cordilheira

navegar como quisera navegar, nunca naveguei…

rota costeira de Quayaquil à Callao,

minha única travessia

meu mar sem horizontes

minha comovida migalha de aventura.


este poema consta do livro CANTARES da Escrituras

O BRUXO – de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

(extraído de um sonho)

o Douglas Diegues é um bruxo

:meço seu supertalento:

graphar poemas nas peles das rãs

num átimo a gente pensa:

ah é simples! isso também faço!

é só pegar as bichinhas pelas longas pernas

estendê-las em uma tábua

e pronto!

com um fino ponção pontear

a epiderme com versos rasteiros

pior q. não!

a coisa não é bem assim

o tranho escreve por dentro da pele das

ditas :::micro-poemas lúminos:::

pra se observar a noite

depois as solta sãs e belas (no charco)

na fronteira Brasil/Paraguay

entes sígnicos saltitantes

em portunhol salvaje.

Sebastião Nery lança memórias: “Espremi a minha vida”


Claudio Leal

Sebastião Nery é memória. Num papo informal, o jornalista político é capaz de escalar ministérios, contar a história do enterro da cadela de Jânio Quadros (sim, chamava-se Muriçoca e foi presenteada pela Rainha Elizabeth II), relatar o encontro com Frei Pio de Pietrelcina, em San Giovanni Rotondo (Itália), e lançar uma farpa específica a cada víbora da política nacional.

Após um gole de vinho, poderá fisgar de cor um trecho do romance “Terra dos Homens”, de Saint-Exupéry – mais especificamente, a página em que o aviador Guillaumet retorna a pé (e na neve) de um desastre nos Andes, entra resfolegante num bar e desabafa aos companheiros de correio aéreo: “O que fiz, palavra que nenhum bicho, só o homem, era capaz de fazer”.

Essa frase talvez pudesse servir de epígrafe para as memórias de Sebastião Nery. Em 9 de novembro, na cidade do Recife, no aniversário do jornal Diário de Pernambuco, Nery lançará “A Nuvem – O que ficou do que passou” (Geração Editorial), o livro que condensa 50 anos de vida profissional e política. A aventura se inicia no internato de seminarista, na Bahia, e se estende até os anos 90. Nesse rastro de evocações, surgem os presidentes Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, os ditadores do regime militar, Tancredo Neves, José Sarney e Fernando Collor.

– Você de repente vai vivendo mais e a vida se torna uma alameda de amores mortos. Fui revirar, mesmo assim é um negócio difícil… Esse livro sou eu. É minha alma, minha vida, meus sofrimentos, minhas angústias e, inclusive, as brigas em que entrei. Não falseei nada.

A briga com o amigo Leonel Brizola, nos anos 80, está contada num capítulo “denso e forte”. Deputado federal pelo Rio de Janeiro (eleito com 111 mil votos) e secretário nacional do PDT, Nery travou uma conversa amarga com o governador carioca. Modos gaúchos, Brizola passou manteiga no pão antes de lhe pedir uma escolha: o jornalismo ou a direção do partido. Depois do encontro, a sentença.

– Desci, e estava o ótimo repórter Henrique José. Tinha me visto entrar, e ficou no botequim do Hotel Othon. “O que houve com você e Brizola? Eu tinha a notícia de que Brizola ia lhe enquadrar. É verdade?”. Falei pra ele: “Tenho que ir pra Brasília…” “Me dê apenas uma frase”, pediu. E eu dei: “Acho que nos enganamos. Fomos a Lisboa buscar Brizola e trouxemos Juan Domingo Perón.”

Nesta entrevista a Terra Magazine, Nery fala das experiências escrevinhadas em “A Nuvem”, mas também opina sobre a política brasileira contemporânea, sem esquecer a polêmica confissão do presidente Lula, de que precisa se aliar a “Judas” para poder governar.

– Lula já se aliou a Judas. Mas o Fernando Henrique se aliou a Satanás. Fernando Henrique se antecipou, se aliou a Satanás, fez uma aliança com o sistema financeiro, internacionalizou a economia – ataca o jornalista.

Para Sebastião Nery, o Congresso Nacional se empobreceu ao servir de esteio para os interesses de grupos financeiros.

– A política passou a ser um braço político do sistema financeiro e dos interesses econômicos. Atrás de cada grande negócio, existe um grande branco. A política brasileira passou a ser monetária e financeira. O Congresso não é mais cultural, político; é capitalista, financeiro.

Colunista político histórico da “Tribuna da Imprensa”, republicado em outros 25 jornais do País, Nery é autor do best-seller “Folclore Político”, que marcou a literatura política nos anos 70, “Socialismo com liberdade” (1974), “16 derrotas que abalaram o Brasil” (1974), “Crime e castigo da divida externa” (1985), “A história da vitória: porque Collor ganhou” (1990), “A eleição da reeleição” (1999) e “Grandes pecados da imprensa” (2000). Em 2002, reuniu 1.950 histórias numa edição definitiva do “Folclore Político”. Agora, nasce “A Nuvem”.

Confira a entrevista-depoimento.

Terra Magazine – O subtítulo de “A nuvem” é inspirado numa definição de Alceu Amoroso Lima sobre o passado?

Sebastião Nery – “O passado não é o que passou. É o que ficou do que passou.” O livro, na verdade, é uma espremida. Você não faz um livro desse se não espremer a alma durante 50 anos. Porque eu tinha que contar uma série de histórias. Umas são fáceis, outras não são fáceis. Mas tinha que contar. Você não pode fazer um livro desse com mentira. Pode fazer deixando de contar alguma coisa. Evidente que deixei de contar uma série de coisas. Ou eram pessoalmente desagradáveis ou politicamente incorretas. Por exemplo, discutir o problema do Brizola com o dinheiro. Eu sei quais eram, mas aí era o problema de como ele via o financiamento da vida pública.

Episódios da campanha eleitoral?

O que é um problema complicado com todo político brasileiro. Quando você tem um processo político financiado não publicamente, mas privadamente… Isso aconteceu com o Jânio, com Brizola, com os outros todos. Isso eu achei que não devia tratar, até porque, embora fosse testemunha de alguns fatos, era um processo de financiamento de políticos.

Mas, em algumas colunas, você chegou a tratar dessas histórias de Brizola, não?

Sim. Já cheguei a tratar. Mas era no aceso da campanha e tal, mas num livro… A não ser que eu fizesse um capítulo específico sobre isso. Não quis. Porque aí eu tinha que fazer sobre o Jânio, quem financiou a campanha do Tancredo, quem financiava as campanhas de Juscelino (Kubitschek), e vai por aí. Outro assunto, no caso concreto do Brizola: o problema da segurança do Rio de Janeiro. Esse eu podia ter tratado. Eu poderia ter me vingado e não quis. Na época, em 1983, eu denunciei: esta visão política de Brizola vai levar o Rio a se transformar numa Colômbia. Por quê? Duas frases dele. Quando eu defendi a tese de que ele precisava começar imediatamente obras públicas nas favelas, para que o correio e o médico chegassem, para que a ambulância subisse, ele dizia assim: “Eu não vou abrir as favelas para o PT entrar”. O negócio dele era político.

E hoje nem o PT sobe.

Nem o PT. Outra coisa, ele dizia assim: “O Chagas (Freitas) viveu nomeando policiais para as favelas. O Negrão (de Lima) nomeava policiais que comandavam as favelas”. Era a verdade, os delegados comandavam. Aí ele dizia: “Temos que substituí-los.” Como? “Vamos transformar as associações de moradores em diretórios do PDT”. E eu dizia pra ele: “Mas as associações de moradores pertencem aos traficantes.” Ele disse: “Isso é um problema dos rapazes com as associações de moradores. Nós não temos nada com isso. As associações de moradores têm que ser do PDT e não do PT e de outros partidos”. Foi um erro grave do Brizola. “Você vai transformar isso aqui numa Colômbia.”

Mas houve também os erros dos outros. Houve os quatro anos do Brizola e depois Moreira Franco, que deixou a mesma coisa. A tese: a polícia não sobe, o crime não desce. (risos) Se a polícia não sobe, o crime sempre desce. Eles não iriam roubar eles mesmos, iriam buscar o dinheiro aqui embaixo no asfalto. É uma expressão curiosa. Você não vê um favelado, sobretudo os traficantes, falar na cidade, no comércio… É no asfalto. Foram essas duas coisas que não tratei no livro, mas as outras todas, políticas, eu tratei.

Memórias são sempre seletivas, não dá pra capturar tudo. Como foi a construção de “A Nuvem”?

É impossível colocar 50 anos em 600 páginas. Isso é um problema. Não é um livro vazio. O livro tem dois seminários, três mandatos disputados e ganhos em três estados diferentes, oito países, onde eu passei mais de 6 meses, e 30 países mais por onde passei trabalhando. O livro tem um fio condutor que é uma história de amor que começa no seminário e acaba 50 anos depois.

Qual é?

O leitor vai pegar o livro e ver. Começa no seminário e é uma história densa, forte, um pouco massacrante às vezes, mas que durou 50 anos.

E, claro, o jornalismo.

Fora isso, trabalhei em dois jornais em Minas, o jornalismo na Bahia (Jornal da Bahia e A Tarde), os jornais do Rio (Correio da Manhã, Última Hora e a Tribuna da Imprensa). Depois tem dez anos na Folha de São Paulo e a TV Bandeirantes. E os dois jornais que eu fundei, o Jornal da Semana, na Bahia, e o Politika, no Rio. Jornais que duraram mais de três anos, numa luta difícil. Se você somar tudo isso, é uma carga enorme de fatos. Por isso eu gosto do livro. Não ficou literário. É um depoimento.

Algo como o formato do livro de Rodrigo Octávio, “Minha memória dos outros”? A vida política a partir de sua experiência de jornalista, como você acompanhou os fatos?

Isso, como eu acompanhei os fatos. Aí, claro, eu conto as histórias dos outros. Mas eu conto a história de Juscelino como poucos. Porque fui testemunha da vida de Juscelino por quatro anos, quase cinco, dia a dia. Depois ele veio a ser presidente da República. É diferente, eu estava na Bahia e ele no Rio. Claro que eu vinha, de vez em quando tinha entrevista com ele. Foi cassado, continuei amigo dele. Outra coisa é ver a virada que ele deu em Minas para ser presidente da República.

No tempo em que atuava como repórter?

Sim, cheguei em 1952. Eu vi Juscelino sem saber como escrever o nome dele (risos). Verdade! Conto o primeiro encontro. Pergunto como se escreve o nome dele… Eu era, digamos, um bobo. Tinha saído do seminário… Outro negócio é o da aventura pessoal. Um menino da roça vai pra cidade e, de repente, por isso ou por aquilo, resolve ir pro seminário e vai. Quem resolveu fui eu. Para não ficar na cidade. Por isso o livro se chama “A nuvem”.

Como se inicia a vida de seminarista?

Termino o quarto ano primário e digo à minha professora: “O que vou fazer agora?”. Eu ganhei um prêmio, ela me deu um presente. Ela disse: “Você não pode ficar aqui. Não pode ir pra trás do balcão como seus irmãos”. Eu já tinha três irmãos trabalhando em lojas de tios. “O que eu posso fazer?”. E ela: “Vá pro seminário”. “Mas como?”. “Fale com o padre Flamarion. Está sendo fundado um seminário…”. A frase dessa mulher mudou minha vida, porque eu poderia ter ficado lá com meus irmãos. Mas eu não teria feito uma vida de jornalista, uma vida na área cultural, se não fosse essa bendita mulher.

Em Belo Horizonte, no seu início no jornalismo, você procura Wilson Figueiredo pra pedir um emprego e ele diz pra você procurar um jornal que pague em dia. Como foi isso?

Saio da Bahia. Na minha cabeça, queria ser professor de filosofia. Adorava o curso. Estimulado por um professor, que dizia que só existia um curso bom de filosofia no Brasil, o do Rio de Janeiro, eu então pego um caminhão. Ele quebra e eu fico um ano no interior de Minas, em Pedra Azul. De lá vou pra Belo Horizonte, fundo um jornal na faculdade, chamado A Onda. Resolvo ser jornalista, porque comecei a escrever no jornal oficial do diretório, e no meu próprio. Um dia vou ao Folha de Minas e encontro Wilson Figueiredo. Levei os dois jornais. E ele então diz assim: “Estou com seis meses de atraso, você tá maluco? Quem tem dinheiro aqui é o Chateaubriand ou o arcebispo. Vá no jornal do arcebispo”. Arranjei um emprego, virei jornalista.

Comecei a exercer o jornalismo com o furor que eu emprestava às coisas que fazia. Eu era um estudante ativíssimo, meio furioso na universidade. E fui me destacando como jornalista, comecei a assinar. Naquela época não era fácil um sujeito assinar matérias, com 19 anos. O José Mendonça, que tá vivo, a quem eu faço todas as homenagens, teve a sensibilidade de dizer: “Esse cara é jornalista”. Um dia eu abri o jornal e estava lá: “S.N.” “Comece a assinar”, ele me disse. “Jornalista assina. Mas, pra assinar, precisa merecer”. De repente, abro o jornal e está: “Sebastião Nery”. Não parei mais.

Você sempre gostou de polêmicas, criou muitas delas. Mas quando situa a primeira?

A primeira foi no primeiro ano, com um padre. Fui a um congresso de estudantes em novembro de 1952. Primeiro ano da faculdade, eu era delegado no congresso, e primeiro ano do jornal. E cheguei lá no congresso, o padre da cidade de Uberaba, que tinha um programa de rádio muito ouvido, seis hora da tarde, esculhambava a nós da oposição e defendia os outros. “Vou o negócio desse padre hoje”. Sentei na porta do hotel e fiquei com um rádio, ouvindo. O padre falava bem, inteligente, dizia assim: “Nós homens, nós cristãos, temos que agradecer a Deus por não termos nascido borboleta, sapo, cavalo, não termos nascido animais, cocos, mas homens à imagem e semelhança de Deus”. (risos)

Então fiz uma crônica: “O coco e o sapo”. Tirei a borboleta e sacaneei. Não nascemos nem sapo nem coco, mas homens à imagem e semelhança de Deus. Tudo bem, mas eu publiquei no Diário do arcebispo, o maior jornal católico da América Latina – e era verdade. Era o mais importante jornal de Minas. Aqueles intelectuais todos: Edgar da Matta Machado, Oscar Mendes, Milton Amado, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Ettiene Filho, etc. Todos escreviam no jornal, embora o Estado de Minas fosse mais poderoso, vendia mais. Mas aí saiu. Foi aquele escândalo. Os padres de Uberaba exigiram do arcebispo que me demitissem. O Mendonça me disse: “O Dom Cabral quer conversar com você. Ele ficou abismado com sua audácia. Você desmoralizou o padre. O sapo e o coco, no jornal do arcebispo?” Lá vou eu, todo humilde. Dom Cabral: “Meu filho, quantos anos você tem?” “Acabei de fazer 20”. “Você é muito atrevido. Não se faz isso com um sacerdote, que é um enviado de Deus. Os que não gostam dele estão pegando o nosso jornal, meu jornal, e botando assim: O Diário confirma: o padre fulano de tal é uma besta.” (risos)

E seu veio polemista se desdobra com a oposição a Juracy Magalhães?

Vou pra Moscou, saio do jornal do católico…

Pelo Partido Comunista?

Eu tinha entrado na juventude comunista e quando fui pra Moscou já era do Partido Comunista. Quando fui ser editor político do Jornal do Povo, eu respondia ao Partido. Volto pra Bahia e vou para o Jornal da Bahia, evidentemente simpático ao Juracy, que era um administrador competente. Mas aí vem a greve do petróleo. Esse Petrosal me persegue desde então! A principal refinaria do Brasil era a de Mataripe, depois tinha a de Cubatão e a de Duque de Caxias. Os petroleiros da Bahia ganhavam menos que os petroleiros paulistas e cariocas. Mário Lima e os companheiros dele de sindicato lançaram um slogan brilhante: “Ou equipara ou aqui para”. E eu fiz um artigo no jornal contando a história. Só que eles pararam. A direção da Petrobras não quis papo. Fui pro sindicato e lá assisti a porrada, os pontapés, a polícia deu porrada. Os petroleiros também eram agressivos, não estavam brincando. Eu então voltei, fiz uma nota, mais ou menos dizendo que o general voltou a ser tenente. Ele fez a campanha dizendo que era um general de cabelos brancos, não era mais o tenente de 30…

Que usava o terço…

Foi aí que eu disse: “Juracy bate com o terço”. (risos) Criou uma impossibilidade de eu continuar no Jornal da Bahia. Vou para o jornal A Tarde, fico um ano. Um pouco pelas mesmas razões, saio de lá e fundo o Jornal da Semana. Ele produziu minha candidatura para deputado. Nunca pensei, naquela época, em ser deputado. Foi no último ano. Me elegi, fui cassado em 1964.

O “Jornal da Semana” tinha um slogan muito bom: “Tirando o Senhor do Bonfim, a Bahia e Marta Rocha, este jornal não tem compromisso com mais ninguém”.

E eu comecei com: “Conta sábado o que os outros esconderam durante a semana.” Um dia o Jorge Calmon (ex-editor-chefe do jornal A Tarde) me chamou e disse: “Nery, não faça isso. Isso é agressivo contra mim e contra os outros. Nós gostamos tanto de você, mude isso”. Mudei em homenagem ao Jorge: “Conta sábado os segredos da semana”. Ele achou que era “descortês”. Estou dizendo essas coisas, mas quero dizer, então, que meu livro não podia ser leve. Tive uma preocupação enorme em não fazer um livro pesado. Nem um livro choroso, nem um livro falso, dizendo que tudo foi fácil. Contei as coisas, as brigas, as dificuldades todas. Sempre com uma coisa que é uma verdade: por isso ou aquilo, minhas coisas sempre deram mais ou menos certo. Poderia ter falhado, profissionalmente. Eu podia ter morrido.

Onde?

Por exemplo: só ter passado quatro anos entrando naqueles aviões de Minas, atrás do Juscelino, aquilo era uma tentativa de suicídio! (risos) Tinha uma empresa em Minas chamada Omta, Organização Mineira de Transportes Aéreos. Aí cai um avião da Omta, avião em que nós jornalistas voávamos. Ele tinha um aviãozinho dele, viajava com os assessores. Quando nos convidava para ir a alguma cidade do interior, íamos para esse aviãozinho, convidados pelo palácio. Não tinha aquele negócio da TV Globo dizer: nós pagamos, demos dinheiro pro Bolsa Família… Enfiava um ali pra ver se voltava vivo. Cai um avião, cai o segundo, o terceiro… Quando caiu o quarto, fiz uma coluna: “Omta: Organização Mineira de Tombos Aéreos”. Esculhambei. Quando cheguei no outro dia, no Diário, o Mendonça olhou pra mim e disse: “Por que você pediu demissão?”. “Não pedi demissão de nada…”. “Você sabe de quem é essa Omta?” “Não, é do fulano!”. Era o diretor-geral, tesoureiro do jornal. Um cara simpático, elegante, saiu de lá: “Nery, não fique nessa conversa do Mendonça. Eu entendo, você é um jovem, imagina o meu constrangimento. Eu não sou dono sozinho dessa empresa. Somos três sócios. Sou um cristão, sei que você não teve maldade”.

E os aviões russos, na viagem à Sibéria? Outro risco, hein?

O resto do resto. Todos os aviões russos. Quando os aviões não prestavam mais, eles mandavam pra Sibéria. Cai no gelo, não sai nem fogo! Viajei muito naqueles aviões. Deu tudo certo, nunca caí de avião. O Zé Aparecido (de Oliveira, ex-ministro) caiu de avião. Eu nunca caí.

Como era a cobertura jornalística de campanha eleitoral?

Fiz a candidatura de Juscelino, em 1955, quase toda. Viajava, ia atrás nesses aviões vagabundos. Me lembro do Nereu Ramos. Saltei em Santa Catarina, nosso avião chegou antes do Juscelino porque ele ficou em Curitiba, tratando alguma coisa, talvez com Lupion. Atrasou o voo. Na hora que eu desci do avião, tinha um homem feio, mas tão feio, tão feio, com gravata, elegante, bem vestido. Eu disse: “Meu Deus, nunca vi um homem tão feio!” Era Nereu Ramos. Não conhecia.

Nem de caricatura?

Exato! Nereu Ramos tinha sido importante na Constituinte, foi o presidente da Comissão Constitucional. Depois foi presidente do Senado e ministro da Justiça de Juscelino, presidente após o golpe do Café Filho, naquela confusão do Lott.

Invertendo o que Carlos Lacerda disse de Castello Branco, Nereu era “mais feio por fora do que por dentro”?

Ele, o Nereu, era muito feio, mas o aeroporto conseguiu ser mais feio que o Nereu! (risos) Parecia uma quitanda, o aeroporto de Florianópolis. E não era só isso. É você sair de Belo Horizonte, conseguir chegar a João Pessoa e de lá a Campina Grande, ir pro comício de Juscelino em Campina Grande. Como mandar as matérias? Não havia o telex. Você tinha que voltar e fazer a matéria com atraso. Ou então as companhias de aviação, os grandes correios do Brasil: a Panair, a Varig estava só começando, e a Cruzeiro do Sul, a que tinha a melhor malha aérea interna. A gente ia pro aeroporto, escrevia a matéria, enfiava num bloco, se comunicava com o jornal, e mandavam buscar… Um sufoco.

O golpe atrapalhou sua vida profissional? Você foi obrigado a mudar outra vez de Estado?

O golpe foi burro comigo. Primeiro eu tive logo uma posição patriótica. Dois amigos meus eram dos cinco maiores conspiradores na Bahia, Raimundo Schaum e Virgilio de Sá. Esses dois conspiraram o tempo todo lá na Bahia. Me chamaram cinco, dez vezes pra algumas reuniões. Eu não fui. Veio o golpe, falei na rádio Mayrink Veiga, na rádio Nacional, depois voltei pra Bahia. Muda sua vida. Eu era deputado estadual, já candidato a deputado federal, tinha um jornal que me apoiava, tinha uma atuação no Estado, na Assembleia. Acaba tudo de repente, é uma aventura, venho pra São Paulo, onde fico um ano e tanto escondido. E volto pro Rio. Nunca pensei que o golpe ia me promover de um jornalista suburbano, provinciano da Bahia, para um jornalista do Rio de Janeiro. Eu vim, pousei no Diário Carioca por quatro meses e logo fui pra TV Globo. Comecei a escrever na Tribuna (da Imprensa), fui pro Correio da Manhã. Virei um jornalista nacional.

O jornalista Sebastião Nery, 77 anos, publica o livro de memórias “A nuvem” (Geração Editorial), que condensa 50 anos de vida política e profissional

“Lula se aliou a Judas, FHC a Satanás”

Como foi sua experiência com Roberto Marinho na TV Globo?

Sebastião Nery – Foi uma experiência excelente porque, naquela época, Roberto Marinho ia quase todo dia à televisão. Roberto Marinho nunca considerou a televisão, ao menos na cabeça dele, como o pião da organização. O jornal era O Globo. Se você quisesse saber o que ele pensava, que lesse O Globo. Se você tiver dúvida em alguma matéria, dê a matéria segundo O Globo. Ele dizia: “a TV Globo não tem opinião, quem tem opinião é O Globo”. Uma vez por semana ele entrava no departamento de jornalismo, conversava conosco, na maior gentileza, elogiava as coisas, às vezes criticava. Preocupado com a audiência. Cada dia que ele chegava, dizia: “Vim trazer os parabéns porque estamos a tantos pontos da Tupy.” Tantos pontos, tantos pontos, até que um dia ele chegou e comunicou: “Nós passamos a Tupy”. Não discutíamos salários com ele, era tudo com Armando Nogueira ou Walter Clark, o diretor-geral da televisão. Mas ele era um sujeito cordial, gentil, chamava todo mundo de “senhor”, de “deputado”.

Muito formal?

A verdade é que ele tratava todo mundo como profissional, ele não tratava de cima pra baixo, arrogantemente. Era um sujeito simples, conversava e tal. Não conversava muito, não demorava muito, ia embora. Nunca houve constrangimento de nenhum de nós com ele. Mesmo quando eu dei uma notícia de Vitorino Freire, que deu uns murros e uns pontapés num sobrinho dentro do avião, do Maranhão pro Rio de Janeiro. Eu botei numa sexta-feira. E o Armando não ia na sexta-feira de noite. Eu fechava o jornal quando não tinha outro, o Jaime Dantas também não foi. Aí eu era o responsável. Sentei na máquina e contei: “O senador Vitorino Freire teve um incidente no avião, tal, tal… Embora fosse mais velho e menor, nocauteou seu sobrinho, o deputado estadual do Maranhão.” Era sobrinho da mulher dele. A matéria saiu no Jornal da Globo. Um minuto depois toca o telefone.

O próprio?

“O Armando está?”. Eu conheci a voz dele. “Não, doutor Roberto”. “Quem está falando?”. “Sebastião Nery”. “Deputado, preciso urgente de uma explicação. Quem é que pôs no ar essa matéria?”. Eu disse: “Fui eu. O Jaime Dantas não está aqui, Armando não estava, eu pus”. Ele me disse: “Deputado, o senhor sabe a gravidade dessa matéria?”. “Sei”. “O senhor sabe que eu sou um amigo fraterno do senador Vitorino Freire? O senhor sabe que essa empresa deve favores políticos ao senador? O senhor sabe o risco dessa matéria?”. Eu disse: “Doutor Roberto, me faça um favor. Se o senhor é amigo dele, telefone pra ele e me diga como a matéria saiu”. “Não, me conte”. Eu disse: eu ia saindo de casa, encontrei o senador em Copacabana, na porta de um restaurante. Tinha acabado de chegar do avião, me chamou, eu conheço o filho dele. Ele me chamou e disse assim: “Você quer uma notícia pro Jornal da Globo? Acabou de acontecer isso, isso e isso.” “Senador, veja o que o senhor está fazendo, eu só tenho esse emprego, se essa notícia não for precisamente certa, o doutor Roberto Marinho me demite hoje, com razão.” Ele disse: “Dê a notícia que eu garanto. Eu dava as notícias sobre o presidente Dutra e sempre garanti.” Fui pra televisão e botei no ar. Aí Roberto Marinho me disse: “Deputado, o senhor me dá cinco minutos de licença?”. Pois não. Ele retornou. “Deputado, primeiro eu quero lhe dar parabéns. Segundo, quero lhe dizer que o senhor foi absolutamente fiel ao que o senador fez e lhe contou e ainda lhe disse: pode publicar que eu garanto.” O Vitorino foi corretíssimo. Quase que eu sou Vitorino, não sou Sarney. Sarney ia virar de lado, eu ia me ferrar… (risos) O Vitorino, não. Garantiu meu emprego. No outro dia foi um escândalo dos jornais.

“Deus é juscelinista!”

No livro, você relata como nasceu o “Folclore Político”?

O folclore político. Um dia eu estava na Tribuna da Imprensa, era véspera do 12 de setembro, aniversário de Juscelino. Como eu sabia que o Juscelino era um nome meio proibido, fiz um negócio discreto. Então fiz uma coluna contando histórias de Juscelino, procurando sair por esse lado agradável. O homem que não tinha medo de avião e dizia: “Deus é juscelinista”, o título da matéria. Eu dizia: “Governador, tá chovendo, não vou entrar nesse avião, vou deixar pra ir amanhã”. E ele: “Deus é juscelinista, ô baiano! Entra!”. Acabou sendo mesmo. Fiz a matéria. Aí o major Douglas, um sujeito muito simpático, elegante, cordial, inteligente. A gente terminava a matéria, ia pro café e ficava esperando a decisão dele. Ele me chamou e disse: “Nery, venha cá. Esta matéria não pode sair. Eu reconheço que é uma matéria brilhante, você conta umas histórias ótimas aqui. A história dos queijos…”

Juscelino estava no aeroporto de Campina Grande e, antes de descer do avião, perguntou a Abelardo Jurema: “Quem é aquele cara que tá lá?”. “Aquele é o coronel que lhe deu aqueles queijos…”. Na hora que abre a porta do avião, o coronel lá embaixo, Juscelino cá de cima grita: “Coronel, trouxe meus queijos?” (risos) Contei essa história e outras. Foi aí que ele (major Douglas) fez aquela frase: “Infelizmente, Juscelino, Brizola, dom Helder, nem a morte da mãe.” Falei pra ele: “Tudo bem, vou falar pro jornal colocar outra matéria”. Ele: “Não, senhor. O jornal não sai com lugar em branco. Não sai sem sua matéria porque é uma denúncia que sua matéria não saiu. Porque todo dia você faz. Vá ali e escreva outra, por favor.” Fui e fiz assim: “Alckmíadas: sete histórias de um gênio da raça”. Sete histórias do (José Maria) Alckmin. Em duas delas eu citava o Juscelino. Mas o Juscelino entrava…

Marginalmente…

No dia seguinte, entro no Hotel Itajubá, estava o Abelardo Jurema, estava o pai da Maysa Matarazzo, que tomava uísque, tinha outro sujeito que sempre ia lá. Cheguei e Jurema disse: “Você é um gênio, Nery. Você descobriu o folclore político”. “O quê?”. Aí eu atinei rápido. “Você criou o Folclore Político. O Brasil precisa disso. Dia sim, dia não, conte histórias do folclore político. Essa coluna do Alckmin tá genial!”. Na verdade, o Abelardo era a cara do folclore político, não é? Era um sujeito inteligente, preparado e um político alegre, bebedor de uísque, inventava histórias. Eu passei, de três em três dias, a contar histórias, sapecava personagens. Adhemar de Barros…

Logo depois você levou pra Folha?

A coisa repercutiu, as pessoas começaram a ler. Boris Casoy um dia me telefona: “Olha, o Cláudio Abramo quer conversar com você. Pegue um avião e venha aqui.” Ele telefonou para o jornal. “Vai ter uma reunião das seis horas da tarde e você precisa vir pra cá.” Eu disse: “Ô, Boris, eu não tenho nem dinheiro pra ir pro aeroporto pegar uma passagem de avião.” Ele disse: “Deixe de ser imbecil! Tome emprestado”. É o que eu fiz. Saí dali, entrei no Banco Nacional, pedi dinheiro emprestado a Zé Aparecido (de Oliveira). Foi quando conheci Cláudio Abramo.

Ele lhe chamou pra escrever a Contraponto, não?

O Boris disse: “Eu faço sozinho o Painel. Você vem, mas vai fazer umas cinco ou seis notas pra me ajudar.” Ele ia assumir um cargo na direção do jornal. Aí Cláudio Abramo disse: “Deixe o Nery. Ele começa a escrever hoje”. História é o que não me faltava. E eu fazia mais algumas matérias pro Boris. Depois, quando saiu o Abramo, dois, três meses depois, Boris assumiu a diretoria do jornal. Eu sempre colaborava com umas notas. Fiz a coluna por 9 anos e meio. Até mesmo quando fui à Sibéria. Na Sibéria, fiz dez colunas e levei à embaixada brasileira, pra enviar no pacote, sem saber se ia chegar.

Nos anos 70, virou um sucesso editorial nas bancas.

Fiz o Folclore Número 1 (capa ilustrada por Henfil) e foi aquele sucesso. A Record comprou. Deu 14 edições. O Folclore vendia em bancas de jornal, aí é diferente.

Como ocorreu seu rompimento com Brizola?

Primeiro, eu entrei de cabeça no episódio de Brizola. Tinha ido ao Rio Grande do Sul, entrevistei e não foi publicado. Brizola vai pra Buenos Aires, depois vai a Lisboa e comecei a ser uma espécie de porta-voz dele no Rio. Ele me ligava quase todo dia. Ele veio e nós fizemos a campanha (em 1982). Eu tinha dois instrumentos: a TV Bandeirantes e a coluna que já não saía na Tribuna, mas na Última Hora. Conto a dificuldade de fazer campanha política com o Brizola. Pra minha surpresa, li um relato muito bom…

De Fernando Lyra, em “Daquilo que eu sei”?

Do Lyra, sobre as dificuldades da campanha com Brizola (em 1989). Outro que me deu igual depoimento agora, na Alemanha, foi o Moniz Bandeira: o problema do Brizola é que ele era um caudilho, um nacionalista, mas num processo democrático é impossível fazer política com ele. Defendia o fechamento de Congresso… Fui divergindo… Mas houve outro episódio anterior. Eu virei secretário do PDT. O presidente do partido era ele, mas tinha o secretário-geral, o Frejat, e eu era o secretário nacional. Ou seja, o quarto sujeito da executiva nacional. Ele confiava em mim e também nunca teve razão pra deixar de confiar. Virei vice-presidente do diretório do Rio. Era uma responsabilidade enorme. Mas começaram a aparecer o Bocayuva Cunha, o Brandão Monteiro, vetando: “Não dá. Nery é jornalista da Última Hora e dono do partido no Rio”. Foi quando Brizola me chamou pra conversar. Bem gaúcho, o Brizola passava a manteiga no pão e me dava. “Companheiro, você tem que escolher. Você não pode ser mais jornalista e dirigente político”. Argumentei que o jornalismo era minha vida desde 1952. “Agora eu sou dirigente político, mas não sei amanhã. Não posso deixar de ser”. Brizola disse: “Companheiro, tu vais começar analisar as coisas do governo e começar a me fazer críticas”.

E sua resposta?

“Brizola, não vou discutir nem brigar com você. O partido é seu, você que me indicou pro cargo. O lugar é seu, mas eu não vou deixar de jornalista”. Ele ficou assustado: “Tu estás falando de coração?”. Respondi: “Coração, alma, cabeça, tudo. Vou embora”. “Então tu tomaste a decisão. Não vai ser mais dirigente”. Desci, e estava o ótimo repórter Henrique José. Tinha me visto entrar, e ficou no botequim do Hotel Othon. “O que houve com você e Brizola? Eu tinha a notícia de que Brizola ia lhe enquadrar. É verdade?”. Falei pra ele: “Tenho que ir pra Brasília. Quando eu voltar na sexta, eu lhe conto a história toda.” “Me dê apenas uma frase”, pediu. E eu dei: “Acho que nos enganamos. Fomos a Lisboa buscar Brizola e trouxemos Juan Domingo Perón.” No dia seguinte dá no Jornal do Brasil. Aí conto o que Ary de Carvalho me disse: “Não dá, o governador não aceita que você continue fazendo a coluna (na Última Hora)”. Depois fiquei sabendo que o Bocayuva foi ao Banerj e arrumou um empréstimo pra Última Hora, pra ser pago com publicidade. Voltei pra Tribuna da Imprensa, botei a coluna em quatro estados e comecei a analisar o PDT. Pedi demissão da secretaria nacional e da executiva. Defendia Brizola e o governo do Rio na Câmara, mas comecei a fazer críticas. É um dos capítulos mais densos e fortes do livro.

Com sua atuação no lado de lá, no Congresso, como deputado federal, dá pra explicar a transformação do político brasileiro nas últimas décadas? Por que chegamos a um nível de qualificação tão baixo?

O que houve é que o capitalismo chegou ao Brasil. Éramos um País rural, Getúlio montou as bases e Juscelino ampliou a industrialização. O País não era capitalisticamente comandado pelo sistema financeiro. A política passou a ser um braço político do sistema financeiro e dos interesses econômicos. Atrás de cada grande negócio, existe um grande branco. A política brasileira passou a ser monetária e financeira. O Congresso não é mais cultural, político; é capitalista, financeiro. Cria essa dificuldade toda porque na hora que o governo tenta dizer que é de esquerda, não consegue.

Concorda com Lula? No Brasil, Jesus é obrigado a se aliar a Judas?

Ah, sim, evidente, ele já se aliou a Judas. Mas o Fernando Henrique se aliou a Satanás. Fernando Henrique se antecipou, se aliou a Satanás, fez uma aliança com o sistema financeiro, internacionalizou a economia. O Brasil tinha um sistema bancário muito nacional. E o Lula continuou mais ou menos esse processo. E se alia com todos, Lula não é aliado, é sócio do mensalão, o dinheiro que entrava por fora pra comprar votos por dentro do Congresso. Você não vê criticas. O que fez com os movimentos sociais… Os judas de Lula são mais ou menos os satanás do Fernando Henrique, mas são menos agressivos. Quais são os judas dele? Como é que o País tem seis centrais sindicais e todas apoiam o governo? Isso não aconteceu nem com Stalin. Na França, há as centrais contra Sarkozy e a favor de Sarkozy, é uma briga. Na Alemanha também. O mais puro dos movimentos sociais brasileiros, pra usar uma palavra agressiva, foi “estuprado” por Lula: a UNE. Ela era um dos mais puros movimentos sociais do País, mas o Lula realmente estuprou, virou um escritório do governo. Pois bem. Tenho uns depoimentos que só um sujeito da minha idade pode dar. O que era o seminário católico. O que era o Partido Comunista. O Partido Comunista era o mais santo…

Por quê?

Era a favor do povo, de todas as causas nacionais. Era comandado pela União Soviética, inegável, mas como a URSS não tinha invadido o Brasil, não tinha tropas aqui, era uma coisa distante. O PC defendia melhores bandeiras que a imprensa. A imprensa de hoje é uma imprensa capitalista.

A mídia brasileira não ficou muito com a cara de São Paulo?

Porque é uma imprensa empresarial e a base está lá. O Sistema Globo está no Rio, mas na verdade está lá. Destaco determinadas maneiras de atuação no livro. Mostro como era a UNE. Éramos todos soldados do bem. E o Partido Comunista ajudava isso, mas tinha atrás a URSS. A gente tem agradecer ao Dutra, porque rompeu logo com a URSS e purificou o Partido Comunista Brasileiro.

Por que o PCB foi rejeitado pela esquerda brasileira? Até hoje é atacado, condenam sua herança para a esquerda.

Porque quando caiu o muro de Berlim, mudou tudo. Lula chegou mais aliado a Golbery. Era uma “válvula de escape”, como Golbery dizia, do movimento operário, que não era mais controlado pelo PC, mas por Lula e a Igreja Católica e seus aliados. A Igreja substituiu o Partido. Aí veio toda aquela cobertura do dom Evaristo (Arns). A Igreja substituiu porque os membros do PC estavam mortos ou na cadeia.

O livro vai até o governo Collor?

O livro é uma história de 50 anos, de 1944 até 1994, quando eu voltei de Paris. Depois de 94, tem o Fernando Henrique e o Lula, mas guardo pra outro livro.

Na hora do ponto final, o que você sentiu ou pensou?

Eu tive um estresse, doença mesmo. Me deu uma labirintite. Terminei o livro inteiramente perturbado. No resto do livro eu me senti estressado. Ele tem três amores mortos. Você de repente vai vivendo mais e a vida se torna uma alameda de amores mortos. Fui revirar, mesmo assim é um negócio difícil. Agora, foi a melhor coisa que fiz na minha vida, é a coisa mais parecida comigo. Fiz “Folclore Político”, mas minha cabeça não é de folclore político. Fiz o de campanha, mas também não sou eu, 50% dos outros e 50% meu. Eu procurei, acho que fiz bem, esse livro sou eu. É minha alma, minha vida, meus sofrimentos, minhas angústias e, inclusive, as brigas em que entrei. Não falseei nada. Deixei de contar algumas histórias. Mas conto a história da campanha do Collor, do Juscelino, da ditadura.

RUMOREJANDO – por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Quem estuda cálculo infinitesimal e integral se depara com o capítulo “função de função” que é expresso da seguinte maneira: y = f(x) que se lê como y é função de x e, por sua vez, x = f(z) que é lido como x é função de z. Logo, y = f [f (z)], ou seja, y é função de função de z. Bem, quando da época da ditadura militar no Brasil, numa certa fase, o país estava sendo presidido pelo general Costa e Silva. Seu vice-presidente era o civil Pedro Aleixo. Eis que um enfarte mata ogeneral Costa e Silva. O vice Pedro Aleixo se veste com um terno de corte impecável para ocasiões muito especiais e sai de casa, lépido e, digamos, gracioso, para assumir a presidência, no que é impedido pelos três ministros militares que assumem o comando do país. O que, sem dúvida, se constituiu num golpe função de outro golpe. Em suma, numa função de função. O que se infere, de imediato, que é elementar, minha gente, o que é função de função. Mais elementar, ainda, era dar golpes em certos países, continentes, e outros assemelhados… Em alguns, ainda é…

Constatação II (De conselhos úteis).

Tomar um chimarrão, dentre outros e/ou outras, ouvindo uma música clássica de Mozart, Bach, Vivaldi e autores outros da preferência do cidadão ou cidadã é uma excelente terapia para esses tempos tempestuosos do país com um altíssimo grau de violência e outros também assemelhados imperando. Naturalmente desde que seja uma erva não muito forte para não deixar o pobre do mortal muito mais elétrico do que o coitado já anda. De nada.

Constatação III (Via pseudo-haicai).

Um resquício

Na conta corrente.

Que suplício!

Constatação IV

Pai! Não os perdoai, porque eles continuam não sabendo o que fazem…

Constatação V

Rico emagrece no spa; pobre, não precisa tomar quaisquer providências.

Constatação VI

Não se deve confundir enjoado com enojado, muito embora existam atitudes que nos deixam nas duas condições simultânea e indistintamente.

Constatação VII

“Tá escrito aqui que o euro voltou a cair e tem o menor valor em quatro anos”, disse a mulher que estava lendo o jornal de domingo. “E ele se machucou?” perguntou o marido que não tirava os olhos da televisão que tava transmitindo o desfile das misses em maiô para a rainha de qualquer coisa (Não foi possível apurar exatamente para quê. Perdão, leitores por essa nossa omissão).

Constatação VIII

Declaração recente e oficial da Unesco, Organismo das Nações Unidas: “O tango é Patrimônio Cultural da Humanidade. Este assim chamado escriba, que tem paixão pelo tango, acha “merecedíssima” a outorga da Unesco. Vale lembrar que o argentino R. Ostuni no seu Trinta versos para sentir o tango incluiu que “O tango é tão antigo como o homem, nasceu com a primeira dor da alma”. Provavelmente também com dor de cotovelo que o nosso Lupicinio Rodrigues foi um digno representante. Rumorejando, sem qualquer inveja dos hermanos, cuja diferença se resume apenas – e não mais que apenas – ao futebol – acha – data vênia, é claro – que o nosso samba também mereceria ser Patrimônio Cultural da Humanidade. Ao contrário do tango, pela sua alegria da alma. Tenho sem patriotada dito!

Constatação IX (De uma senhora em dúvida meio crucial).

“Foi a horrível

Da petulante

Que, por incrível

Que pareça,

Me disse algo interessante:

“Não esmoreça

Na crise atual,

Nem pereça

Com a situação.

Mude o visual,

Fazendo unha e cabelo,

Com muito desvelo.

Apareça

Lá no meu salão.

Preço de ocasião!”

-“Sei, não…”

Constatação X (Grande Monteiro Lobato).

Mostrou pertinácia

Ao dizer que no Brasil

Havia petróleo,

“Basta que se sonde”,

O criador de Tia Anastácia

No livro infantil

O poço do visconde.

Constatação XI

Resvalo,

Sem querer

Na gatona.

Que dona!

Não precisava

Nem eu esperava

Ela me dizer:

“Cavalo!”

Constatação XII

Rico especula preço, terras, prédios, casas e dólar; pobre, não tem porque, em que, com que e para que especular.

Constatação XIII

Quando o goleiro começou, no final da partida, justificar como deixou passar aquele chute despretensioso do meio do campo, permitindo que a partida que parecia ganha e que terminou empatada, Rumorejando ficou com uma dúvida crucial: Se ele quis dizer que o jogo só termina quando acaba ou se o jogo acaba quando termina. Quem escutou a entrevista e puder esclarecer, por favor, comentários no blog indicado a seguir: http://rimasprimas.blogspot.com

Penhoradamente nossos efusivos e respeitosos agradecimentos.

Constatação XIV (De uma dúvida, não necessariamente crucial, de quem não sofre de complexo de perseguição e julga que tem “desconfiômetro” que funciona às mil maravilhas).

Por que será que me perseguem e nunca me convocam para defender a seleção de quaisquer esportes que se pratica por esse mundo afora? Quem souber, por favor, etc. Obrigado.

Constatação XV

Deu na mídia: “Ronaldo Fenômeno se reconcilia com o presidente da CBF, Ricardo Teixeira”. Taí mais uma notícia de transcendental importância para o futuro da Humanidade.

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I (De uma fofoqueira, atingindo dois, ou melhor, duas coelhas com uma só cajadada).

É a caquética

Que é aparentada

Da atlética

Espiantada ?

Dúvida II

Foi a tomada que espalhou que o plugue andava tomando viagra ?

Dúvida III(Via pseudo-haicai).

A turma nem fica lívida

Com sua dolarizada

Impagável dívida ?

Dúvida IV (Meio surrealista).

O carreto pra levar o lápis

Da Terra até a Lua

Não saiu grátis ?

Dúvida V

Foi a aranha

Que não creu na patranha,

Estranha,

Contada pelo “aranho”,

Fazendo manha ?

“Estranho !?”

Dúvida VI

Pingue-pongue

Ela tava jogando,

Tudo mostrando

Só de “sarongue” ?

Dúvida VII

Essa crise geral

Deixou a emergente

Soturna e noturnal

Igual

A todo mortal,

Como a gente ?

Dúvida VIII (por atacado).

A tangente é por pouco uma quase secante ? E o arco tem complexo por não ser diâmetro ? E foi o raio que mandou o diâmetro para o raio que o parta ? E no teorema de Pitágoras todo mundo é quadrado ? Quem nasce circunferência nunca freqüentará o circulo ? O lado do quadrado é uma diagonal dividido por uma certa ou incerta raiz quadrada ? O cone tem complexo de inferioridade por valer apenas 1/3 do volume do cilindro ? O trapézio está para o retângulo assim como o camelo está para o cavalo ? A Lemniscata de Bernouilli é um oito cansado ? Ou o infinito é um oito deitado ? A elipse, a parábola e a hipérbole de figuras geométricas passaram a figuras de retórica ? 69 também é número cabalístico ? O número pi ao quadrado é somente o produto de 3,14159 por ele mesmo ? O tetraedro não tem nada a ver com o icosaedro ? O pentágono despreza o hexágono, o heptágono e o octógono só porque se julga importante já que tem o seu nome usado na maior potência do planeta ?

Dúvida IX

Era naquele cartaz que estava escrito: “Não escrevemos nada aqui porque não temos nada a escrever” ?

Dúvida X

Ela fez firula

Para não comer

Por temer

O pecado da gula ?

Dúvida XI

A tua perda, com a desvalorização do real, foi uma rima rica ?

Dúvida XII (Via pseudo-haicai).

Acha o sonhador

Que com a euro

O aplicador

Não

Ficará tão

“Neuro” ?

Dúvida XIII (Perdão, leitores, o péssimo latim).

Nosso triste destino é ser, para todo o sempre, por “seculae seculorum”, “ad eternam”, o país com um futuro sem corruptos ? (De acordo com estudo da Fiesp, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, “o custo” da corrupção pode variar entre R$ 41 bilhões e R$ 69 bilhões por ano).

Dúvida XIV

Quem dominar

O computador

Deverá se tornar,

No futuro,

O grã-senhor

De tudo que é burro?

RONALDINHO por hamilton alves / ilha de santa catarina

Vou dar uma de cronista esportivo, função que exerci na distante juventude, nos bons tempos da Rádio Guarujá e de uma folha no jornal Diário da Manhã, que era dirigido por Zedar Perfeito da Silva, tradicional nome do nosso jornalismo, para cujo trabalho fui convocado pelo Pedrinho Luz, meu particular amigo.

Hoje, vi uma notícia na TV que o organizador da Copa estranhou (e lamentou) que Ronaldinho, que é fora de dúvida um craque (diga-se o que se quiser dizer dele), não foi convocado.

Burrice de Dunga.

Houve a burrice histórica de Felipão, que não convocou Romário, que se hoje joga ainda a bola que joga, imagine-se naquele tempo. Quanto poderia ter sido útil à seleção. Felizmente, o escrete, sem Romário, foi campeão do mundo. Não fosse, Felipão teria seu ingresso de retorno ao Brasil vetado. Provocaria a revolta da torcida, de certo. E bem feito para ele. Torci para o Brasil perder por essa inominável burrada. Mas tudo deu certo, no fim, para o teimoso Felipão. Alegou que Romário era indisciplinado. Não admitia que um jogador o fosse. Ora, para que tem psicólogo dando sopa por aí. Era só conversar com Romário e lhe dizer que no time de Felipão quem dava as cartas era ele. Romário chorou para figurar na seleção. Mas as lágrimas dele não comoveram o coração de pedra do técnico.

Agora, repete-se a história. Dunga não convocou Ronaldinho. Corre um risco enorme. E, pior, enfraquece o poderio do time. A seleção ainda precisa do futebol de Ronaldinho.

É um craque consumado.

Ainda há pouco, num jogo do Milan, na Copa dos Campeões da Europa, vi o lance magistral de dar um passe para o Pato, apenas com um leve toque na bola, sem deixar que tocasse o chão, de bate pronto; colocou o companheiro em condições de marcar um belo gol. Que outro jogador seria capaz de executar um lance com essa categoria? Pouco, pouquíssimos.

Mas o diabo é que os técnicos se arvoram em donos da verdade. Quando batem pé numa decisão, mesmo que seja burra, não há o que os demova.

Dunga vai se arrepender de bancar o teimoso.

Felipão ainda teve a sorte de levar o caneco para o caso de não ter convocado Romário.

E como é que vai ficar Dunga se o Brasil não se classificar nem para as quartas de final?

Terá seu retorno vetado ao Brasil, certamente.

Ou na melhor das hipóteses a torcida vai ficar de mal com ele. E vaiá-lo à chegada.

Atenção: alguém bate palmas no portão – por alceu sperança / cascavel.pr

Mesmo os mais ferrenhos inimigos de Darwin tremeram nas bases quando morreu o macaquinho no Parque Ecológico. A paranóia da febre amarela evidenciou comportamentos contraditórios mas muito humanos, como a corrida aos postos de saúde para vacinação, mesmo que durante meses a fio os agentes de saúde tenham ido de casa em casa avisar e deixarfolheto exortando para a vacinação no posto de saúde mais próximo.

Passado o primeiro terror, veio o departamento das culpas: é do prefeito? É do mosquito? É da falta de vacina no posto? Deve ser do vizinho que deixa o pneu com água, do desafeto, da sogra. Mas essas são, talvez, as pequenas culpas. A grande culpa mora fora do alcance imediato de nossos brados e braços.

O biólogo francês Luc Montagnier, do Instituto Pasteur, de Paris, que em 1983 identificou o vírus causador da Aids, avisou o que virá depois dela: os políticos que tanto criticamos se tornarão apenas joguetes manipulados por oligarquias econômicas crescentemente maiores, com um poder muito superior ao deles. Essas oligarquias tendem a aprofundar o descontrole sobre as modificações ambientais.

Além de sermos um enorme fazendão, lotado de peões de gravata ou pé descalço a serviço de tais interesses, todos tossem e se envenenam com a produção de alimentos industrializados sobre os quais o consumidor não tem o menor controle.

Está aí à vista uma agropecuária que pensa com amor no animal europeu e com ódio e gana assassina no compatriota sem-terra. E todos sofrem uma poluição química avassaladora que, diz Montagnier, “conduz a desastres de saúde por exposição a produtos carcinogênicos, doenças respiratórias e depressão do sistema imunológico”.

Tal poluição se evidencia pelas dioxinas disseminadas por incineradores de lixo e pela indústria pesada, pesticidas com efeitos cancerígenos, a doença da vaca louca, gripes aviária, suína e vai por aí.

Como resolveremos isso xingando o prefeito, o vizinho ou a sogra? Eles devem ter lá suas culpas, debilidades e omissões, mas essa coisa toda vai continuar, a menos que haja uma radical transformação no plano mundial. Terá que ser radical, sim. Primeiro anticapitalista e em seguida pós-capitalista.

As pessoas são bombardeadas a todo instante por mensagens subliminares segundo as quais não podemos nem há sentido em lutar contra os donos do mundo. O máximo que podemos fazer é agredir o vizinho, xingar o prefeito, brigar com a sogra.

O funâmbulo da TV, o bom-samaritano do rádio, o padre, o pastor, as ongs de todos os tipos, os empresários bonzinhos e sua responsabilidade social nos dizem, ano após ano, década após década, que somos impotentes diante de uma realidade que nos esmaga e tudo que podemos fazer é confiar neles. Como nada resolvem, só restam a indiferença, a desistência, a submissão.

Mas fé cega é faca amolada. A combinação de submissão, que é falta de juízo, com indiferença, que é egoísmo, e desistência, falta de patriotismo, é concordar que os donos do mundo continuem sendo os patrões deste enorme fazendão no qual nossa cidade, nosso Estado e nosso País se transformaram, com a conivência de “democratas”, “trabalhistas”, “verdes”, “socialistas”.

O sofrimento dos nossos concidadãos, se não for mitigado, cedo ou tarde baterá palmas no portão, apertará a campainha da porta ou arrombará nossa janela.

DEGREDADO – de joão batista do lago / são luis


Meus passos levam-me às esquinas da Ilha

Em todas elas há um cheiro parado no ar

Um gosto de sal e mel soçobra-me nos lábios

Um abraço apertado unge meu corpo

Com o suor que exala dos teus poros

Sinto-te como se minh’alma fora

Dentro de mim desde o início do nada

Sinto-te como o caos que se organiza

Na mundidade da minha prima casa

Organizando todos meus amores silenciados

Sou teu ilhéu…

Ilhado nas esquinas do teu corpo

Túnica sagrada que me reveste

Vou caminhando tuas esquinas (e)

Descobrindo teus segredos

Teus amores…

Sou, pois, teu eterno degredado

Teu criminoso desterrado d’outras terras

Que implora o castigo de te ver em mim amada

DEPOIS DO TERREMOTO E DA CONTRA-ODE À CANALHA – de tonicato miranda / curitiba


para Roberto Prado

Ah minha juventude estacionada

retardando todos meus legumes em flor

O que pode a couve flor contra a buganvília?

A bilha movendo meu carrinho de rolimã já vai longe

A trilha, o cavalo e a cilha transportam hoje um monge

Mãos e rosto ainda não de todo crestados

viajam de lado desviando do capim navalha da palavra

este que a juventude lavra sem perdão

desbastando com rudeza a montanha da emoção

Jovens passarinhos atenção ao meu canto de ferro

Acreditem: ele não será um solitário berro

está vestido de acordes é voz que segue a partitura

mas sua voz é livre, sua juventude tem a carne dura

mas minha pele se cresta, meu cantar já se arrasta

mas não me raspa com a borracha sobre o papel

minha linguagem é menos o sal, muito mais o mel

Convido-o companheiro para eu lhe ouvir poemas

traga aos meus ouvidos suas tralhas

vou também lhe mostrar minhas produções canalhas

vá que alguma encontre em você um abrigo?

Vá que ela seja o ferrolho da porta se abrindo

você um amigo?

Reforma política: aposentar Caciques dos Partidos – Revista “O Cruzeiro” de 3 de outubro de 1964 / rio de janeiro

O PRESIDENTE Castello Branco parece interessado em examinar as sugestões que lhe vêm sendo feitas no sentido de dar maior profundidade à revisão das estruturas políticas, que inicialmente pensou fazer em escala bastante modesta. Os projetos iniciais do Govêrno referiam-se a uma reforma eleitoral e a uma lei orgânica dos partidos, ambas consideradas essenciais a uma melhoria dos instrumentos de apuração da manifestação da vontade popular, mas ambas tidas pelos peritos nos estudos constitucionais do Brasil como insuficientes.

O de que se necessitaria, no momento, seria de alguma coisa semelhante ao que fêz na França, em 1958, o General Charles De Gaulle, embora sem que se pense em adotar necessàriamente a mesma linha de fortalecimento do poder presidencial seguida na Constituição francesa daquele ano.

Abandonada a idéia da mudança do sistema presidencialista para uma nova experiência parlamentarista – idéia condenada pelo malôgro da experiência anterior e recente, muito embora já haja novamente na Câmara uma emenda constitucional parlamentarista com 205 assinaturas, o que demonstra, pelo menos, a persistência das inclinações doutrinárias da maioria dos deputados -, cogita-se de modificar a estrutura do regime presidencialista. Essas modificações poderiam ir até admitir a existência de um conselho de ministros ou de ministros prèviamente aprovados pelo Congresso ou, ao menos, pelo Senado – prática norte-americana – como tentativa de contenção dos excessos presidencialistas e de uma boa distribuição de tarefas. Entende-se que a missão de chefe de Estado cresceu tanto quanto a missão de chefe de govêrno, a tal ponto que se tornaria rigorosamente impossível a um só homem exercer eficientemente as duas.

Ao chefe de Estado, no entanto, seriam asseguradas prerrogativas que manteriam em suas mãos o poder de decisão em tôdas as questões de importância política e administrativa.

Tentar-se-ia, por outro lado, assegurar senão a prevalência pelo menos a liderança legal – no reconhecimento da liderança de fato – do Poder Executivo sôbre o Poder Legislativo, na formulação da política de govêrno. Pensa-se, portanto, em introduzir, em caráter permanente, a tramitação especial dos projetos da iniciativa do Presidente da República, bem como a de consagrar, no texto da Constituição, as restrições à iniciativa legislativa dos deputados, notadamente no que se refere a projetos de lei aumentando a despesa pública.

A proibição de iniciativas de parlamentares com reflexos na despesa pública não só asseguraria a incolumidade da política econômico-financeira do Govêrno, como favoreceria o prestígio do Congresso, afetado exatamente pela liberalidade com que deputados e senadores usam, sob pressão dos seus eleitores, da faculdade de propor projetos de lei ou emendas aos projetos em andamento.

No que se refere ao problema dos partidos políticos, as tendências vêm variando, mas de um modo geral consideram-se carentes de objetividade as tentativas de eliminar os atuais partidos para substituí-los por organizações que estruturassem de modo mais coerente as tendências ideológicas e compusessem de maneira melhor, os interêsses em jôgo. Os partidos que aí estão, sobretudo os grandes partidos, como o PSD, o PTB e a UDN, encontram bases de opinião bastante estáveis e têm seu fundamento de realidade nas rivalidades políticas municipais que seriam ainda a substância do grande jôgo político nacional.

O problema seria o de democratizar êsses partidos, interferindo no seu processo, condicionando-os ao cumprimento de exigências legais que os poriam a salvo do domínio de oligarquias ou de interêsses de grupos que em cada Estado monopolizam a legenda sem qualquer possibilidade de apêlo ou recurso. Os partidos brasileiros não têm existência efetiva a não ser nos períodos eleitorais, e assim mesmo as convenções que ratificam candidaturas são manipuladas pelos donos da legenda, que negam acesso a qualquer influência estranha ao seu exclusivo interêsse político ou mesmo pessoal. Seria necessário permitir o arejamento das reuniões partidárias com o acesso às mesmas das correntes de opinião, desde o município até o âmbito nacional. Isso jamais aconteceria por vontade própria dos caciques partidários e teria de ser uma resultante de imposições legais, que o atual Govêrno poderia promover com rapidez e eficiência.

Os Srs. Gustavo Capanema e Afonso Arinos, juntamente com o falecido San Thiago Dantas, estudavam êsses temas em profundidade e vinham mantendo a respeito exaustivos encontros com o Ministro da Justiça, sensível à necessidade de partir o País para novas experiências em matéria de estrutura política.

Pensaram aquêles próceres em interessar no assunto o Presidente dos grandes partidos para a formação de uma frente ou bloco parlamentar que, na base do estímulo ao Govêrno, apoiasse firmamente a votação das reformas. A idéia está em marcha, e é possível que o Presidente autorize o Ministro Milton Campos a ampliar o terreno em que se estudam, no momento, as reformas políticas que pretende fazer possìvelmente nos primeiros meses de 1965.

As resistências da rotina política e parlamentar serão muito grandes e só mesmo o impulso de uma dinâmica revolucionária poderá permitir a reestruturação de que se cogita no momento.

Caso, no entanto, as dificuldades de ordem doutrinária sejam inconciliáveis, o Govêrno poderá se ver na contingência de restringir seu propósito reformista, na área política, a simples ajustamentos da legislação vigente.

Nesse caso, teríamos apenas algumas providências destinadas a coibir a fraude eleitoral ou a fixar exigências maiores para registro de partidos políticos, a fim de evitar que continuem a proliferar as legendas partidárias destituídas de qualquer significação.

MV.

À LUZ DE UMA VELA – de jamil snege / curitiba

Um dia tu serás demonstrado

cientificamente,

como o eletromagnetismo e

a gravitação universal.

Professores te reproduzirão

em laboratório,

crianças enfeitarão com tua

fórmula suas mochilas

e os grafiteiros rabiscarão

teu princípio pelos muros

da cidade.

Nesse dia, Senhor, alguém

estará restabelecendo

teu mistério…à luz

de uma vela, numa galáxia

bem distante.

LEMBRANÇA DE CANTALÍCIO por hamilton alves / ilha de santa catarina

Cantalício foi um amigo inesquecível que conheci logo que construi uma casa em Cacupé. Chamou-me, desde logo, a atenção por sua pobreza absoluta. Não tinha moradia fixa. Mudava de pouso a todo o instante. Vivia jogado ao léu, como um deserdado da sorte. Era um andarilho, que à noite se recolhia em qualquer lugar para dormir. Deitaria no chão? E água para lavar-se? Ou para beber? Comida para comer? Ninguém lhe dava a mínima importância. Com um rosário à mão e uma bíblia sebenta, que lia em qualquer canto em que descansava de suas andanças, tornava-se uma figura ímpar na paisagem humana.

Conversávamos de vez em quando. Fazia o mesmo comentário nessas ocasiões: “Tem muito pecado no mundo”.

Com essas palavras, sem o saber, me jogava às cordas. Levava-me à reflexão de que o pecado é o grande mistério do mundo e do homem. Tudo que existia (ou existe) neste planeta de mal decorria do pecado. A grande miséria humana era (é) o pecado.

Em geral, já noite comprida, Cantalício  me aparecia à porta, quando lhe dava um prato de comida. Pedia-me velas. Em noites chuvosas, aparecia-me todo molhado.

– Você não tem um guarda-chuva. Assim vais ficar resfriado.

Parecia não me dar muita importância. Estava habituado a viver assim brutalmente.

Uma tarde, apareceu-me se oferecendo para fazer o trabalho de limpar o quintal, como de rotina.

– Pega o ancinho e a enxada atrás da casa e pode fazer o serviço. – lhe disse.

Perdia-me a olhar o espaço infinito, a me perguntar por que uma pessoa como o Cantalício não podia viver em melhores condições, recebendo uma ajuda do poder público. Ter o essencial: uma casa decente, comida, roupa, assistência médica, etc.

Estava assim concentrado nesse pensamento, quando voltei meus olhos para ele, que estava diante de mim a poucos metros.

O que percebi então nunca mais se apagou da minha memória.

Estava de perfil, os cabelos compridos, soltos, lindíssimos, como se os tivesse acabado de lavar com os melhores óleos, de um brilho que nunca antes vira em minha vida, em posição ereta, sem mexer um único músculo, parecendo-se incrivelmente com a figura de Cristo.

Fiquei meio paralisado, olhando-o, sem articular uma única palavra. Assim permanecemos nessa atitude os dois por algum tempo.

Quando umas freiras o levaram para uma casa de idosos, em Ribeirão da Ilha (na qual, como soube depois, não chegou a se alojar), deixando de ocupar uma pequena casa que lhe fiz nos fundos da em que morava, deixou-me a bíblia de presente, com os dizeres: “para o irmão Hamilton, com o abraço do Cantalício”.

A última notícia que soube dele é que está internado no Orianópolis (uma organização assistencial em São José).

Foi-me um golpe grande quando Cantalício sumiu da paisagem de Cacupé. Era ao mesmo tempo um santo e um amigo.

TUMBAS LUMINOSAS e MÚMIAS DANÇANTES – por alceu sperança / cascavel.pr

Diversas pessoas estão atarefadas com a elaboração de programas administrativos governamentais, tendo em vista as eleições de outubro. Devem ser pessoas com vocação para a ficção. Na atualidade, o governador e o presidente da República têm tanta margem de escolha quanto o coveiro: pode começar a cavar ao comprido do caixão, em diagonal, a partir do poente ou do Leste, mas o fruto do trabalho será sempre uma cova aberta e calos nas mãos.

Sobra muito pouco para a atuação de um governante, na democradura mundial de hoje. O verdadeiro poder se esconde nos conchavos com banqueiros, transnacionais, empreiteiras de obras, concessionários de serviços públicos e máfias financiadoras de campanhas.

Quem participa desse esforço de elaborar programas de administração, concluí que só há duas opções: ou mentir para a população, anunciando um plano fantasioso, ou ser honesto e dizer que a plataforma aprovada pelo eleitor nas urnas não é a verdadeira, aquela que o candidato acertou nos conchavos.

O que, enfim, um governante faz, na atualidade? Nomeia cupinchas do partido e dos partidos aliados para funções sobre as quais eles não têm a menor idéia de como desenvolver. E nem querem saber ou aprender como, em cursos técnicos estafantes, que, aliás, requerem inteligência. Afinal, trata-se de coisa provisória, até o próximo conchavo. O que interessa, mesmo, é a grana do salário, que será rachada com o partido.

Outra coisa que governante faz é nomear parente ou ajeitar esquemas para os parentes, especialmente os mais incapazes, pois os capazes já têm o que fazer e não dependem de tetas provisórias . Os parentes, como os cupinchas, também não têm a menor idéia do que seja serviço público, pois sua cultura é a da iniciativa privada, onde o jogo é outro.

E o que governante mais faz na atualidade, além de morrer de medo de que algum aspone seja apanhado em corruptos mesalões, é a famigerada “revitalização”. Palavra chupada do Inglês, ela não quer dizer nada. Poderia ter o significado de ressuscitação, que seria reanimar alguém. Mas, a rigor, “revitalização” quer dizer “reforma”.

Se fôssemos avaliar o que se reformou até hoje, no País, nos estados e nos municípios, veríamos que só se mexeu na aparência. O carro levou um banho de mangueira, mas o resto continua igual: a pintura descascada, o motor rateando, os pneus furados.

Alguns acham que não é muito publicitário dizer que reformou algo com uma pintura ou um reboco. Funciona mais pôr tudo abaixo e reconstruir, para que não pareça uma reforma e sim uma “revitalização”, um fazer de novo e supostamente melhor.

Imagine se o presidente de seu país fosse governar, digamos, o Egito, onde estão as Pirâmides. Que revitalização, meu! As tumbas recobertas de plástico luminoso e múmias holográficas dançando ao som de um pancadão high-tech.

VACA SAGRADA de ewaldo schleder / ilha de santa catarina

foto de ewaldo schleder

Vaca sagrada

.

Fui morar perto do mar

numa tal Praia Brava

ganhei foi uma vaca

o mugido do animal

grata, ao que pastava

Naquela santa Ilha

curti praias e brisas

sua doçura e sais

entre dunas e campos

pedras raios temporais

De perto nunca a vi

jamais desejei dela

as tetas ou os cornos

muito menos a carne

o couro ou a vitela

Bicho de estimação

nem lembro haja tido

não conto minha vaca

Catarina, seu nome

sagrada é apelido

LUIZ FELIPE LEPREVOST convida para SARAU NAS NUVENS:

“COISAS DE MARIA JOÃO” apresenta MILTINHO e MARCELO dia 14 de maio as 21 hs / ilha de santa catarina

Dupla celebra 82 anos de ‘bebedeira’ no mesmo pub /inglaterra

Britânicos se conheceram aos 13 anos em bar de Somerset.
Les Perkins e Chris Parfitt já viram muitas mudanças em pub.

Os britânicos Les Perkins, de 98 anos, e Chris Parfitt, 95, bebem juntos no mesmo bar de Somerset, na Inglaterra, há 82 anos. A dupla é o exemplo vivo do conceito “cliente fiel” para o pub Waggon and Horses.

Eles se conheceram naquele bar quando ainda tinham 13 anos e estavam com seus pais. À época, eles estudavam em escolas diferentes e não tinham nada em comum.

Com o passar dos anos, Perkins e Parfitt tomaram gosto pela bebida e fizeram do pub seu ponto de encontro semanal. E lá se vão mais de oito décadas.

Recentemente, a dupla foi fotografada no balcão do bar, onde brindou a amizade ea bebedeira.

“Os novos donos são muito bons e a comida daqui é excelente”, contou Parfitt ao tabloide “The Sun”. Ele e o amigo já acompanharam muitas mudanças no pub, como a passagem de quatro diferentes administrações.

“Já vimos muitas pessoas passarem por aqui. Gostamos de algumas e nem ligamos para outras. Mas todas passam e nós ficamos”, brincou Perkins.

g1.

O VENTO de vera lucia kalaari / portugal


Quando em meu frio leito

Recordo com deleite

Os passos da minha vida,

O vento que bate

Nas paredes corroídas

Pede também guarida

No meu louco coração.

Num triste lamento

Que sai da imensidão

Do negro firmamento

De manso vem surgindo…

Depois, negado o refúgio pedido,

Segue rugindo, increspando o mar

Em vagas alterosas,

Rompendo o ar

Em brisas furiosas.

E a noite serena,

Acorda perene…

Esconde-se a lua,

Fogem as estrelas,

O céu se turva

Ao vento que passa,

Que mata o tempo

Que apaga a vida

E tenta, em vão,

Parar o meu coração.

SÃO PAULO: “COMOÇÃO DAS NOSSAS VIDAS”! por zuleika dos reis / são paulo


Pobre da nossa São Paulo, comoção das nossas vidas, como foi a comoção da vida de Mário de Andrade. Pobre da nossa São Paulo, afogando-se nas águas vindas dos céus, nas águas transbordando dos rios, nas lágrimas transbordando dos olhos que choram por seus mortos.

São Paulo, comoção das nossas vidas! Rogai, Santo Apóstolo, pela cidade que carrega o vosso nome. Rogai por todos os filhos desta cidade, particularmente pelos mais pobres e miseráveis.

Rogai pelos pobres de todas as misérias, que são legião: a miséria da falta de trabalho, a miséria da falta de justiça, a miséria  da falta de pão; a miséria da falta de equilíbrio, a miséria da falta de paz, a miséria da falta de amor, a miséria da falta de tolerância, a miséria da falta de aceitação(…). Rogai pela superação das nossas misérias que, como em tantas outras cidades do mundo, compõem uma legião.

Apóstolo Santo: Rogai por nossa pobre tão rica cidade, amada como se ama a própria filha, como se ama a própria mãe; esta nossa São Paulo demasiado humana e, por demasiado humana, feita de toda luz e de toda sombra, de todo mal e de todo bem, de toda virtude e de todo vício, com sua alma sempre dividida entre Apolo e Dionísio.

Velai por nosso destino e pelo destino da cidade que carrega o vosso nome, Apóstolo dos gentios, vós que espalhastes a Mensagem para muito além dos muros do Templo.

São Paulo, velai por São Paulo!

SALA DE ESPERA (do psiquiatra) – por helena sut / curitiba

O que sou no outro? O que sou terá sentido se somente for percebido por mim? Será que o verdadeiro olhar não é o do senhor sentado a minha frente que me observa de forma dissimulada sobre a revista? Será que a verdade não aflora do desconhecimento e das impressões imaculadas de afinidades ou antipatias? O que sou nele? Será que o mesmo que sou em mim? O que sou no outro?

As inquietações surgiram de repente enquanto passava o tempo com uma revista de entretenimentos na sala de espera do terapeuta. Abandonei a leitura enquanto percorria as espirais da minha existência, mas mantive a publicação nos braços como um escudo para disfarçar a grande dúvida sombreada nas paredes da pequena sala. Concentrei-me no outro, no senhor sentado à frente com a revista em punho.

O que ele é em si, em mim, no mundo…?

Decifrá-lo seria uma quase resposta. Mas tive de abandonar minha incursão quando percebi que o meu olhar havia sido interceptado e que o senhor, visivelmente constrangido, cruzou as pernas e segurou com mais força a revista. Disfarcei.

Ele não é em mim. Não consigo perceber nada além de um homem de aproximadamente cinqüenta anos sentado na sala de espera de um psiquiatra. Rendo-me a dificuldade de colher minhas primeiras impressões. Estou maculada com as inquietações da minha existência. Mas ele… O que é? Ansioso? Deprimido? Louco? Talvez um caso perdido…

Oscilei diante da possibilidade de perigo. O outro… Novamente os olhares se cruzaram. Tracei um vôo improvável e alcancei o relógio como se estivesse preocupada com as horas. Pensei em hastear a bandeira branca e explicar ao desconhecido o porquê de estar ali. Insônia, ansiedade, trauma… Tudo começou com a depressão. Um momento difícil, o outro… Tarja preta. Mas não tomo mais antidepressivo. É verdade que de vez em quando ainda tomo um remedinho para dormir, o que restou… Insônia. Talvez um pouco de estresse, sei lá!

Não sou silenciosa ou louca, mas como poderia transpor o silêncio interposto pelo outro. Explicar-me talvez me libertasse do que não quero ser, mas… O que sou no desconhecido? Ansiosa? Estressada? Deprimida? Histérica?

A porta do consultório se abriu. Uma trégua. O senhor se levantou, cumprimentou o psiquiatra e saiu com a senhora. Um acompanhante. Mas ainda assim poderia ser ansioso ou deprimido. Ou um caso perdido… Quem sabe ele não é o verdadeiro motivo da ida da mulher ao terapeuta. Ele, o outro, o que foi em mim?

Era o horário da minha terapia. Vasculhei as angústias dos últimos dias e entrei. Ainda pensei em perguntar ao psiquiatra como eu existia em seu olhar, mas adiei a indagação diante da possibilidade de um diagnóstico.

Deixei minhas dúvidas junto à revista na sala de espera. Quem sabe na próxima sessão.

a dissecação do poema – de julio saraiva / são paulo


O poema em seu todo

pode às vezes vir da flor

como pode vir do lodo

pode vir do olho do cu

mas também vem do sacrário

vem do vôo do urubu

vem do canto do canário

o poema é brinquedo

é recreio da palavra

o poema vem dos olhos

encovados de quem lavra

o chão  a terra que não tem

está no meio dos escolhos

ou na noite do meu bem

o poema em qualquer parte

pouco importa de onde vem

pode ser de Deus a arte/praga

e a do Diabo também

MIRANDO O RALO por lucas paolo / são paulo

Contarei aqui uma anedota que – tenho motivos para suspeitar – diz muito sobre o filme “A Erva do Rato” de Julio Bressane, sem necessariamente dizer muito sobre ele.

Estava eu no banheiro do Cinesesc tendo meu costumeiro diálogo pré-filme com o mictório (ou, porque não?, “A Fonte” de Duchamp), quando ouço, próximo ao lavabo, sinais daquelas típicas conversinhas anteriores ao filme. “Estou louco para rever o filme. Aparece a “periquita” da Alessandra Negrini inteirinha, linda.” – diz um homem que, de soslaio, só reparo ter cabelos grisalhos. [transcrevo sua fala de memória e sem preocupações maneiristas.] O jovem, que enxaguava tranquila e despreocupadamente as mãos, fica com aquele jeito-sem-jeito de quando não sabemos o que dizer, e dá a conscienciosa e marota risadinha.

O meu primeiro impacto é de assombro e curiosidade: o que leva as pessoas a (re)verem um filme? Arte? Entretenimento? A “periquita” da mulher-sensação de uma das últimas novelas da Globo? Tanto faz. Motivos são motivos. Não há motivo entre o céu e a terra, entre o Cinesesc e o Cinemark, que justifique ou deixe de justificar a ida ao Cinema. Indo ao cinema, o resto é justificável: justo.

Porém, ao achar que o papinho iria se manter na banalidade (fala boba = sorriso sem jeito), fui surpreendido. “Eu já tinha visto a Playboy dela, mas no filme é muito melhor.” – acrescenta o “senhor”. Uau!!! Um filme profundo e artístico consegue (re)significar cada coisa. Paro minha interpretação por aqui.

Gostaria de fechar a anedota contando o desfecho irônico dela. Nos créditos finais – que acredito que o nosso curioso espectador não ficou para acompanhar – aparece a constatação que há uma dublê. Não há cenas de ação, então – como pude supor e depois confirmei pesquisando -, a dublê é para as cenas e fotos de nudez mais explícita. Ou seja, nosso amiguinho deve estar acreditando, até agora, ter visto a “periquita” da Alessandra Negrini. Que ele possa carregar essa crença até a morte.

Enfim, acredito que, aqueles que assistirem ao filme, entenderão do que realmente trata esta anedota. Ou não.

RECEITA DE POESIA de claudia regina telles / itajaí.sc


Capturar a imagem de alguma insignificância que voa,

um vento que passa,

um corpo que brinca de alegria,

uma agonia de dor,lamentos de amantes,

saudades, solidão.

Caso você não tenha este ingredimentes a sua disposição,

imagine-os, que é a mesma coisa.

Coloque tudo e vá adicionando e  misturando palavras.

Cuidado como exagero;

Servir quente ou fria, tanto faz

Excelente para todas as ocasiões

sempre que sentir vontade

ou que doer o ferimento ou cicatriz;

publicado no livro de conchas e de clarices/ 2007

A ROSA ABSOLUTA de otto nul / palma sola.sc

Rosa que contempla

Nuvens pressagas

Por dentro de luzes

Que ultrapassam

As esquinas siderais

Nos ocos do cosmos

Rosa que se fez rosa

Na abissal beleza

De premissas loucas

Emergentes dos mares

Os céus tumultuados

De argênteos brilhos

Ó, rosa absoluta,

Que a tudo evolve!

POEMA de luiz gustavo pires

a palavra
esta que lavra
o tempo

o pó do tempo
o tempo contém o pó
da alma

tem poema
na alma

A ÁGUA – de manuel maria barbosa du bocage / lisboa

Meus senhores eu sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.

Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da raspa
tira o cheiro a bacalhau rasca
que bebe o homem, que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão.

Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho

Meus senhores aqui está a água
que rega rosas e manjericos
que lava o bidé, que lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber ás fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.

CARTA A UM POETA – por hamilton alves / ilha de santa catarina

Prezado amigo,

Aí vai esse poema de Yves Bonnefoy, que um amigo teve a gentileza de me mandar de Recife, PE.

Trata-se de um poema que reflete o tema  sempre inquietante  da perfeição e/ou da imperfeição, de como ambas se situam dentro de um plano de relativismo. Ou de como, em certo sentido, a imperfeição suplanta a perfeição.

Ou que de algum modo a imperfeição se impõe para que se enseje a perfeição.

Ou de como uma surge ou tem origem na outra ou de como uma precisa da outra para subsistir.

Quem atacou muito bem essa questão foi Wallace Stevens em seu belíssimo poema “O homem do violão azul”, inspirado numa tela de Picasso, quando colocou magistralmente o verso “the imperfect is our paradise” (o imperfeito é nosso paraíso).

Isso soa de forma metafísica.

O que seria de nós se tudo fosse perfeito neste mundo? Não houvesse a imperfeição para que, por ela ou através dela, se buscasse (ou tentasse) a forma perfeita?

Ou o poema perfeito? Ou a obra de arte que assim fosse considerada? Sempre temos de combater, de certo modo, a perfeição ou recusá-la. Como diz bem Bonnefoy, em seu poema, “a imperfeição é o cimo”. Como querendo dizer que ela é a busca de alguma coisa que desconhecemos. Ou só descobrimos quando, através dela ou por via dela, conseguimos alguma coisa que possa ser a perfeição.

Esse poema, “A imperfeição é o cimo” (lê-lo abaixo) diz tudo ou expressa tudo isso melhor que estas poucas palavras.

“A IMPERFEIÇÃO É O CIMO

Ocorria que era preciso destruir, destruir e destruir

Ocorria que só há salvação a esse preço

Arruinar a face nua que se alça no mármore,

Martelar toda a forma, toda a beleza,

Amar a perfeição porque ela é o limiar,

Mas negá-la assim que conhecida, esquecê-la morta,

A imperfeição é o cimo”.

Um abraço.

O SER HUMANO TEM JEITO? – por alceu sperança / cascavel.pr

Desde que a moderna indústria química e farmacêutica floresceu no mundo, os brasileiros jamais puderam comprar em qualquer farmácia um remédio antiinflamatório nacional.

Todos os antiinflamatórios que eu, você, nós, compramos até hoje em farmácias eram baseados em tecnologia e produtos estrangeiros.

O pesquisador catarinense João Batista Calixto, chefe do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina, está mudando essa história.

Ele criou o primeiro antiinflamatório produzido a partir de uma planta brasileira – a erva baleeira.

O remédio é indicado para o tratamento de tendinite crônica e dores musculares.

Foi também o primeiro medicamento a ser integralmente pesquisado e desenvolvido no País.

**

Por que nós, aqui do Sul, precisamos nos preocupar tanto com a proteção da Amazônia?

A Amazônia não está lá, tão longe?

Que importância tem para nós o desmatamento louco de lá? As queimadas irresponsáveis? Os assassinatos de índios?

Além de a resposta ser evidente – da Amazônia e de sua gente depende o futuro do Brasil –, ainda há uma verdade que poucos de nós já perceberam.

A Amazônia também é aqui.

Mas como? De que jeito a Amazônia pode ser e estar aqui?

Pesquisas do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, da Universidade de São Paulo (USP), apontam que as nuvens vistas acima de nós estão constituídas por águas em grande parte evaporadas na Amazônia.

Isso quer dizer que sobre nós, em cada nuvem e em cada chuva, é um rio voador da Amazônia sobre nós, a água da Amazônia que nos refresca e dá vida às plantações.

Mais uma razão, portanto, para preservar a Amazônia, pois as águas amazônicas também são as nossas águas.

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O plástico, material que está presente em muitos objetos que usamos no dia a dia, vem do petróleo.

Mas o petróleo vai acabar.

O gênio humano, porém, não esperou que a era do petróleo terminasse e encontrou substitutos perfeitos para o plástico.

Por isso, pode-se dizer que o plástico já dá em árvores e com isso deixa de ser um recurso finito, condenado a acabar, tornando-se permanente.

Já existem plásticos feitos a partir do etanol de cana-de-açúcar, que podem ser reutilizados num processo de reciclagem.

Há também polímeros biodegradáveis produzidos por bactérias alimentadas por açúcares.

As grandes petroquímicas, fabricantes de plásticos feitos a partir do petróleo, estão investindo forte nessa novidade, que vai apressar o fim do ciclo petrolífero.

O curioso é que a tecnologia para esse plástico tirado de plantas já existe desde 1998, mas ninguém se interessava.

Por essa diferença de quase dez anos é possível calcular que neste momento estão sendo descobertas soluções que só dentro mais alguns anos as indústrias perceberão que valem a pena.

Às vezes, evoluímos até sem perceber.

**

A humanidade está evoluindo, a cada descoberta, a cada nova invenção.

O ser humano tem jeito, sim!

NOTURNO – ariano suassuna / joão pessoa

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão…

Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

João Pessoa, 16 de junho de 1927

EU SOU O POETA DO CORPO – de walt whitman / long island.usa

Eu sou o poeta do Corpo
e sou o poeta da alma,
as delícias do céu
estão em mim
e os horrores do inferno
estão em mim
– o primeiro eu enxerto
e amplio ao meu redor,
o segundo eu traduzo
em nova língua.

Eu sou o poeta da mulher
tanto quanto o do homem
e digo que tanta grandeza existe
no ser mulher
quanta no ser homem,
e digo que não há nada maior
do que uma mãe de homens.

Canto o cântico da expansão e orgulho:
já temos tido o bastante
em esquivanças e súplicas,
eu mostro que tamanho
nada mais é do que desenvolvimento.

você já passou os outros,
já chegou a Presidente?
É pouco: até aí hão de chegar
e irão ainda mais longe.

Eu sou aquele que vai com a noite
tenra e crescente,
e invoco a terra e o mar
que a noite leva pela metade.
Aperte mais, noite de peito nu!
Aperte mais, noite nutriz magnética!
Noite dos ventos do sul,
noite das poucas estrelas grandes!
Noite silenciosa que me acena
– alucinada noite nua de verão!

Sorria, ó terra cheia de volúpia,
de hálito frio!
Terra das árvores líquidas e dormentes!
Terra em que o sol se põe longe,
terra dos montes cobertos de névoa!
Terra do vítreo gotejar da lua cheia
apenas tinta de azul!
Terra do brilho e sombrio encontro
nas enchentes do rio!
Terra do cinza límpido das nuvens,
por meu gosto mais claras e brilhantes!
Terra que faz a curva bem distante,
rica terra de macieiras em flor!
Sorria: o seu amante vem chegando!

Pródiga, amor você tem dado a mim:
o que eu dou a você, por tanto, é amor
– indizível e apaixonado amor!


_canto a mim mesmo_

West Hills, Long Island, 31 de Maio de 1819 – 26 de Março de 1892

VOZES DE UM TUMULO de augusto dos anjos / sapé.pb

Morri! E a Terra – a mãe comum – o brilho
Destes meus olhos apagou!… Assim
Tântalo, aos reais convivas, num festim,
Serviu as carnes do seu próprio filho!

Por que para este cemitério vim?!
Por quê?! Antes da vida o angusto trilho
Palmilhasse, do que este que palmilho
E que me assombra, porque não tem fim!

No ardor do sonho que o fronema exalta
Construí de orgulho ênea pirâmide alta…
Hoje, porém, que se desmoronou

A pirâmide real do meu orgulho,
Hoje que arenas sou matéria e entulho
Tenho consciência de que nada sou!

AUGUSTO DOS ANJOS

Sapé, Paraíba, 20 de abril de 1884 — Leopoldina, Minas Gerais, 12 de novembro de 1914

DESCOBRIMENTO – de mario de andrade / são paulo


Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

MARIO DE ANDRADE

São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945

OS HOMENS OCOS – de t. s. elliot / londres


“A penny for the Old Guy”
(Um pêni para o Velho Guy)

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

– Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

.

(tradução:  Ivan Junqueira)

NO ANO PASSADO… de mario quintana / porto alegre

No ano passado…

Já repararam como é bom dizer “o ano passado”? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem…Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse “tudo” se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:

“Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados”.

Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos…

Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição – morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.


Alegrete, 30 de julho de 1906 — Porto Alegre, 5 de maio de 1994

AS SEM RAZÕES DO AMOR – de carlos drumonnd de andrade / itabira do mato dentro.mg



Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Itabira, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987

LA FANFARLO [1] – de charles baudelaire / paris

Samuel Cramer, qui signa autrefois du nom de Manuela de Monteverde quelques folies romantiques, — dans le bon temps du Romantisme, — est le produit contradictoire d’un blême Allemand et d’une brune Chilienne. Ajoutez à cette double origine une éducation française et une civilisation littéraire, vous serez moins surpris, — sinon satisfait et édifié, — des complications bizarres de ce caractère. — Samuel a le front pur et noble, les yeux brillants comme des gouttes de café, le nez taquin et railleur, les lèvres impudentes et sensuelles, le menton carré et despote, la chevelure prétentieusement raphaélesque. — C’est à la fois un grand fainéant, un ambitieux triste, et un illustre malheureux ; car il n’a guère eu dans sa vie que des moitiés d’idées. Le soleil de la paresse qui resplendit sans cesse au-dedans de lui, lui vaporise et lui mange cette moitié de génie dont le ciel l’a doué. Parmi tous ces demi-grands hommes que j’ai connus dans cette terrible vie parisienne, Samuel fut, plus que tout autre, l’homme des belles œuvres ratées ; — créature maladive et fantastique, dont la poésie brille bien plus dans sa personne que dans ses œuvres, et qui, vers une heure du matin, entre l’éblouissement d’un feu de charbon de terre et le tic tac d’une horloge, m’est toujours apparu comme le Dieu de l’impuissance, — dieu moderne et hermaphrodite, — impuissance si colossale et si énorme qu’elle en est épique !

Comment vous mettre au fait, et vous faire voir bien clair dans cette nature ténébreuse, bariolée de vifs éclairs, — paresseuse et entreprenante à la fois, — féconde en desseins difficiles et en risibles avortements ; — esprit chez qui le paradoxe prenait souvent les proportions de la naïveté, et dont l’imagination était aussi vaste que la solitude et la paresse absolues ? — Un des travers les plus naturels de Samuel était de se considérer comme l’égal de ceux qu’il avait su admirer ; après une lecture passionnée d’un beau livre, sa conclusion involontaire était : voilà qui est assez beau pour être de moi ! — et de là à penser : c’est donc de moi, — il n’y a que l’espace d’un tiret.

Dans le monde actuel, ce genre de caractère est plus fréquent qu’on ne le pense ; les rues, les promenades publiques, les estaminets, et tous les asiles de la flânerie fourmillent d’êtres de cette espèce. Ils s’identifient si bien avec le nouveau modèle, qu’ils ne sont pas éloignés de croire qu’ils l’ont inventé. — Les voilà aujourd’hui déchiffrant péniblement les pages mystiques de Plotin ou de Porphyre ; demain ils admireront comme Crébillon le fils a bien exprimé le côté volage et français de leur caractère. Hier ils s’entretenaient familièrement avec Jérôme Cardan ; les voici maintenant jouant avec Sterne, ou se vautrant avec Rabelais dans toutes les goinfreries de l’hyperbole. Ils sont d’ailleurs si heureux dans chacune de leurs métamorphoses, qu’ils n’en veulent pas le moins du monde à tous ces beaux génies de les avoir devancés dans l’estime de la postérité. — Naïve et respectable impudence! Tel était le pauvre Samuel.

Fort honnête homme de naissance et quelque peu gredin par passe-temps, — comédien par tempérament, — il jouait pour lui-même et à huis clos d’incomparables tragédies, ou, pour mieux dire, tragi-comédies. Se sentait-il effleuré et chatouillé par la gaieté, il fallait se le bien constater, et notre homme s’exerçait à rire aux éclats. Une larme lui germait-elle dans le coin de l’œil à quelque souvenir, il allait à sa glace se regarder pleurer. Si quelque fille, dans un accès de jalousie brutale et puérile, lui faisait une égratignure avec une aiguille ou un canif, Samuel se glorifiait en lui-même d’un coup de couteau, et quand il devait quelques misérables vingt mille francs, il s’écriait joyeusement :

— Quel triste et lamentable sort que celui d’un génie harcelé par un million de dettes !

D’ailleurs, gardez-vous de croire qu’il fût incapable de connaître les sentiments vrais, et que la passion ne fît qu’effleurer son épiderme. Il eût vendu ses chemises pour un homme qu’il connaissait à peine, et qu’à l’inspection du front et de la main il avait institué hier son ami intime. Il apportait dans les choses de l’esprit et de l’âme la contemplation oisive des natures germaniques, — dans les choses de la passion l’ardeur rapide et volage de sa mère, — et dans la pratique de la vie tous les travers de la vanité française. Il se fût battu en duel pour un auteur ou un artiste mort depuis deux siècles. Comme il avait été dévot avec fureur, il était athée avec passion. Il était à la fois tous les artistes qu’il avait étudiés et tous les livres qu’il avait lus, et cependant, en dépit de cette faculté comédienne, il restait profondément original. Il était toujours le doux, le fantasque, le paresseux, le terrible, le savant, l’ignorant, le débraillé, le coquet Samuel Cramer, la romantique Manuela de Monteverde. Il raffolait d’un ami comme d’une femme, aimait une femme comme un camarade. Il possédait la logique de tous les bons sentiments et la science de toutes les roueries, et néanmoins il n’a jamais réussi à rien, parce qu’il croyait trop à l’impossible. — Quoi d’étonnant ? il était toujours en train de le concevoir.

Samuel, un soir, eut l’idée de sortir ; le temps était beau et parfumé. — Il avait, selon son goût naturel pour l’excessif, des habitudes de réclusion et de dissipation également violentes et prolongées, et depuis longtemps il était resté fidèle au logis. La paresse maternelle, la fainéantise créole qui coulait dans ses veines l’empêchait de souffrir du désordre de sa chambre, de son linge et de ses cheveux encrassés et emmêlés à l’excès. Il se peigna, se lava, sut en quelques minutes retrouver le costume et l’aplomb des gens chez qui l’élégance est chose journalière ; puis il ouvrit la fenêtre. — Un jour chaud et doré se précipita dans le cabinet poudreux. Samuel admira comme le printemps était venu vite en quelques jours, et sans crier gare. Un air tiède et imprégné de bonnes odeurs lui ouvrit les narines, — dont une partie étant montée au cerveau, le remplit de rêverie et de désir, et l’autre lui remua libertinement le cœur, l’estomac et le foie. — Il souffla résolûment ses deux bougies dont l’une palpitait encore sur un volume de Swedenborg, et l’autre s’éteignait sur un de ces livres honteux dont la lecture n’est profitable qu’aux esprits possédés d’un goût immodéré de la vérité.

Du haut de sa solitude, encombrée de paperasses, pavée de bouquins et peuplée de ses rêves, Samuel apercevait souvent, se promenant dans une allée du Luxembourg, une forme et une figure qu’il avait aimées en province, — à l’âge où l’on aime l’amour. — Ses traits, quoique mûris et engraissés par quelques années de pratique, avaient la grâce profonde et décente de l’honnête femme ; au fond de ses yeux brillait encore par intervalles la rêverie humide de la jeune fille. Elle allait et venait, habituellement escortée par une bonne assez élégante, et dont le visage et la tournure accusaient plutôt la confidente et la demoiselle de compagnie que la domestique. Elle semblait rechercher les endroits abandonnés, et s’asseyait tristement avec des attitudes de veuve, tenant parfois dans sa main distraite un livre qu’elle ne lisait pas.

Samuel l’avait connue aux environs de Lyon, jeune, alerte, folâtre et plus maigre. À force de la regarder et pour ainsi dire de la reconnaître, il avait retrouvé un à un tous les menus souvenirs qui se rattachaient à elle dans son imagination ; il s’était raconté à lui-même, détail par détail, tout ce jeune roman, qui, depuis, s’était perdu dans les préoccupations de sa vie et le dédale de ses passions.

Ce soir-là, il la salua, mais avec plus de soin et plus de regards. En passant devant elle, il entendit derrière lui ce lambeau de dialogue :

— Comment trouvez-vous ce jeune homme, Mariette ?

— Mais cela dit avec un ton de voix si distrait, que l’observateur le plus malicieux n’y eût rien trouvé à redire contre la dame.

— Mais je le trouve fort bien, madame. — Madame sait que c’est M. Samuel Cramer ?

Et sur un ton plus sévère :

— Comment se fait-il que vous sachiez cela, Mariette ?
. . . . . . . . . . . . . . . . . .

C’est pourquoi le lendemain Samuel eut grand soin de lui rapporter son mouchoir et son livre, qu’il trouva sur un banc, et qu’elle n’avait pas perdus, puisqu’elle était près de là, regardant les moineaux se disputer des miettes, ou ayant l’air de contempler le travail intérieur de la végétation. Comme il arrive souvent entre deux êtres dont les destinées complices ont élevé l’âme à un égal diapason, — engageant la conversation assez brusquement, — il eut néanmoins le bonheur bizarre de trouver une personne disposée à l’écouter et à lui répondre.

— Serais-je assez heureux, madame, pour être encore logé dans un coin de votre souvenir ? Suis-je tellement changé que vous ne puissiez reconnaître en moi un camarade d’enfance, avec qui vous avez daigné jouer à cache-cache et faire l’école buissonnière ?

— Une femme, — répondit la dame avec un demi-sourire, — n’a pas le droit de reconnaître aussi facilement les gens ; c’est pourquoi je vous remercie, monsieur, de m’avoir, le premier, offert l’occasion de me reporter vers ces beaux et gais souvenirs. — Et puis… chaque année de la vie contient tant d’événements et de pensées… et il me semble vraiment qu’il y a bien des années ?…

— Années, — répliqua Samuel, — qui pour moi ont été tantôt bien lentes, tantôt bien promptes à s’envoler, mais toutes diversement cruelles !

— Et la poésie ?… fit la dame avec un sourire dans les yeux.

— Toujours, Madame ! répondit Samuel en riant. — Mais que lisiez-vous donc là ?

— Un roman de Walter Scott.

— Je m’explique maintenant vos fréquentes interruptions. — Oh ! l’ennuyeux écrivain ! — Un poudreux déterreur de chroniques ! un fastidieux amas de descriptions de bric-à-brac, — un tas de vieilles choses et de défroques de tout genre : — des armures, des vaisselles, des meubles, des auberges gothiques et des châteaux de mélodrame, où se promènent quelques mannequins à ressort, vêtus de justaucorps et de pourpoints bariolés ; — types connus, dont nul plagiaire de dix-huit ans ne voudra plus dans dix ans ; des châtelaines impossibles et des amoureux parfaitement dénués d’actualité, — nulle vérité de cœur, nulle philosophie de sentiments ! Quelle différence chez nos bons romanciers français, où la passion et la morale l’emportent toujours sur la description matérielle des objets ! — Qu’importe que la châtelaine porte fraise ou paniers, ou sous-jupe Oudinot, pourvu qu’elle sanglote ou trahisse convenablement ? L’amoureux vous intéresse-t-il beaucoup plus pour porter dans son gilet un poignard au lieu d’une carte de visite, et un despote en habit noir vous cause-t-il une terreur moins poétique qu’un tyran bardé de buffle et de fer ?

Samuel, comme on le voit, rentrait dans la classe des gens absorbants,— des hommes insupportables et passionnés, chez qui le métier gâte la conversation, et à qui toute occasion est bonne, même une connaissance improvisée au coin d’un arbre ou d’une rue, — fût-ce d’un chiffonnier, — pour développer opiniâtrément leurs idées. — Il n’y a entre les commis voyageurs, les industriels errants, les allumeurs d’affaires en commandite et les poëtesabsorbants, que la différence de la réclame à la prédication ; le vice de ces derniers est tout à fait désintéressé.

Or, la dame lui répliqua simplement :

— Mon cher monsieur Samuel, je ne suis que public, c’est assez vous dire que mon âme est innocente. Aussi le plaisir est-il pour moi la chose du monde la plus facile à trouver. — Mais parlons de vous ; — je m’estimerais heureuse si vous me jugiez digne de lire quelques-unes de vos productions.

— Mais, madame, comment se fait-il… ? fit la grosse vanité du poëte étonné.

— Le maître de mon cabinet de lecture dit qu’il ne vous connaît pas.

Et elle sourit doucement comme pour amortir l’effet de cette taquinerie fugitive.

— Madame, dit sentencieusement Samuel, le vrai public du XIXe siècle est les femmes ; votre suffrage me constituera plus grand que vingt académies.

— Eh bien, monsieur, je compte sur votre promesse. — Mariette, l’ombrelle et l’écharpe ; on s’impatiente peut-être à la maison. Vous savez que monsieur revient de bonne heure.

Elle lui fit un salut gracieusement écourté, qui n’avait rien de compromettant, et dont la familiarité n’excluait pas la dignité.

Samuel ne s’étonna point de retrouver un ancien amour de jeunesse asservi au lien conjugal. Dans l’histoire universelle du sentiment, cela est de rigueur. — Elle s’appelait madame de Cosmelly, et demeurait dans une des rues les plus aristocratiques du faubourg Saint-Germain.

Le lendemain il la trouva, la tête inclinée par une mélancolie gracieuse et presque étudiée, vers les fleurs de la plate-bande, et il lui offrit son volume desOrfraies, recueil de sonnets, comme nous en avons tous fait et tous lu, dans le temps où nous avions le jugement si court et les cheveux si longs.

Samuel était fort curieux de savoir si ses Orfraies avaient charmé l’âme de cette belle mélancolique, et si les cris de ces vilains oiseaux lui avaient parlé en sa faveur ; mais quelques jours après elle lui dit avec une candeur et une honnêteté désespérantes :

— Monsieur, je ne suis qu’une femme, et, par conséquent, mon jugement est peu de chose ; mais il me paraît que les tristesses et les amours de messieurs les auteurs ne ressemblent guère aux tristesses et aux amours des autres hommes. Vous adressez des galanteries, fort élégantes sans doute et d’un choix fort exquis, à des dames que j’estime assez pour croire qu’elles doivent parfois s’en effaroucher. Vous chantez la beauté des mères dans un style qui doit vous priver du suffrage de leurs filles. Vous apprenez au mondeque vous raffolez du pied et de la main de madame une telle, qui, supposons-le pour son honneur, dépense moins de temps à vous lire qu’à tricoter des bas et des mitaines pour les pieds ou les mains de ses enfants. Par un contraste des plus singuliers, et dont la cause mystérieuse m’est encore inconnue, vous réservez votre encens le plus mystique à des créatures bizarres qui lisent encore moins que les dames, et vous vous pâmez platoniquement devant des sultanes de bas lieu, qui doivent, ce me semble, à l’aspect de la délicate personne d’un poëte, ouvrir des yeux aussi grands que des bestiaux qui se réveillent dans un incendie. De plus, j’ignore pourquoi vous chérissez tant les sujets funèbres et les descriptions d’anatomie. Quand on est jeune, qu’on a comme vous un beau talent et toutes les conditions présumées du bonheur, il me paraît bien plus naturel de célébrer la santé et les joies de l’honnête homme, que de s’exercer à l’anathème, et de causer avec des Orfraies.

Voici ce qu’il lui répondit :

— Madame, plaignez-moi, ou plutôt plaignez-nous, car j’ai beaucoup de frères de ma sorte ; c’est la haine de tous et de nous-mêmes qui nous a conduits vers ces mensonges. C’est par désespoir de ne pouvoir être nobles et beaux suivant les moyens naturels, que nous nous sommes si bizarrement fardé le visage. Nous nous sommes tellement appliqués à sophistiquer notre cœur, nous avons tant abusé du microscope pour étudier les hideuses excroissances et les honteuses verrues dont il est couvert, et que nous grossissons à plaisir, qu’il est impossible que nous parlions le langage des autres hommes. Ils vivent pour vivre, et nous, hélas ! nous vivons pour savoir. Tout le mystère est là. L’âge ne change que la voix et n’abolit que les cheveux et les dents ; nous avons altéré l’accent de la nature, nous avons extirpé une à une les pudeurs virginales dont était hérissé notre intérieur d’honnête homme. Nous avons psychologisé comme les fous, qui augmentent leur folie en s’efforçant de la comprendre. Les années n’infirment que les membres, et nous avons déformé les passions. Malheur, trois fois malheur aux pères infirmes qui nous ont faits rachitiques et mal venus, prédestinés que nous sommes à n’enfanter que des mort-nés !

— Encore des Orfraies ! dit-elle ; voyons, donnez-moi votre bras et admirons ces pauvres fleurs que le printemps rend si heureuses !

Au lieu d’admirer les fleurs, Samuel Cramer, à qui la phrase et la période étaient venues, commença à mettre en prose et à déclamer quelques mauvaises stances composées dans sa première manière. La dame le laissait faire.

— Quelle différence, et combien il reste peu du même homme, excepté le souvenir ! mais le souvenir n’est qu’une souffrance nouvelle. Le beau temps que celui où le matin ne réveilla jamais nos genoux engourdis ou rompus par la fatigue des songes, où nos yeux clairs riaient à toute la nature, où notre âme ne raisonnait pas, mais où elle vivait et jouissait ; où nos soupirs s’écoulaient doucement sans bruit et sans orgueil ! que de fois, dans les loisirs de l’imagination, j’ai revu l’une de ces belles soirées automnales où les jeunes âmes font des progrès comparables à ces arbres qui poussent de plusieurs coudées par un coup de foudre. Alors je vois, je sens, j’entends ; la lune réveille les gros papillons ; le vent chaud ouvre les belles-de-nuit ; l’eau des grands bassins s’endort. — Écoutez en esprit les valses subites de ce piano mystérieux. Les parfums de l’orage entrent par les fenêtres ; c’est l’heure où les jardins sont pleins de robes roses et blanches qui ne craignent pas de se mouiller. Les buissons complaisants accrochent les jupes fuyantes, les cheveux bruns et les boucles blondes se mêlent en tourbillonnant ! — Vous souvient-il encore, madame, des énormes meules de foin, si rapides à descendre, de la vieille nourrice si lente à vous poursuivre, et de la cloche si prompte à vous rappeler sous l’œil de votre tante, dans la grande salle à manger ?

Madame de Cosmelly interrompit Samuel par un soupir, voulut ouvrir la bouche, sans doute pour le prier de s’arrêter, mais il avait déjà repris la parole.

— Ce qu’il y a de plus désolant, dit-il, c’est que tout amour fait toujours une mauvaise fin, d’autant plus mauvaise qu’il était plus divin, plus ailé à son commencement. Il n’est pas de rêve, quelque idéal qu’il soit, qu’on ne retrouve avec un poupard glouton suspendu au sein ; il n’est pas de retraite, de maisonnette si délicieuse et si ignorée, que la pioche ne vienne abattre. Encore cette destruction est-elle toute matérielle ; mais il en est une autre plus impitoyable et plus secrète qui s’attaque aux choses invisibles. Figurez-vous qu’au moment où vous vous appuyez sur l’être de votre choix, et que vous lui dites : Envolons-nous ensemble et cherchons le fond du ciel ! — une voix implacable et sérieuse penche à votre oreille pour vous dire que nos passions sont des menteuses, que c’est notre myopie qui fait les beaux visages et notre ignorance les belles âmes, et qu’il vient nécessairement un jour où l’idole, pour le regard plus clairvoyant, n’est plus qu’un objet, non pas de haine, mais de mépris et d’étonnement !

— De grâce, monsieur, dit madame de Cosmelly.

Elle était em même temps émue ; Samuel s’était aperçu qu’il avait mis le fer sur une ancienne plaie, et il insistait avec cruauté.

— Madame, dit-il, les souffrances salutaires du souvenir ont leurs charmes, et, dans cet enivrement de la douleur, on trouve parfois un soulagement. — À ce funèbre avertissement, toutes les âmes loyales s’écrieraient : « Seigneur, enlevez-moi d’ici avec mon rêve intact et pur : je veux rendre à la nature ma passion avec toute sa virginité, et porter ailleurs ma couronne inflétrie. » — D’ailleurs les résultats du désillusionnement sont terribles. — Les enfants maladifs qui sortent d’un amour mourant sont la triste débauche et la hideuse impuissance : la débauche de l’esprit, l’impuissance du cœur, qui font que l’un ne vit plus que par curiosité, et que l’autre se meurt chaque jour de lassitude. Nous ressemblons tous plus ou moins à un voyageur qui aurait parcouru un très-grand pays, et regarderait chaque soir le soleil, qui jadis dorait superbement les agréments de la route, se coucher dans un horizon plat. Il s’assied avec résignation sur de sales collines couvertes de débris inconnus, et dit aux senteurs de bruyères qu’elles ont beau monter vers le ciel vide ; aux graines rares et malheureuses, qu’elles ont beau germer dans un sol desséché ; aux oiseaux qui croient leurs mariages bénis par quelqu’un, qu’ils ont tort de bâtir des nids dans une contrée balayée de vents froids et violents. Il reprend tristement sa route vers un désert qu’il sait semblable à celui qu’il vient de parcourir, escorté par un pâle fantôme qu’on nomme Raison, qui éclaire avec une pâle lanterne l’aridité de son chemin, et, pour étancher la soif renaissante de passion qui le prend de temps en temps, lui verse le poison de l’ennui.

Tout d’un coup, entendant un profond soupir et un sanglot mal comprimé, il se retourna vers madame de Cosmelly ; elle pleurait abondamment et n’avait même plus la force de cacher ses larmes.

Il la considéra quelque temps en silence, avec l’air le plus attendri et le plus onctueux qu’il put se donner ; le brutal et hypocrite comédien était fier de ces belles larmes ; il les considérait comme son œuvre et sa propriété littéraire. Il se méprenait sur le sens intime de cette douleur, comme madame de Cosmelly, noyée dans cette candide désolation, se méprenait sur l’intention de son regard. Il y eut là un jeu singulier de malentendus, à la suite duquel Samuel Cramer lui tendit définitivement une double poignée de main, qu’elle accepta avec une tendre confiance.

— Madame, reprit Samuel après quelques instants de silence, — le silence classique de l’émotion, — la vraie sagesse consiste moins à maudire qu’à espérer. Sans le don tout divin de l’espérance, comment pourrions-nous traverser ce hideux désert de l’ennui que je viens de vous décrire ? Le fantôme qui nous accompagne est vraiment un fantôme de raison : on peut le chasser en l’aspergeant avec l’eau bénite de la première vertu théologale. Il y a une aimable philosophie qui sait trouver des consolations dans les objets les plus indignes en apparence. De même que la vertu vaut mieux que l’innocence, et qu’il y a plus de mérite à ensemencer un désert qu’à butiner avec insouciance dans un verger fructueux, de même il est vraiment digne d’une âme d’élite de se purifier et de purifier le prochain par son contact. Comme il n’est pas de trahison qu’on ne pardonne, il n’est pas de faute dont on ne puisse se faire absoudre, pas d’oubli qu’on ne puisse combler ; il est une science d’aimer son prochain et de le trouver aimable, comme il est un savoir bien vivre.

Plus un esprit est délicat, plus il découvre de beautés originales ; plus une âme est tendre et ouverte à la divine espérance, plus elle trouve dans autrui, quelque souillé qu’il soit, de motifs d’amour ; ceci est l’œuvre de la charité, et l’on a vu plus d’une voyageuse désolée et perdue dans les déserts arides du désillusionnement, reconquérir la foi et s’éprendre plus fortement de ce qu’elle avait perdu, avec d’autant plus de raison qu’elle possède alors la science de diriger sa passion et celle de la personne aimée.

Le visage de madame de Cosmelly s’était éclairé peu à peu ; sa tristesse rayonnait d’espérance comme un soleil mouillé, et à peine Samuel eut-il fini son discours, qu’elle lui dit vivement et avec l’ardeur naïve d’un enfant :

— Est-il bien vrai, monsieur, que cela soit possible, et y a-t-il pour les désespérés des branches aussi faciles à saisir ?

— Mais certainement, madame.

— Ah ! que vous me rendriez bien la plus heureuse des femmes, si vous daigniez m’enseigner vos recettes !

— Rien de plus facile, répliqua-t-il brutalement ?

Au milieu de ce marivaudage sentimental, la confiance était venue et avait en effet uni les mains des deux personnages ; si bien qu’après quelques hésitations et quelques pruderies qui semblèrent de bon augure à Samuel, madame de Cosmelly à son tour lui fit ses confidences et commença ainsi :

— Je comprends, monsieur, tout ce qu’une âme poétique peut souffrir de cet isolement, et combien une ambition de cœur comme la vôtre doit se vite consumer dans sa solitude ; mais vos douleurs, qui n’ appartiennent qu’à vous, viennent, autant que j’ai pu le démêler sous la pompe de vos paroles, de besoins bizarres toujours insatisfaits et presque impossibles à satisfaire. Vous souffrez, il est vrai ; mais il se peut que votre souffrance fasse votre grandeur et qu’elle vous soit aussi nécessaire qu’à d’autres le bonheur. — Maintenant, daignerez-vous écouter, et sympathiser avec des chagrins plus faciles à comprendre, — une douleur de province ? J’attends de vous, monsieur Cramer, de vous, le savant, l’homme d’esprit, les conseils et peut-être les secours d’un ami.

Vous savez qu’au temps où vous m’avez connue, j’étais une bonne petite fille, un peu rêveuse déjà comme vous, mais timide et fort obéissante ; que je me regardais moins souvent que vous dans la glace, et que j’hésitais toujours à manger ou à mettre dans mes poches les pêches et le raisin que vous alliez hardiment voler pour moi dans le verger de nos voisins. Je ne trouvais jamais un plaisir vraiment agréable et complet qu’autant qu’il fût permis, et j’aimais bien mieux embrasser un beau garçon comme vous devant ma vieille tante qu’au milieu des champs. La coquetterie et le soin que toute fille à marier doit avoir de sa personne ne me sont venus que tard. Quand j’ai su à peu près chanter une romance au piano, on m’a habillée avec plus de recherche, on m’a forcée à me tenir droite ; on m’a fait faire de la gymnastique, et l’on m’a défendu de gâter mes mains à planter des fleurs ou à élever des oiseaux. Il me fut permis de lire autre chose que Berquin, et je fus menée en grande toilette au théâtre de l’endroit voir de mauvais opéras. Quand M. de Cosmelly vint au château, je me pris tout d’abord pour lui d’une amitié vive ; comparant sa jeunesse florissante avec la vieillesse un peu grondeuse de ma tante, je lui trouvai de plus l’air noble, honnête, et il usait avec moi de la galanterie la plus respectueuse. Puis on citait de lui les traits les plus beaux : un bras cassé en duel pour un ami un peu poltron qui lui avait confié l’honneur de sa sœur, des sommes énormes prêtées à d’anciens camarades sans fortune ; que sais-je, moi ? il avait avec tout le monde un air de commandement à la fois affable et irrésistible, qui me dompta moi-même. Comment avait-il vécu avant de mener auprès de nous la vie de château ; avait-il connu d’autres plaisirs que de chasser avec moi ou de chanter de vertueuses romances sur mon mauvais piano ; avait-il eu des maîtresses ? Je n’en savais rien, et je ne songeais pas à m’en informer. Je me mis à l’aimer avec toute la crédulité d’une jeune fille qui n’a pas eu le temps de comparer, et je l’épousai, — ce qui fit à ma tante le plus grand plaisir. Quand je fus sa femme devant la religion et devant la loi, je l’aimai encore plus. — Je l’aimai beaucoup trop, sans doute. Avais-je tort, avais-je raison ? qui peut le savoir ? J’ai été heureuse de cet amour, j’ai eu tort d’ignorer qu’il pût être troublé. — Le connaissais-je bien avant de l’épouser ? Non, sans doute ; mais il semble qu’on ne peut pas plus accuser une honnêtefille qui veut se marier de faire un choix imprudent, qu’une femme perdue de prendre un amant ignoble. L’une et l’autre, — malheureuses que nous sommes ! — sont également ignorantes. Il manque à ces malheureuses victimes, qu’on nomme filles à marier, une honteuse éducation, je veux dire la connaissance des vices d’un homme. Je voudrais que chacune de ces pauvres petites, avant de subir le lien conjugal, pût entendre dans un lieu secret, et sans être vue, deux hommes causer entre eux des choses de la vie, et surtout des femmes. Après cette première et redoutable épreuve, elles pourraient se livrer avec moins de danger aux chances terribles du mariage, connaissant le fort et le faible de leurs futurs tyrans.

Samuel ne savait pas au juste où cette charmante victime en voulait venir ; mais il commençait à trouver qu’elle parlait beaucoup trop de son mari pour une femme désillusionnée.

Après avoir fait une pause de quelques minutes, comme si elle craignait d’aborder l’endroit funeste, elle reprit ainsi :

— Un jour, M. de Cosmelly voulut revenir à Paris ; il fallait que je brillasse dans mon jour et que je fusse encadrée selon mes mérites. Une femme belle et instruite, disait-il, se doit à Paris. Il faut qu’elle sache poser devant le monde et faire tomber quelques-uns de ses rayons sur son mari. — Une femme qui a l’esprit noble et du bon sens sait qu’elle n’a de gloire à attendre ici-bas qu’autant qu’elle fait une partie de la gloire de son compagnon de voyage, qu’elle sert les vertus de son mari, et surtout qu’elle n’obtient de respect qu’autant qu’elle le fait respecter. — Sans doute, c’était le moyen le plus simple et le plus sûr pour se faire obéir presque avec joie ; savoir que mes efforts et mon obéissance m’embelliraient à ses yeux, à coup sûr, il n’en fallait pas tant pour me décider à aborder ce terrible Paris, dont j’avais instinctivement peur, et dont le noir et éblouissant fantôme dressé à l’horizon de mes rêves faisait se serrer mon pauvre cœur de fiancée. — C’était donc là, à l’entendre, le vrai motif de notre voyage. La vanité d’un mari fait la vertu d’une femme amoureuse. Peut-être se mentait-il à lui-même avec une sorte de bonne foi, et rusait-il avec sa conscience sans trop s’en apercevoir. — À Paris, nous eûmes des jours réservés pour des intimes, dont M. de Cosmelly s’ennuya à la longue, comme il s’était ennuyé de sa femme. Peut-être s’était-il un peu dégoûté d’elle, parce qu’elle avait trop d’amour ; elle mettait tout son cœur en avant. Il se dégoûta de ses amis par la raison contraire. Ils n’avaient rien à lui offrir que les plaisirs monotones des conversations où la passion n’a aucune part. Dès lors, son activité prit une autre direction. Après les amis vinrent les chevaux et le jeu. Le bourdonnement du monde, la vue de ceux qui étaient restés sans entraves et qui lui racontaient sans cesse les souvenirs d’une jeunesse folle et occupée, l’arrachèrent au coin du feu et aux longues causeries. Lui, qui n’avait jamais eu d’autre affaire que son cœur, il eut des affaires. Riche et sans profession, il sut se créer une foule d’occupations remuantes et frivoles qui remplissaient tout son temps ; les questions conjugales : « — Où vas-tu ? — À quelle heure te reverra-t-on ? — Reviens vite, » il fallut les refouler au fond de ma poitrine ; car la vie anglaise, — cette mort du cœur, — la vie des clubs et des cercles, l’absorba tout entier. — Le soin exclusif de sa personne et le dandysme qu’il affecta me choquèrent tout d’abord ; il est évident que je n’en étais pas l’objet. Je voulus faire comme lui, être plus que belle, c’est-à-dire coquette, coquette pour lui, comme il l’était pour le monde ; autrefois j’offrais tout, je donnais tout, je voulus désormais me faire prier. Je voulais ranimer les cendres de mon bonheur éteint, en les agitant et en les retournant ; mais il paraît que je suis bien malhabile à la ruse et bien gauche au vice ; il ne daigna pas s’en apercevoir. — Ma tante, cruelle comme toutes les femmes vieilles et envieuses, qui sont réduites à admirer un spectacle où jadis elles furent actrices, et à contempler les jouissances qu’on leur refuse, eut grand soin de me faire savoir, par l’entremise intéressée d’un cousin de M. de Cosmelly, qu’il s’était épris d’une fille de théâtre fort en vogue. Je me fis conduire dans tous les spectacles, et toute femme un peu belle que je voyais entrer en scène, je tremblais d’admirer en elle ma rivale. Enfin j’appris, par une charité du même cousin, que c’était la Fanfarlo, une danseuse aussi bête que belle, — Vous qui êtes auteur, vous la connaissez sans doute. — Je ne suis pas très-vaniteuse ni très-fière de ma figure ; mais, je vous jure, monsieur Cramer, que maintes fois, la nuit, vers trois ou quatre heures du matin, fatiguée d’attendre mon mari, les yeux rouges de larmes et d’insomnies, après avoir fait de longues et suppliantes prières pour son retour à la fidélité et au devoir, j’ai demandé à Dieu, à ma conscience, à mon miroir, si j’étais aussi belle que cette misérable Fanfarlo. Mon miroir et ma conscience m’ont répondu : Oui. Dieu m’a défendu de m’en glorifier, mais non d’en tirer une légitime victoire. Pourquoi donc entre deux beautés égales, les hommes préfèrent-ils souvent la fleur que tout le monde a respirée, à celle qui s’est toujours gardée des passants dans les allées les plus obscures du jardin conjugal ? Pourquoi donc les femmes prodigues de leur corps, trésor dont un seul sultan doit avoir la clef, possèdent-elles plus d’adorateurs que nous autres, malheureuses martyres d’un amour unique ? De quel charme si magique le vice auréole-t-il certaines créatures ? Quel aspect gauche et repoussant leur vertu donne-t-elle à certaines autres ? Répondez donc, vous qui, par état, devez connaître tous les sentiments de la vie et leurs raisons diverses !

Samuel n’eut pas le temps de répondre, car elle continua ardemment :

— M. de Cosmelly a des choses bien graves sur la conscience, si la perte d’une âme jeune et vierge intéresse le Dieu qui la créa pour le bonheur d’une autre. Si M. de Cosmelly mourait ce soir même, il aurait bien des pardons à implorer ; car il a, par sa faute, enseigné à sa femme d’affreux sentiments, la haine, la défiance de l’objet aimé et la soif de la vengeance. — Ah ! monsieur, je passe des nuits bien douloureuses, des insomnies bien inquiètes ; je prie, je maudis, je blasphème. Le prêtre me dit qu’il faut porter sa croix avec résignation ; mais l’amour en démence, mais la foi ébranlée, ne savent pas se résigner. Mon confesseur n’est pas une femme, et j’aime mon mari ; je l’aime, monsieur, avec toute la passion et toute la douleur d’une maîtresse battue et foulée aux pieds. Il n’est rien que je n’aie tenté. Au lieu des toilettes sombres et simples auxquelles son regard se plaisait autrefois, j’ai porté des toilettes folles et somptueuses comme les femmes de théâtre. Moi, la chaste épouse qu’il était allé chercher au fond d’un pauvre château, j’ai paradé devant lui avec des robes de fille ; je me suis faite spirituelle et enjouée quand j’avais la mort dans le cœur. J’ai pailleté mon désespoir avec des sourires étincelants. Hélas ! il n’a rien vu. J’ai mis du rouge, monsieur, j’ai mis du rouge ! — Vous le voyez, c’est une histoire banale, l’histoire de toutes les malheureuses — un roman de province !

Pendant qu’elle sanglotait, Samuel faisait la figure de Tartufe empoigné par Orgon, l’époux inattendu, qui s’élance du fond de sa cachette, comme les vertueux sanglots de cette dame qui s’élançaient de son cœur, et venaient saisir au collet l’hypocrisie chancelante de notre poëte.

L’abandon extrême, la liberté et la confiance de madame de Cosmelly l’avaient prodigieusement enhardi, — sans l’étonner. Samuel Cramer, qui a souvent étonné le monde, ne s’étonnait guère. Il semblait dans sa vie vouloir mettre en pratique et démontrer la vérité de cette pensée de Diderot : « L’incrédulité est quelquefois le vice d’un sot, et la crédulité le défaut d’un homme d’esprit. L’homme d’esprit voit loin dans l’immensité des possibles. Le sot ne voit guère de possible que ce qui est. C’est là peut-être ce qui rend l’un pusillanime et l’autre téméraire. » Ceci répond à tout. Quelques lecteurs scrupuleux et amoureux de la vérité vraisemblable trouveront sans doute beaucoup à redire à cette histoire, où pourtant je n’ai eu d’autre besogne à faire que de changer les noms et d’accentuer les détails ; comment, diront-ils, Samuel, un poëte de mauvais ton et de mauvaises mœurs, peut-il aborder aussi prestement une femme comme madame de Cosmelly ? lui verser, à propos d’un roman de Scott, un torrent de poésie romantique et banale ? madame de Cosmelly, la discrète et vertueuse épouse, lui verser aussi promptement, sans pudeur et sans défiance, le secret de ses chagrins ? À quoi je réponds que madame de Cosmelly était simple comme une belle âme, et que Samuel était hardi comme les papillons, les hannetons et les poëtes ; il se jetait dans toutes les flammes et entrait par toutes les fenêtres. La pensée de Diderot explique pourquoi l’une fut si abandonnée, l’autre si brusque et si impudent. Elle explique aussi toutes les bévues que Samuel a commises dans sa vie, bévues qu’un sot n’eût pas commises. Cette portion du public qui est essentiellement pusillanime ne comprendra guère le personnage de Samuel, qui était essentiellement crédule et imaginatif, au point qu’il croyait, comme poëte, à son public, — comme homme, à ses propres passions.

Dès lors il s’aperçut que cette femme était plus forte, plus escarpée qu’elle n’en avait l’air, et qu’il ne fallait pas heurter de front cette piété candide. Il lui défila de nouveau son jargon romantique. Honteux d’avoir été bête, il voulut être roué ; il lui parla quelque temps encore en patois séminariste de blessures à fermer ou à cautériser par l’ouverture de nouvelles plaies saignant largement et sans douleur. Quiconque a voulu, sans avoir en lui la force absolutrice de Valmont ou de Lovelace, posséder une honnête femme qui ne s’en souciait guère, sait avec quelle risible et emphatique gaucherie chacun dit en montrant son cœur : prenez mon ours ; — cela me dispensera donc de vous expliquer combien Samuel fut bête. — Madame de Cosmelly, cette aimable Elmire qui avait le coup d’œil clair et prudent de la vertu, vit promptement le parti qu’elle pouvait tirer de ce scélérat novice, pour son bonheur et pour l’honneur de son mari. Elle le paya donc de la même monnaie ; elle se laissa presser les mains ; on parla d’amitié et de choses platoniques. Elle murmura le mot de vengeance ; elle dit que, dans ces douloureuses crises de la vie d’une femme, on donnerait volontiers à son vengeur le reste du cœur que le perfide a bien voulu vous laisser, — et autres niaiseries et marivaudages dramatiques. Bref, elle fit de la coquetterie pour le bon motif, et notre jeune roué, qui était plus nigaud qu’un savant, promit d’arracher la Fanfarlo à M. de Cosmelly, et de le débarrasser de la courtisane, — espérant trouver dans les bras de l’honnête femme la récompense de cette œuvre méritoire. — Il n’y a que les poëtes qui soient assez candides pour inventer de pareilles monstruosités.

Un détail assez comique de cette histoire, et qui fut comme un intermède dans le drame douloureux qui allait se jouer entre ces quatre personnages, fut le quiproquo des sonnets de Samuel ; car, à l’endroit des sonnets, il était incorrigible, — l’un pour madame de Cosmelly, où il louait en style mystique sa beauté de Béatrix, sa voix, la pureté angélique de ses yeux, la chasteté de sa démarche, etc.… l’autre pour la Fanfarlo, où il lui servait un ragoût de galanteries pimentées à faire venir le sang au palais le moins novice, genre de poésie, du reste, où il excellait, et où il avait de bonne heure bien dépassé toutes les andalouseries possibles. Le premier morceau arriva chez la créature qui jeta ce plat de concombres dans la boîte aux cigares ; le second, chez la pauvre délaissée, qui ouvrit d’abord de grands yeux, finit par comprendre, et, malgré ses douleurs, ne put s’empêcher de rire aux éclats, comme en de meilleurs temps.

Samuel alla au théâtre et se mit à étudier la Fanfarlo sur les planches. Il la trouva légère, magnifique, vigoureuse, pleine de goût dans ses accoutrements, et jugea M. de Cosmelly bien heureux de pouvoir se ruiner pour un pareil morceau.

Il se présenta deux fois chez elle, — une maisonnette à l’escalier velouté, pleine de portières et de tapis, dans un quartier neuf et verdoyant ; mais il ne pouvait s’y introduire sous aucun prétexte raisonnable. Une déclaration d’amour était chose profondément inutile et même dangereuse. Un échec lui aurait interdit d’y retourner. Quant à s’y faire présenter, il apprit que la Fanfarlo ne recevait personne. Quelques intimes la voyaient de temps à autre. Que venait-il dire ou faire chez une danseuse magnifiquement appointée et entretenue, et adorée de son amant ? que venait-il lui apporter, lui qui n’était ni tailleur, ni couturière, ni maître de ballets, ni millionnaire ? — Il prit donc un parti simple et brutal ; il fallait que la Fanfarlo vînt à lui. À cette époque, les articles d’éloges et de critiques avaient beaucoup plus de valeur que maintenant. Les facilités du feuilleton, comme disait récemment un brave avocat dans un procès tristement célèbre, étaient bien plus grandes qu’aujourd’hui ; quelques talents ayant parfois capitulé avec les journalistes, l’insolence de cette jeunesse étourdie et aventureuse ne connut plus de bornes. Samuel entreprit donc, — lui qui ne savait pas un mot de musique, la spécialité des théâtres lyriques.

Dès lors la Fanfarlo fut hebdomadairement éreintée au bas d’une feuille importante. On ne pouvait pas dire ni faire soupçonner même qu’elle eût la jambe, la cheville ou le genou mal tourné ; les muscles jouaient sous le bas, et toutes les lorgnettes eussent crié au blasphème. Elle fut accusée d’être brutale, commune, dénuée de goût, de vouloir importer sur le théâtre des habitudes d’outre-Rhin et d’outre-Pyrénées, des castagnettes, des éperons, des talons de bottes, — sans compter qu’elle buvait comme un grenadier, qu’elle aimait trop les petits chiens et la fille de sa portière, — et autres linges sales de la vie privée, qui sont la pâture et la friandise journalière de certains petits journaux. On lui opposait, avec cette tactique particulière aux journalistes, qui consiste à comparer des choses dissemblables, une danseuse éthérée, toujours habillée de blanc, et dont les chastes mouvements laissaient toutes les consciences en repos. Quelquefois la Fanfarlo criait et riait très-haut vers le parterre en achevant un bond sur la rampe ; elle osait marcher en dansant. Jamais elle ne portait de ces insipides robes de gaze qui laissent tout voir et ne font rien deviner. Elle aimait les étoffes qui font du bruit, les jupes longues, craquantes, pailletées, ferblantées, qu’il faut soulever très-haut d’un genou vigoureux, les corsages de saltimbanque ; elle dansait, non pas avec des boucles, mais avec des pendants d’oreilles, j’oserais presque dire des lustres. Elle eût volontiers attaché au bas de ses jupes une foule de petites poupées bizarres, comme le font les vieilles bohémiennes qui vous disent la bonne aventure d’une manière menaçante, et qu’on rencontre en plein midi sous les arceaux des ruines romaines ; toutes drôleries, du reste, dont le romantique Samuel, l’un des derniers romantiques que possède la France, raffolait fort.

Si bien qu’après avoir dénigré pendant trois mois la Fanfarlo, il en devint éperdument amoureux, et qu’elle voulut enfin savoir quel était le monstre, le cœur d’airain, le cuistre, le pauvre esprit qui niait si opiniâtrément la royauté de son génie.

Il faut rendre cette justice à la Fanfarlo, qu’il n’y eut chez elle qu’un mouvement de curiosité, rien de plus. Un pareil homme avait-il réellement le nez au milieu du visage et était-il tout à fait conformé comme le reste de ses semblables ? Quand elle eut pris une ou deux informations sur Samuel Cramer, qu’elle eut appris que c’était un homme comme un autre, de quelque sens et de quelque talent, elle comprit vaguement qu’il y avait là quelque chose à deviner, et que ce terrible article du lundi pouvait fort bien n’être qu’une sorte particulière de bouquet hebdomadaire ou la carte de visite d’un opiniâtre solliciteur.

Il la trouva un soir dans sa loge. Deux vastes flambeaux et un large feu faisaient trembler leurs lumières sur les costumes bariolés qui traînaient dans ce boudoir.

La reine du lieu, au moment de quitter le théâtre, reprenait une toilette de simple mortelle, et, accroupie sur une chaise, chaussait sans pudeur sa jambe adorable ; ses mains, grassement effilées, faisaient se jouer à travers les œillets le lacet du brodequin comme une navette agile, sans songer au jupon qu’il fallait rabattre. Cette jambe était déjà, pour Samuel, l’objet d’un éternel désir. Longue, fine, forte, grasse et nerveuse à la fois, elle avait toute la correction du beau et tout l’attrait libertin du joli. Tranchée perpendiculairement à l’endroit le plus large, cette jambe eût donné une espèce de triangle dont le sommet eût été situé sur le tibia, et dont la ligne arrondie du mollet eût fourni la base convexe. Une vraie jambe d’homme est trop dure, les jambes de femmes crayonnées par Devéria sont trop molles pour en donner une idée.

Dans cette agréable attitude, sa tête, inclinée vers son pied, étalait un cou de proconsul, large et fort, et laissait deviner l’ornière des omoplates, revêtues d’une chair brune et abondante. Les cheveux lourds et serrés retombaient en avant des deux côtés, lui chatouillaient le sein et lui bouchaient les yeux, de sorte qu’à chaque instant il fallait les déranger et les rejeter en arrière. Une impatience mutine et charmante, comme d’un enfant gâté qui trouve que cela ne va pas assez vite, remuait toute la créature et ses vêtements, et découvrait à chaque instant de nouveaux points de vue, de nouveaux effets de lignes et de couleur.

Samuel s’arrêta avec respect, — ou feignit de s’ arrêter avec respect ; car, avec ce diable d’homme, le grand problème est toujours de savoir où le comédien commence.

— Ah ! vous voilà, monsieur ! lui dit-elle sans se déranger, quoiqu’elle eût été prévenue quelques minutes auparavant de la visite de Samuel. — Vous avez quelque chose à me demander, n’est-ce pas ?

L’impudence sublime de cette parole alla droit au cœur du pauvre Samuel ; il avait bavardé comme une pie romantique pendant huit jours auprès de madame de Cosmelly ; ici, il répondit tranquillement :

— Oui, Madame.

Et les larmes lui vinrent aux yeux.

Cela eut un succès énorme ; la Fanfarlo sourit.

— Mais quel insecte vous a donc piqué, monsieur, pour me mordre à si belles dents ? Quel affreux métier…

— Affreux, en effet, madame… c’est que je vous adore.

— Je m’en doutais, répliqua la Fanfarlo. Mais vous êtes un monstre ; cette tactique est abominable. — Pauvres filles que nous sommes ! ajouta-t-elle en riant. — Flore, mon bracelet. — Donnez-moi le bras jusqu’à ma voiture, et dites-moi si vous m’avez trouvée bien ce soir ?

Ils allèrent ainsi, bras dessus, bras dessous, comme deux vieux amis ; Samuel aimait, ou du moins sentait son cœur battre fort. — Il fut peut-être singulier, mais à coup sûr cette fois il ne fut pas ridicule.

Dans sa joie, il avait presque oublié de prévenir madame de Cosmelly de son succès, et de porter un espoir à son foyer désert.

Quelques jours après, la Fanfarlo jouait le rôle de Colombine dans une vaste pantomime faite pour elle par des gens d’esprit. Elle y paraissait par une agréable succession de métamorphoses sous les personnages de Colombine, de Marguerite, d’Élvire et de Zéphirine, et recevait, le plus gaiement du monde, les baisers de plusieurs générations de personnages empruntés à divers pays et diverses littératures. Un grand musicien n’avait pas dédaigné de faire une partition fantastique et appropriée à la bizarrerie du sujet. La Fanfarlo fut tour à tour décente, féerique, folle, enjouée ; elle fut sublime dans son art, autant comédienne par les jambes que danseuse par les yeux.

Chez nous, l’on méprise trop l’art de la danse, cela soit dit en passant. Tous les grands peuples, d’abord ceux du monde antique, ceux de l’Inde et de l’Arabie, l’ont cultivée à l’égal de la poésie. La danse est autant au-dessus de la musique, pour certaines organisations païennes toutefois, que le visible et le créé sont au-dessus de l’invisible et de l’incréé. — Ceux-là seuls peuvent me comprendre à qui la musique donne des idées de peinture. — La danse peut révéler tout ce que la musique recèle de mystérieux, et elle a de plus le mérite d’être humaine et palpable. La danse, c’est la poésie avec des bras et des jambes, c’est la matière, gracieuse et terrible, animée, embellie par lemouvement. — Terpsichore est une Muse du midi ; je présume qu’elle était très-brune, et qu’elle a souvent agité ses pieds dans les blés dorés ; ses mouvements, pleins d’une cadence précise, sont autant de divins motifs pour la statuaire. Mais Fanfarlo la catholique, non contente de rivaliser avec Terpsichore, appela à son secours tout l’art des divinités plus modernes. Les brouillards mêlent des formes de fées et d’ondines moins vaporeuses et moins nonchalantes. Elle fut à la fois un caprice de Shakspeare et une bouffonnerie italienne.

Le poëte était ravi ; il crut avoir devant les yeux le rêve de ses jours les plus anciens. Il eût volontiers gambadé dans sa loge d’une manière ridicule, et se fût cassé la tête contre quelque chose, dans l’ivresse folle qui le dominait.

Une calèche basse et bien fermée emportait rapidement le poëte et la danseuse vers la maisonnette dont j’ai parlé.

Notre homme exprimait son admiration par des baisers muets qu’il lui appliquait avec ferveur sur les pieds et les mains. — Elle aussi l’admirait fort, non pas qu’elle ignorât le pouvoir de ses charmes, mais jamais elle n’avait vu d’homme si bizarre ni de passion si électrique.

Le temps était noir comme la tombe, et le vent qui berçait des monceaux de nuages faisait de leurs cahotements ruisseler une averse de grêle et de pluie. Une grande tempête faisait trembler les mansardes et gémir les clochers ; le ruisseau, lit funèbre où s’en vont les billets doux et les orgies de la veille, charriait en bouillonnant ses mille secrets aux égouts ; la mortalité s’abattait joyeusement sur les hôpitaux, et les Chatterton et les Savage de la rue Saint-Jacques crispaient leurs doigts gelés sur leurs écritoires, — quand l’homme le plus faux, le plus égoïste, le plus sensuel, le plus gourmand, le plus spirituel de nos amis arriva devant un beau souper et une bonne table, en compagnie d’une des plus belles femmes que la nature ait formées pour le plaisir des yeux. Samuel voulut ouvrir la fenêtre pour jeter un coup d’œil de vainqueur sur la ville maudite ; puis abaissant son regard sur les diverses félicités qu’il avait à côté de lui, il se hâta d’en jouir.

En compagnie de pareilles choses, il devait être éloquent : aussi, malgré son front trop haut, ses cheveux en forêt vierge et son nez de priseur, la Fanfarlo le trouva presque bien.

Samuel et la Fanfarlo avaient exactement les mêmes idées sur la cuisine et le système d’alimentation nécessaire aux créatures d’élite. Les viandes niaises, les poissons fades étaient exclus des soupers de cette sirène. Le champagne déshonorait rarement sa table. Les bordeaux les plus célèbres et les plus parfumés cédaient le pas au bataillon lourd et serré des bourgognes, des vins d’Auvergne, d’Anjou et du Midi, et des vins étrangers, allemands, grecs, espagnols. Samuel avait coutume de dire qu’un verre de vrai vin devait ressembler à une grappe de raisin noir, et qu’il y avait dedans autant à manger qu’à boire. — La Fanfarlo aimait les viandes qui saignent et les vins qui charrient l’ivresse. — Du reste, elle ne se grisait jamais. — Tous deux professaient une estime sincère et profonde pour la truffe. — La truffe, cette végétation sourde et mystérieuse de Cybèle, cette maladie savoureuse qu’elle a cachée dans ses entrailles plus longtemps que le métal le plus précieux, cette exquise matière qui défie la science de l’agromane, comme l’or celle des Paracelse ; la truffe, qui fait la distinction du monde ancien et du moderne [2], et qui, avant un verre de Chio, a l’effet de plusieurs zéros après un chiffre.

Quant à la question des sauces, ragoûts et assaisonnements, question grave et qui demanderait un chapitre grave comme un feuilleton de science, je puis vous affirmer qu’ils étaient parfaitement d’accord, surtout sur la nécessité d’appeler toute la pharmacie de la nature au secours de la cuisine. Piments, poudres anglaises, safraniques, substances coloniales, poussières exotiques, tout leur eût semblé bon, voire le musc et l’encens. Si Cléopâtre vivait encore, je tiens pour certain qu’elle eût voulu accommoder des filets de bœuf ou de chevreuil avec des parfums d’Arabie. Certes, il est à déplorer que les cordons bleus d’à présent ne soient pas contraints par une loi particulière et voluptuaire à connaître les propriétés chimiques des matières, et ne sachent pas découvrir, pour les cas nécessaires, comme celui d’une fête amoureuse, des éléments culinaires presque inflammables, prompts à parcourir le système organique, comme l’acide prussique, à se volatiliser comme l’éther.

Chose curieuse, cet accord d’opinions pour le bien-vivre, cette similitude de goûts les lia vivement ; cette entente profonde de la vie sensuelle, qui brillait dans chaque regard et dans chaque parole de Samuel, frappa beaucoup la Fanfarlo. Cette parole tantôt brutale comme un chiffre, tantôt délicate et parfumée comme une fleur ou un sachet, cette causerie étrange, dont lui seul a connu le secret, acheva de lui gagner les bonnes grâces de cette charmante femme. Du reste, ce ne fut pas non plus sans une vive et profonde satisfaction qu’il reconnut, à l’inspection de la chambre à coucher, une parfaite confraternité de goûts et de sentiments à l’endroit des ameublements et des constructions intérieures. Cramer haïssait profondément, et il avait, selon moi, parfaitement raison, les grandes lignes droites en matière d’appartements et l’architecture importée dans le foyer domestique. Les vastes salles des vieux châteaux me font peur, et je plains les châtelaines d’avoir été contraintes à faire l’amour dans de grands dortoirs qui avaient un air de cimetière, dans de vastes catafalques qui se faisaient appeler des lits, sur de gros monuments qui prenaient le pseudonyme de fauteuils. Les appartements de Pompéi sont grands comme la main ; les ruines indiennes qui couvrent la côte de Malabar témoignent du même système. Ces grands peuples voluptueux et savants connaissaient parfaitement la question. Les sentiments intimes ne se recueillent à loisir que dans un espace très-étroit.

La chambre à coucher de la Fanfarlo était donc très-petite, très-basse, encombrée de choses molles, parfumées et dangereuses à toucher ; l’air, chargé de miasmes bizarres, donnait envie d’y mourir lentement comme dans une serre chaude. La clarté de la lampe se jouait dans un fouillis de dentelles et d’étoffes d’un ton violent, mais équivoque. Çà et là, sur le mur, elle éclairait quelques peintures pleines d’une volupté espagnole : des chairs très-blanches sur des fonds très-noirs. C’est au fond de ce ravissant taudis, qui tenait à la fois du mauvais lieu et du sanctuaire, que Samuel vit s’avancer vers lui la nouvelle déesse de son cœur, dans la splendeur radieuse et sacrée de sa nudité.

Quel est l’homme qui ne voudrait, même au prix de la moitié de ses jours, voir son rêve, son vrai rêve poser sans voile devant lui, et le fantôme adoré de son imagination faire tomber un à un tous les vêtements destinés à protéger contre les yeux du vulgaire ? Mais voilà que Samuel, pris d’un caprice bizarre, se mit à crier comme un enfant gâté : — Je veux Colombine, rends-moi Colombine ; rends-la-moi telle qu’elle m’est apparue le soir qu’elle m’a rendu fou avec son accoutrement fantasque et son corsage de saltimbanque !

La Fanfarlo, étonnée d’abord, voulut bien se prêter à l’excentricité de l’homme qu’elle avait choisi, et l’on sonna Flore ; celle-ci eut beau représenter qu’il était trois heures du matin, que tout était fermé au théâtre, le concierge endormi, le temps affreux, — la tempête continuait son tapage, — il fallut obéir à celle qui obéissait elle-même, et la femme de chambre sortit ; quand Cramer, pris d’une nouvelle idée, se pendit à sonnette et s’écria d’une voix tonnante :

« — Eh ! n’oubliez pas le rouge ? »

Ce trait caractéristique, qui a été raconté par la Fanfarlo elle-même, un soir que ses camarades l’interrogeaient sur le commencement de sa liaison avec Samuel, ne m’a nullement étonné ; j’ai bien reconnu en ceci l’auteur desOrfraies. Il aimera toujours le rouge et la céruse, le chrysocale et les oripeaux de toute sorte. Il repeindrait volontiers les arbres et le ciel, et si Dieu lui avait confié le plan de la nature, il l’aurait peut-être gâté.

Quoique Samuel fût une imagination dépravée, et peut-être à cause de cela même, l’amour était chez lui moins une affaire des sens que du raisonnement. C’était surtout l’admiration et l’appétit du beau ; il considérait la reproduction comme un vice de l’amour, la grossesse comme une maladie d’araignée. Il a écrit quelque part : les anges sont hermaphrodites et stériles. — Il aimait un corps humain comme une harmonie matérielle, comme une belle architecture, plus le mouvement ; et ce matérialisme absolu n’était pas loin de l’idéalisme le plus pur. Mais, comme dans le beau, qui est la cause de l’amour, il y avait selon lui deux éléments : la ligne et l’attrait, — et que tout ceci ne regarde que la ligne, — l’attrait pour lui, ce soir-là du moins, c’était le rouge.

La Fanfarlo résumait donc pour lui la ligne et l’attrait ; et quand, assise au bord du lit, dans l’insouciance et dans le calme victorieux de la femme aimée, les mains délicatement posées sur lui, il la regardait, il lui semblait voir l’infini derrière les yeux clairs de cette beauté, et que les siens à la longue planaient dans d’immenses horizons. Du reste, comme il arrive aux hommes exceptionnels, il était souvent seul dans son paradis, nul ne pouvant l’habiter avec lui ; et si, de hasard, il l’y ravissait et l’y traînait presque de force, elle restait toujours en arrière : aussi, dans le ciel où il régnait, son amour commençait d’être triste et malade de la mélancolie du bleu, comme un royal solitaire.

Cependant, il ne s’ennuya jamais d’elle ; jamais, en quittant son réduit amoureux, piétinant lestement sur un trottoir, à l’air frais du matin, il n’éprouva cette jouissance égoïste du cigare et des mains dans les poches, dont parle quelque part notre grand romancier moderne .

À défaut du cœur, Samuel avait l’intelligence noble, et, au lieu d’ingratitude, la jouissance avait engendré chez lui ce contentement savoureux, cette rêverie sensuelle, qui vaut peut-être mieux que l’amour comme l’entend le vulgaire. Du reste, la Fanfarlo avait fait de son mieux et dépensé ses plus habiles caresses, s’étant aperçue que l’homme en valait la peine : elle s’était accoutumée à ce langage mystique, bariolé d’impuretés et de crudités énormes. — Cela avait pour elle du moins l’attrait de la nouveauté.

Le coup de tête de la danseuse avait fait son bruit. Il y avait eu plusieurs relâches sur l’affiche ; elle avait négligé les répétitions ; beaucoup de gens enviaient Samuel.

Un soir que le hasard, l’ennui de M. de Cosmelly ou une complication de ruses de sa femme, les avait réunis au coin du feu, — après un de ces longs silences qui ont lieu dans les ménages où l’on n’a plus rien à se dire et beaucoup à se cacher, — après lui avoir fait le meilleur thé du monde, dans une théière bien modeste et bien fêlée, peut-être encore celle du château de sa tante, — après avoir chanté au piano quelques morceaux d’une musique en vogue il y a dix ans, — elle lui dit avec la voix douce et prudente de la vertu qui veut se rendre aimable et craint d’effaroucher l’objet de ses affections, — qu’elle le plaignait beaucoup, qu’elle avait beaucoup pleuré, plus encore sur lui que sur elle-même ; qu’elle eût au moins voulu ; dans sa résignation toute soumise et toute dévouée, qu’il pût trouver ailleurs que chez elle l’amour qu’il ne demandait plus à sa femme ; qu’elle avait plus souffert de le voir trompé que de se voir délaissée ; que d’ailleurs il y avait beaucoup de sa propre faute, qu’elle avait oublié ses devoirs de tendre épouse, en n’avertissant pas son mari du danger ; que, du reste, elle était toute prête à fermer cette plaie saignante et à réparer à elle seule une imprudence commise à deux, etc., — et tout ce que peut suggérer de paroles mielleuses une ruse autorisée par la tendresse. — Elle pleurait et pleurait bien ; le feu éclairait ses larmes et son visage embelli par la douleur.

M. de Cosmelly ne dit pas un mot et sortit. Les hommes pris au trébuchet de leurs fautes n’aiment pas faire à la clémence une offrande de leurs remords. S’il alla chez la Fanfarlo, il y trouva sans doute des vestiges de désordre, des bouts de cigare et des feuilletons.

Un matin, Samuel fut réveillé par la voix mutine de la Fanfarlo, et leva lentement sa tête fatiguée de l’oreiller où elle reposait, pour lire une lettre qu’elle lui remit :

« Merci, monsieur, mille fois merci ; mon bonheur et ma reconnaissance vous seront comptés dans un meilleur monde. J’accepte. Je reprends mon mari de vos mains, et je l’emporte ce soir à notre terre de C***, où je vais retrouver la santé et la vie que je vous dois. Recevez, monsieur, la promesse d’une amitié éternelle. Je vous ai toujours cru trop honnête homme pour ne pas préférer une amitié de plus à toute autre récompense. »

Samuel, vautré sur de la dentelle et appuyé sur une des plus fraîches et des plus belles épaules qu’on pût voir, sentit vaguement qu’il était joué, et eut quelque peine à rassembler dans sa mémoire les éléments de l’intrigue dont il avait amené le dénoûment ; mais il se dit tranquillement : — Nos passions sont-elles bien sincères ? qui peut savoir sûrement ce qu’il veut et connaître au juste le baromètre de son cœur ?

« — Que murmures-tu là ? qu’est-ce que c’est que ça ? je veux voir, dit la Fanfarlo.

— Ah ! rien, fit Samuel. — Une lettre d’honnête femme à qui j’avais promis d’être aimé de toi.

— Tu me le paieras, » dit-elle entre ses dents.

Il est probable que la Fanfarlo a aimé Samuel, mais de cet amour que connaissent peu d’âmes, avec une rancune au fond. Quant à lui, il a été puni par où il avait péché. Il avait souvent singé la passion ; il fut contraint de la connaître ; mais ce ne fut point l’amour tranquille, calme et fort qu’inspirent les honnêtes filles, ce fut l’amour terrible, désolant et honteux, l’amour maladif des courtisanes. Samuel connut toutes les tortures de la jalousie, et l’abaissement et la tristesse où nous jette la conscience d’un mal incurable et constitutionnel, — bref, toutes les horreurs de ce mariage vicieux qu’on nomme le concubinage. Quant à elle, elle engraisse tous les jours ; elle est devenue une beauté grasse, propre, lustrée et rusée, une espèce de lorette ministérielle. — Un de ces jours elle fera ses pâques et rendra le pain bénit à sa paroisse. À cette époque peut-être, Samuel, mort à la peine, sera cloué sous la lame, comme il le disait en son bon temps, et la Fanfarlo, avec ses airs de chanoinesse, fera tourner la tête d’un jeune héritier. — En attendant, elle apprend à faire des enfants ; elle vient d’accoucher heureusement de deux jumeaux. Samuel a mis bas quatre livres de science : un livre sur les quatre évangélistes, — un autre sur la symbolique des couleurs, — un mémoire sur un nouveau système d’annonces, — et un quatrième dont je ne veux pas me rappeler le titre. — Ce qu’il y a de plus épouvantable dans ce dernier, c’est qu’il est plein de verve, d’énergie et de curiosités. Samuel a eu le front d’y établir pour épigraphe : Auri sacra fames ! — La Fanfarlo veut que son amant soit de l’Institut, et elle intrigue au ministère pour qu’il ait la croix.

Pauvre chantre des Orfraies ! Pauvre Manuela de Monteverde ! — Il est tombé bien bas. — J’ai appris récemment qu’il fondait un journal socialiste et voulait se mettre à la politique. — Intelligence malhonnête ! — comme dit cet honnête M. Nisard.


  1. Cette nouvelle est le premier écrit de Charles Baudelaire. Présentée et reçue originairement à la Revue de Paris, elle fut rendue à l’auteur. La Fanfarlo a paru pour la première fois en janvier 1847, dans le Bulletin de la Société des gens de lettres.

ODEIO A IGREJA, NÃO JESUS! – julio dourado / rio de janeiro

Li essa semana um slogan bastante interessante que revela o quanto a igreja esta em baixa nos últimos tempos: ODEIO A IGREJA, NÃO JESUS!
A lista abaixo relacionada é direcionada à igreja institucional, à igreja-empresarial, ao clube de entretenimento, assim falsificada e vendida ao poder temporal. Não me refiro absolutamente à igreja verdadeira, ao remanescente fiel que muitas vezes está contido nessa igreja caricata dos nossos dias.

Compartilho aqui o sentimento de inconformação de Davi quando disse a Deus: “Não aborreço eu, Senhor, os que te aborrecem? e não abomino os que se levantam contra Ti?” Aborreço-os com ódio consumado, para mim são inimigos de fato.
O que eu odeio em ti, igreja dos nosso tempos?

1. A TUA PRETENSÃO OSTENSIVA de tu te veres superior a tudo e a todos, e com esse orgulho besta, deixas de ser reconhecida como voz de Deus e agência do Reino no mundo. Ao contrário, deverias te afastar pra bem longe dessa vaidade luciferiana e cair em si, voltando a servir humildemente ao mundo ao qual foste enviada.

2. QUANDO INFLEXÍVEL, IMPÕES O DETESTÁVEL LEGALISMO COMO FORMA DE CAMINHADA CRISTÃ com regras insuportáveis que mantém teus membros eternamente cativos a infantilidade na fé, ao invés de conduzi-los à maturidade cristã que alcança a essencial liberdade consciente e anda maduramente nas pegadas de Jesus de Nazaré.

3. A TUA CEGUEIRA REDUCIONISTA que não discerne claramente o Reino além de tuas limitadas fronteiras, expandindo a visão para ver e aceitar outras formas de expressão, de serviço cristão, de culto e de obras que também glorificam a Deus e contribuem para a expansão do Reino na terra.

4. A TUA FORMA DE JULGAR SUMARIAMENTE as pessoas, se são merecedoras do céu ou do inferno, como se coubesse a ti essa prerrogativa divina de seleção. Deveria tu saber que essa é uma ação exclusiva de Deus.

5. A TUA DISCIPLINA CORRETIVA que sempre exclui e joga fora todo aquele que desgraçadamente tropeça por algum motivo, levando invariavelmente o “disciplinado” ao abandono, e ferido, a morrer a míngua.

6. A TUA FORMA ANTIBÍBLICA DE EVANGELIZAR, definindo prazo de mudança para as pessoas ”aceitarem Jesus”, exigindo uma conversão urgente e superficial baseada na adequação compulsória às regras de teus usos e costumes, e não na radical soberana transformação do Espírito Santo, de dentro para fora, e no livre tempo de Deus.

7. A TUA VISÃO MISSIONÁRIA/ EVANGELÍSTICA DISTORCIDA que em nome do “ide” retira as pessoas de suas áreas de convivência na sociedade onde exerciam posições estratégicas para alcançar seus semelhantes, para mantê-los circunscritos à área do templo, transformando-os em pessoas inativas ou em obreiros alienados que desconhecem o que se passa no mundo que os rodeiam.

8. O TEU ABUSO DE PODER arrastando milhares de PESSOAS SINCERAS, frágeis, crédulas, simplórias, despreparadas e desavisadas à exaustão, ao esgotamento, ao sofrimento, à decepção, e a se sentirem absolutamente usurpadas física, emocional, material e espiritualmente. Essas pobres vítimas do teu poder abusivo se tornam amargas e refratárias ao Evangelho para sempre, fechadas para qualquer possibilidade de pensarem em Deus ou em coisas relacionadas a ti.

9. A FORMA IMORAL COM QUE TEUS LÍDERES LIDAM COM AS FINANÇAS, manipulando o dinheiro que entra em teus cofres de forma irresponsável, desonesta, revelando que são subjugados pelo deus Mamon. Reproduzes pastores que amam posição, poder, e o dinheiro, tornando-os cheios de avareza e de ganância. ISSO TEM CAUSADO GRANDES ESCÂNDALOS E DANOS IRREVERSÍVEIS PARA O EVANGELHO, E TU ÉS DIRETAMENTE RESPONSÁVEL POR ISSO!

10. E por último, odeio quando MENTES, ASSEVERANDO QUE FORA DE TI, AS PESSOAS NÃO PODEM SOBREVIVER. Saiba que existem milhões de pessoas que nunca adentraram em teus átrios e mesmo assim oram, têm temor, discernimento, maturidade, ética, moral e dignidade, muitas vezes, mais apurados que teus pobres membros pretensiosos.Sobretudo, há uma forma difícil, dolorida, mas possível, que pode mudar radicalmente esse quadro sombrio: TENS QUE PASSAR PELO PORTAL DO ARREPENDIMENTO. Como diria Jesus: ” Lembra-te de onde caíste e arrepende-te…”

SOBRE NÓS E ELOS de marilda confortin / curitiba

Acontece,

que somos elos de uma corrente

feita por um desses deuses dementes

que se divertem com a desgraça da gente.

Acontece,

que estamos sempre a procura

de uma corrente segura

pra nos encaixar.

Mas, acontece

que essa maldita corrente

sempre arrebenta no mesmo lugar.

Acontece,

que existem elos perdidos

que vieram ao mudo

só para serem partidos.

Elos órfãos,

que vivem sós,

que se amam,

mas não se atam,

como nós.

As vezes me pego sonhando

com um universo paralelo,

cheínho de elos,

todos sem par.

Quem sabe é por lá

que nossos chinelos

vão se encontrar.

Ó, NOITE FUGAZ de otto nul / palma sola.sc

Ó, noite, vejo-te

Nua e perdida

Como as putas

Nos lupanares baratos

Ó, noite, nenhuma

Lágrima rola

Em meu rosto

Para te celebrar

Ó, noite, exílio

Dos mortos-vivos,

Refúgio de todos

Os cativos do mundo

Ó, noite, sigo teus

Passos nas brenhas

Das estradas e ruelas

Habitadas de fantasmas

Ó, noite fugaz,

A ti me afeiçôo,

És meu sortilégio

E minha paixão

COISAS de MARIA JOÃO convida para ouvir MAURO ALBERT e amigos / ilha de santa catarina

07 de maio de 2010 Mauro Albert (viola 10 cordas), Guinha Ramires(violão) e Leandro Fortes (guitarra)

O violeiro e compositor paranaense Mauro Albert,  tem trabalhado no cenário da música instrumental com distintas parcerias.

Nesta noite, num encontro intimista reune -se com dois outros reconhecidos músicos radicados em Florianópolis: Guinha Ramires e Leandro Fortes.

O repertório mostra a enorme diversidade musical brasileira, transitando por gêneros nordestinos, caipiras, gaúchos, sem esquecer do samba, choro, e indo além das fronteiras, passeando pela salsa, tango, jazz e rock, que você poderá apreciar à pouquíssima distância dos artistas.

Café Pequeno é para poucas pessoas. Com capacidade para aproximadamente 30 pessoas, é necessário fazer sua reserva antecipadamente e chegar até às 21h para garantir seu lugar.

Valor: R$ 15,00

Venda antecipada com lugar marcado no local.

Reservas no local ou pelos telefones 48 3209 9562/ 9107 4457/ 8482-5913

Local: Coisas de Maria João, o seu café com cultura!´

Rod. Gilson da Costa Xavier, 1172 (Estrada geral para Sambaqui) Sambaqui- Florianópolis

OFERENDAS VIVAS de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


lançamentos de poemas-peixes

no azul do mar

lançamento de flores nos bordegãs de vime

lançamento de vidas vegetais ao mar

uma guirlanda de conceitos

crescida na minha fala

uma guirlanda adornada com frutos vivos

da grande molécula acqüe

os epiogros vencem as correntes

e bailam estruturas fosfóreas

semânticas almas de nada e muito dizer

no meu viver de mar

não se pode do indizível do inescrito

extrair verdades matutinas

não há lógica teleologia preleção

nessas ondas de imagens

identifico apenas sal nos não-conceitos

sal iodo sopros e hálitos

nas incongruentes sentenças

do megaespíritho.

ELEIÇÕES 2010: TUCANOS FAZEM A SUJEIRA

Guerra suja na internet

.

Deputado federal Brizola Neto (PDT-RJ) denuncia em seu blog que Eduardo Graeff, ex-secretário geral do governo FHC, tesoureiro do PSDB e homem forte da campanha de Serra, é o proprietário de domínios de páginas na internet criadas para promover uma guerra suja durante a campanha eleitoral. “Vou hoje à tribuna da Câmara, desafiar o discurso de bom-moço de José Serra. Toda esta sujeira é feita por seus homens de confiança”, afirmou o parlamentar.

CMAIOR.

NIILIDADE de joão batista do lago / são luis


Receio a doença do teu espírito,

A raiva que nele se contém como

Breviário dos teus horrores.

Nihil obstat…

Férula que vergasta tua língua na

Insana noite dos teus sonhos de pureza:

Arete não te deu asas!

Niilismo aprazado no obscurantismo,

Regaladamente feito para o próprio nada,

Sustenta tua dose de veneno

Oferecendo a maçã à mulher incautamente

Incapaz de reagir à picada do senso comum:

Nada mais!

Nada mais a priori.

CLUBE DE CRIAÇÃO DO PARANÁ apresenta: RETTA, SOLDA e VÍTOLA / curitiba

WorkChopp cheio de novidades

No 3º WorkChopp de 2010, três lendas da publicidade paranaense marcam presença como convidados: Retta, Solda e Vítola. Eles vão promover um bate-papo sobre criação publicitária, os clássicos da propaganda paranaense e atualidades. Além disso, os convidados também farão uma exposição com seus trabalhos. Outra atração deste WorkChopp é a apresentação dos dois spots produzidos durante a Oficina 4×4. Mais um motivo para não perder esse WorkChopp.

Rettamozo trabalhou em agências até o ano 2.000. Depois disso tem dedicado a maior parte do seu tempo a criar obras de arte, que já fazem parte do Acervo do Museu Oscar Niemeyer. Também faz free lance pra RPC, Positivo, Getz e Bronx Propaganda entre outras agências. Solda, paulista de Itararé, é reconhecido por seu talento como cartunista e poeta. É um dos fundadores da Academia Paranaense de Letras e um dos grandes nomes que fizeram história no mercado paranaense. E como ele mesmo afirma é nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Vítola, com mais de 40 anos em atividade, já passou pela Exclam Propaganda, Casulo, Bits Comunicação e OpusMúltipla, além de dedicar-se à produção de música popular brasileira, teatro e televisão.

O WorkChopp acontece dia 06 de maio, quinta-feira, no John Bull Pub (Rua Mateus Leme, 2204). Sócios do Clube não pagam entrada e ainda ganham o primeiro chopp. Não sócios, com nome na lista, pagam meia entrada até as 21h. Então já envie nome, e-mail e empresa para ccpr@ccpr.org.br.

Fifa divulga vídeo de apresentação da Copa 2010

O clipe traz imagens das 32 seleções que irão disputar o Mundial deste ano em diversos momentos marcantes, como gols, defesas e festas proporcionadas pela torcida. Além disso, traz a cantora colombiana Shakira interpretando a canção “Waka Waka (This times for África)”. G1.

O vídeo apresenta uma carga de emoções bem grande para quem gosta de futebol. Mescla imagens de peladas disputadas em campos de terra, com a de grandes astros do milionário mundo do futebol em ação. Mostra apresentações folclóricas tradicionais do país, tendo a letra motivadora da canção ao fundo e também em legendas.

A seleção brasileira, única pentacampeã do mundo, recebe destaque especial na gravação. Aparecem, entre outras estrelas, Cristiano Ronaldo, Messi, Kaká, Nistelrooy, Peter Chech e Ribery. Também são “homenageados” no vídeo grandes jogadores que não vão para a Copa, como Ronaldo (fininho) e David Beckham.

UM clique no centro do vídeo:

BRASIL: ELEIÇÕES 2010 !

DEM entra com ação contra Lula e Dilma por festa do Dia do Trabalho

G1.

é só o que lhes resta. para LULA  e DILMA nada de festa.

o candidato zé serra com o zé  arruda, chefe da roubalheira do mensalão do DEM em Brasilia.

são os extertores da agonia nas urnas.

o povo brasileiro não volta atrás.

RESPOSTAS e PERGUNTAS certas – de tonicato miranda / curitiba

para Malita (minha mãe)

Escutar “Moon River”

como não chorar?

Na mão uma foto sua

como não olhar?

Cuba Libre ou “Hi-Fi”

como não tomar?

A sandália num canto

como não caminhar?

Passarinho num galho

como não assobiar?

Lágrimas descem na face

como não me molhar?

O frio chega com vento

como não tiritar?

Bolo no forno, café no bule

como não? Vou degustar.

A piada da sua boca

como não gargalhar?

Um dia lindo, mas chove

como me acostumar?

Seu olhar sorrindo lindo

A ele serei bem vindo? Será?

Quando for ao campo canta

rega nossas presenças como a planta

Não será na casa, na janela ou no luar

será no jardim o lugar para lhe adorar

O GOVERNO do ESTADO de SANTA CATARINA, convida:

DOIS HOMENS DIANTE DO POR DO SOL – por hamilton alves / ilha de santa catarina

Findava a tarde, o sol ia se pondo atrás do morro, com a terra em seu curso em volta de si mesma e do sol, nos conhecidos movimentos de rotação e translação, quando um homem de meia idade (poderia ter uns 60 anos) sentara-se num banco talvez com o fito de apreciar esse momento de passagem entre o dia que se finda e a noite que chega.

Há quem não dê a menor importância a esse fato singelo cheio de mistério e beleza.

O homem tinha os cabelos grisalhos e compridos, vestia uma camisa de manga comprida, uma calça escura, um boné e calçava um chinelo meio cambado e já de muito uso. Olhava fixamente para o sol, vendo-o pouco a pouco sumir mais uma vez.

Havia uma boa sombra de uma amendoeira e sentar-se no banco para apreciar esse espetáculo me pareceu a única coisa interessante que, naquele momento, no bulício da cidade, se poderia fazer.

O banco era o único disponível num raio de duzentos metros, razão porque me sentei ali sem qualquer constrangimento ou cerimônia. Poderia se sentir molestado no momento em que me alojei ao lado dele.

Mas percebi que não moveu um músculo quando isso ocorreu.

Agora, frente ao por do sol, éramos dois a assistir a esse espetáculo cósmico.

Podia provocá-lo para um papo, mas sua aparência não era muito simpática ou não revelava nenhuma disposição para uma conversa leve, até poética ou mesmo filosófica sobre o fenômeno.

Enquanto isso, pessoas e veículos iam e vinham pela longa avenida.

Éramos os únicos, àquela hora, que nos ocupávamos do por do sol.

Ardia-lhe certamente os olhos de tanto fixá-los no sol. O mesmo me sucedia. Mas não arredava os olhos dele, parecendo-lhe ser algo de extraordinário, que só em um único momento no dia se podia ver.

Ocorreu-me lembrar-lhe que o Pequeno Príncipe, personagem de Saint-Exupéry, amava o por do sol e não cansava de vê-lo por-se.

Mas logo me adverti que o homem, na sua simplicidade, tal qual o via na forma de vestir-se, nada saberia da existência de Zéperri. Ou de seu personagem famoso, conhecido em todos os quadrantes da terra.

Não trocamos nem uma só palavra.  Ficáramos os dois, em nosso mutismo, deparando-nos com esse esplendor do por do sol.

Quando escureceu e já então o sol baixara, o homem ergueu-se (ou saiu de seu êxtase) e, tão silente como se revelara, silente se foi pela ampla avenida.

O CRÉU e a nova língua – por sérgio da costa ramos / florianópolis

Ao contrário desses economistas que vivem embrulhando pacotes para desfalcar o nosso bolso, o velho mestre dos dicionários, Antônio Houaiss, assegurava que as palavras têm alma.

Elas podem engordar, ganhando novas sílabas ou acepções, ou emagrecer, por supressão etimológica – como a palavra episcopu, que migrou do latim para o português, transformada em bispo.

E quem não gostar que vá reclamar ao dito cujo.

A língua portuguesa do Brasil, degradada ou não, multiplica seus neologismos com uma velocidade semelhante ao real perdendo décimos para o dólar em crise.

Investidos na presunção de que são os proprietários da língua, pelo considerável fato de já a falarem na sua forma quinhentista, nossos caros patrícios da “matriz” condenam a degradação desse patrimônio. Estaríamos a malbarataire a Flor do Lácio, a insultá-la, a despetalá-la.

É como se queixa, de Portugal, um amigo patrício, contrariado com as gírias novelescas:

– Agora deram de falar numa tal “dança do Créu! Um horror. Uma dancinha que imita as “relações”, só que em pé!

Aí já passamos para o incontrolável terreno dos costumes e – mais imprevisível ainda – ao reino monocórdico, obsessivo e sinistro do funk carioca.

– Pois é – concedi. Lá no Rio as coisas estão mesmo “ruças”, “descontroladas”.

O amigo luso protestou de novo, sem entender a velha gíria:

– Ruço? O que é isso? Uma nacionalidade dos Urais?

Ora, se o meu amigo português comprasse o novo Dicionário Ortográfico da Língua Portuguesa, sempre atualizado pela equipe do saudoso Houaiss, ficaria sabendo que “ruço” é sinônimo de “difícil, árduo, penoso, complicado, intrincado”.

Estar “ruço” é estar “feio”, “sinistro”. Mas aí já estamos explicando gíria com gíria, as palavras acabam como as nossas adolescentes – gestantes precoces.

Os meus queridos amigos d’além mar que me perdoem. Língua é um ser vivo e pulsante, um “credo” dinâmico, falado e ditado por quem tem mais bocas. Somos 180 milhões falando o “brasileiro”, com “créu” ou sem “créu”.

A última edição revista e atualizada do Aurelião incorpora algumas pérolas lapidadas pela verve popular, depois de admitidas numa espécie de “vestibular”. A palavra tem que provar a sua “eternidade” para merecer o registro na “bíblia” de mestre Aurélio Ferreira. Não basta ser uma “coqueluche”, como o dito “créu”. Há que ser um verbo já veterano, provado na sua acepção mais cristalina, como “malufar”, à guisa de “afanar”, “subtrair sorrateiramente”.

Já aprovadas até nos vestibulares, lá estão, por exemplo, “dançar”, “mordomia” e “marajá”.

Dançar: “Sair-se mal; não alcançar o que se esperava. Fez exame vestibular e dançou. Ser preso, detido”. Mordomia: “Bem-estar, conforto, regalia. Vantagens tidas como moradia, condução, criadagem e alimentação”. Marajá: “Funcionário a quem se atribui salário exorbitante; pago a servidor pouco escrupuloso, que, muitas vezes, legisla em causa própria”.

Bem se vê que “mordomia” e “marajá” são verbetes já desatualizados pelos fatos. O “corporativo” que gasta com o ilimitado cartão dourado da República já merece figurar na acepção de um e de outro.

Tudo bem, as novas palavras são sempre bem-vindas, pois não somos tão avessos às mudanças quanto nos mansos tempos de um Almeida Garrett, um Camilo Castelo Branco, um Alexandre Herculano.

Esperemos, com resignação, a incorporação do “créu” aos dicionários.

Créu: “Dancinha energética do funk carioca, o tronco balançado num ritmo semelhante ao do intercurso sexual.”

Ou, “mão grande” que um funcionário da nossa hilária República aplica no contribuinte, mediante o uso abusivo do cartão corporativo.

O funcionário chega no contribuinte e, ó, créu”!

OTTO NUL e sua poesia V / palma sola.sc

NADA ME DIZ

Nada me diz

Nem contradiz

Do que fiz

Ou não fiz

Do aprendiz

Que com um giz

Traçou uma

Bissetriz

Ao longo da raiz

De peça motriz

Aberta a cicatriz

Na ponta do nariz

E por um triz

Escapou a meretriz



.

DOU UM GRITO NO AR

Na esteira dos insubmissos

Dou um grito no ar

É muito se calar

É tarde para fugir

Vai longe o rumor

Dos santos pregadores

Com que fulgor

Apacentam-se carrneirinhos

Às nuvens andarilhas

E em que ilhas?

Durmo em paz

Como me apraz

Dúvida não há

Com que compraza

O torpe entope as ruas

E as mulheres nuas


.

QUERO SER SÓ

(a Greta Garbo)

Quero ser só

Só para andar

Só para pensar

Só para sofrer

Só para viver

Só para fugir

Só para ninguém ver

Só para voar

Só para olhar

Só para falar

Só para chorar

Só para sonhar


(poema feito de uma frase de

Greta Garbo – “I want to be alone”)

AS PONTES QUEIMADAS por alceu sperança / cascavel.pr


Os guerreiros do passado costumavam queimar as pontes pelas quais passavam.

É conhecida no Oeste do Paraná a história de uma localidade chamada Ponte Queimada.

Essa antiga localidade herdou o nome de um episódio da Revolução de 1924/25.

Os soldados revolucionários em fuga queimaram a ponte para evitar serem perseguidos pelas tropas governistas.

Hoje, queimar a ponte por onde passa não retarda mais os inimigos, que chegam com facilidade também via aérea.

E já se sabe que queimar pontes também pode ser uma estratégia péssima se um dia o guerreiro precisar dela para retornar, ao encontrar inimigos piores mais adiante.

Este é o caso dos gaúchos e paranaenses que deixaram tudo para trás e foram tentar enriquecer explorando a Amazônia.

Mas a exploração está tão intensa que a resposta da Natureza já começa a aparecer na redução do nível dos rios e multiplicação das queimadas.

Muitos já pensam em retornar ao Sul por não suportar mais a fumaça e a seca.

Quando saíram daqui deixaram a terra nua de árvores.

Queimaram a ponte porque acreditavam que não precisariam um dia retornar.

Hoje, lamentam ter queimado a ponte daqui, enquanto a ponte de lá está queimando como nunca.

Precisamos construir mais pontes, e também preservar as pontes que nos ligam à vida e à Natureza.