Arquivos Diários: 2 maio, 2010

O GOVERNO do ESTADO de SANTA CATARINA, convida:

DOIS HOMENS DIANTE DO POR DO SOL – por hamilton alves / ilha de santa catarina

Findava a tarde, o sol ia se pondo atrás do morro, com a terra em seu curso em volta de si mesma e do sol, nos conhecidos movimentos de rotação e translação, quando um homem de meia idade (poderia ter uns 60 anos) sentara-se num banco talvez com o fito de apreciar esse momento de passagem entre o dia que se finda e a noite que chega.

Há quem não dê a menor importância a esse fato singelo cheio de mistério e beleza.

O homem tinha os cabelos grisalhos e compridos, vestia uma camisa de manga comprida, uma calça escura, um boné e calçava um chinelo meio cambado e já de muito uso. Olhava fixamente para o sol, vendo-o pouco a pouco sumir mais uma vez.

Havia uma boa sombra de uma amendoeira e sentar-se no banco para apreciar esse espetáculo me pareceu a única coisa interessante que, naquele momento, no bulício da cidade, se poderia fazer.

O banco era o único disponível num raio de duzentos metros, razão porque me sentei ali sem qualquer constrangimento ou cerimônia. Poderia se sentir molestado no momento em que me alojei ao lado dele.

Mas percebi que não moveu um músculo quando isso ocorreu.

Agora, frente ao por do sol, éramos dois a assistir a esse espetáculo cósmico.

Podia provocá-lo para um papo, mas sua aparência não era muito simpática ou não revelava nenhuma disposição para uma conversa leve, até poética ou mesmo filosófica sobre o fenômeno.

Enquanto isso, pessoas e veículos iam e vinham pela longa avenida.

Éramos os únicos, àquela hora, que nos ocupávamos do por do sol.

Ardia-lhe certamente os olhos de tanto fixá-los no sol. O mesmo me sucedia. Mas não arredava os olhos dele, parecendo-lhe ser algo de extraordinário, que só em um único momento no dia se podia ver.

Ocorreu-me lembrar-lhe que o Pequeno Príncipe, personagem de Saint-Exupéry, amava o por do sol e não cansava de vê-lo por-se.

Mas logo me adverti que o homem, na sua simplicidade, tal qual o via na forma de vestir-se, nada saberia da existência de Zéperri. Ou de seu personagem famoso, conhecido em todos os quadrantes da terra.

Não trocamos nem uma só palavra.  Ficáramos os dois, em nosso mutismo, deparando-nos com esse esplendor do por do sol.

Quando escureceu e já então o sol baixara, o homem ergueu-se (ou saiu de seu êxtase) e, tão silente como se revelara, silente se foi pela ampla avenida.

O CRÉU e a nova língua – por sérgio da costa ramos / florianópolis

Ao contrário desses economistas que vivem embrulhando pacotes para desfalcar o nosso bolso, o velho mestre dos dicionários, Antônio Houaiss, assegurava que as palavras têm alma.

Elas podem engordar, ganhando novas sílabas ou acepções, ou emagrecer, por supressão etimológica – como a palavra episcopu, que migrou do latim para o português, transformada em bispo.

E quem não gostar que vá reclamar ao dito cujo.

A língua portuguesa do Brasil, degradada ou não, multiplica seus neologismos com uma velocidade semelhante ao real perdendo décimos para o dólar em crise.

Investidos na presunção de que são os proprietários da língua, pelo considerável fato de já a falarem na sua forma quinhentista, nossos caros patrícios da “matriz” condenam a degradação desse patrimônio. Estaríamos a malbarataire a Flor do Lácio, a insultá-la, a despetalá-la.

É como se queixa, de Portugal, um amigo patrício, contrariado com as gírias novelescas:

– Agora deram de falar numa tal “dança do Créu! Um horror. Uma dancinha que imita as “relações”, só que em pé!

Aí já passamos para o incontrolável terreno dos costumes e – mais imprevisível ainda – ao reino monocórdico, obsessivo e sinistro do funk carioca.

– Pois é – concedi. Lá no Rio as coisas estão mesmo “ruças”, “descontroladas”.

O amigo luso protestou de novo, sem entender a velha gíria:

– Ruço? O que é isso? Uma nacionalidade dos Urais?

Ora, se o meu amigo português comprasse o novo Dicionário Ortográfico da Língua Portuguesa, sempre atualizado pela equipe do saudoso Houaiss, ficaria sabendo que “ruço” é sinônimo de “difícil, árduo, penoso, complicado, intrincado”.

Estar “ruço” é estar “feio”, “sinistro”. Mas aí já estamos explicando gíria com gíria, as palavras acabam como as nossas adolescentes – gestantes precoces.

Os meus queridos amigos d’além mar que me perdoem. Língua é um ser vivo e pulsante, um “credo” dinâmico, falado e ditado por quem tem mais bocas. Somos 180 milhões falando o “brasileiro”, com “créu” ou sem “créu”.

A última edição revista e atualizada do Aurelião incorpora algumas pérolas lapidadas pela verve popular, depois de admitidas numa espécie de “vestibular”. A palavra tem que provar a sua “eternidade” para merecer o registro na “bíblia” de mestre Aurélio Ferreira. Não basta ser uma “coqueluche”, como o dito “créu”. Há que ser um verbo já veterano, provado na sua acepção mais cristalina, como “malufar”, à guisa de “afanar”, “subtrair sorrateiramente”.

Já aprovadas até nos vestibulares, lá estão, por exemplo, “dançar”, “mordomia” e “marajá”.

Dançar: “Sair-se mal; não alcançar o que se esperava. Fez exame vestibular e dançou. Ser preso, detido”. Mordomia: “Bem-estar, conforto, regalia. Vantagens tidas como moradia, condução, criadagem e alimentação”. Marajá: “Funcionário a quem se atribui salário exorbitante; pago a servidor pouco escrupuloso, que, muitas vezes, legisla em causa própria”.

Bem se vê que “mordomia” e “marajá” são verbetes já desatualizados pelos fatos. O “corporativo” que gasta com o ilimitado cartão dourado da República já merece figurar na acepção de um e de outro.

Tudo bem, as novas palavras são sempre bem-vindas, pois não somos tão avessos às mudanças quanto nos mansos tempos de um Almeida Garrett, um Camilo Castelo Branco, um Alexandre Herculano.

Esperemos, com resignação, a incorporação do “créu” aos dicionários.

Créu: “Dancinha energética do funk carioca, o tronco balançado num ritmo semelhante ao do intercurso sexual.”

Ou, “mão grande” que um funcionário da nossa hilária República aplica no contribuinte, mediante o uso abusivo do cartão corporativo.

O funcionário chega no contribuinte e, ó, créu”!

OTTO NUL e sua poesia V / palma sola.sc

NADA ME DIZ

Nada me diz

Nem contradiz

Do que fiz

Ou não fiz

Do aprendiz

Que com um giz

Traçou uma

Bissetriz

Ao longo da raiz

De peça motriz

Aberta a cicatriz

Na ponta do nariz

E por um triz

Escapou a meretriz



.

DOU UM GRITO NO AR

Na esteira dos insubmissos

Dou um grito no ar

É muito se calar

É tarde para fugir

Vai longe o rumor

Dos santos pregadores

Com que fulgor

Apacentam-se carrneirinhos

Às nuvens andarilhas

E em que ilhas?

Durmo em paz

Como me apraz

Dúvida não há

Com que compraza

O torpe entope as ruas

E as mulheres nuas


.

QUERO SER SÓ

(a Greta Garbo)

Quero ser só

Só para andar

Só para pensar

Só para sofrer

Só para viver

Só para fugir

Só para ninguém ver

Só para voar

Só para olhar

Só para falar

Só para chorar

Só para sonhar


(poema feito de uma frase de

Greta Garbo – “I want to be alone”)

AS PONTES QUEIMADAS por alceu sperança / cascavel.pr


Os guerreiros do passado costumavam queimar as pontes pelas quais passavam.

É conhecida no Oeste do Paraná a história de uma localidade chamada Ponte Queimada.

Essa antiga localidade herdou o nome de um episódio da Revolução de 1924/25.

Os soldados revolucionários em fuga queimaram a ponte para evitar serem perseguidos pelas tropas governistas.

Hoje, queimar a ponte por onde passa não retarda mais os inimigos, que chegam com facilidade também via aérea.

E já se sabe que queimar pontes também pode ser uma estratégia péssima se um dia o guerreiro precisar dela para retornar, ao encontrar inimigos piores mais adiante.

Este é o caso dos gaúchos e paranaenses que deixaram tudo para trás e foram tentar enriquecer explorando a Amazônia.

Mas a exploração está tão intensa que a resposta da Natureza já começa a aparecer na redução do nível dos rios e multiplicação das queimadas.

Muitos já pensam em retornar ao Sul por não suportar mais a fumaça e a seca.

Quando saíram daqui deixaram a terra nua de árvores.

Queimaram a ponte porque acreditavam que não precisariam um dia retornar.

Hoje, lamentam ter queimado a ponte daqui, enquanto a ponte de lá está queimando como nunca.

Precisamos construir mais pontes, e também preservar as pontes que nos ligam à vida e à Natureza.