O CRÉU e a nova língua – por sérgio da costa ramos / florianópolis

Ao contrário desses economistas que vivem embrulhando pacotes para desfalcar o nosso bolso, o velho mestre dos dicionários, Antônio Houaiss, assegurava que as palavras têm alma.

Elas podem engordar, ganhando novas sílabas ou acepções, ou emagrecer, por supressão etimológica – como a palavra episcopu, que migrou do latim para o português, transformada em bispo.

E quem não gostar que vá reclamar ao dito cujo.

A língua portuguesa do Brasil, degradada ou não, multiplica seus neologismos com uma velocidade semelhante ao real perdendo décimos para o dólar em crise.

Investidos na presunção de que são os proprietários da língua, pelo considerável fato de já a falarem na sua forma quinhentista, nossos caros patrícios da “matriz” condenam a degradação desse patrimônio. Estaríamos a malbarataire a Flor do Lácio, a insultá-la, a despetalá-la.

É como se queixa, de Portugal, um amigo patrício, contrariado com as gírias novelescas:

– Agora deram de falar numa tal “dança do Créu! Um horror. Uma dancinha que imita as “relações”, só que em pé!

Aí já passamos para o incontrolável terreno dos costumes e – mais imprevisível ainda – ao reino monocórdico, obsessivo e sinistro do funk carioca.

– Pois é – concedi. Lá no Rio as coisas estão mesmo “ruças”, “descontroladas”.

O amigo luso protestou de novo, sem entender a velha gíria:

– Ruço? O que é isso? Uma nacionalidade dos Urais?

Ora, se o meu amigo português comprasse o novo Dicionário Ortográfico da Língua Portuguesa, sempre atualizado pela equipe do saudoso Houaiss, ficaria sabendo que “ruço” é sinônimo de “difícil, árduo, penoso, complicado, intrincado”.

Estar “ruço” é estar “feio”, “sinistro”. Mas aí já estamos explicando gíria com gíria, as palavras acabam como as nossas adolescentes – gestantes precoces.

Os meus queridos amigos d’além mar que me perdoem. Língua é um ser vivo e pulsante, um “credo” dinâmico, falado e ditado por quem tem mais bocas. Somos 180 milhões falando o “brasileiro”, com “créu” ou sem “créu”.

A última edição revista e atualizada do Aurelião incorpora algumas pérolas lapidadas pela verve popular, depois de admitidas numa espécie de “vestibular”. A palavra tem que provar a sua “eternidade” para merecer o registro na “bíblia” de mestre Aurélio Ferreira. Não basta ser uma “coqueluche”, como o dito “créu”. Há que ser um verbo já veterano, provado na sua acepção mais cristalina, como “malufar”, à guisa de “afanar”, “subtrair sorrateiramente”.

Já aprovadas até nos vestibulares, lá estão, por exemplo, “dançar”, “mordomia” e “marajá”.

Dançar: “Sair-se mal; não alcançar o que se esperava. Fez exame vestibular e dançou. Ser preso, detido”. Mordomia: “Bem-estar, conforto, regalia. Vantagens tidas como moradia, condução, criadagem e alimentação”. Marajá: “Funcionário a quem se atribui salário exorbitante; pago a servidor pouco escrupuloso, que, muitas vezes, legisla em causa própria”.

Bem se vê que “mordomia” e “marajá” são verbetes já desatualizados pelos fatos. O “corporativo” que gasta com o ilimitado cartão dourado da República já merece figurar na acepção de um e de outro.

Tudo bem, as novas palavras são sempre bem-vindas, pois não somos tão avessos às mudanças quanto nos mansos tempos de um Almeida Garrett, um Camilo Castelo Branco, um Alexandre Herculano.

Esperemos, com resignação, a incorporação do “créu” aos dicionários.

Créu: “Dancinha energética do funk carioca, o tronco balançado num ritmo semelhante ao do intercurso sexual.”

Ou, “mão grande” que um funcionário da nossa hilária República aplica no contribuinte, mediante o uso abusivo do cartão corporativo.

O funcionário chega no contribuinte e, ó, créu”!

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