Arquivos Diários: 12 maio, 2010

SALA DE ESPERA (do psiquiatra) – por helena sut / curitiba

O que sou no outro? O que sou terá sentido se somente for percebido por mim? Será que o verdadeiro olhar não é o do senhor sentado a minha frente que me observa de forma dissimulada sobre a revista? Será que a verdade não aflora do desconhecimento e das impressões imaculadas de afinidades ou antipatias? O que sou nele? Será que o mesmo que sou em mim? O que sou no outro?

As inquietações surgiram de repente enquanto passava o tempo com uma revista de entretenimentos na sala de espera do terapeuta. Abandonei a leitura enquanto percorria as espirais da minha existência, mas mantive a publicação nos braços como um escudo para disfarçar a grande dúvida sombreada nas paredes da pequena sala. Concentrei-me no outro, no senhor sentado à frente com a revista em punho.

O que ele é em si, em mim, no mundo…?

Decifrá-lo seria uma quase resposta. Mas tive de abandonar minha incursão quando percebi que o meu olhar havia sido interceptado e que o senhor, visivelmente constrangido, cruzou as pernas e segurou com mais força a revista. Disfarcei.

Ele não é em mim. Não consigo perceber nada além de um homem de aproximadamente cinqüenta anos sentado na sala de espera de um psiquiatra. Rendo-me a dificuldade de colher minhas primeiras impressões. Estou maculada com as inquietações da minha existência. Mas ele… O que é? Ansioso? Deprimido? Louco? Talvez um caso perdido…

Oscilei diante da possibilidade de perigo. O outro… Novamente os olhares se cruzaram. Tracei um vôo improvável e alcancei o relógio como se estivesse preocupada com as horas. Pensei em hastear a bandeira branca e explicar ao desconhecido o porquê de estar ali. Insônia, ansiedade, trauma… Tudo começou com a depressão. Um momento difícil, o outro… Tarja preta. Mas não tomo mais antidepressivo. É verdade que de vez em quando ainda tomo um remedinho para dormir, o que restou… Insônia. Talvez um pouco de estresse, sei lá!

Não sou silenciosa ou louca, mas como poderia transpor o silêncio interposto pelo outro. Explicar-me talvez me libertasse do que não quero ser, mas… O que sou no desconhecido? Ansiosa? Estressada? Deprimida? Histérica?

A porta do consultório se abriu. Uma trégua. O senhor se levantou, cumprimentou o psiquiatra e saiu com a senhora. Um acompanhante. Mas ainda assim poderia ser ansioso ou deprimido. Ou um caso perdido… Quem sabe ele não é o verdadeiro motivo da ida da mulher ao terapeuta. Ele, o outro, o que foi em mim?

Era o horário da minha terapia. Vasculhei as angústias dos últimos dias e entrei. Ainda pensei em perguntar ao psiquiatra como eu existia em seu olhar, mas adiei a indagação diante da possibilidade de um diagnóstico.

Deixei minhas dúvidas junto à revista na sala de espera. Quem sabe na próxima sessão.

a dissecação do poema – de julio saraiva / são paulo


O poema em seu todo

pode às vezes vir da flor

como pode vir do lodo

pode vir do olho do cu

mas também vem do sacrário

vem do vôo do urubu

vem do canto do canário

o poema é brinquedo

é recreio da palavra

o poema vem dos olhos

encovados de quem lavra

o chão  a terra que não tem

está no meio dos escolhos

ou na noite do meu bem

o poema em qualquer parte

pouco importa de onde vem

pode ser de Deus a arte/praga

e a do Diabo também

MIRANDO O RALO por lucas paolo / são paulo

Contarei aqui uma anedota que – tenho motivos para suspeitar – diz muito sobre o filme “A Erva do Rato” de Julio Bressane, sem necessariamente dizer muito sobre ele.

Estava eu no banheiro do Cinesesc tendo meu costumeiro diálogo pré-filme com o mictório (ou, porque não?, “A Fonte” de Duchamp), quando ouço, próximo ao lavabo, sinais daquelas típicas conversinhas anteriores ao filme. “Estou louco para rever o filme. Aparece a “periquita” da Alessandra Negrini inteirinha, linda.” – diz um homem que, de soslaio, só reparo ter cabelos grisalhos. [transcrevo sua fala de memória e sem preocupações maneiristas.] O jovem, que enxaguava tranquila e despreocupadamente as mãos, fica com aquele jeito-sem-jeito de quando não sabemos o que dizer, e dá a conscienciosa e marota risadinha.

O meu primeiro impacto é de assombro e curiosidade: o que leva as pessoas a (re)verem um filme? Arte? Entretenimento? A “periquita” da mulher-sensação de uma das últimas novelas da Globo? Tanto faz. Motivos são motivos. Não há motivo entre o céu e a terra, entre o Cinesesc e o Cinemark, que justifique ou deixe de justificar a ida ao Cinema. Indo ao cinema, o resto é justificável: justo.

Porém, ao achar que o papinho iria se manter na banalidade (fala boba = sorriso sem jeito), fui surpreendido. “Eu já tinha visto a Playboy dela, mas no filme é muito melhor.” – acrescenta o “senhor”. Uau!!! Um filme profundo e artístico consegue (re)significar cada coisa. Paro minha interpretação por aqui.

Gostaria de fechar a anedota contando o desfecho irônico dela. Nos créditos finais – que acredito que o nosso curioso espectador não ficou para acompanhar – aparece a constatação que há uma dublê. Não há cenas de ação, então – como pude supor e depois confirmei pesquisando -, a dublê é para as cenas e fotos de nudez mais explícita. Ou seja, nosso amiguinho deve estar acreditando, até agora, ter visto a “periquita” da Alessandra Negrini. Que ele possa carregar essa crença até a morte.

Enfim, acredito que, aqueles que assistirem ao filme, entenderão do que realmente trata esta anedota. Ou não.