SALA DE ESPERA (do psiquiatra) – por helena sut / curitiba

O que sou no outro? O que sou terá sentido se somente for percebido por mim? Será que o verdadeiro olhar não é o do senhor sentado a minha frente que me observa de forma dissimulada sobre a revista? Será que a verdade não aflora do desconhecimento e das impressões imaculadas de afinidades ou antipatias? O que sou nele? Será que o mesmo que sou em mim? O que sou no outro?

As inquietações surgiram de repente enquanto passava o tempo com uma revista de entretenimentos na sala de espera do terapeuta. Abandonei a leitura enquanto percorria as espirais da minha existência, mas mantive a publicação nos braços como um escudo para disfarçar a grande dúvida sombreada nas paredes da pequena sala. Concentrei-me no outro, no senhor sentado à frente com a revista em punho.

O que ele é em si, em mim, no mundo…?

Decifrá-lo seria uma quase resposta. Mas tive de abandonar minha incursão quando percebi que o meu olhar havia sido interceptado e que o senhor, visivelmente constrangido, cruzou as pernas e segurou com mais força a revista. Disfarcei.

Ele não é em mim. Não consigo perceber nada além de um homem de aproximadamente cinqüenta anos sentado na sala de espera de um psiquiatra. Rendo-me a dificuldade de colher minhas primeiras impressões. Estou maculada com as inquietações da minha existência. Mas ele… O que é? Ansioso? Deprimido? Louco? Talvez um caso perdido…

Oscilei diante da possibilidade de perigo. O outro… Novamente os olhares se cruzaram. Tracei um vôo improvável e alcancei o relógio como se estivesse preocupada com as horas. Pensei em hastear a bandeira branca e explicar ao desconhecido o porquê de estar ali. Insônia, ansiedade, trauma… Tudo começou com a depressão. Um momento difícil, o outro… Tarja preta. Mas não tomo mais antidepressivo. É verdade que de vez em quando ainda tomo um remedinho para dormir, o que restou… Insônia. Talvez um pouco de estresse, sei lá!

Não sou silenciosa ou louca, mas como poderia transpor o silêncio interposto pelo outro. Explicar-me talvez me libertasse do que não quero ser, mas… O que sou no desconhecido? Ansiosa? Estressada? Deprimida? Histérica?

A porta do consultório se abriu. Uma trégua. O senhor se levantou, cumprimentou o psiquiatra e saiu com a senhora. Um acompanhante. Mas ainda assim poderia ser ansioso ou deprimido. Ou um caso perdido… Quem sabe ele não é o verdadeiro motivo da ida da mulher ao terapeuta. Ele, o outro, o que foi em mim?

Era o horário da minha terapia. Vasculhei as angústias dos últimos dias e entrei. Ainda pensei em perguntar ao psiquiatra como eu existia em seu olhar, mas adiei a indagação diante da possibilidade de um diagnóstico.

Deixei minhas dúvidas junto à revista na sala de espera. Quem sabe na próxima sessão.

Uma resposta

  1. Que bom lê-la novamente, Helena! Locura esse texto… melhor não diagnosticar…
    beijo

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