Arquivos Diários: 16 maio, 2010

À LUZ DE UMA VELA – de jamil snege / curitiba

Um dia tu serás demonstrado

cientificamente,

como o eletromagnetismo e

a gravitação universal.

Professores te reproduzirão

em laboratório,

crianças enfeitarão com tua

fórmula suas mochilas

e os grafiteiros rabiscarão

teu princípio pelos muros

da cidade.

Nesse dia, Senhor, alguém

estará restabelecendo

teu mistério…à luz

de uma vela, numa galáxia

bem distante.

LEMBRANÇA DE CANTALÍCIO por hamilton alves / ilha de santa catarina

Cantalício foi um amigo inesquecível que conheci logo que construi uma casa em Cacupé. Chamou-me, desde logo, a atenção por sua pobreza absoluta. Não tinha moradia fixa. Mudava de pouso a todo o instante. Vivia jogado ao léu, como um deserdado da sorte. Era um andarilho, que à noite se recolhia em qualquer lugar para dormir. Deitaria no chão? E água para lavar-se? Ou para beber? Comida para comer? Ninguém lhe dava a mínima importância. Com um rosário à mão e uma bíblia sebenta, que lia em qualquer canto em que descansava de suas andanças, tornava-se uma figura ímpar na paisagem humana.

Conversávamos de vez em quando. Fazia o mesmo comentário nessas ocasiões: “Tem muito pecado no mundo”.

Com essas palavras, sem o saber, me jogava às cordas. Levava-me à reflexão de que o pecado é o grande mistério do mundo e do homem. Tudo que existia (ou existe) neste planeta de mal decorria do pecado. A grande miséria humana era (é) o pecado.

Em geral, já noite comprida, Cantalício  me aparecia à porta, quando lhe dava um prato de comida. Pedia-me velas. Em noites chuvosas, aparecia-me todo molhado.

– Você não tem um guarda-chuva. Assim vais ficar resfriado.

Parecia não me dar muita importância. Estava habituado a viver assim brutalmente.

Uma tarde, apareceu-me se oferecendo para fazer o trabalho de limpar o quintal, como de rotina.

– Pega o ancinho e a enxada atrás da casa e pode fazer o serviço. – lhe disse.

Perdia-me a olhar o espaço infinito, a me perguntar por que uma pessoa como o Cantalício não podia viver em melhores condições, recebendo uma ajuda do poder público. Ter o essencial: uma casa decente, comida, roupa, assistência médica, etc.

Estava assim concentrado nesse pensamento, quando voltei meus olhos para ele, que estava diante de mim a poucos metros.

O que percebi então nunca mais se apagou da minha memória.

Estava de perfil, os cabelos compridos, soltos, lindíssimos, como se os tivesse acabado de lavar com os melhores óleos, de um brilho que nunca antes vira em minha vida, em posição ereta, sem mexer um único músculo, parecendo-se incrivelmente com a figura de Cristo.

Fiquei meio paralisado, olhando-o, sem articular uma única palavra. Assim permanecemos nessa atitude os dois por algum tempo.

Quando umas freiras o levaram para uma casa de idosos, em Ribeirão da Ilha (na qual, como soube depois, não chegou a se alojar), deixando de ocupar uma pequena casa que lhe fiz nos fundos da em que morava, deixou-me a bíblia de presente, com os dizeres: “para o irmão Hamilton, com o abraço do Cantalício”.

A última notícia que soube dele é que está internado no Orianópolis (uma organização assistencial em São José).

Foi-me um golpe grande quando Cantalício sumiu da paisagem de Cacupé. Era ao mesmo tempo um santo e um amigo.

TUMBAS LUMINOSAS e MÚMIAS DANÇANTES – por alceu sperança / cascavel.pr

Diversas pessoas estão atarefadas com a elaboração de programas administrativos governamentais, tendo em vista as eleições de outubro. Devem ser pessoas com vocação para a ficção. Na atualidade, o governador e o presidente da República têm tanta margem de escolha quanto o coveiro: pode começar a cavar ao comprido do caixão, em diagonal, a partir do poente ou do Leste, mas o fruto do trabalho será sempre uma cova aberta e calos nas mãos.

Sobra muito pouco para a atuação de um governante, na democradura mundial de hoje. O verdadeiro poder se esconde nos conchavos com banqueiros, transnacionais, empreiteiras de obras, concessionários de serviços públicos e máfias financiadoras de campanhas.

Quem participa desse esforço de elaborar programas de administração, concluí que só há duas opções: ou mentir para a população, anunciando um plano fantasioso, ou ser honesto e dizer que a plataforma aprovada pelo eleitor nas urnas não é a verdadeira, aquela que o candidato acertou nos conchavos.

O que, enfim, um governante faz, na atualidade? Nomeia cupinchas do partido e dos partidos aliados para funções sobre as quais eles não têm a menor idéia de como desenvolver. E nem querem saber ou aprender como, em cursos técnicos estafantes, que, aliás, requerem inteligência. Afinal, trata-se de coisa provisória, até o próximo conchavo. O que interessa, mesmo, é a grana do salário, que será rachada com o partido.

Outra coisa que governante faz é nomear parente ou ajeitar esquemas para os parentes, especialmente os mais incapazes, pois os capazes já têm o que fazer e não dependem de tetas provisórias . Os parentes, como os cupinchas, também não têm a menor idéia do que seja serviço público, pois sua cultura é a da iniciativa privada, onde o jogo é outro.

E o que governante mais faz na atualidade, além de morrer de medo de que algum aspone seja apanhado em corruptos mesalões, é a famigerada “revitalização”. Palavra chupada do Inglês, ela não quer dizer nada. Poderia ter o significado de ressuscitação, que seria reanimar alguém. Mas, a rigor, “revitalização” quer dizer “reforma”.

Se fôssemos avaliar o que se reformou até hoje, no País, nos estados e nos municípios, veríamos que só se mexeu na aparência. O carro levou um banho de mangueira, mas o resto continua igual: a pintura descascada, o motor rateando, os pneus furados.

Alguns acham que não é muito publicitário dizer que reformou algo com uma pintura ou um reboco. Funciona mais pôr tudo abaixo e reconstruir, para que não pareça uma reforma e sim uma “revitalização”, um fazer de novo e supostamente melhor.

Imagine se o presidente de seu país fosse governar, digamos, o Egito, onde estão as Pirâmides. Que revitalização, meu! As tumbas recobertas de plástico luminoso e múmias holográficas dançando ao som de um pancadão high-tech.