LEMBRANÇA DE CANTALÍCIO por hamilton alves / ilha de santa catarina

Cantalício foi um amigo inesquecível que conheci logo que construi uma casa em Cacupé. Chamou-me, desde logo, a atenção por sua pobreza absoluta. Não tinha moradia fixa. Mudava de pouso a todo o instante. Vivia jogado ao léu, como um deserdado da sorte. Era um andarilho, que à noite se recolhia em qualquer lugar para dormir. Deitaria no chão? E água para lavar-se? Ou para beber? Comida para comer? Ninguém lhe dava a mínima importância. Com um rosário à mão e uma bíblia sebenta, que lia em qualquer canto em que descansava de suas andanças, tornava-se uma figura ímpar na paisagem humana.

Conversávamos de vez em quando. Fazia o mesmo comentário nessas ocasiões: “Tem muito pecado no mundo”.

Com essas palavras, sem o saber, me jogava às cordas. Levava-me à reflexão de que o pecado é o grande mistério do mundo e do homem. Tudo que existia (ou existe) neste planeta de mal decorria do pecado. A grande miséria humana era (é) o pecado.

Em geral, já noite comprida, Cantalício  me aparecia à porta, quando lhe dava um prato de comida. Pedia-me velas. Em noites chuvosas, aparecia-me todo molhado.

– Você não tem um guarda-chuva. Assim vais ficar resfriado.

Parecia não me dar muita importância. Estava habituado a viver assim brutalmente.

Uma tarde, apareceu-me se oferecendo para fazer o trabalho de limpar o quintal, como de rotina.

– Pega o ancinho e a enxada atrás da casa e pode fazer o serviço. – lhe disse.

Perdia-me a olhar o espaço infinito, a me perguntar por que uma pessoa como o Cantalício não podia viver em melhores condições, recebendo uma ajuda do poder público. Ter o essencial: uma casa decente, comida, roupa, assistência médica, etc.

Estava assim concentrado nesse pensamento, quando voltei meus olhos para ele, que estava diante de mim a poucos metros.

O que percebi então nunca mais se apagou da minha memória.

Estava de perfil, os cabelos compridos, soltos, lindíssimos, como se os tivesse acabado de lavar com os melhores óleos, de um brilho que nunca antes vira em minha vida, em posição ereta, sem mexer um único músculo, parecendo-se incrivelmente com a figura de Cristo.

Fiquei meio paralisado, olhando-o, sem articular uma única palavra. Assim permanecemos nessa atitude os dois por algum tempo.

Quando umas freiras o levaram para uma casa de idosos, em Ribeirão da Ilha (na qual, como soube depois, não chegou a se alojar), deixando de ocupar uma pequena casa que lhe fiz nos fundos da em que morava, deixou-me a bíblia de presente, com os dizeres: “para o irmão Hamilton, com o abraço do Cantalício”.

A última notícia que soube dele é que está internado no Orianópolis (uma organização assistencial em São José).

Foi-me um golpe grande quando Cantalício sumiu da paisagem de Cacupé. Era ao mesmo tempo um santo e um amigo.

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