Atenção: alguém bate palmas no portão – por alceu sperança / cascavel.pr

Mesmo os mais ferrenhos inimigos de Darwin tremeram nas bases quando morreu o macaquinho no Parque Ecológico. A paranóia da febre amarela evidenciou comportamentos contraditórios mas muito humanos, como a corrida aos postos de saúde para vacinação, mesmo que durante meses a fio os agentes de saúde tenham ido de casa em casa avisar e deixarfolheto exortando para a vacinação no posto de saúde mais próximo.

Passado o primeiro terror, veio o departamento das culpas: é do prefeito? É do mosquito? É da falta de vacina no posto? Deve ser do vizinho que deixa o pneu com água, do desafeto, da sogra. Mas essas são, talvez, as pequenas culpas. A grande culpa mora fora do alcance imediato de nossos brados e braços.

O biólogo francês Luc Montagnier, do Instituto Pasteur, de Paris, que em 1983 identificou o vírus causador da Aids, avisou o que virá depois dela: os políticos que tanto criticamos se tornarão apenas joguetes manipulados por oligarquias econômicas crescentemente maiores, com um poder muito superior ao deles. Essas oligarquias tendem a aprofundar o descontrole sobre as modificações ambientais.

Além de sermos um enorme fazendão, lotado de peões de gravata ou pé descalço a serviço de tais interesses, todos tossem e se envenenam com a produção de alimentos industrializados sobre os quais o consumidor não tem o menor controle.

Está aí à vista uma agropecuária que pensa com amor no animal europeu e com ódio e gana assassina no compatriota sem-terra. E todos sofrem uma poluição química avassaladora que, diz Montagnier, “conduz a desastres de saúde por exposição a produtos carcinogênicos, doenças respiratórias e depressão do sistema imunológico”.

Tal poluição se evidencia pelas dioxinas disseminadas por incineradores de lixo e pela indústria pesada, pesticidas com efeitos cancerígenos, a doença da vaca louca, gripes aviária, suína e vai por aí.

Como resolveremos isso xingando o prefeito, o vizinho ou a sogra? Eles devem ter lá suas culpas, debilidades e omissões, mas essa coisa toda vai continuar, a menos que haja uma radical transformação no plano mundial. Terá que ser radical, sim. Primeiro anticapitalista e em seguida pós-capitalista.

As pessoas são bombardeadas a todo instante por mensagens subliminares segundo as quais não podemos nem há sentido em lutar contra os donos do mundo. O máximo que podemos fazer é agredir o vizinho, xingar o prefeito, brigar com a sogra.

O funâmbulo da TV, o bom-samaritano do rádio, o padre, o pastor, as ongs de todos os tipos, os empresários bonzinhos e sua responsabilidade social nos dizem, ano após ano, década após década, que somos impotentes diante de uma realidade que nos esmaga e tudo que podemos fazer é confiar neles. Como nada resolvem, só restam a indiferença, a desistência, a submissão.

Mas fé cega é faca amolada. A combinação de submissão, que é falta de juízo, com indiferença, que é egoísmo, e desistência, falta de patriotismo, é concordar que os donos do mundo continuem sendo os patrões deste enorme fazendão no qual nossa cidade, nosso Estado e nosso País se transformaram, com a conivência de “democratas”, “trabalhistas”, “verdes”, “socialistas”.

O sofrimento dos nossos concidadãos, se não for mitigado, cedo ou tarde baterá palmas no portão, apertará a campainha da porta ou arrombará nossa janela.

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