Arquivos Diários: 26 maio, 2010

F E I T O U M C Ã O – por jorge lescano / são paulo

Em 30.5.99, conceituado jornal desta polis publicou 18 versões do primeiro período de A Metamorfose, de Franz Kafka. Os autores atendiam assim ao convite do órgão jornalístico. Jota L., por não ser escritor cotado na praça, ficou fora do páreo. Nos autos do espólio, no entanto, foi achado este texto de sua autoria.

“Essa é boa! – exclamou saltando da cama e apressando-se a enfiar as calças -. Que terá acontecido comigo?” – pensou a seguir. Não era um sonho, de fato, suas pernas, lamentavelmente finas, agitavam-se, impotentes, diante de seus olhos. “Que tal se eu dormisse mais um pouco e esquecesse toda esta estupidez?” – continuou a meditar sem se mexer da cama. Aquilo era absolutamente impossível, pois estava acostumado a dormir do lado direito e a situação em que se encontrava, de costas dentro da carapaça abaulada, impedia-o de virar-se para tal posição.

Do seu travesseiro volveu o olhar para a janela. Além da névoa e da chuva nas vidraças, podia observar à senhora idosa do outro lado da rua, que parecia olhá-lo com uma curiosidade fora do comum. Estava sentada muito ereta, com um pequeno chapéu de pele e um boá também de pele; exibia um pesado regalo, no qual o braço estava enfiado até o cotovelo.

Alguém devia tê-lo caluniado, pois em resposta ao seu toque de campainha ao lado da cabeceira, ouviu uma batida e em seguida entrou um homem que nunca vira na casa. Era magro, conquanto bem constituído, e usava um terno preto bem cortado, provido de um cinto e de toda espécie de pregas, bolsos, fivelas e botões, que dava à roupa uma aparência muito prática, embora não se pudesse precisar a verdadeira finalidade daquilo tudo.

“Quem é o senhor?” – soergueu a cabeça no leito. O homem se dirigiu à porta abrindo-a ligeiramente, como para prestar contas a alguém que evidentemente estava por trás dela. “Ele quer saber quem é o senhor?” Como resposta, ouviu-se no aposento contíguo uma gargalhada que soou como se viesse de várias pessoas. Embora o desconhecido não pudesse saber com aquela risada coisa alguma que já não soubesse, disse, como quem joga um livro sobre a mesa: “Não pode sair, está preso!” “É o que parece, mas por quê?” – e em seguida lembrou-se de suas pernas lamentavelmente finas agitando-se impotentes diante de seus olhos.

Tornou a avistar a senhora idosa que, com sua curiosidade senil, mudara de janela, postando-se na que ficava bem em frente para poder observar melhor.

Um dos senhores acabava de agarrá-lo pela garganta, o outro lhe enterrou a faca no coração e a revolveu duas vezes. Com os olhos mortiços, ele ainda viu as duas mulheres na janela escancarada apesar do frio, cada qual com o braço na cintura da outra, rosto contra rosto, vendo o desenlace, e bruscamente a mãe se inclinou para fora o mais possível, atirando os braços para frente enquanto a irmã afundava o rosto nas mãos.

A revista posterior do quarto denunciou a presença do livro sobre a escrivaninha; na página de rosto, liam-se as seguintes palavras:

“Quando o ungeheueres Ungeziefer acordou, ele ainda estava ali. Este, vendo que aquele movimentava seu ventre dividido em nítidas ondulações horizontais procurando a posição lateral, escapuliu-se, deixando uma pequena abertura pela qual se esgueirou para dentro o homem que ele nunca vira mais gordo.

“Vejamos – disse este para seus botões, fivelas, bolsos, pregas e cinto – Essa é boa!, onde está ele?”.

DA SÉRIE PALAVRÕES – por ewaldo schleder / ilha de santa catarina

Vidal, dia desses você me disse para ler no seu blog um processo de posts motivado pelo uso discutível de uma palavra, só uma: um anglicismo (outrora) escatológico. Coisa que teve um primeiro momento ainda em janeiro deste 2010 e voltou a se manifestar em maio agora. Fiz o que você disse, pois li sim. E mais: fui buscar o significado da palavra. E achei. Está lá, no meu dicionário web (http://www.dicionarioweb.com.br). Bursite significa um processo inflamatório das bolsas serosas. Não confundir com artrite nem com artrose ou qualquer outra arte – seja rite ou seja rose. Dentre suas causas destaca-se o uso excessivo de articulações e de movimentos repetitivos. Não especifica quais tipos de articulações; se políticas, sociais, culturais, empresariais ou apenas de mídia. Quanto às repetições, estas podem ser quaisquer delas, desde que associadas a esforço físico, mínimo que seja, todavia sempre mono-direcionado, constante e intenso. Burshit é uma enfermidade que cheira mal; contudo, por sua condição orgânica, conspira aliada ao próprio tempo: células mortas e células vivas interagindo, carregadas de metamorfose. Não vou dizer aqui merdamorfose. Incidiria assim num neologismo chulo. O assunto é(?) sério. Especulo se Bullsite resulta de um ataque de pitbull. Ou são páginas, portais, sites sobre acidentes em corridas de touros, farras do boi? Bem, essas já seriam propriamente amostras notórias de bullshit. Em todos os casos, há tratamento e tantas vezes cura. No entanto, recomenda-se dias de descanso para juntas afetadas. Se for no calcanhar, mudar de sapato. Se o mal atacar cotovelos ou joelhos, trocar de posições, jamais de membros. A lista é longa. Sempre, entretanto, bom para bursite é dar um gelo, envolto em uma toalha entre a bolsa e a pele. Tem mais, muito mais, a ser considerado; a partir de sintomas e localizações. Só sei te dizer, Vidal, que quem já a teve – eu, por exemplo – garante que bursite é uma merda. Acupuntura funciona muito bem. Melhor consultar um médico, especialista.

COISAS de MARIA JOÃO recebe A CORDA EM SI / ilha de santa catarina

Café Pequeno recebe A Corda em Si.
O duo apresenta a interpretação de canções brasileiras a partir de uma instrumentação reduzida: Contrabaixo acústico – Mateus Costa e Voz – Fernanda Rosa.
O diálogo entre esses dois instrumentos acontece no contraponto de duas melodias que descreve o cenário musical presente na poesia das canções, identificando a concepção sonora do duo na sobreposição de melodias sem a necessidade do uso constante de acordes.
Grupo Musical A Corda em Si – Contrabaixo e Voz

O CASO DA CÉLULA SINTÉTICA por hamilton alves / ilha de santa catarina

Ouvi o disparo dos fogos de artifício atirados por ateus conhecidos quando souberam da notícia de que o biólogo americano Craig Venter teria criado a célula sintética, com  o que pretendiam consolidar sua tese da inexistência de Deus. A célula é uma forma de produzir vida – e na opinião de Venter isso prova que a vida não provém de uma potência especial.

Ao mesmo tempo que anunciava o novo engenho no campo da biogenética ou da engenharia genética, reconhecia que tal célula teria que se submeter a certos controles de segurança, sob pena de desencadear doenças e os cientistas (isso ele não disse) perderem o controle de seu mecanismo, como uma nova espécie de dr. Mabuse ou outro monstro semelhante do saber humano, que acha que tem poder para tudo na manipulação do conhecimento.

Mas o dr. David Baltimore, prêmio Nobel de medicina, repôs as coisas em seus devidos lugares, quando declarou que “Venter está superestimando o seu feito. A descoberta tem valor de uma nova técnica científica, mas não tem poder de mudar nada no campo conceitual”.

Ora, diante disso, nota-se que os ateus estão se antecipando no desfrute de seu triunfo de que a vida agora não depende mais de uma força ou de um poder sobrenatural ou de outra qualquer origem, mas o próprio homem poderá, doravante, criá-la com o advento da tal célula sintética.

Diz o comentário de um jornal que “há fronteiras objetivas para aquilo que o homem pode por e dispor num genoma. E isso num ser simplório como Mycoplasma, que nem núcleo celular tem (a bactéria é classificada como organismo procarioto)”. E mais: ”O genoma humano é milhares de vezes maior que a bactéria inventada por Venter”. E ainda: “Está longe o tempo  – se é que algum dia virá – em que a biologia será capaz de sintetizar células para remendar órgãos humanos”.

Em suma, os ateus ouviram cantar o galo mas não sabem onde, como de rotina.

Ainda que a técnica científica avance, como tem avançado admiravelmente, nos últimos tempos, na questão que diz respeito estritamente à produção de vida, ainda creio que seja impossível consegui-la em laboratórios ou seja lá de que  modo for.

A natureza ainda é senhora toda poderosa nesse campo.

Quando o homem tentar mexer nos poderes da natureza, suponho, a reação não tardará.

Não foi sem certo receio que a notícia da descoberta da célula sintética foi anunciada. Um outro  mecanismo seria necessário criar para controlar os seus eventuais efeitos devastadores sobre a vida.

Ainda é muito cedo para os ateus cantarem vitória. Se é que o conseguirão algum dia.