F E I T O U M C Ã O – por jorge lescano / são paulo

Em 30.5.99, conceituado jornal desta polis publicou 18 versões do primeiro período de A Metamorfose, de Franz Kafka. Os autores atendiam assim ao convite do órgão jornalístico. Jota L., por não ser escritor cotado na praça, ficou fora do páreo. Nos autos do espólio, no entanto, foi achado este texto de sua autoria.

“Essa é boa! – exclamou saltando da cama e apressando-se a enfiar as calças -. Que terá acontecido comigo?” – pensou a seguir. Não era um sonho, de fato, suas pernas, lamentavelmente finas, agitavam-se, impotentes, diante de seus olhos. “Que tal se eu dormisse mais um pouco e esquecesse toda esta estupidez?” – continuou a meditar sem se mexer da cama. Aquilo era absolutamente impossível, pois estava acostumado a dormir do lado direito e a situação em que se encontrava, de costas dentro da carapaça abaulada, impedia-o de virar-se para tal posição.

Do seu travesseiro volveu o olhar para a janela. Além da névoa e da chuva nas vidraças, podia observar à senhora idosa do outro lado da rua, que parecia olhá-lo com uma curiosidade fora do comum. Estava sentada muito ereta, com um pequeno chapéu de pele e um boá também de pele; exibia um pesado regalo, no qual o braço estava enfiado até o cotovelo.

Alguém devia tê-lo caluniado, pois em resposta ao seu toque de campainha ao lado da cabeceira, ouviu uma batida e em seguida entrou um homem que nunca vira na casa. Era magro, conquanto bem constituído, e usava um terno preto bem cortado, provido de um cinto e de toda espécie de pregas, bolsos, fivelas e botões, que dava à roupa uma aparência muito prática, embora não se pudesse precisar a verdadeira finalidade daquilo tudo.

“Quem é o senhor?” – soergueu a cabeça no leito. O homem se dirigiu à porta abrindo-a ligeiramente, como para prestar contas a alguém que evidentemente estava por trás dela. “Ele quer saber quem é o senhor?” Como resposta, ouviu-se no aposento contíguo uma gargalhada que soou como se viesse de várias pessoas. Embora o desconhecido não pudesse saber com aquela risada coisa alguma que já não soubesse, disse, como quem joga um livro sobre a mesa: “Não pode sair, está preso!” “É o que parece, mas por quê?” – e em seguida lembrou-se de suas pernas lamentavelmente finas agitando-se impotentes diante de seus olhos.

Tornou a avistar a senhora idosa que, com sua curiosidade senil, mudara de janela, postando-se na que ficava bem em frente para poder observar melhor.

Um dos senhores acabava de agarrá-lo pela garganta, o outro lhe enterrou a faca no coração e a revolveu duas vezes. Com os olhos mortiços, ele ainda viu as duas mulheres na janela escancarada apesar do frio, cada qual com o braço na cintura da outra, rosto contra rosto, vendo o desenlace, e bruscamente a mãe se inclinou para fora o mais possível, atirando os braços para frente enquanto a irmã afundava o rosto nas mãos.

A revista posterior do quarto denunciou a presença do livro sobre a escrivaninha; na página de rosto, liam-se as seguintes palavras:

“Quando o ungeheueres Ungeziefer acordou, ele ainda estava ali. Este, vendo que aquele movimentava seu ventre dividido em nítidas ondulações horizontais procurando a posição lateral, escapuliu-se, deixando uma pequena abertura pela qual se esgueirou para dentro o homem que ele nunca vira mais gordo.

“Vejamos – disse este para seus botões, fivelas, bolsos, pregas e cinto – Essa é boa!, onde está ele?”.

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