Arquivos Diários: 29 maio, 2010

EIS O HOMEM – de marco aurélio campos / porto alegre

I

Brotei do ventre da pampa
Que é Pátria na minha terra
Sou resumo de uma guerra
Que ainda tem importância,
E, diante de tal circunstância,
Segui os clarins farroupilhas
E devorando coxilhas,
Me transformei em distância.

II

Sou do tipo que numa estrada
Só existe quando está só.
Sou muito de barro e pó.
Sou tapera, fui morada.
Sou a velha cruz falquejada
Num cerne de curunilha.
Sou raiz, sol farroupilha,
Renascendo estas manhãs,
Sou o grito dos
tahãs
Voejando sobre as coxilhas.

III

Caminho como quem anda
Na direção de si mesmo.
E de tanto andar a esmo,
Fui de uma a outra banda,
E se a inspiração me comanda,
Da trilha logo me afasto
E até sementes de pasto
Replanto pelas vermelhas
Estradas velhas parelhas,
Ao repisar no meu rastro.

IV

Sou a alma cheia e tão longa,
Onde as saudades rebrotam
Como os caminhos que voltam
Substituindo os espinhos,
E a perda de alguns carinhos
Velhos e antigos afrontes,
Surgiram muitos, aos montes,
Nesta minha vida aragana,
Destas andanças veterana,
De ir descampando horizontes.

V

Sou a briga de touros
No gineceu do rodeio.
Improtério em tombo feio,
Quando o índio cai de estouro.
Sou o ruído que o couro faz,
Ao roçar no capim.
Sou o rin-tim-tim da espora
Em aço templado.
E trago o silêncio guardado,
Do pago dentro de mim.

VI

Fazendo vez de oratório,
Sou cacimba destampada,
De boca aberta, calada,
Como a espera do ofertório.
Como vigia em velório,
Que tem um jeito que é tão seu.
Tem muito de terra… é céu,
Que a gente sente ajoelhando,
De mãos postas levantando
O pago inteiro para Deus.

VII

Sou o sono do cusco amigo,
Dormindo sobre o borralho.
Sou vozerio do trabalho,
Na guerra ou na paz – sou perigo.
Sou lápide de jazigo
Perdido nalgum potreiro.
Sou manha de caborteiro,
Sou voz rouca de cordeona,
Cantando triste e chorona,
Um canto chão brasileiro.

VIII

Sou a graxa da picanha
Na bexiga enfumaçada,
Sou cebo de rinhonada.
Me garantindo a façanha.
Sou voz de campanha,
Que nos lançantes se some.
Sou boi-ta-tá – lobisomem.
Sou a santa ignorância.
Sou o índio sem infância,
Que sem querer ficou homem.

IX

Sou Sepé Tiarajú,
Rio Uruguai, rio-mar azul,
Sou o cruzeiro do sul,
A luz guia do índio cru.
Sou galpão, charla, Sou chirú,
de magalhanicas viagens,
Andejei por mil paisagens,
Sem jamais sofrer sogaço.
Cresci juntando pedaços
De brasileiras coragens.

X

Sou enfim, o sabiá que canta,
Alegre, embora sozinho.
Sou gemido do moinho,
Num tom triste que encanta.
Sou pó que se levanta,
Sou raiz, sou sangue, sou verso.
Sou maior que a história grega.
Eu sou Gaúcho, e me chega
P’rá ser feliz no universo.

MESTIÇA de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

MESTIÇA

Mestiça afronta ao estabelecido.

Mestiço, abro clareiras na mata.

Mestiço, mastigo folhas

amargas.

Mestiço, arremedo macacos no topo

das altas árvores.

Mestiço, um peso

o peso das eras

me puxa pra trás

puxa relança

ao infinito.

Assim

é que também faço

e persisto.

No espaço duma vertigem e outra

embatem forças ocultas. Teu espíritho, meu espíritho, de sóis e luas repartidos, sofrem as vis agressões. É de tempera boa essa ferradura. É de tempera boa essa espada. São de tempera especial, esses golpes milenares em defesa pessoal.

As ogivas da morte, não estouram no meu chão. Não estouram na minha sede, não estouram na minha fome, não estouram na minha persistência de criador.

Acrescente

uma moeda de cobre

um metal qualquer

um adereço

no teu sonho

teu fazer

espectre a lua de frente

e subverta todos os sóis

dos dias seguintes

só pra ver como é

que fica.

Vem pelos séculos

nosso olhar

transternecido

nosso ver

crer, transfigurar

os transfinitos

almas perpassando

objetos.

Descalabro

do pensar

beligerante, eclético

trúnfico e imperial

a palavra vindo

e destruindo os sóis

arremessados de lado

e a voz fosforeando

céu acima na escuridão.

O fósforo

de tuas palavras

acende

iracriadora

no meu

coração.

A iracriadora

repercute no sempre

de todas as épocas

porque é voz lançada

ao infinito

transdiz o indizível

e revela os espaços

ocultos do orbe

em transe

de altosonhar.

Existe

o baixo sonhar

e sempre andei ali

escaravelhando

pós ardidos

de contigo, reergui

o gesto, a voz

o ímpeto e agora laboro

magmas alternados

de beleza e furor

explícitos zêlos

atônitas investidas

nos fatos.

Espírithos invictos no labor dos livros me desafiam

:golpes baixos no dizer:

agridem por mero deleite

a voz que poéticocircunda o entrelivros e delibera e torce as coisas de razão desrazão.

Comigo é assim despachado o despacho do dizer nos pacotes endereçados pra alguém no futuro que pouco ou nada me diz.

Na luta de facas, tu vinhas e eu me defendia com golpes marciais

as facas lampiavam na escuridão dos muquiviras e eu me defendia defendia. As lâminas finas, cromadas lampiavam na escuridão dos muquiviras e eu me defendia

defendia.

Em poeta e anjo e semioticista eu lançava mão de signos espérios ágeis no gatilho e mesmo assim tu te chegavas ostensivo, lampiando as facas afiadas no meu brilho.

Acrescente um punhado de feijão no prato, um punhado de arroz e um ovo frito fenomenal. Sacias a tua fome. Um poema como esse prato cheio, interfere em outras espheras. Interfere

educa o trauseunte peregrino. Um signo vive dum prato feito. Um signo, um homem, um centauro, um ente libertino. Dum prato feito a nossa fome. Dum prato feito, a nossa ira santa. Dum prato feito, o nosso amor. Dum prato feito, a imagem da musa crescida de sóis insuspeitos. Em poeta e centauro e ente reciclínio não me deixo abater pela cantilena negra do baixo espíritho. Uma proeza, a voz que poéticocircunda nossas ações de inventor

criador, filósofo pré promaduro, no caminho de todos os caminhos.

Luas e luas, sóis e sóis espelhos nos espelhos

linhas de pensar o impensado, tresandos de verbos novos fazendo pecado. Em poeta, me tentam imagens lindas. Me tentam, conceitos complexos, construções do alto espíritho. Mitigo

a dor maior, mitigo a ilusão esplêndida que dói

frente ao objetário vida.