Arquivos Diários: 30 maio, 2010

O TEÓLOGO de hamilton alves / santa catarina

Estava numa confeitaria, quando entrou porta a dentro um sujeito alto, camisa branca de mangas compridas, calças seguras por um suspensório, que fazia um “V” às costas, sapatos pretos de longo uso. Era corpulento, sem pressa, calculando os passos dados, buscando com o olhar um lugar vago (o recinto estava repleto). Tinha ralos cabelos brancos, uma calva bem acentuada no cocoruto.

Pôs os olhos na minha mesa, onde havia uma cadeira vaga.

Pediu-me licença, até por sugestão do garçon ali se alojou. Vi o momento em que baixou todo seu peso à cadeira, que o recebeu de forma que me pareceu um pouco desconfortável.

Olhou de um lado e outro. Fitou-me com seus olhos pouco definidos atrás de uns óculos de lentes muito grossas, como que me examinando e, de certo, se perguntando:

– Quem será esse gajo?

Seu olhar, sob têmporas espessas, era simpático, como disposto a confraternizar com qualquer pessoa. Embora mantivesse uma cara fechada. De nariz rubicundo, o rosto formava um triângulo, cuja base se situava à testa e o vértice no queixo.

Enquanto esperava ser servido – e isso demorou além de sua expectativa, esfregava uma mão à outra, como quem esperasse o desenlace de qualquer coisa ou o início de um contato humano.

O contato imediato só poderia ser comigo.

Grunhiu qualquer coisa consigo mesmo, como se reclamasse do pouco conforto da cadeira.

– O assento poderrria serrr maisss larrrgo. Vejo-me mal inssstalado. – disse.

Sua fala revelou ser de origem francesa ou, no mínimo, inglesa.

– De um modo geral não gosto de nada nessa confeitaria. – disse-lhe.

Aos poucos, tateando, avançávamos para um diálogo mais fecundo.

– O senhor é professor?

– Como adivinhaarrr? (arrastou nos “erres”).

– Sua aparência o indica claramente.

– Ó, minha pobre aparrrência!…

– Que leciona?

– Teologia.

– É uma ciência que me interessa muito.

Fez um ar de bom acolhimento a essas palavras, como se lhe parecesse estranho que a alguém ainda interessasse, em nosso tempo, um tal assunto.

– Não é o que se obserrrva em nossas univerrrsidades. Deus parece não despertar mais o interrrresse de ninguém. Tenho poucosss alunosss no currrrso.

– Como o senhor definiria Deus?

– (tinha essa pergunta engatilhada, mas sem coragem de formulá-la).

– Muito simplesss (chiou)… É o criadorrr de todasss asss coisasss.

– Mas hoje parece que essa ideia vai perdendo terreno.

– Sim, sabe-se dissssso. O mundo se materrrrializa a olhosss vistosss. Onde o materrrialismo vai nos levarrr?!

O garçon lhe trouxe o lanche.

Não quis molestá-lo com mais perguntas. Pedi-lhe licença e me despedi.

RUMOREJANDO ditados juquianos – por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (De ditados juquianos).

A matemática,

Desenvolve

O raciocínio;

A prática,

Desenvolve

O tirocínio.

(E a globalização

Desenvolve

O morticínio…)

Constatação II

E como dizia aquela mãe extremosa, se referindo ao seu filhinho do coração de 35 anos que vivia dando golpes na praça: “Ele é um pobre de um incompreendido”.

Constatação III (Passível de mal entendido).

Ela colocou os ovos dele na geladeira.

Constatação IV

Sem dúvida, era um mau genro. Quando a sogra entrou numa escola de pára-quedismo, se pôs a distribuir, a torto e a direito, sementes e mudas de roseiras, abacaxi e daquele gênero de cacto bem espinhento…

Constatação V (Interlocutor chato).

A conversa

Converge,

Tergiversa,

Submerge…

Constatação VI

Rico aborda educadamente; pobre, baixa intempestivamente.

Constatação VII

Não se deve confundir despontar com desapontar, até porque, ao despontar a sogra no portão da sua casa você não deixa de sedesapontar.

Constatação VIII

Não se deve confundir preterido com preferido, muito embora, às vezes, o preferido é preterido como naquela história, que vocês tão bem conhecem – embora, ainda, não tenha passado na televisão –, do filho pródigo que volta à casa paterna e o pai manda servi-lo do bom e do melhor, coisa que para o preferido nunca havia sido feito.

Constatação IX

Rico negaceia; pobre, tira o corpo fora.

Constatação X

Impretérito perfeito não tem nada a ver com pretérito imperfeito, até porque impréterito não existe.

Constatação XI

Quebrou a munheca*.

Quando, pelos amigos largado,

Em casa entrou,

Todo cambaleante, torto,

Menos vivo que morto,

Que meleca !

De susto, quase expirou:

A mulher, no começo tão amada,

Tinha se mandado.

Não mais agüentou

O que se tornou

Uma empreitada…

Coitada!

Coitado!

*Quebrar a munheca = Embriagar-se.

Constatação XII

Pobre vende a alma; rico, faz concessões.

Constatação XIII

O rei estava nu. Claro, ele estava se preparando para entrar no banho.

Constatação XIV

Deu na mídia: “A Confederação Nacional da Indústria – CNI, em documento entregue aos presidenciáveis, citou que o país pode ter renda per capita de ricos até 2040”. Vai-se a esperança deste assim chamado escriba de fazer parte dos ricos, tendo em vista a sua – minha – provecta idade. E já que falamos sobre o assunto, a CNI nada falou quanto à distribuição de renda que em nosso país sempre foi a pior do mundo.

Constatação XV (Teoria da Relatividade para principiantes).

É muito melhor que baixem as ações na Bolsa de Valores do que a tua frágil libido. No entanto, dependendo do número de ações que você tenha, baixando estas, o fato poderá ocasionar a baixa daquelas…

Constatação XVI

Do meu Amigo o psicanalista Davy Bogomoletz: “Minha aplicação da Lei de Newton ao problema econômico: O dinheiro atrai o dinheiro na razão direta das quantias e na razão inversa do quadrado da necessidade!”

Constatação XVII

O  técnico da Argentina fez a seguinte afirmação: ‘Se  a Argentina ganhar a Copa do Mundo, eu fico nu no Obelisco em Buenos Aires’. Data vênia, como diriam os nossos juristas e provavelmente os juristas dos  nossos hermanos, mas Rumorejando acha que  tal visão viria a empanar a alegria dos argentinos e, principalmente, das  argentinas. Pra quem não se interessa por futebol, somente pela referida soturna visão de Maradona pelado.

DÚVIDAS CRUCIAIS.

Dúvida I

E quem diria que a palavra fomentar, que quer dizer “promover o desenvolvimento, o progresso de”, também quer dizer “lixar-se; danar-se” ? (Houaiss)

Dúvida II

Foi o cético que passou a não acreditar até nas suas próprias palavras ?

Dúvida III (Via pseudo-haicai).

No bate, rebate

Até o gandula

Entrou no embate ?

Dúvida IV

Intercâmbio é quando os gaúchos trocam de time, passando do Grêmio para o Internacional ?

Dúvida V (Via pseudo-haicai).

Só naquele instante,

O ancião achou viagra

Interessante ?

Dúvida VI

Fugiram da casamata,

Do xilindró,

Usando só

Um abridor de lata ?

Dúvida VII

A expressão “cunhada” foi cunhada pela sua cunhada ou pela cunhada da sua cunhada ?

Dúvida VIII

Será que sem embreagem

E com o freio de mão puxado

Aumenta o teor de frenagem

Do perdulário

Das finanças, o secretário

Do vosso estado ?

Dúvida IX

O prezado leitor está em dúvida em quem votar ou em quem não votar nestas próximas eleições?

Dúvida X

E o prezado leitor também está apavorado com a seleção do Dunga?

FÁBULA CONFABULADA (INDIGNA DO MILLÔR).

Numa província chinesa, daquelas que muitos chamariam “bem no interiorzão”, vivia uma população pacata e ordeira como corresponde a quem vive nesses lugares. Trabalhavam a terra para de ela tirar o seu sustento, que no Ocidente se chama de cultura de subsistência, naturalmente estando expostos às condições climáticas para obter uma melhor ou pior safra, já que irrigação que é bom, nem pensar. Evidentemente havia também artesãos, pequenos comerciantes, um ou outro profissional liberal, mas efetivamente, a maioria se ocupava da terra.

O fim de semana, limitado apenas ao Domingo, era dedicado ao futebol, esporte que estava começando a se tornar muito popular, a exemplo de tantos outros países, principalmente do Ocidente. À medida que o esporte se difundia no país, também na província ganhava, cada vez mais, status. A evolução foi tamanha que se formou o time do lugar que disputava partidas amistosas com as províncias vizinhas, quando então se verificava que não eram tão amistosas assim, já que, muitas vezes, acabava em pancadaria, com envolvimento de jogadores, torcedores e outros “ores”, como, vejam só, quem diria, doutores. Sem deixar, é claro, de sobrar para o juiz, como é muito comum nesses casos suceder também no Ocidente. Mas, tudo isso, já é outra história.

A coisa começou a se tornar tão apaixonante, como soe acontecer com este esporte, que resolveram importar um técnico para treinar a equipe, procurando trazer de um país, chamado Brasil, que ficava do outro lado do mundo e que era considerado pela sua própria população, como “o melhor do mundo”, muito embora não tivesse sido campeão numa certa copa, perdendo de goleada de um país que, até então, sempre havia se destacado pelos seus vinhos e queijos e que tinha a fama de viver para comer ao invés de comer para viver, conforme, quem possui o dom da observação, depara algo similar em todo o reino animal. Bem, naturalmente, tudo isso de “gourmet” ou “gourmant”, não deve ser confundido, pois se trata de outra história que, pelo menos por ora, não vem absolutamente ao caso.

Mas, voltemos ao assunto, procurando se dispersar o menos possível: O primeiro técnico cogitado, que ao longo de toda sua carreira havia se mostrado supersticioso, invocando sempre o número 13, foi descartado pelo fato de haverem chegado a conclusão de que, se mandinga desse resultado, os campeonatos lá no Brasil terminariam com todos os times juntos em primeiro lugar. Ou em último, dependendo da pessoa, que estivesse analisando a colocação dos times, fosse otimista ou pessimista; o segundo técnico lembrado, também foi descartado por haver feito referência ao seu próprio bumbum, alegando ser feio e, com isso, não se propondo a posar nu para revistas especializadas. Julgaram que era uma espécie de marketing ao revés, pois achavam que o retro estava, ao não enaltecer essa sua parte pudenda, exatamente querendo chamar atenção sobre ela, o que não lhes parecia muito ético.

No fim, acabaram optando pela prata da casa, escolhendo o melhor jogador do time para ser o técnico. Aí, como não poderia deixar de ser, verificou-se a famosa Lei de Peter que diz que todo sujeito ascende numa escala hierárquica até atingir o seu nível de incompetência.

De cara, Rah Teh Ven, esse era o seu nome, começou a sugerir que o time jogasse sem se prender a esquemas rígidos. Até aqui, tudo bem. O time, assim, perdia e ganhava ou ganhava e perdia, dependendo se seja otimista ou pessimista. Mais tarde, Rah Teh Ven começou a fazer experiências, baseado em fórmulas de retrancas, copiadas de alguns técnicos brasileiros, que segundo os entendidos, são os mais entendidos no intrincado assunto: volantes atrasados, volantes adiantados, meio de campo com quatro apoiadores, três, sem nenhum, zagueiros líberos, zagueiros híbridos, zagueiros promovidos a beques, beques promovidos a zagueiros, uma barafunda total. O time, como diriam os entendidos, não os acima mencionados, mas os comentaristas esportivos, que parecem, por seus comentários, ser mais entendidos do que os outros entendidos, os técnicos, nunca mais fez as pazes com a vitória. Era derrota em cima de derrota. Rah Teh Ven, de ídolo como jogador, teve, como técnico, até de se mudar para outra província. Lá, constitui família e aos filhos proibiu, patriarcalmente, que se falasse em futebol para todo o sempre. O que, é claro, provocou muitos ressentimentos na família. O que, convenhamos, comumente acontece na maioria delas. Principalmente quando o assunto é herança. Mas, isso, já vem a se constituir numa outra história.

MORAL: Não se mexe em time que está ganhando e perdendo.

AS RUÍNAS DA CRISE e o SONHO QUE RESSURGE – por alceu sperança / cascavel.pr


Uma espécie de Oscar Niemeyer da Geografia, o professor Milton Santos (1926–2001) foi um dos grandes brasileiros do século XX. Seu pensamento é, ao mesmo tempo, luz e frescor para orientar os patriotas que ainda teimam em sonhar com um País justo e uma humanidade feliz, apesar do luliberalismo aqui dentro e do neoescravismo financeirizado que domina o planeta.

Nos seus últimos dias sobre a Terra, nosso grande geógrafo alegava que mesmo em meio a toda essa bagunça mundial está surgindo um novo mundo. Para ele, ao contrário do que tanto se disse, a história universal não acabou: “Ela apenas começa”.

De onde, diabos, Santos tirou esse novo mundo cuja história só começou?

Antes, o que havia era uma história de lugares, regiões, países, sustentava Santos. As histórias podiam ser, no máximo, continentais, em função dos impérios que se estabeleceram em uma escala mais ampla.

A história universal era só a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes. O mundo era formado de frações separadas ou escassamente relacionadas do planeta.

“Somente agora a humanidade faz sua entrada na cena histórica como um bloco, entradarevolucionária, graças à interdependência das economias, dos governos, dos lugares”.

Diante disso, o movimento do mundo conhece uma só pulsação, ainda que as condições sejam diversas segundo continentes, países, lugares, valorizados pela sua forma de participação na produção dessa nova história.

A mesma materialidade atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso será uma condição para a construção de um mundo mais humano, bastando que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana.

Claro que o avanço da ciência e da técnica está agora apropriado pela máquina injusta do capitalismo, mas, segundo Santos, “quando sua utilização for democratizada, essas técnicas doces estarão a serviço do homem”. De resto, há ainda a mutação do homem biológico, por conta dos progressos e das promessas da engenharia genética.

Temos, assim, que os avanços da ciência e da técnica serão apropriados pela humanidade numa progressão pós-capitalista, apropriação feita por um homem que não será o atual, mas um novo homem, que reconstruirá a si mesmo como uma nova espécie sobre a Terra.

Se ainda ontem não havia CD e hoje ele já está quase obsoleto, nada do que usamos agora, coisa alguma de toda a parafernália que consideramos evoluída terá qualquer utilidade dentro de alguns poucos anos.

As mudanças no mundo material e na vida humana estarão a cavaleiro de transformações agudas na sociedade, na economia, na cultura e na espiritualidade.

A correspondente mutação filosófica do homem será, na visão de Milton Santos, “capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa e também do planeta”, pois “nesse emaranhado de técnicas dentro do qual estamos vivendo, o homem descobre suas novas forças”.

Isso também dá em uma nova política, bem diferente desse mar de egoísmo e safadeza que aí está, com candidatos arrogantes se julgando melhores que os outros, igualmente arrogantes e personalistas, arremedos desumanos encarnando práticas vis e criminosas.

“Ousamos, desse modo, pensar que a história do homem sobre a Terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória” – esta, a maravilhosa sentença que Milton Santos nos deixou em seus últimos instantes de vida.