O TEÓLOGO de hamilton alves / santa catarina

Estava numa confeitaria, quando entrou porta a dentro um sujeito alto, camisa branca de mangas compridas, calças seguras por um suspensório, que fazia um “V” às costas, sapatos pretos de longo uso. Era corpulento, sem pressa, calculando os passos dados, buscando com o olhar um lugar vago (o recinto estava repleto). Tinha ralos cabelos brancos, uma calva bem acentuada no cocoruto.

Pôs os olhos na minha mesa, onde havia uma cadeira vaga.

Pediu-me licença, até por sugestão do garçon ali se alojou. Vi o momento em que baixou todo seu peso à cadeira, que o recebeu de forma que me pareceu um pouco desconfortável.

Olhou de um lado e outro. Fitou-me com seus olhos pouco definidos atrás de uns óculos de lentes muito grossas, como que me examinando e, de certo, se perguntando:

– Quem será esse gajo?

Seu olhar, sob têmporas espessas, era simpático, como disposto a confraternizar com qualquer pessoa. Embora mantivesse uma cara fechada. De nariz rubicundo, o rosto formava um triângulo, cuja base se situava à testa e o vértice no queixo.

Enquanto esperava ser servido – e isso demorou além de sua expectativa, esfregava uma mão à outra, como quem esperasse o desenlace de qualquer coisa ou o início de um contato humano.

O contato imediato só poderia ser comigo.

Grunhiu qualquer coisa consigo mesmo, como se reclamasse do pouco conforto da cadeira.

– O assento poderrria serrr maisss larrrgo. Vejo-me mal inssstalado. – disse.

Sua fala revelou ser de origem francesa ou, no mínimo, inglesa.

– De um modo geral não gosto de nada nessa confeitaria. – disse-lhe.

Aos poucos, tateando, avançávamos para um diálogo mais fecundo.

– O senhor é professor?

– Como adivinhaarrr? (arrastou nos “erres”).

– Sua aparência o indica claramente.

– Ó, minha pobre aparrrência!…

– Que leciona?

– Teologia.

– É uma ciência que me interessa muito.

Fez um ar de bom acolhimento a essas palavras, como se lhe parecesse estranho que a alguém ainda interessasse, em nosso tempo, um tal assunto.

– Não é o que se obserrrva em nossas univerrrsidades. Deus parece não despertar mais o interrrresse de ninguém. Tenho poucosss alunosss no currrrso.

– Como o senhor definiria Deus?

– (tinha essa pergunta engatilhada, mas sem coragem de formulá-la).

– Muito simplesss (chiou)… É o criadorrr de todasss asss coisasss.

– Mas hoje parece que essa ideia vai perdendo terreno.

– Sim, sabe-se dissssso. O mundo se materrrrializa a olhosss vistosss. Onde o materrrialismo vai nos levarrr?!

O garçon lhe trouxe o lanche.

Não quis molestá-lo com mais perguntas. Pedi-lhe licença e me despedi.

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