Arquivos Mensais: junho \30\UTC 2010

CAMPO MINADO de zuleika dos reis / são paulo



Estilhaços do teu silêncio

me atingem em cheio.

Tua dor meu campo minado.

Tua voz aranha e teia

no espaço intangível.

Calo o que jamais saberemos.

A manhã conjunto de cheiros

a criar formas dentro das panelas

colheres de pau a mexerem o dia

e o que não seremos à noite

quando o dia estiver consumado

e consumido.

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O POETA MANOEL de ANDRADE concede entrevista para a Rádio UNESP FM

oscar dambrosio entrevista manoel de andrade para  o programa PERFIL LITERÁRIO da rádio UNESP FM  (UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA).

ESCUTE AQUI.


ENÓLOGO de marilda confortin / curitiba


Muito sabes sobre colheitas

e  as tenras uvas eleitas.

Mas acaso sabes dos estios,

da sede da terra cansada,

do desperdício dos cios,

das sementes abortadas?

Ah! meu deus grego… o que sabes?

Segredos de vinho, são sagrados.

Guarde-os em porões fechados.

Aproveite e esconda também os meus.

Os das castas, das profanas, dos ateus.

Junte aos dos amantes, desesperados.

Tranque-os com carinho e cadeado.

Segredos escapam nas noites escuras,

convém reforçar as portas, as fechaduras.

Já os medos, entram por todos os buracos,

crescem, moram dentro da gente

tornam-se monstros, nos deixam fracos.

Diante deles, somos frágeis, impotentes.

Bebe teu vinho sozinho, mortal!

Sou Ariadne, esposa infiel.

Vivo no plano dos humanos

onde moram os sonhos e as orgias,

os desejos mais ardentes, profanos

e as mais estranhas heresias.

Teus vinhos precisam de porões,

minhas videiras, de clarões.

Meus opostos se intercalam

entre suavidade e  secura.

Meus azedos, dos doces falam.

Minha mentira é a verdade pura.

Lucrécia e Beatriz – por barbosa lessa / porto alegre

Depois de um período de digressão versando sobre conceitos da Sociedade e Cultura, volto hoje à temática que me foi inicialmente proposta: Imagens do Passado. E faço-o recuando três séculos, chegando a um tempo em que ainda não havia o Rio Grande do Sul. Havia apenas esparsas tribos de carijós – pescando à beira-mar –, guaranis – plantando mandioca e milho – e minuanos – caçando bois espraiados das estâncias dos jesuítas das Missões. Pelo oceano não podiam arribar navios ibéricos, por causa da saída da Lagoa dos Patos ainda atulhada de areias movediças e com fama de “barra diabólica”. Marcos históricos daquela época foram o Tratado de Saragoça – tentando definir limites entre as possessões de Espanha e Portugal –, e a criação do Bispado do Rio de Janeiro e – em território hoje uruguaio, defronte à cidadela hispânica de Buenos Aires – a fundação da lusitana Colônia do Sacramento.

Então, obedecendo a ordens da Corte de Lisboa, o governador da Capitania de São Paulo estabeleceu no desabitado litoral catarinense, uma aldeia que valeria como posto avançado na desejada conquista das terras do Sul: Santo Antônio dos Anjos de Laguna. De São Vicente, Paranaguá, Guaratinguetá e outras vilas da Capitania descem para ali os primeiros povoadores, logo acrescidos de emigrados da Madeira e outras ilhas lusitanas. Homens e mulheres atirados ao isolamento de um verdadeiro fim-de-mundo, mas com a chama da esperança a lhes animar o coração..

Dentre tais pioneiros, uma senhora de Guaratinguetá, pertencente à linhagem dos Lemes paulistas: Dona Lucrécia Leme Barbosa. Casada com o madeirense Jerônimo de Ornellas e mãe de três pequerruchas: Fabiana, Rita e Antônia. Em Laguna, ela dá à luz uma quarta menina: Maria. E vê chegar, para lhe fazer valiosa companhia, sua irmã mais moça, Dona Beatriz, há pouco tempo casada com o jovem português Dionísio Mendes e, por enquanto, ainda sem cria nenhuma.

De Laguna parte uma temerária expedição, da qual faz parte Dionísio, e consegue abrir uma primeira rota – sob o comando de João de Magalhães – até a Colônia de Sacramento. Ele volta contando maravilhas acerca das verdes planícies, sem fim, que seus olhos haviam contemplado durante a longa jornada.

Mas o interesse do Rei vai além desse mero palmilhar de desertos: ele quer ver gente estanciando, estacionando, plantando casa, fincando raízes, criando famílias e riquezas. Quem efetivamente comprovar ter tomado posse da terra, povoando-a, então receberá por recompensa o respectivo título de propriedade ou “carta de sesmaria”.

Então Jerônimo de Ornellas, mais o concunhdo Dionísio Mendes e um companheiro de nome Sebastião Chaves, partem para o Sul, com suas famílias, e terminam assentando casa e fazenda à bonita beira do Guaíba. Um acidente geográfico ficou para sempre lembrando o nome do marido de Beatriz: Ponta do Dionísio. E o ancoradouro que por ali se fez foi inicialmente chamado de Porto do Dornelles – corruptela de D’Ornellas – até ser denominado Porto de Viamão e, por fim, Porto Alegre.

Nenhum topônimo, porém, para recordar Lucrécia ou Beatriz. Admiráveis mães, admiráveis esposas, admiráveis donas-de-casa. Heroínas da solidão. Guardiãs da indefinida fronteira. Daí a pouco, inabaláveis companheiras das filhas e netas na expansão do território lusitano e na formação do Continente do Rio Grande. Na próxima crônica vamos acompanhar seus passos e logo entenderemos porque mereceriam ser lembradas e louvadas como estampas da Coragem, da Perseverança e do Amor.

O ÚLTIMO SALTO por bruna luizi coletti / santa catarina

Ela fechou os olhos e ergueu os braços para o céu cinza, esperando a chuva chegar. Ficou daquele jeito por exatamente 3 minutos até sentir a primeira gota, e sorriu. Continuou sorrindo enquanto as gotas finas engrossavam, ensopando os cachos leves de seu cabelo e seu vestido azul. Tentou abrir os olhos, mas as gotas de chuva escorriam pelo seu rosto e caiam salgadas nos olhos, fazendo arder. Abaixou os braços para limpar o sal das gotas. Quando abriu os olhos, parecia que o céu tinha decido até ali junto com a chuva. Olhou pra baixo e fitou as ondas agitadas. Ela também estava agitada. Era tudo cinza e pesado a sua volta. O céu estava cinza e pesado, a chuva começava a ficar pesada, assim como seus cabelos encharcados e seu vestido azul. Pensou ter ouvido alguém gritar seu nome na tempestade, mas sabia que não. Ninguém poderia ter seguido ela até ali. Aspirou o ar bem fundo até inundar seus pulmões de ar. O cheiro da água salgada e chuva era delicioso. Soltou o ar e aspirou novamente. Ia sentir falta do cheiro salobre de mar. Soltou e aspirou mais uma vez, na esperança de prender aquele cheiro lá dentro.


Ouviu seu nome no vento mais uma vez. Não era sua imaginação. Olhou para trás e viu um borrão de luz em meio a torrente de água que caia do céu. Talvez alguém a tivesse seguido. O vento rugia em seus ouvidos, e a confusão de sons era grande.

Aspirou uma última vez, o máximo que pode, e saltou. Foi contra o impulso de fechar os olhos. Queria assistir os 20 metros da queda.

Segurou as barras do vestido que teimavam em subir com o vento.

A pele ficou dormente quando mergulhou nas águas geladas do oceano. Pelo frio e pela força do impacto. Com o choque acabou aspirando muita água salgada que ardeu na garganta. Já não via muita coisa lá em baixo. A água espumava ao seu redor, e os olhos também ardiam. No último segundo sentiu medo. Quis nadar de volta à superfície, quis viver.

Uma onda desavisada a arremessou contra o penhasco, e ela não viu mais nada.

Em questão de segundos a chuva lá em cima cessou, o ventou parou de rugir e as ondas se acalmaram. A natureza do penhasco fez seu minuto de silencio.

Lá de cima se via apenas o vestido azul entre as ondas vermelhas de sangue.

Então o vento voltou a soprar e as ondas se agitaram novamente. E as nuvens cinzas de chuva se distraíram por apenas um segundo, quando o sol aproveitou para lançar um raio de luz para iluminar as lágrimas de quem fora deixado para trás.

CONFISSÕES DE UM POETA – por hamilton alves / ilha de santa catarina

Num encontro recente que tive com um poeta (não vou lhe revelar o nome, caso contrário teria chiliques quando de novo me encontrasse, tal a forma anônima com que quer revestir a edição de um livro de poesia), disse-me ele que não fará lançamento, detesta fazê-lo, não suporta noites, tardes ou manhãs de autógrafos, aquelas dedicatórias imbecis, sem pé nem cabeça e, sobretudo, insinceras.

Melhor para ele será colocar o livro em livrarias, bancas de jornais ou lugares similares, ao alcance de qualquer interessado, ainda que comercialmente esse processo não seja o mais indicado em qualquer sentido, pois é certo que,  tratando-se do gênero poesia, estará fadado ao mais rotundo fracasso, sabedor de ante-mão que, em nosso tempo, poesia é uma velharia, que poucos ou raros ainda se interessam por isso.

Além de tudo, não tem a menor vocação para marqueteiro.

Quem quiser ter o livro (são só duzentos exemplares, de tal maneira que quem não o adquirir, se o livro for bom ou contiver bons poemas ou seja de boa qualidade, estará jogando fora uma chance de possuir uma coisa que poderá se transformar numa obra rara ou até mesmo numa relíquia, que, dentro de alguns anos, poderá ser dessas jóias bibliográficas pela qual os alfarrabistas andam à cata em toda o parte) – quem quiser tê-lo, muito que bem; quem não quiser, pouco se lhe dá. Outros poetas fracassaram de muito mais nome do que ele, que não tem nenhum, ilustre desconhecido que é.

– O que é então que o move a publicá-lo ou editá-lo? – perguntei-lhe sem entender muito bem suas nobres intenções.

– Para lhe ser franco, nem sei como explicá-lo.

– Quer dizer, no fundo, que procura de propósito o fracasso?

– Não, de forma alguma; simplesmente, não me esforçarei ou não darei um passo para promovê-lo. Pretendo  que meu livro (ou meus poemas) sejam lidos por pessoas que gostem (ou amem) a poesia. Não adianta nada pretender que um tal livro caia nas mãos de quem não aprecie de poesia. Ou, no menos, seja jejuno em poesia.

Quando pronunciou tais palavras, sairam-lhe perdigotos pelos cantos da boca, que a essa altura espumava com abundância.

– Quer dar então uma de Salinger?

– Ainda que admire muito a luta que Salinger travou contra os instrumentos de comunicação de massa para torná-lo uma vedete internacional (que acabou sendo mesmo sem o desejar), estou longe de pretender imitá-lo.

– O que pretende então? Não o entendo.

– Não procure me entender. Também não me entendo.

O poeta entrou num fusca mais encarquilhado do que ele, que beirava os oitenta anos, e abanou-me a mão sem mais palavras. Sem sequer me revelar o título de seu livro. Ou o editor que o lançará no mercado.

Lá vem Satã – por alceu sperança / cascavel.pr

A crise devora os EUA. Pessoas entregam as casas em que residem. Aumenta o desemprego. As cadeias lotam. Há trabalho escravo. A assistência de saúde vai se precarizando tanto que o povo implora por uma “CPMF” para custear a saúde pública. Na Europa, toda a velha arenga social-democrata deu no mais descarado neoliberalismo, com perda sistemática de direitos, discriminação e racismo.

É um mundo que desaba, pois não há como um só ser humano que respeite a própria humanidade se satisfazer com a chamada “crise imobiliária” dos EUA e seu evidente respingo no resto do mundo ou a reversão de expectativas na Europa.

Toda malandragem da “Guerra Fria” e o discurso sobre liberdade e welfare state esbarram agora na miséria e a falência a rondar empresas, que fogem apressadamente dos EUA, desmentindo o tal patriotismo, orgulho máximo de Tio Sam, que abomina a paz e anseia pela guerra.

Desabando, caindo pelas tabelas, mesmo assim empinam seus narizes arrogantes e partem para uma nova agressão aos povos da América Latina, impondo a criminalização, ou satanização, dos movimentos sociais.

Se não é a bendita Pastoral da Terra, há muito já teriam espalhado via rádio e TV que os pobres brasileiros que reclamam educação e saúde são todos endemoniados, candidatos ao exorcismo da eliminação física, com desqualificação moral e extração de direitos e possibilidades.

Onde houver uma organização popular que desmascare os discursos do tipo Requião com práticas do tipo Pinochet, ela será alvo de uma campanha mais ou menos parecida com aquela movida contra a pobre ilha de Cuba. Fidel Castro é “ditador”, dizem. E ocultam (ou distorcem) o fato de que as eleições cubanas são mais democráticas que nos EUA.

Onde houver pessoas pobres resistindo à máquina de opressão patrocinada por governos locais engabeladores, serão acusadas de “satânicas”. O objetivo, já que a Pátria deles cai aos pedaços, é acabar com a Pátria daqui, extraindo lucros depois de escravizar nosso povo, satanizando as organizações populares.

Com as habituais mentiras, a imprensa neoliberal a seu lado, vão bombardeando os governos populares, ainda que ingênuos e pequeno-burgueses, a irromper por toda a América Latina, abrindo uma nova perspectiva de unidade continental e respeito mútuo entre os países. Fingindo combater o narcotráfico e o terrorismo, tentam controlar a Amazônia, petróleo, águas e atacam tudo o que é do povo ou a seu favor.

É notável o caso da ofendida Foz do Iguaçu: trombetearam pelo mundo afora que estávamos escondendo terroristas debaixo da cama.

Foz deveria exigir em tribunais internacionais ressarcimento pelos prejuízos causados por essa mentira. Uma canalhice com a explícita intenção de formar bases visando papar nossa água guarani e o petróleo bolivariano.

Um mundo está ruindo lá no Norte. Não podemos permitir que, depois de séculos roubando nosso ouro e nos impondo dívidas cruéis, venham criminalizar e satanizar as coisas do povo latino-americano.

Rumorejando (Se a reunião do G20, do G8 ou de qualquer G não fosse inócuo o ponto G nas mulheres já teria sido achado?, perguntando} – por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Hitler deve estar penando ainda mais no inferno ao constatar que o jogador brasileiro afro-descendente Claudemir Jerônimo Barreto, de apelido Cacau, também é jogador da Alemanha. Além de um dos irmãos Boateng.

Constatação II

Não se pode confundir uva com luva, até porque a raposa do mestre Esopo não falou que era a luva que estava verde.

Constatação III

Uma bebida espirituosa

Ele emborcou.

Daí redundou

Que até a sogra era bondosa.

Constatação IV

Rico vive a larga; pobre, largado.

Constatação V (Saudades também da estatal Telepar).

Se você tirar a prova dos nove das privatizações (pedágio, comunicação, energia elétrica, etc.), ocorridas em nosso país, você não prova nada e, com essas taxas que se está pagando, tampouco sobra nada.

Constatação VI (De conselhos úteis).

Se você pretende simular, ao chegar tarde a sua casa, que você estava trabalhando, fazendo um serão brabo, ensaie primeiro, esgotando todas as hipóteses de perguntas que porventura advirão, a fim de não cair em contradições. E claro, certifique-se de que você não vai deixar sinais, marcas, impressões digitais, labiais, imorais, etc. ou quaisquer outras pistas de denúncia ou delação. De nada!

Constatação VII

Rico pula carnaval; pobre, assiste o de Curitiba.

Constatação VIII

Data vênia como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que o jogador Luis Fabiano e o juiz francês que apitou o jogo do Brasil contra a Costa do Marfim são amigos de há muito tempo…

Constatação IX

Depois que a partida terminou o vidente comentou: “Eu não falei pra vocês que íamos ganhar?” E como ninguém chegou a pelo menos menear afirmativamente a cabeça, ele pensou: “Não tem importância a falta de resposta. Falei pra mim mesmo”…

Constatação X (De conselhos úteis. De nada!)

Evite o colesterol,

Tomando vinho,

Mas com moderação;

Evite a hipertensão

Não assistindo o futebol,

Nem por um momento,

Quando teu time ta sozinho

Lá na zona do rebaixamento.

Constatação XI

Paulo Salim Maluf afirmou que a ficha dele é a mais limpa do Brasil. Nessa linha de raciocínio, Rumorejando acha – data vênia, é claro – que a Madre Tereza de Calcutá não merecia ter sido canonizada. Ela tirou o lugar de pessoas mais credenciadas e prioritárias…

Constatação XII

Quando o obcecado convencido se inteirou que no Peru as fãs de um candidato a prefeito estavam, nos comícios, atirando suas calcinhas pra ele, inferiu que se ele, o obcecado, morasse no Peru elas não só atirariam as calcinhas, mas também se atirariam suplicantes nos seus braços.

Constatação XIII

Quando, no motel, a francesa

Pôs-se a cantar a Marselhesa

Ele fez continência e ficou em pé.

Despido, parecia um chipanzé

E, ouvindo o hino pelado,

Sentiu-se despatriado.

Coitado!

Constatação XIV

Não seja jacu, jeca ou tatu.

Lembre-se que praga de urubu

Pode deixar a gente jururu

E cair no teu próprio… nariz.

Constatação XV

Tendo em vista que certas atitudes e fatos vêm se sucedendo cada vez mais de maneira acentuada, aguardem, prezados leitores, o Dia do Contraventor. E já que falamos no assunto, o Dia do Bibliotecário deverá ser extinto por falta de leitores nas bibliotecas…

Constatação XVI

Deu na mídia: “Lula inaugura terreno baldio no Pará”. Aguardem breve, prezados leitores, nessa época de eleições, até inauguração de eventual recapeamento dos buracos nas estradas rodoviárias…

Constatação XVII

Quando o obcecado convencido, nada a ver com o outro da Constatação XII, leu na mídia que “na África do Sul a ‘camisinha anti-estupro’ está sendo distribuída”, estufou o peito e de alto da sua sapiência proferiu a seguinte pérola: “Comigo elas precisariam usar um tapa-ouvido porque ninguém resiste as minhas indefectíveis cantadas”.

Constatação XVIII

O cubo,

Com desconfiança,

Pra pirâmide falou:

“Vê se desencostas

Das minhas costas

Que eu não sou tubo”.

E, adrede,

Por segurança,

Na parede

Se encostou.

Constatação XIX

Rumorejando não acha que Itália, França, Dinamarca e mais outros não se apresentaram mal. Apenas que alguns jogadores estavam com saudades da família e queriam voltar mais cedo para casa. Só isso.

Constatação XX

Rico tem altivez; pobre, não conhece o seu lugar.

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I

Números complexos são aqueles que, em época inflacionaria, não valem nada ? E foram os números primos entre si que brigaram, como em toda família, por causa da herança ? E, também, foram os números romanos que meteram panca de nobres em cima dos números arábicos ? Idem, idem as letras góticas que esnobaram a escrita corrente, aquela utilizada por nós no dia a dia e, para quem estuda ou trabalha, também, na noite a noite ?

Dúvida II

A pelota

Traçando

Espirais

Difusas ?

Ou foi lorota

Dos jornais,

Deixando

Mentes confusas ?

Dúvida III

É muito simplista

Filar a bóia e depois

Fazer a pista ?

Dúvida IV

O simpático anda claudicando ? Me refiro ao prezado leitor, não ao nervo simpático que, diga-se de passagem, quando dói não é nada simpático.

Dúvida V

A garota que nasce em Limeira, estado de São Paulo, é limeirense, limoense, limaense, limenha, limeirana, lima, ou o quê ? Comentários no blog. Obrigado.

Dúvida VI

A cartilha, a tabuada, o caderno de caligrafia, os trabalho manuais, o recreio e a merenda e a professorinha por quem a gente se apaixonou. Apenas rememoração ou estamos entrando na terceira infância ?

Dúvida VII

O sujeito que fatura sozinho uma sena da vida passa a ser, no mesmo instante, inteligente, simpático e bonito ?

Dúvida VIII

Foi o louva-a-deus

Que disse,

Todo teatral,

Pra namorada:

“Não estou numa legal.

Chega de sandice.

Vou tomar a estrada.

Adeus” ?

Dúvida IX

Será que a jabulani é efetivamente esférica? Rumorejando desconfia que pela sua – dela – trajetória, quando quica, ela é oval, ou ova como a gente dizia quando jogava com bola de tentos. Fantasma ela não é, como andou sendo apregoado, embora muito jogador a deixe passar como se ela fosse invisível…

Dúvida X

Foi o obcecado que chamou, num ato aparentemente falho, a vuvuzela de vulvazela?

Dúvida XI

O nepotismo,

Sob alegação

Que não tem

Alguém

Nem

Ninguém

Tão

Bom,

Tão

Competente

Como o parente,

É cinismo,

Brasileirismo,

Mercantilismo

Ou filha da p….ismo ?

Dúvida XII

Foi o trabalho da formiga,

Dando exemplo pra cigarra,

Que quase a matou de fadiga ?

Dúvida XIII (Via pseudo-haicai).

A monja

Bebia cerveja

Qual esponja ?

Dúvida XIV (Via pseudo-haicai).

Tem que ser xereta

Para descobrir

Tanta mutreta ?

Dúvida XV

Será que os blecautes que volta e meia acontecem em nosso país são alguma traquinagem de algum disco voador, como se supôs, há alguns anos atrás, quando Nova Iorque também ficou às escuras ?

Dúvida XVI

Não é flor

Olorosa

O bebedor

De perigosa* ?

*Perigosa = um dos muitos sinônimos de cachaça.

COISAS QUE PRECISAM SER INVENTADAS

-“Abolidor” automático a fim de abolir o capital especulativo da face do Planeta Terra, de outros planetas e, inclusive, de outras galáxias.

-“Abolidor” automático, nada a ver com o anterior, a fim de abolir legislador que legisle em causa própria da face do Planeta Terra, de outros planetas, etc.

-Sapato, ou bota, ou tênis, etc., novo, que já venha amaciado como o velho que, diga-se de passagem, nunca deixa de ser o do coração.

-Liquidificador para liquefazer nossas desditas.

-Sonar de longo alcance, ou melhor de longa distância para detectar visita inoportuna do tipo credores, sogra, mordedor, cara chato, etc. para você ter tempo hábil de se fechar e apagar automaticamente todas as luzes, dando a impressão que não tem ninguém em casa.

-Político sério.

-Político decente.

-“Desaproveitador” que anule as intenções de quem quer tirar proveito em tudo.

-Jogador de truco que me ganhe.

-Frutas com gosto de carne para que todos virem vegetarianos.

-Cervejas e vinhos com álcool, mas que não contrariem a Lei Seca, não dê porre, etc.

-Rádio em Curitiba que toque música clássica (A Educativa e a emissora da PUC tocam muito pouco e em horários ruins).

-Aparelho para a extinção da famigerada Lei do Mais Forte.

-Mudança ortográfica que também elimine a grosseria.

-Sistema econômico que façam todos terem tudo ou pelo menos que atendam as necessidades básicas.

-Cura para as doenças até agora consideradas incuráveis.

-Bactérias boazinhas que se alimentem de bactérias nem tanto.

-Absorvedor de poluentes (e do petróleo do Golfo do México).

-Aparelho que reduza os decibéis fora dos padrões (propaganda política, venda de sonhos e outros produtos comerciáveis, anúncios de liquidações, etc.).

-Detectômetro para detectar maus-caracteres.

-Comentaristas esportivos que falem menos, a fim de que se assista os jogos pela televisão sem precisar recorrer ao mute.

DILMA e SERRA por simon taylor

Estudos simbólicos sobre o público – de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr


A multidão é a mesma,

mas o poeta  fala sem amplificação

para um exército de  nucas indiferentes,

enquanto o ídolo está de frente para os rostos e aplausos.

Saiba, os pedantes são os alicerces econômicos da cultura.

Cruza o inferno até uma editora,

o impostor com a mesma gravata púrpura dos demônios,

quem pode pagar anjos mercenários com seu cartão de crédito,

o movimento com Sarissas:Um novo inseticidas

com um novo príncipe ativo.

Ou um Virgílio,

mas Virgílios são tão raros como Dantes

Cantores abóiam,

já os escritores tem que dissolver a manada

e fazer que cada vaca encontre um canto e leia seu livro.É uma tarefa mais árdua.

A platéia é aviário de águias recém-nascidas,

ávidas por engolir  cobras e lagartos

jogadas por alguns rebeldes.

Já de uma ovelha no palco, só aceita doces.

Como morsas,

nas livrarias e bibliotecas, os livros dos vivos lutam contra os poderosos mortos

pelo feio harém de intelectuais.

Geralmente os jovens livros dos vivos são expulsos. I’ll be back.

Lembra,a inteligência santifica a inteligência,

criar é uma insinuação para o eterno.

ESSE HOMEM de vera lúcia kalaari / portugal

Queria esse homem escondido em ti mesmo,

Esse homem  de que tu és apenas uma sombra…

Queria os teus silêncios e os teus sonhos

E essa melancolia que t’envolve como um véu…

Queria o gesto vago que fizeste

Como quem afugenta uma lembrança amarga…

Queria o afago indiferente dos teus dedos

Desfolhando um livro ou escrevendo um poema…

E os pensamentos que às vezes passam um instante

Nos teus olhos, fazendo-te, medroso, cerra-los um pouco

Para que não escape nada

Queria tudo de silencioso e íntimo, de impreciso e distante

Que ocultas, avaro, em tua grave solidão,

Essa solidão que mesmo nos instantes mais livres

E mais despreocupados, é a atmosfera que respiras,

A nuvem em que t’escondes,

Tua agreste e invisa solidão.

Queria as palavras que não dizes, que não vêm aos teus lábios,

Mais do que num leve e breve sorriso meio triste…

Queria um beijo da tua boca, em tua boca.

Um beijo em que estivesses fremente e palpitante,

Com os teus anseios e os teus mistérios revelados,

E teu corpo ardente estremecendo

De amor intenso, de entrega absoluta,

Na ânsia de revelar-se, de dar-se, de doar-se completamente…

Queria esse homem escondido em ti mesmo.

JOGO de CONSELHEIROS por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

No meio da torcida lusitana, que ocupava mais da metade do estádio, o poeta Fernando Pessoa tirou uma pestana. Atraído pelo que deveria ser um dos melhores jogos da 19ª Copa do Mundo, o escritor se arrependeu de trocar o passeio à beira-mar e pelos recantos de sua juventude em Durban por aquele joguinho sem-vergonha, em que nenhuma das duas equipas queria ganhar.

Jogavam, como se diz atualmente, “com o regulamento debaixo do braço”, cometendo um claro ato de estelionato contra o torcedor que pagou ingresso. Os trepidantes “repórteres de pista”, alheios à mediocridade que desfilou em campo, desinteressaram-se de entrevistar os jogadores. Pediram a opinião do poeta:

– E aí, Pessoa, o que achaste do jogo?

– Tudo vale a pena se a bola não é pequena. Já havia dito, em meu poema Navegar É Preciso, que viver talvez não fosse necessário. Mas criar, sim, sempre foi preciso. Será que aquele homem do cabelo espetado não sabe disto?

Foi o jogo dos “professores”. Ou dos “conselheiros”, tão medíocres quanto o conselheiro Acácio. Os técnicos Dunga e Carlos Queirós entraram em campo para “não jogar”, ao som das moscas tse-tsé e embalados pelas vuvuzelas.

Não fora uma bola que triscou a trave, no primeiro tempo, em conclusão da cabeceada pelo rápido Nilmar, e uma única defesa de Júlio César, o jogo poderia ter sido disputado sem goleiros e sem balizas. Os conselheiros armaram-se cada qual atrás das suas fortalezas – e poderiam estar jogando até agora, que não teriam feito nenhum gol.

Consumou-se, então, o medonho resultado que é o 0 a 0 – a fraude do jogo que “não houve”. Tão abominável é o empate que Nelson Rodrigues lhe dedicou um verdadeiro libelo:

– O empate é um resultado mais depressivo do que o próprio revés. A derrota tem um dramatismo que a salva, que a viriliza. Ela desperta no vencido o élan da revanche. Já o empate suscita uma sensação desesperadora de impotência.

Impotência. Esta foi a sensação da torcida brasileira ao assistir um técnico obtuso deixar o tempo se esvair sem substituir Júlio Baptista e Michel Bastos, dois fantasmas ausentes do jogo.

O “substituto” de Kaká era, na verdade, o melhor jogador luso, armando contra-ataques com seus erros de passe. Um horror. Agora sabemos: Kaká, machucado, e de muletas, “precisa” estar em campo. Com Júlio Baptista, jogamos com 10.

Os “conselheiros” protagonizaram um jogo covarde, um pacto de não agressão, um armistício bem próximo do cambalacho de outras Copas – em que os dois times, satisfeitos com o empate, combinaram “ensebar” o jogo para fabricar o resultado.

Zagueiros e volantes brasileiros, errando passes de meio metro, bem que se esforçaram para que o conselheiro Acácio repetisse aquele velho bordão do futebol:

– Quem não faz, leva…

Mas até isso negaram ao conselheiro: ninguém queria fazer, ninguém queria levar, ninguém queria criar. Não vou exagerar: foi o pior jogo da Copa. Um jogo medonho, anestésico, hediondo.

Um jogo asinino. À beira do gramado, via-se o técnico Dunga “ralhar” com seus pupilos, gritando acima dos decibéis das vuvuzelas. Como exigir futebol de quem não tem? Sai Júlio Baptista (meu Deus, o que é “aquilo”?) entra Ramires. A bola continua rolando apenas para os lados. O campo deveria ter suas duas balizas mudadas para as laterais.

Todos os passes saíram errados, todos os escanteios foram batidos à meia altura, todos os chutes foram parar na arquibancada. Portugueses e brasileiros saíram satisfeitos com o “não jogo”, com o antijogo. Só então se fez ouvir a voz do conselheiro Acácio, que dera uma “escapadinha” do Primo Basílio:

– O jogo não chegou a ser “dos melhores”, mas conseguimos alcançar os nossos objetivos…

Desconfio que Dunga pretende ganhar esta Copa depois da prorrogação, nos pênaltis. Torcendo para que Lionel Messi chute o seu pênalti para fora.

UM PONTO AVANÇADO DO PROGRESSO – por lucas paolo / são paulo

No conto “Um posto avançando do progresso” de Joseph Conrad, vemos dois homens (Kayerts e Carlier), que são encarregados pela “Companhia” de chefiar um posto de comércio no Congo, ruírem, pouco a pouco, em meio a um sistema colonialista implementado na África. A desgraça desses dois “indivíduos perfeitamente insignificantes e incapazes” começa a se delinear, claramente, após a venda de alguns africanos para traficantes de escravos em troca de marfim – venda que não foi realizada sob a consciência de Kayerts e Carlier.

Assim, no conto, nos defrontamos com dois personagens que não conseguem lidar e entender a realidade que os cerca e, por isso, essa os deforma e os absorve – como também acontece em Bouvard e Pécuchet de Flaubert.

Isso pode ser evidenciado se notarmos que, apesar do narrador se utilizar do discurso direto, este necessita ser explicado na sequência. Uma passagem onde isso se evidencia:

“Já entendi! Eles foram atacados enquanto dormiam profundamente depois de terem tomado o vinho de palmeira que você deixou Makola distribuir para eles. Tudo combinado! Entendeu? E o pior é que alguns dos homens de Gobila também estavam lá, e foram levados juntos, sem dúvida. O menos bêbado acordou, e acabou levando um tiro por causa da sobriedade. Que país estranho. E o que você vai fazer agora?”

“Não podemos ficar com isso, é claro”, disse Kayerts.

“Claro que não”, concordou Carlier.

“A escravidão é uma coisa horrível”, gaguejou Kayerts com a voz trêmula.

“Terrível – tanto sofrimento”, grunhiu Carlier com convicção.

Acreditaram no que diziam. Qualquer pessoa demonstra uma deferência respeitosa perante certos sons que ela própria ou seus semelhantes são capazes de emitir. Quanto aos sentimentos, porém, ninguém na verdade sabe nada. Falamos com indignação ou entusiasmo, falamos de opressão, crueldade, crime, devoção, sacrifício, virtude, e não sabemos o que existe de real por trás das palavras. Ninguém sabe o que significa o sofrimento ou o sacrifício – exceto, talvez, as vítimas da finalidade misteriosa dessas ilusões.

O ressentimento que os personagens sentem com relação à escravidão não é convincente em suas falas e sim na contextualização, na complementação do narrador. Com isso o narrador nos expõe dois personagens que retratam o desconhecimento ou a falta de entendimento sobre o processo colonizador da África – desconhecimento que foi dominante nos homens dos países europeus que aceitavam o colonialismo como uma forma de avanço de progresso da civilização.

Dessa forma, Kayerts e Carlier são retirados do seguinte idealismo:

“Daqui a cem anos, pode ser que aqui exista uma cidade. Um porto, depósitos, e alojamentos, e – e – salões de bilhar. A civilização, meu rapaz, e a virtude – e tudo o mais. E então, as pessoas vão saber que estes dois sujeitos, kayerts e Carlier, foram os primeiros homens civilizados a viver neste exato lugar!”.

E são sujeitados a existência da escravidão, da falta de suprimentos, da negligência da “Companhia”; a civilidade e os valores morais soçobram. Assim, sem conseguirem entender o significado de sua situação, os personagens não conseguem mais lidar com a convivência destituída de valores, de certezas, e acabam ruindo e se destruindo.

A ficção é história, história humana, ou não é nada. Mas também é mais que isso: ela se apóia em chão mais firme, baseando-se na realidade das formas e na observação dos fenômenos sociais, enquanto a história é baseada em documentos e na leitura de impressos e de manuscritos – em conhecimento de segunda mão. Assim, a ficção está mais próxima da verdade. Mas deixemos isso de lado. Um historiador também pode ser um artista, e um novelista é um historiador, o preservador, o detentor, o expositor, da experiência humana.[1]

Pensando, a partir deste trecho peculiar retirado da epígrafe do posfácio de Luiz Felipe de Alencastro ao livro “Coração das Trevas” de Conrad, podemos vislumbrar Joseph Conrad como um historiador ou um pensador da história que colocou em seu conto “Um posto avançado do progresso” toda a problemática da Europa e do homem europeu colonizador e civilizador. Fazendo-nos repensar a relação dialética e instável do seres humanos com as distintas formas de sociedade existentes.


[1] Joseph Conrad, “Henry James: an appreciation”, texto publicado em 1905, incluído em J. Conrad, Notes of life and letters, Londres: J.M. Dent, 1949.

Fuga Pictórica em Rap – de tonicato miranda / curitiba


Vida que passa e não passa

Quando minha cara de passas

Caça o seu olhar e laça

O vento sibilando na janela

É a flauta de Bashô

Fabricando músicas, fazendo um dô

No sopro que a boca dá

Há açúcar lambuzado na cara

Melado escorrendo do ouvido

O mundo de súbito parido

A lua tinindo seu sorriso

Os negros aqui e ali batem tambores

Estalam línguas, dedos e pés

O ritmo exige balanços, muito bis

O coração tem de ir aos quadris

Não queria ser assim tão caminhante

Preciso parar no meio do caminho

interromper a viagem, saltar do ônibus

visitar uma casa jamais visitada: este o ônus

Por que viajar no tempo tão ligeiro?

É preciso fazer novembro voltar a janeiro

ter um verão no olhar e a perna mais solta

uma voz sem cor, um olhar sem respostas

ter a porta aberta ao novo, ao desconhecido

Tudo livre à frente, preparando a volta

para fora de mim, para longe do agora

Quem sabe um gato salte do meu telhado?

QUANDO AS NUVENS FECHAM de jorge barbosa filho / curitiba


quando as nuvens fecham o céu

e meus olhos choram, são chuvas, sempre chuvas

onde você deitou, chorou e escorregou.

em meu peito molhado, ficando carregado

de tantos trovões, com teu amor.

quantos estouros, não sei porque!

queria um beijo que fosse sincero.

não um beijo, mais do que um beijo,

um beijo para ser eterno… e terno.

mesmo no inferno… e mesmo no inferno.

a tempestade do meu ser, acho,

deve te dar algum prazer…

algum prazer! uhunhuhn algum prazer!

o céu está cinza. pra quê tantas chuvas,

se admiro isto distante, distante,

e me molhar no meu amor num instante

apenas por um instante.

apenas por um instante.


os pingos das chuvas me dão o lazer

pra brincar com você, para ser o quer você ser…

o seu ser… as nuvens se fecham,

meus olhos se cerram e as nuvens se fecham

nunca mais verei as luas, as luas…

quando as nuvens se fecham,

e minhas pálprebas também…

NO CASO DE DILMA GANHAR por hamilton alves / ilha de santa catarina

Ontem, encontrei-me com um amigo, que é uma das pessoas mais esclarecidas quanto a problemas de ordem política nacional e internacional. Quando se tocou na questão da probabilidade de Dilma ganhar as eleições presidenciais próximas, disse-me, com os olhos vidrados (ou revirados):

– Não tenha dúvida, ela vai ganhar.

– Mas como? Mesmo sabendo do fato envolvendo-a com a Chefe da Receita Federal, mentindo descaradamente que não havia solicitado a presença da funcionária a seu gabinete para lhe pedir que botasse uma pedra em cima do caso de Fernando Sarney (filho do Sarney), que estava sendo processado administrativamente por sonegação fiscal? Mesmo sabendo que Lula deu pleno apoio ao Sarney para que permanecesse na presidência do Senado, ciente de que se envolvera em grossa maracutaia de desvio de dinheiro destinado ao Memorial Sarney, em São Luiz, emprego a parentes, etc.? Tenho minhas dúvidas.

– Pois se convença do que lhe estou dizendo.

– Se for o caso, vou aprontar as malas para dar o fora do país. Dilma será o fim da paródia! – disse-lhe.

Diante dessa perspectiva de Dilma ganhar, embora haja, segundo as pesquisas, no momento, um empate técnico com o Serra (empate técnico já é um dado inquietante), terei que imaginar o que farei na eventualidade de Dilma emplacar.

Listei as seguintes alternativas:

1) morar por quatro anos fora do país;

2) mudar de planeta, o que é pouco provável, dadas as precárias condições atuais de transporte;

3) não ler mais jornais nem ver televisão nem trocar papo sobre política no curso desse tempo;

4) assumir uma atitude igual à de Salinger, autor de “O apanhador no campo de centeio”, que cortou relações com o mundo, erguendo um muro inexpugnável diante de sua casa, em Cornish, Newhampshire, nos Estados Unidos.

De todas, ainda prefiro a primeira. Entre as cidades escolhidas, optaria por Paris. Finalmente, aproveitaria minha permanência lá para escrever a tão sonhada novela, que seria o remate de minha vida de escritor. Quem sabe, encontraria por lá um editor interessado em publicá-la.

Mas aguentar Dilma, no curso de 4 anos, definitivamente, não está no meu programa.

FUTEBOL: COPA DO MUNDO na ÁFRICA DO SUL – 2010

A South African flag incorporating the flags of each nation at the tournament is waved at the Opening Ceremony ahead of the 2010 FIFA World Cup South Africa Group A match between South Africa and Mexico at Soccer City Stadium on June 11, 2010 in Johannesburg, South Africa. (Clive Rose/Getty Images)

A man watches the opening match of the 2010 World Cup between South Africa and Mexico in Bloemfontein June 11, 2010. (REUTERS/Jorge Silva)

A South African dancer smiles during the opening ceremony of the 2010 FIFA World Cup on June 11, 2010 in Soweto, South Africa. (PEDRO UGARTE/AFP/Getty Images)

A fan blows a vuvuzela during the Group A first round 2010 World Cup football match South Africa vs. Mexico on June 11, 2010 in Soweto. (VALERY HACHE/AFP/Getty Images)

Giorgio Rovida, an Italian motorbike engineer, watches the opening game of the 2010 World Cup between Mexico and South Africa in his Milan workshop on June 11, 2010. (GIUSEPPE CACACE/AFP/Getty Images.

South Africa’s goalkeeper Itumeleng Khune watches the action at the other end of the pitch during their Group A first round World Cup match on June 11, 2010 at Soccer City stadium. (VALERY HACHE/AFP/Getty Images

People gather around a television to watch the opening game of the soccer World Cup at the Tembisa neighborhood in the outskirts of Johannesburg, South Africa, Friday, June 11, 2010. (AP Photo/Ricardo Mazalan)

A Chinese couple watches a live broadcast of the World Cup soccer match between South Africa and Mexico, outside a grocery store in a hutong of Beijing, China, Friday, June 11, 2010. (AP Photo/Muhammed Muheisen)

Photographers take pictures during the Group A first round 2010 World Cup match between South Africa and Mexico on June 11, 2010. (ROBERTO SCHMIDT/AFP/Getty Images)

A young supporter waves Spanish flags before the welcome ceremony for Spain’s national football team on June 11, 2010 in North West University Sports Village on the opening day of the 2010 World Cup in South Africa. (LLUIS GENE/AFP/Getty Images)

Uruguay’s striker Diego Forlan (right) tries to head the ball with France’s defender William Gallas during their Group A first round World Cup football match on June 11, 2010 at Green Point stadium in Cape Town. (STEPHANE DE SAKUTIN/AFP/Getty Images)

Uruguay’s Diego Lugano, center, and France’s Jeremy Toulalan, second from right, argue as referee Yuichi Nishimura of Japan, second from left, and France’s Sidney Govou, right, intervene during the World Cup group A soccer match between Uruguay and France in Cape Town, South Africa, on Friday, June 11, 2010. (AP Photo/Julie Jacobson)


Pesquisa Ibope aponta Dilma com 40% e Serra com 35% / “instalou-se o HORROR no centro da campanha de SERRA. DEMOS e TUCANADA trocam ofensas. cabeças vão rolar”.


Levantamento foi encomendado pela Confederação Nacional da Indústria. Na pesquisa Ibope anterior, Dilma e Serra apareciam empatados com 37%

Pesquisa Ibope divulgada nesta quarta (23) em Brasília mostra a candidata do PT, Dilma Rousseff, com 40% e o candidato do PSDB, José Serra, com 35% na corrida eleitoral pela Presidência da República. Marina Silva (PV) tem 9% das intenções de voto, segundo o levantamento, encomendado ao instituto pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

O cenário da pesquisa que apresentou esses resultados é o que inclui somente Dilma, Serra e Marina. No cenário que reúne 12 candidatos, Dilma aparece com 38,2%, Serra, 32,3% e Marina, 7%.

É a primeira vez que Dilma aparece à frente de Serra numa pesquisa de intenção de voto para presidente. Na pesquisa Ibope anterior, divulgada no último dia 5 e feita por encomenda da TV Globo e do jornal “O Estado de S.Paulo”, Dilma e Serra apareciam empatados com 37% das intenções de voto. Marina Silva acumulava 9%.

A margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais para mais ou para menos (portanto, Dilma pode ter entre 38% e 42%; Serra, entre 33% e 37%; e Marina, entre 7% e 11%).

A pesquisa é a primeira realizada após a oficialização das candidaturas de Dilma, Serra e Marina pelas convenções partidárias. O Ibope entrevistou 2.002 eleitores entre os dias 19 e 21 em 140 cidades. A pesquisa está registrada no TSE sob o número 16292/2010.

Disseram que votarão em branco ou nulo 6% dos entrevistados. Os que responderam que ainda não sabem em quem votar são 10%, segundo o Ibope.

Segundo turno
Na simulação de segundo turno, Dilma teria 45% e Serra, 38%, segundo o Ibope. Na hipótese de segundo turno entre Dilma e Marina, a petista venceria por 53% a 19%. Serra ganharia de Marina por 49% a 22%.

Rejeição
Dentre os entrevistados, 23% disseram que não votariam em hipótese nenhuma em Dilma Rousseff. Os que rejeitam Serra são 30% e os que nunca votariam em Marina somam 29%.

23/06/2010 | 16:35 |

g1

A CASA QUE CHEIRAVA GOIABA de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

A CASA QUE

CHEIRAVA GOIABA

Minha casa pobre que cheirava

goiaba :goiaba madura:

noite e dia o odor do fruto no ar

& compareciam abelhas vespas &

outros insetos nathivos

compareciam urdiam moradas

nichos ninhos cobriam as janelas

os vãos das portas os armários

minha casa circulada de pássaros

ao cheiro de goiaba madura

minha casa ornada de insetos

& pássaros aninhos minha casa

com cheiro de goiaba freqüentada

por aves & insetos da estação

minha casa com polpa carmim

pelo chão cascas verdes-amarelas dos

frutos carnudos coladas às paredes

casca polpa sementes aderidas

à madeira bruta às telhas portas

janelas

linguagem de odores & cores

na estrutura :minha casa:

casa de goiaba madura do

piso ao teto

a casa que cheirava goiaba.

Queria agora um poema com

o sabor da fruta: goiaba.

VERTENTES de marcelo de góes /santa maria.rs

No ar, o aroma das flores
Emite sinais de um cenário por vir
O agricultor, com as mãos calejadas
Evoca suas preces à Deus ao dormir
Desde setembro é uma árdua jornada
Outrora sofrida, sem nunca desistir
Arados a postos! A terra desnuda
Aguarda a semente para se fundir

Lá “nas casa” se ouve cantigas do sul
Na barragem um piazito pescando ao léu
É cedito e o mate aquece as almas
O som dos tratores faz um escarcéu
Um guaipeca festeiro agita o ambiente
Chuveu, veio sol, tem arco-íris no céu
Um sapucai estridente é ouvido a distância
É o capataz da estância fazendo seu papel

(Refrão)
Verte esperança do ventre pampeano!
Cada homem no campo gera produção
Chuleia o clima como num jogo de truco
Quer 12 pontos e agüenta o tirão
Na família o esteio, a essência, o afago
O amparo almejado em dias de exaustão
A lida é pesada, um sagrado ritual
Quiçá esse esforço não seja em vão

Mais adiante estrelas vigiam as lavouras
Dão brilho ao dourado tom dos arrozais
A lua cheia é prenúncio de fartas colheitas
Sob proteção de nossos ancestrais
Se passaram alguns meses, … amanhece o dia
O trem corta os trilhos rumo aos cais
Um galo ouriçado ecoa seu canto
Fazendo parceria com os cardeais

É domingo e a campanha está mais risonha
Pariu grãos em uma safra que valeu por três
Enche o peito de orgulho toda a peonada
Ontem o patrão mandou carnear uma rês
O churrasco apronta no fogo de chão
Trovadores rimando, um de cada vez
Fragmentos da herança de nosso passado
Evidências de uma estirpe com intrepidez

.

Letra: Marcelo Góes
Música/violão: Diego Camargo
Interpretação: Danner Marinho
Gaita: Alessandro Fagundes
Contra-baixo: Vinícius Lopes

O ANO DA MORTE DE SARAMAGO por hamilton alves / ilha de santa catarina

Não imagino como possa ter sido o diálogo travado entre Saramago e São Pedro, quando passou pelas cercanias do céu sem pretender ter-lhe acesso, dado seu ateísmo irremovível.

Suponho que deva ter sido mais ou menos o seguinte:

– Você por estas bandas? – disse-lhe São Pedro.

– Estou chegando um pouco tarde por estes páramos para conhecê-los de perto, já que na Terra é-nos impossível fazer uma ideia perfeita de tudo isso.

– Como fez a travessia?

– Meio aos trambolhões, como era esperado; enfim, mal ou bem, aqui estou – e, pior, sem opção ou sem rumo ainda definido. Os caminhos se bifurcam, como no memorável conto de Borges.

– Você continua aferrado a seu ateísmo?

– Como crer em Deus no mundo de que vim, com toda aquela atroz injustiça, com uma desigualdade desmedida, com ódios atrozes e invencíveis, conflitos entre nações. Como admitir que Deus o teria criado?

– Mas Deus nunca pretendeu o mundo assim. Os homens é que livremente o escolheram tal qual é.

– Temos que convir que é uma obra imperfeita, a admitir-se que foi de autoria de Deus.

Os dois silenciaram, o santo sentou-se numa banqueta, sem querer aprofundar o tema (sabedor que tudo deveria ser como é dentro do conjunto dos fenômenos gerais), Saramago continuou de pé.

– Que caminho pretende seguir?

– Quantos caminhos existem?

– Dois, como sabe.

– Não há uma terceira alternativa?

– Não.

Saramago mostrou-se um pouco contrafeito de se deparar com apenas duas opções.

Entregou-se a uma profunda reflexão, enquanto o santo o olhava com certa piedade, no desejo de guiá-lo a escolher o melhor.

– Para um ateu não tem saída. É como se diz lá embaixo: preferem-se o céu pelo bom clima e o inferno pelas boas companhias. No céu, não tenho esperança de encontrar gente no meu estilo ou com quem me afine. Só com santos…

– Você pode escolher uma zona neutra, nem lá nem cá.

Saramago mostrava-se exausto de uma longa viagem, quando deu, à porta do inferno, com os dizeres tétricos, que lhe fizeram estremecer no mais fundo de si:

“Vós que entrais perdei toda a esperança”.

– Que fazer? – perguntou-se.

– Deus é magnânimo, José; basta um ato de arrependimento para merecer o céu.

Anoitecia. O céu e arredores iam se aprofundando na escuridão

– Tem pelo menos uma cama para descansar por aí?

– Não faça cerimônia; é o que tem de sobra.

Não foi uma escolha nem pelo céu nem pelo inferno, mas por um dormitório nas vizinhanças.

VERA LÚCIA KALAARI e sua poesia / portugal

Não.

Não poderei fazer de ti

Um só poema.

Não poderei jamais cantar

Este desejo,

Este anseio que tenho por ti.

Desvendar-te tudo qu’escondo

E obter de ti,

Palavras de plenitude e d’esperança.

Porque p’ra ti,

Seria como trair um bem

Seria  matar essa imagem

Que não vive no teu corpo

Mas só no teu coração.

Seria desejar… e não amar…

Seria enganar tanta imensidão…

Seria dar corpo a uma alma

E tirar a vida à própria vida.

Ah… Como desejava que  quedasses à minha espera,

Logo, ao cair da noite,

Não com a fé de quem espera uma miragem

Mas com a ânsia férrea dum macho qu’espera a sua fêmea

Para juntos rolarem pelos espaços infinitos

Corpos unidos, lábios colados,

Na agonia lenta que explode num turbilhão d’estrelas.

Por isso, amor, não…

Não poderei escrever de ti um só poema…



.

Senhor:

Embora não creia que m’escutes,

Embora não entenda a tua voz,

Embora te procure e não t’encontre,

És ainda a palavra escutada de menina,

Que invoco, que invoquei,

E volto a repetir agora.

Senhor:

Qu’eu seja um campo virente

Coberto de erva e flores viçosas…

Ou vento uivante…Ou aragem que corre mansamente.

Que seja chuva caindo nos beirais

Ou nuvem correndo pelo céu…

Que seja rio cantando sem destino,

Ou barco vogando

Que seja um raio rasgando a escuridão,

Que seja tudo ou nada

Tudo o que se veja

Ou tudo o que não se veja.

Que seja terra ou seja ar,

Que seja alegria ou seja dor

Que seja ódio ou seja amor

Que seja tudo, tudo, tudo,

O que tu quiseres

Por muito humilde que seja.

Mas não me deixes ser fraca nas minhas convicções

Não me deixes deixar de acreditar naquilo em que acredito

Deixa-me continuar a ser eu, sempre, eu mesma…

Rumorejando (A frase do publicitário Carlito Maia,” Brasil, fraude explica”, rememorando) – por juca (josé zokner) / curitiba


PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (De diálogos complementares, aparentemente com dúvida crucial).

-“Homem tem que ser durão!”
– “Tem que ser. E estar, não ?”…

Constatação II

Não se deve confundir bê-a-bá com bafafá, até porque, mesmo que o governo não proporcione escolas para todos,visando alfabetizar a população, não acontece absolutamente nada, muito menos um impensável bafafá

Constatação III (Repetitiva).

Se a situação continuar assim, a curto prazo, o nosso dinheiro ficará assim-assim, quer dizer, mais curto…

Constatação IV

Disse a carente mulher pro marido marxista: “O teu mentor, o teu grande guru, a quem você não pára nunca de citar, disse: ‘A cada um de acordo com sua necessidade; de cada um de acordo com sua possibilidade’. Então tome logo essas coisas, chamadas viagra, cialis, ou levitra, inventadas pelos teus desafetos capitalistas, pra podermos ir pra cama duma vez”.

Constatação V

A globalização é uma “espécie de ajuda mútua e recíproca” que desajuda os que mais necessitam de ajuda e ajuda os que menos necessitam de ajuda. Tenho dito!

Constatação VI

Depois que a namorada lhe deu o fora, o cara estava se sentindo um lixo com tal intensidade, mas com tão grande intensidade que cuidava, ao colocar o lixo doméstico na calçada, que não coincidisse quando o caminhão da limpeza pública passava com medo que o levassem também.

Constatação VII (Tuteando, como gaúchos e catarinenses).
Querida! O teu aspecto
Meditativo, sentada no trono,
É tão circunspecto
Que até pareces um mono.

Constatação VIII

Tocava tão mal, tão mal, mas tão mal que aquilo já não era martelar o piano, era surrar mesmo.

Constatação IX

Não se deve confundir FMI – Fundo Monetário Internacional com FBI – Federal Bureau Investigation, muito embora certos países, que têm que recorrer ao primeiro para conseguir um empréstimo, mereceriam ser investigados pelo segundo, ou assemelhados, para detectar e aclarar como foi que chegaram a um nível de endividamento e situação tais em que se encontram que os levou a recorrer ao primeiro.

Constatação X

Rico solve seus altos compromissos na promoção do crediário; pobre, gagueja na prestação.

Constatação XI (Teoria da Relatividade para principiantes).

Para quem é um destrambelhado, a pessoa que é ordeira é neurótica.

Constatação XII

Salvo maior engano, a situação está ficando “salve-se quem puder”.

Constatação XIII

“A odontologia é uma profissão que exige, dos que a ela se dedicam, o senso estético de um Artista, a destreza manual de um Cirurgião, os conhecimentos científicos de um Médico e a paciência de um Monge”. Papa Pio XII.
“O aposentado é uma condição que exige, dos que se aposentaram pelo INSS, o senso estético da Amélia que ‘achava bonito não ter o que comer’, a destreza manual para fazer ‘Das Tripas Coração’, conhecimentos científicos para sobreviver como um ‘Perdido no Deserto’ e a paciência de quem crê que ‘Devagar Se Vai Ao Longe’”. Leigo José Zokner (Juca).

Constatação XIV (De conselhos úteis).

E nunca esqueçam, prezados leitores, que sempre, a toda hora, a todo o momento, haverá, em algum lugar, alguém que, pela própria irremediável condição humana, te estará pichando. Diante dessa terrível obviedade, limite-se, apenas, a menear os ombros. De nada !

Constatação XV

Quem superestima sua suposta inteligência é um burro.

Constatação XVI

E já que falamos no assunto, em certos países, há os que têm inteligência superior, mas, por uma série de condições, ela acaba se finando; há os que não têm inteligência superior, mas têm condições, principalmente financeira, o que dá para ir tranqüilamente levando; outros mais, têm condições financeiras e inteligência superior só que a televisão vai solapando. E por aqui, no fim desta constatação, vamos ficando…

Constatação XVII

Paquerou o mulherão do açougueiro. A carne é fraca…

Constatação XVIII

Quando este assim chamado escriba frequentava os jogos de futebol e o goleiro deixava passar uma bola fácil, a torcida gritava o substantivo ou adjetivo “frangueiro” e a mídia se reportava que “o goleiro comeu ou engoliu um frango”; Mais tarde, os cronistas passaram a dizer “tomou um frango”; Nos primeiros jogos da presente Copa, a mídia assinalou: “Goleiro da Inglaterra franga”. Como vimos de substantivo e adjetivo evoluiu para um verbo, o verbo frangar que se conjugado seria algo assim: Eu frango, tu frangas, ele franga, nós frangamos, vós frangais, eles frangam. Frangamente, digo francamente, essa turma já não tem mais o que inventar. Cáspite!

Constatação XIX

A Sociedade, está segmentada em compartimentos. As elites dirigentes se constituem em feudos, embora já não vivamos num regime feudal. Aqueles que não fazem parte das elites dirigentes são os “feudidos”.

Constatação XX

As raças negra e amarela e, também, os índios não envelhecem. Militar, os que fazem a carreira, tampouco.

Constatação XXI (De diálogos conjugais).

“Eu fico desesperado(a) quando o meu calcanhar começa a engrossar”.
“E eu fico desesperada(o) quando você começa a engrossar”.

Constatação XXII

Primeiro o curitibano marcava encontro para antes ou depois da chuva; agora, é depois que o nível da água da enchente baixa.

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I

Diz-que-diz
E celeuma causou
Na nação
O presidente
De certo país
Quando falou,
Que o seu parente
Da administração
Não participou.
Porém
Será que alguém
Nele acreditou ?

Dúvida II

Alguém tem dúvida, crucial ou não, que o Dia Internacional da Mulher foi proposto por um machista ? E alguém tem dúvida que o dia foi criado para levá-las na conversa, já que as barbaridades que são feitas contra elas em nenhum momento deixaram de acontecer, obrigando, até, a criação de uma delegacia específica para apresentação das suas queixas, como é o caso da Delegacia da Mulher ?

Dúvida III (Via pseudo-haicai).

Quando alguém grita
Você, de raiva,
Fica verde caturrita ?

Dúvida IV

Diamante,
Não é à-toa que rima
Com amante ?
Ou é amante
Que, não de graça,
Rima com diamante ?

Dúvida V

Homem feliz é aquele para o qual ninguém vem contar uma fofoca ?

Dúvida VI

Hoje em dia, os agradecimentos, pedidos de desculpas, de licença ficaram implícitos e não precisam mais ser expressos ?

Dúvida VII

Foi a dália que falou da camélia pra boca-de-leão: “Ela não é flor que se cheire” ?

Dúvida VIII

Deu nos jornais: “Governo tira um imenso montante da área social”. Alguém aí tinha alguma dúvida ou ingenuamente achava que iriam cortar os salários dos deputados e senadores ?

Dúvida IX

Foi a centopéia que foi ao pedicuro a fim de fazer os pés e ainda teve a ousadia de pedir um desconto ?

Dúvida X

Lágrimas de crocodilo
Ela derramou
Quando reparou
Nos jornais
Que a rival,
Que jamais
Tivera igual,
Aumentou
Muito mais
Que um quilo ?

Dúvida XI

A confidência a Deus, via confissão, será que chega ao seu destino ?

Dúvida XII (Via pseudo-haicai).

A tosse comprida
Encurtou seu beijo
À prometida ?

Dúvida XIII

Levou uma finta
E caiu estatelado,
Em cima do apitador,
No gramado,
O jogador
Com muita pinta ?

Dúvida XIV

Quando o grande cantor lírico proferiu a frase: “Não se canta com a garganta. Se canta, com a cabeça”, qual seria, afinal, o tipo de cantar a que ele estava se referindo ?

Dúvida XV

Os prezados leitores já imaginaram se a Coréia do Norte tivesse feito o seu gol no começo da partida e não no fim contra o Brasil?

Dúvida XVI

Corre pela Internet “que não se deve abrir um e-mail onde aparece a candidata Dilma nua porque pode ser verdade”. Nesse raciocínio, nós brasileiros não teríamos, além da rivalidade, um motivo a mais para torcer contra a Argentina, tendo em vista a promessa do Maradona de ficar nu se os hermanos forem os campeões?

ATIRE NO MORENINHO ENGRAÇADO – por alceu sperança / cascavel.pr


Como a Europa ficou rica? Pilhando outros povos, inclusive o daqui.

Em 1493, o papa Alexandre VI deu o que não era seu à rainha Isabel e ao rei Fernando de Espanha, com a “Bula da Doação”: todos os territórios “descobertos e ainda por descobrir, cem léguas a Oeste e ao Sul dos Açores em direção à Índia”, ainda não controlados por qualquer rei ou príncipe cristão até o Natal de 1492.

Na corrida entre Espanha e Portugal, este quintal ficou com os portugueses, cujas minas e demais riquezas foram emseguida, depois de negócios ruinosos do trono lusitano, transferidas à Inglaterra. Desde então somos dominados pelo Norte do mundo, seus bancos e suas transnacionais.

Os europeus roubaram à larga as riquezas daqui. Construíram seus palácios e catedrais, sustentaram o luxo de seus soberanos e nobres, industriais e financistas. Por fim, ao fechar o século XIX, exportaram seus pobres para cá.

Hoje, brasileiros obrigados a fazer pousos de escala na Espanha são maltratados e ofendidos. O moreninho é confundido com terrorista ou cão sarnento. Nenhum reconhecimento por todas as maravilhas que construíram com as riquezas pilhadas na América Latina.

Seu rei manda um latino-americano eleito pelo povo calar a boca. Seus compatriotas, assim como também ingleses, franceses etc, humilham os latinos, insultam e barram africanos e asiáticos.

Seu mundo está ameaçado por uma crise que seu sistema criou, mas eles a atribuem aos pobres dos demais continentes. Seus valores desabam, suas falsas noções de espiritualidade, humanismo e democracia despencam ladeira abaixo. Culpa do moreninho que fala engraçado.

A história é pródiga em exemplos de civilizações arruinadas por seus próprios erros e contradições. No auge da acumulação de riquezas, depois de tanto pilhar, matar, oprimir e humilhar, os impérios da antiguidade – gregos, romanos e bizantinos – sucumbiram frente às invasões dos escurinhos de fala engraçada: bárbaros orientais, hunos, mongóis, turcos.

Os novos bárbaros, como dizia Jean-Christophe Rufin, nada querem, a não ser usufruir a “democracia” e a “liberdade” tão festejadas por eles.

Para financiar essa “democracia” e essa “liberdade”, liquidaram as populações da América: os mais de 70 milhões em 1492 se reduziram a cerca de 4 milhões alguns séculos mais tarde.

Depois de impor a globalização, endividar os países sulinos, enfraquecendo-os e lhes impondo ditaduras sangrentas e cúmplices, impõem-lhes barreiras para sustentar uma agricultura fracassada.

Marx já dizia, há mais de 150 anos: “As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio, a escravização das populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior das minas, o início da conquista e pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada comercial de negros são os acontecimentos que marcam os albores da era da produção capitalista”.

Então criaram a “fronteira móvel”. Invadem um país e desgraçam seu povo se entendem que os interesses em torno de petróleo, minérios e água valem mais que as falsas noções de democracia e liberdade.

Mas quando os novos bárbaros resolvem movimentar em direção a eles a “fronteira humana”, a resposta é o chauvinismo, o nacionalismo irracional, o desprezo e o rancor aos moreninhos de fala engraçada.

A NONA CANÇÃO DO FILÓSOFO (THE NINTH PHILOSOPHER’S SONG) de aldous huxley


Versão brasileira: Ivan Justen Santana

GOD’S in His Heaven: He never issues

Jr. (Wise Man!) to visit this world of ours.

Unchecked the cancer gnaws our tissues,

Stops to lick chops and then again devours.

DEUS está em Seu Céu: Ele nunca manda

(Quão Sábio!) Seu Guri aqui em visita.

Incógnito o câncer nos morde a vianda,

Nos lambe os pedaços e regurgita.

Those find, who most delight to roam

‘Mid castles of remotest Spain,

That there’s, thank Heaven, no place like home;

So they set out upon their travels again.

Uns acham (os que mais fruem vagar

Por castelos da mais remota Espanha)

Que não há nada como o próprio lar;

E logo partem a outra terra estranha.

Beauty for some provides escape,

Who gain a happiness in eyeing

The gorgeous buttocks of the ape

Or Autumn sunsets exquisitely dying.

A alguns a beleza oferece fuga,

Os que se prazem na contemplação

Das nádegas das primatas sem ruga

Ou dos crepúsculos em explosão.

And some to better worlds than this

Mount up on wings as frail and misty

As passion’s all-too-transient kiss

(Though afterwards — oh, omne animal triste!)

E outros alçam voos com asas frágeis

Rumando a mundos melhores do que este,

Movidos por paixões, beijos voláteis

(Pesar que após – ó, omne animal triste!).

But I, too rational by half

To live but where I bodily am,

Can only do my best to laugh,

Can only sip my misery dram by dram.

Mas eu, tão racional até a raiz

Dessa fração que o corpo não me abole,

Só posso mesmo me esforçar em rir,

Só posso sorver meu fel gole a gole.

While happier mortals take to drink,

A dolorous dipsomaniac,

Fuddled with grief I sit and think,

Looking upon the bile when it is black.

Enquanto os mais felizes enchem taças,

Eu, um doloroso dipsomaníaco,

Embaraçado nas minhas desgraças,

Medito em minha bile de cardíaco.

Then brim the bowl with atrabilious liquor!

We’ll pledge our Empire vast across the flood:

For Blood, as all men know, than water’s thicker.

But water’s wider, thank the Lord, than Blood.

Então: taça cheia e atrabiliária!

Brindemos nosso vasto Império-mangue:

Pois Sangue, sabe-se, é mais denso que água

Mas a água, salve!, é mais larga que o Sangue.

A N O I T E D O P U M A – por jorge lescano

É o infortúnio, rainha, que nos separa?
É a desgraça, princesa, que nos separa?

É por ser tu minha florzinha azul, minha flor amarela?


[…] Como um espelho de água és uma ilusão.
Como um espelho de água és um engano.
Cantar de amores inca.

A mulher dissera que viria encontrá-lo ao pousar a lua na testa do puma. A silhueta da montanha erguia-se contra o céu translúcido, em breve a pedra do Puma levantaria a cabeça. A astúcia e a beleza do felino, a solidez da pedra, guardavam na noite vazia o templo do amor do Inca.

Apenas Ele, o grande sacerdote de Inti, os eunucos e algumas velhas, tinham permissão para entrar na Casa das Escolhidas.

Foi o olhar da coya – entre todas ela, a irmã e esposa do Filho do Sol – que o despertou para isto que agora o prendia junto ao muro da Aclla-Huasi, sentindo tremer o peito e latejar as têmporas.

A mulher dissera que a irmã da princesa, tão bela e exclusiva quanto ela, duas pétalas da mesma flor, acalmaria seus anseios. Jurou que também a coya sofria, por isso concordara e facilitaria o encontro. Daquela hora até o amanhecer, o Inca deveria participar da cerimônia de imolação de um jovem casal; teriam assim liberdade absoluta para se amar, por algumas horas.

A mão que o guiava era fina e suave. Também esta mulher havia sido uma das Escolhidas. Agora o abandonava na porta da câmara; sem uma palavra, a velha se afastou deslizando no clarão da lua. Começou então um tempo impossível, como vivido por outro homem.

Na luz dourada da tocha, a mulher pareceu surgir do nada. Apenas o olhar vivia na tensão do rosto. Luzia na testa uma diadema de ouro, sobre a qual brilhava uma lua de prata, símbolo da hierarquia da coya; oferecia-lhe um manto púrpura e uma réplica do llauto, o turbante que três vezes envolvia a testa do Inca, com uma borla auro-rubra a cair  na sobrancelha esquerda.

– Somente assim paramentado o Filho de Inti tem acesso à carne da aclla — as palavras tremeram levemente. — Seremos eles durante nossa cerimônia.

A borla bateu com suavidade na fronte. Talvez naquele momento sentiu a enormidade do seu ato, e o castigo pareceu-lhe justo. Nada menos que a morte merecia quem, violando seu espaço sagrado, lhe usurpasse a dignidade. Vagamente entendeu que caíra numa armadilha. Ao mesmo tempo, soube que o perigo sacramentava seu amor.

Uma mão delicada, carregada de anéis e de pulseiras, procurou seu corpo.

– Vem, o pensamento de minha irmã aquecerá meus beijos – no olhar da fêmea a paixão do puma.

Então ficou de joelhos, abraçou-lhe o quadril e não poderia dizer se a desejava ou lhe pedia perdão. Sabia, contudo, que o retorno era impossível. Depois pensou que a Lua, mãe do Inca, autorizara seu ato ao se esconder por trás das nuvens quando ele penetrou no corpo proibido.

Contava-se que na segunda noite a fera descia da montanha. Um puma de prata, encarnação noturna do Inca, de garras e dentes implacáveis, e que antes de fincar os dentes em sua carne, lamberia seus pés ensangüentados.

O animal faminto e silencioso poderá ser o libertador do sol e da sede e da dor, que começa na raiz dos cabelos, pelos que estão ambos amarrados  a uma árvore — até que a morte chegue após indizível agonia, determina a lei de Manco Cápac. Uma dor que se expande pelo espaço a partir dos pulsos e dos tornozelos,  firmemente atados  com finas tiras de couro  umedecido, abarca as pedras, as montanhas, o vasto céu e continua em outras vidas.  Cãibras  que  esvaziam  o  mundo.  Deixam-no  oco,  sem ar, sem movimento, exceto a reverberação do sol e o inevitável deslizar do puma, ainda quieto na penumbra da rocha, mas já predestinado ao salto, ao rugido, ao seu sangue. E à carne daquela que o acompanha no suplício. Não pode vê-la, não sabe se é a mesma que saboreara certa noite, agora tão longínqua, como se fosse fruta, Que acariciara com os olhos e as mãos e a boca e o pênis, até que seu amor foi uma convulsão e gemidos e uma erupção ardente e viscosa que inundou os labirintos dela, obrigando-a a estreitas ainda mais os olhos e o abraço, e lhe tirou dentre os lábios um sussurro antes do grito que o trouxe de volta ao interior da Aclla-huasi e o jogou nas mãos potentes dos eunucos que, como a ela, o imobilizavam.

Seu grito ainda ressoava entre os gritos das serviçais que choravam e tentavam defendê-la. Então soube que possuíra a verdadeira coya. Acreditando tratar-se de uma substituta, desejara aquela que possuía.

Nada foi ver sua família e seus vizinhos sacrificados, a casa arrasada e até as árvores do jardim arrancadas para que não ficasse testemunho de sua existência — a justiça de Manco Cápac pode eliminar o passado, evitar o futuro.

Talvez neste momento prefira as outras mortes. A fogueira ou o emparedamento seriam mais rápidos, e neles poderia ocultar o seu terror. Nada se compara a esta espera do puma, que já desce a montanha, convocado pelo cheiro do amor e do sangue.

A lua pousa na testa do puma.

TRANSMIGRAÇÃO de joão batista do lago / são luis

TRANSMIGRAÇÃO


(Dedicado ao escritor português José Saramago)

Deixai que a terra mansa e calma se acostume

No consumo eterno da carne que me restara

Nas noites, nas manhãs e em todas as madrugadas.

Minhas mãos não mais apertam a terra

Agora, então, e de fato, toda a verdade suportável

Numa alma prenhe de ossos que se desliga de todas as carnes.

Há-me, doravante, a plural palavra solta ao vento,

Migrante como todas as almas necessitadas de renascimentos

Faminta de todas as carnes, de todas as verdades… De todos os lamentos.

JOSÉ SARAMAGO, entrega as moedas ao barqueiro nas Ilhas Canárias.

O escritor português e prêmio Nobel de Literatura José Saramago morreu nesta sexta-feira aos 87 anos em sua residência em Lanzarota, nas Ilhas Canárias. Ele sofria de problemas respiratórios.

José Saramago nasceu na província de Ribatejo no dia 16 de novembro de 1922, embora seu registro oficial aponte o dia 18.

Ateu, Saramago era membro do Partido Comunista Português. Em 1947, publicou o seu primeiro livro, o romance “Terra do Pecado”. Trabalhou durante doze anos numa editora, e colaborou como crítico literário na Revista “Seara Nova”.

Entre 1972 e 1973, participou da redação do jornal “Diário de Lisboa”, onde comentou política e, anos depois, o suplemento cultural. Fez parte também da primeira Associação Portuguesa de Escritores. Em 1975, foi diretor-adjunto do “Diário de Notícias”. E desde 1976 viveu exclusivamente da literatura. Também ganhou o Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa.

Saramago é conhecido por utilizar frases e períodos logos usando a pontuação de uma maneira não-convencional (aparentemente errada aos olhos da maioria). Em suas obras, os diálogos das personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, a ponto de o leitor confundir se o diálogo foi real ou apenas um pensamento.

josé saramago, em 2008, quando esteve no Brasil. (foto AFP)

Obras publicadas de Saramago

» Poesia

Os Poemas Possíveis (1966)
Provavelmente Alegria (1970)
O Ano de 1993 (1975)

» Crônica

Deste Mundo e do Outro (1971)
A Bagagem do Viajante (1973)
As Opiniões que o DL Teve (1974)
Os Apontamentos (1976)

» Viagens

Viagem a Portugal (1981)

» Teatro

A Noite (1979)
Que Farei com este Livro? (1980)
A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987)
In Nomine Dei (1993)
Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido (2005)

» Contos

Objecto Quase (1978)
Poética dos Cinco Sentidos – O Ouvido (1979)
O Conto da Ilha Desconhecida (1997)

» Romance

Terra do Pecado (1947)
Manual de Pintura e Caligrafia (1977)
Levantado do Chão (1980)
Memorial do Convento (1982)
O Ano da morte de Ricardo Reis (1984)
A Jangada de Pedra (1986)
História do Cerco de Lisboa (1989)
O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)
Ensaio Sobre a Cegueira (1995 – Prémio Nobel da literatura 1998)
A Bagagem do vVajante (1996)
Cadernos de Lanzarote (1997)
Todos os Nomes (1997)
A Caverna (2001)
O Homem Duplicado (2002)
Ensaio Sobre a Lucidez (2004)
As Intermitências da Morte (2005)
As Pequenas Memórias (2006)
A Viagem do Elefante (2008)
O Caderno (2009)
Caim (2009)

gp.

VEM, POESIA… VOLTA! de zuleika dos reis / são paulo



Espero há tanto

a palavra poética

faísca

chama

chaga

sublevação deste mundo sem dor

há tanto agonizando…

a palavra poética

a revoltar

os dias de marasmos

de limbos

de rosto sempre

o mesmo

DEUS INÚTIL

a palavra poética

espada

a tingir de sangue vivo

o silêncio confortável

de morto

SOL QUE CEGA REVELANDO

a palavra poética

de novo vida

nas veias

nas artérias

amor-vivo

movendo o ser

movendo

ESTE IMÓVEL.

Espero há tanto…

OS LABIRINTOS DE UBIRATAN TEIXEIRA por joão batista do lago / são luis


“Todos cantam sua terra

Eu também vou cantar a minha

A minha terra, seu moço

É uma belezinha”…

(João do Vale)

Em “LABIRINTOS”, de Ubiratan Teixeira, lançado na última quinta-feira, damos de cara com uma declaração (Mexericos Antes da Prosa) de amor a São Luis, feita pelo autor de forma deblaterativamente pungente. De pronto fui remetido aos versos compostos por João do Vale, aqui epigrafados. Ambos os textos fazem conexões internas entre si, muito embora os gêneros sejam díspares. Contudo, se tivermos a atenção devida vamos perceber que há, em ambos, o mesmo labirinto de paixões e emoções.

Penso que toda literatura – toda mesmo! – parte sempre de um ponto zero. E quando saímos desse possível ou provável ponto zero não sabemos até onde nem quando vamos chegar a um porto qualquer, onde ali possamos descansar nosso corpo. Não me refiro aqui de um corpo físico, mas de um corpo meta-físico ou mesmo metafísico, como um livro, por exemplo… Ou como os labirintos da alma dum sujeito existencial.

Ao ler “LABIRINTOS”, fincou-me mais clarividente essa impressão pessoal, posto que, o autor, escorreitamente, desde a primeiríssima página da novela vai-nos imbricando num novelo de tramas magistralmente construídas. Todas elas [as tramas] são sujeitos ilhéus com discursos próprios e mui bem administrados pelo autor.

“LABIRINTOS” tem um móvel que transcende ou perpassa por todos os viéses. Aos meus olhos é esse móvel que serve de combustível para veículos como a comunicação de massa (rádio, jornal e jornalista), a religião (arcebisbo e pai-de-santo) e a política (beatas, capangas, delegados, soldados… etc., etc). E é exatamente a partir e por meio desse móvel que vamos sendo conduzidos – magistralmente conduzidos! – e introduzidos nas tramas que se vão sendo geradas a cada página e a cada nova palavra, frase ou período da dissertação maravilhosa de Ubiratan Teixeira.

Dono de uma narrativa ágil, perspicaz, inteligente, o autor consegue segurar o leitor desde a primeira à última página. E quando se acaba de ler o livro tem-se a nítida sensação de se querer mais… Mas, aí, já não existem mais os “LABIRINTOS” de Ubiratan Teixeira. Em verdade, soçobram os labirintos do leitor inebriado pelo canto-chão duma Ilha encantante e encantada que nos foi apresentada pelas mãos mágicas de um autor que, quanto mais velho, mais sábio… Um autor da mesma estatura e peso como Dias Gomes, Josué Montello, Jorge Amado, Ariano Suassuna, por exemplo…

Enfim, e para retomar o campo viés literário (meu caso propriamente dito), fica-se, após a leitura, fazendo exercícios academicistas, i.é., procurando enquadrar o autor num determinado “ismo” de quaisquer dos gêneros literários. Chego assim à seguinte inferição: Ubiratan Teixeira é tão genial que consegue ultrapassar a marca ou o selo de um gênero literário. Ao lermos “LABIRINTOS” sob o manto da literatura, sobretudo da análise crítica, chegamos à conclusão que, Ubiratan Teixeira, é sim, um dos melhores escritortes que este Brasil já produziu.

Este seu “LABIRINTOS”, para quem assim o quiser experienciar, pode ser ofertado como uma obra literária sob o signo do Modernismo, do Surrealismo, do Realismo, do Romantismo… Enfim, a espaço de sobra para todos que quiserem, sob o manto literário, classificar esta obra. Aos meus olhos é, pura e simplesmente – e tão-somente – a melhor novela que li nos meus últimos 25 anos.

Por final, deixo aqui uma palavra de parabéns aos promotores do lançamento, sobretudo àqueles que, direta ou indiretamente, não cultivam o “boismo”, mas sim, buscam resgatar a principal arte dessa ilha e dessa gente marânhica: a Literatura – em toda a sua dimensão.

MAGIA & DEGREDO de jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

graphar na pele dos peixes

meus poemas longos como o mar revolto

graphar poemas lindos pelo lado de dentro

da pele ou no baixo das escamas

refletidas as palavras pro lado de fora

não entendo essa magia q. só aos bruxos

é dada a conhecer

um mar uns peixes uns corais umas algas

uns pedriscos calcificados na minha

alma oceânica

não há mais como sair daqui

estou preso à esta ilha de meu deus

e de nossa esperança

um sol imenso cobre minha sina de poeta

um sol como um destino de ariano

denso e resolvido

reflete minha vida nas águas deste mar

reflete thurva com pós vermelhos

cavalos de metro e setenta na cernelha

& poemas do rio Iguaçu

thurvos de lambaris policrômicos.

ETERNA TARDE de alceu wamosy / uruguaiana.rs

A tarde vai morrer, calma como uma santa,
num êxtase de luz infinito e divino.
Há nas luzes do céu qualquer coisa que canta,
com músicas de cor, a tristeza de um hino.

Tudo, em torno de nós, se esbate e se quebranta.
Em nossos corações, como um dobre de sino,
e esperança agoniza; e a alma, triste, levanta
suas trêmulas mãos para o altar do destino.

Não é somente a tarde, a eterna moribunda,
que vai morrer, e espalha esta mágoa profunda
no nosso olhar, nas nossas mãos, na nossa voz…

É uma outra tarde — que nunca há de ser aurora
como a do céu será amanhã — que morre agora,
triste, dentro de nós…

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Alceu Wamosy

(Uruguaiana RS, 1895 – Livramento, atual Santana do Livramento RS, 1923)

Publicou seu primeiro livro de poesia, Flâmulas, em 1913. Na época já trabalhava como colaborador no jornal A Cidade, fundado por seu pai, em Alegrete, RS. A partir de 1917 tornou-se proprietário do jornal O Republicano, apoiando o Partido Republicano. Continuou colaborando para diversos periódicos, como os jornais A Notícia, A Federação, O Diário e a revista A Máscara. Publicou as obras poéticas Na Terra Virgem (1914) e Coroa de Sonho (1923). Postumamente foram publicados Poesias Completas (1925) e Poesia Completa (1994). Poeta simbolista, Alceu Wamosy escreveu poemas cheios de desencanto, em uma produção que se destacou no sul do país e é uma das mais significativas do Simbolismo brasileiro.

JOSÉ SARAMAGO pelo olhar do poeta brasileiro C. RONALD /santa catarina

ARREMATE

Ninguém Saramago, inventa Deus para sua miséria; você teve pai e mãe, você não se inventou. Seus livros embalam o erro, a inocência e também o pecado.

Constância e tumulto sem quebra de visão na árvore, a figura humana é transferida, a morte é só ressonância. O desconhecido não deve ser impresso na presa, o medo mede todo o discurso do pavor, a eternidade passa além se a perdemos de vista. Se o homem inventou Deus, como o homem poderia inventar você?

A diferença é grande, não é? Quantas vezes foi Saramago o amor de Deus, perdido. O sentido é uma consequência sem memória. Havia distância que não sabia o seu tamanho, hibernação no contorno sem alma,leveza ritmada, dança! Quem chegar à vida só por si mesmo ganha Saramago de graça.

.

poemas de C.RONALD:

.

OS  SEMPRE

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a demora do vidente precipita-se
naqueles que o esperam

novamente um princípio para o erro
caso contrário mastiga a norma como alimento
conhecíamos o destino quando vinha só
no ar como o enigma
sobreposto ao susto
e de repente alguém aderiu-se
à língua e fez-se prédio

por que os mortos não se tornam
excessivos e nem excitam a forma excetuada
houve espera na melancolia onde
o fundamento desapropriado
pelo rigor da claridade pode
alterar o riso análogo

a existência favorece o medo
partes variadas da distração com molas arriadas
e o pecado no meio
deve dar para quatro aventuras
quatro são as mãos do homem
quando dá e tira
depois vários quadradinhos de suspeita
e Abel no meio
se era mesmo a religiosidade
na parte crua do bife
faca e garfo sonolentos
sem que o prato justifique
mudança no percurso do Caim
ou dança simplesmente
o espírito mais ereto que liso
“Senhor eu não sou digno”

.

CUIDADOS DO ACASO poemas (II)

Tenho o nó na garganta, o tiroteio
no peito da criança, essa bagagem de ossos
próxima de um semáforo, esquecida
do tráfego sangrento numa noite sussurrada.

Um plaft para o homem sem aniversário.
As duas partes do rosto
fazem uma concha fechada pela indiferença.
Asas derretidas depois de derrubadas
entre a inquietação e a banalidade dos pardais
no asfalto exposto. Sinceramente

a morte não é coisa de mortos.
Estão podres os que representam
o personagem que nunca foram. O sonho
sai dos alvos alagados diante da porta,
alguns trazem sementes fumegantes,
farpas cravadas no luar,
o aquecimento da comunhão
no vermelho da maçã.

I

Que isto resuma toda a importância do homem:
não ficou pronto pela carne, mas viveu.
Animais escorregam do universo e sentem
apenas o momento veloz que une garras e dentes.

Desiguais na aparência, espelham o mundo
entre átomos sofridos quando Deus separa
na eternidade as árvores e os próprios bichos.
Os outros são defeitos da existência. O nada,

que o efêmero revela de um estranho fundo,
a realidade exige. Mas engulo Jonas,
como baleia, e o anzol, curva para nós mesmos,

é cuspido na aurora de um ser descontente.
Inconsciência e apogeu, cada qual com seu caos,
dobra de temporal desde o início do tempo.

C. RONALD, considerado o maior poeta da atualidade brasileira, em sua fantástica biblioteca.

.

Em 2 de Dezembro de 1935, nasce em Florianópolis, Carlos Ronald Schmidt, filho de Lourival H. Schmidt e Ana Ernestina Kersten Schmidt. Em 1942, aos 7 anos de idade, C. Ronald faz o pré-primário na escola particular Jurema Cavallazi. Em 1946, com 11 anos de idade, Ronald ingressa no Ginásio Catarinense. Aos 20 anos, em 1955, presta serviço militar no CPOR de Curitiba (PR), logo depois aos 21 começa a colaborar no jornal “O Estado” de Florianópolis (SC).

Em 1957 assina, entre outros, o Manifesto do Grupo Litoral. Com 23 em 1958, ingressa na Faculdade de Direito em Florianópolis, em 1959, publica o livro Poemas (Edições Litoral), mais tarde repudiado. Em 1960, com 25 anos, sai em edição do autor o livro Cantos de Ariel , também repudiado. Em 1962 recebe o grau de Bacharel em Direito e muda-se com a família para o Rio de Janeiro.

Com 30 anos, em 1965 casa-se com Neide Maria Campos, natural de Biguaçu (SC), logo após ocorre o falecimento de sua mãe, em Petrópolis, Estado do Rio. Em 1966 ingressa na Magistratura Catarinense, sendo nomeado Juiz Substituto da Comarca de Concórdia (SC), ocasião em que nasce sua filha Ariadne. É promovido para a Comarca de Guaramirim (SC).

Em 1967, nascimento do filho Cristiano, falecido quatro meses após, logo após, em 1968 Nasce sua filha Amarílis, e em 1969 Nascimento do seu filho André. Aos 36 anos de idade, em 1971 É promovido para a Comarca de Braço do Norte (SC); é editado no Rio(RJ) o livro As origens (Ed Livros do Mundo Inteiro/MEC).

Em 1973 Nasce seu filho Bernardo; e muda-se com sua família para a Comarca de Biguaçu(SC). Em 1975 Sai em São Paulo(SP) o livro Ânua (Ed. do Autor / Udesc): considerado o melhor livro do ano pelo Conselho Estadual de Cultura. Recebe o título de Personalidade Maior do estado de Santa Catarina; em 1978 É publicado em São Paulo o livro Dias da terra (Ed. Quíron/INL).

Aos 46 anos, em 1981 falece seu pai em Florianópolis(SC). Começa a colaborar no suplemento “Cultura” do jornal “:O Estado de São Paulo”.

Em 1982, é publicado o livro Gemônias (FCC/UFSC), em Florianópolis(SC). Em 1986, sai em Portugal na antologia Poesia Brasileira Contemporânea, coleção “Escritores dos Países de Língua Portuguesa” editada pela Imprensa Oficial — Casa da Moeda, Lisboa; Edição do livro As coisas simples (Arte Hoje Editora/INL), Rio.

Em 1993, é publicada em São Paulo (João Scortecci) o livro A cadeira de Édipo; Na mesma ocasião sai em Florianópolis seu livro Como pesa! (Editora Paralelo 27. coleção “Poesia de Santa Catarina”). Em 1995, C.Ronald publica o livro “Cuidados do Acaso” (Scortecci Editora, São Paulo, 1995), Em 1997, publica o livro “Todos os Atos (Scortecci Editora, São Paulo, 1999), Em 1999, o poeta publica o livro “Ocasional Glup” (Scortecci Editora, São Paulo, 1999), Em 2001, publica o Livro “A Razão do Nada (Scortecci Editora, São Paulo,2001), Em 2003, pela Editora Bernúncia Florianópolis-SC, o poeta publica “OS SEMPRE”. Em 2006 publica pela mesma editora o Livro “Caro Rimbaud”;

EM MEU OFÍCIO ou ARTE TACITURNA de dylan thomas / gales

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte
.

(Tradução: Ivan Junqueira)

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Dylan Marlais Thomas nasceu em Swansea, no País de Gales, a 27 de outubro de 1914. Considerado um dos maiores poetas do século XX em língua inglesa, juntamente com W.Carlos Williams, Wallace Stevens, T.S. Eliot e W.B. Yeats. Dylan Thomas teve uma vida muito curta, devido a exagerada boemia que o levou ao fim de seus dias aos 39 anos, mas, ainda teve tempo de nos deixar um legado poético que o tornou um dos maiores influenciadores de toda uma geração de escritores.”

A NAU de augusto dos anjos / paraíba

Sôfrega, alçando o hirto esporão guerreiro,
Zarpa. A íngreme cordoalha úmida fica…
Lambe-lhe a quilha a espúmea onda impudica
E ébrios tritões, babando, haurem-lhe o cheiro!

Na glauca artéria equórea ou no estaleiro
Ergue a alta mastreação, que o Éter indica,
E estende os braços da madeira rica
Para as populações do mundo inteiro!

Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda,
Pára e, a amarra agarrada à âncora, sonha!
Mágoas, se as tem, subjugue-as ou disfarce-as…

E não haver uma alma que lhe entenda
A angustia transoceânica medonha
No rangido de todas as enxárcias!

LÍNGUA SOLTA: subordinação vocabular e linguística – por joão serralvo / são paulo

A invasão do inglês em nosso idioma virou moda. Solta a língua das pessoas, que simulam dominar o idioma estrangeiro mais falado no mundo, mas desconhecem o significado dos termos que usam para se exibirem. Esse processo de subordinação já extrapola o âmbito linguístico, espalhando-se pelo comportamento geral. A mídia é a principal responsável pelo esnobismo barato, ao divulgar tais procedimentos como manifestações culturais. O bullying e o rebolation são meros exemplos atuais.

Nos escritórios, empresas nacionais, usam folder de follow-upfolder de income tax e de interest ratefilesattached, dar um reset, solicitar um feedback, fazer check-in echeck-out, parar a reunião para um coffee-break, solicitar roteiros de viagens com vários stopstake instake offs, marcar uma board meetingto call a meeting, fazer um schedule, fazer um chart, contratar um charter flight, marcar breakfast meetingem hotéis…

Na ginástica, temos lazy walk (caminhar lento), sitting on the pole (sentando no poste), carrousel (carrossel), fireman move (giro do bombeiro), hand stand (de cabeça para baixo), significando posturas ou movimentos. Além do inglês, temos ashi baraitomoenague no judô, e outros golpes.

Bilheteria ou tiqueteria?

A regra é soltar a língua. Além dos estrangeirismos, temos os modismos. Acabaram o “tipo assim”, e “a nível de”, que não impressionavam só os cafonas, mas até pessoas cultas. O diretor de um dos maiores jornais de São Paulo, que só falava desse jeito, era engenheiro mecânico, com mestrado em matemática e cursos de aperfeiçoamento em Administração nos Estados Unidos e Suíça. Um dia sua secretária tentou conversar sobre isso e sua resposta foi: “Abstenho-me de seus comentários, volte para os seus afazeres!”

Há também os prolixos. Alguns relatórios podem ser reduzidos a 1/3. A língua solta de alguns redatores nos obriga a pedir para a secretária “dar um jeito naquela diarréia verbal”. E tentar relatar com exatidão, usando poucas palavras adequadas ao assunto.

Agora temos os gerúndios, que até já foram proibidos por lei. Vamos estar escrevendo, vamos estar publicando, e vamos estar parando com isso.

Está na moda o pronome extra. Em vez de “Fulano disse que…”, as pessoas estão dizendo “Fulano ele disse que…” “A Lígia ela está gorda…” Repare quando conversar com alguém ou assistir TV.

Jornais e televisão dizem “os preços caíram pela metade”, ou “o consumo caiu pela metade”. Está errado. Não se pergunta “por onde” os juros caíram, mas “quanto” ou “até que ponto” eles caíram. Deviam dizer “os índices caíram à metade”. E a mídia vai soltando a língua.

Tem mais. Agora tudo é tíquete, mas tíquete é bilhete. Você vai a uma bilheteria ou a uma tiqueteria? Pode ser cupom, ingresso, vale, passagem, entrada de cinema. O que é melhor: tíquete-refeição ou vale-refeição? Tíquete-transporte ou vale-transporte? Ou prefere tíquete-carona…

Um prédio que oferece sky shit

Vasilhame pet é embalagem plástica para líquidos. Pet é a sigla em inglês do nome científico do politereftalato de etila. Em bom português, é só “plástico” ou “garrafa”, e não pet.

O pior é que as pessoas não sabem nem pronunciar o inglês. Uma vez eu estava na praia do Leme, no Rio, com sede, e vi um ambulante gritando “Compre um sumessum”. Pensei que fosse algum suco. Mas ele estava apenas vendendo o bronzeador Summer Sun. No calor, bebe-se qualquer coisa, mas é melhor uma boa tulipa…

Os aperitivos levam os nomes mais estranhos. Se você não conhece as respectivas fórmulas, peça com cuidado para não enrolar a língua! É melhor tomar uma caipirinha, que não é drink

Com o progresso da economia, está surgindo a nova classe cafona, sem cultura, que adora os tais termos. Eles dizem: “Moro perto do shop cente”, “Moro no Tritaue” (Three Towers), trabalho no Versailes Ófici, comprei um “rometiat” e por aí vai.

Mas por que os prédios têm nomes estrangeiros? Tem prédio “You”, “Up”, “Office”… Recentemente lançaram um “Green Design”! Ora, o povão tem direito ao consumo mas, por Deus, onde fica a educação? Importante é o luxo! Tem um prédio “Sky” que oferece sky caresky fixinghigh tech skysky deliverysky conciergesky cleaner,sky wash, sky fit, sky pettingsky massagesky shit… Eu vi o anúncio na Folha de S.Paulo. Achei ridículo. Lá no escritório o pessoal deu muita risada.

É mais cômodo não ter que pensar

A triste verdade é que, se os prédios tivessem nomes brasileiros, não venderiam nada. Ninguém quer morar num Jardim Azul, mas caem matando num “Blue Garden”. Semlobbyplaygroundlounge, não dá! É tão chique morar num garden, trabalhar numoffice center… Pode?

Para conversa de vendedor, é beleza. Comprador adora anglicismo. O bobo fica se achando importante, até arrisca um OK! O esnobismo barato de mentalidade cafona, serve para soltar a língua presa e abrir a burra.

Mas, fora a invasão estrangeira, tem muita coisa pra ser arrumada em nossa língua. Ouvi um imbecil dizendo: “Pra que estudá tanto se o presidente nunca estudô?” Será que ele quer seguir o exemplo do Lula? Coitado! Vai se ferrar. Ele tem outros exemplos para seguir, mas a culpa é da mídia, que espalha os vícios da linguagem. A televisão é uma me… merreca. Para ganhar audiência, nivelam tudo por baixo

A mídia ainda respeita a cultura inflacionária do passado; nunca mais deixou de simplificar milhões por “mi”, bilhões por “bi”… E o verbo “acontecer”? Esse substitui qualquer outro. É comum na TV: “A reunião dos diretores acontece nesta quarta”, em vez de “os diretores se reunirão na próxima quarta-feira”. Tem outros micos: “O crime aconteceu na igreja.” Ora, crime se comete ou se pratica, crime não acontece simplesmente, como se não tivesse nenhum agente. Cerimônia se celebra. Programa se apresenta. Comício se realiza. Missa se reza. Assembléia se convoca. Prisão de bandido se efetua. O verbo acontecer deve ser empregado quando não há um agente conhecido: “isto” acontece, “tudo” acontece, “o que” acontece. O professor Napoleão Mendes de Almeida já denunciava e lamentava esse exagero há muito tempo. O pessoal da mídia não lhe fez caso. E continua errando. É mais cômodo, não tem que pensar, escolher verbos.

Uma obrigação cívica

Tem coisa pior. Você já reparou como é feita a indicação da idade na Folha de S.Paulo? Escrevem o nome da pessoa e, em seguida, entre vírgulas, só os algarismos significativos da idade. Sem dizer que é idade. Esse sistema é comum nos Estados Unidos. Lá, só se faz assim. Até nos arquivos, nos cadastros, nos processos, a idade das pessoas se indica só com os números correspondentes. Faz sentido. Se você pergunta a uma garota norte-americana “Qual é sua idade?”, ela responde “Eu sou quinze”. A garota brasileira responderia “Eu tenho quinze anos”. Para os norte-americanos, a idade é algo que você é. Para os brasileiros, a idade é algo que você tem. Essa é a diferença.

Mas se não se indica o significado do número entre vírgulas, ele pode se referir a idade, peso, busto, nota, qualquer coisa. É um erro de português. Por que insistir nisso, se não é nosso costume? É outra forma de invasão do inglês. Pura imitação. A origem é a seguinte. Na década de 1940, ou de 50, no Rio de Janeiro havia um jornal de grande circulação, cujo redator-chefe era um homossexual enrustido. Ele tinha pavor do sotaque carioca, que iguala algumas palavras, como “anos” e “ânus”, que soam algo como “ânuch” com aquele som chiado no final. Por isso, toda vez que o nosso redator enrustido precisava escrever ou, principalmente, pronunciar a palavra “anos”, ele se encolhia, sentia-se mal, e sempre tentava fazer a substituição da palavra ou de toda a frase por outra expressão. O vocábulo “anos” era terrível para ele, que escondia sua opção sexual. Tinha que desmanchar esse nó de qualquer jeito.

Numa de suas viagens aos Estados Unidos, ele conheceu o modo norte-americano. Teve um estalo! Um verdadeiro alívio! Para acabar com o uso da palavra incômoda bastava adotar o sistema inglês. Solução perfeita! Ele determinou que todos usassem o modo norte-americano. Seria mais simples, mais prático, tornando desnecessária a repetição maçante da palavra “anos” em tudo o que se referisse a pessoas! Foi isso. Ele achou uma boa saída, já que não teve coragem de assumir… Quem sabe se hoje a história se repete, o preconceito também e, com isso, a invasão continua.

Não se pode remar contra a corrente. Todos os idiomas se transformam, com o passar do tempo. É impossível evitar. Devemos traduzir os vocábulos estrangeiros, ou aportuguesar os que não tenham tradução. Enriquecer o vocabulário. Salvar a nossa língua. Quem comunica ao público, deve assumir essa responsabilidade. Não se pode negligenciar e a mídia tem a maior parte nisso. É uma obrigação cívica!

Rumorejando (Com a preocupação de que com a nossa seleção estaremos penando). – por juca (josé zokner) / curitiba

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (De diálogos reciprocamente inverossímeis).

Disse um velhinho pro outro:

“Você já viu as imagens eróticas que têm na Internet ?”

“Não. E nem quero ver. Como é que você ficou sabendo de tudo isso ? Você já viu ?”

“Ainda não. Me contaram”…

“E como é que faz pra ver ?”

“Não sei. E nem quero saber”.

Constatação II

A corrupção e os altos salários dos políticos são concentradores de renda, consequentemente do aumento filhadapu…mente da pobreza.

Constatação III (De diálogos anti-desperdícios).

-“É da casa do Fulano ?”

-“É”.

-“É o senhor que ia ter uma consulta hoje às 16 horas com o Dr. Beltrano ?”

-“É”.

-“O Dr. pede mil desculpas, mas teve um chamado urgente em outra cidade e não sabe se conseguirá voltar em tempo para lhe atender. Ele pediu para marcar uma nova consulta para amanhã, no mesmo horário. De acordo ?

-“É. Tá bem. O que é que a gente vai fazer ? Pena que eu já tomei banho”…

Constatação IV

Tá certo que no par de meias estava escrito que ele continha 94% de algodão e os restantes 6% de fibra sintética. Mas, os 6% de fibra sintética provocaram uma alergia tal que ficou a dúvida crucial se não haviam trocado os percentuais…

Constatação V (Lamentavelmente).

A persistente agressão

Na camada de ozônio

Sem cessar

Fará uma transformação,

Um pandemônio,

Na água, na terra e no ar.

Constatação VI (Ah, esse nosso vernáculo).

Deixou curtindo o mate chimarrão para melhor curti-lo.

Constatação VII

E como dizia aquele extenuado marido para a sua obcecada e insaciável esposa: “Assim como existe, em alguns lugares, o cartaz: “Por favor, respeite o meu direito de não fumar”, eu te peço: “Por favor, respeite o meu direito de não me esfalfar”.

Constatação VIII (Via pseudo-haicai).

A petulância

É irmã gêmea

Da arrogância.

Constatação IX

Disse um velhinho, nada a ver com um dos velhinhos da Constatação I: “Viagra é um santo remédio”. Disse outro velhinho, nada a ver com nenhum dos velhinhos da Constatação já mencionada: “Viagra é um remédio santo”. Disse um terceiro velhinho, etc., etc.,: “Viagra é um santo remédio santo”. Mentiu um quarto velhinho, metendo panca: “Coitados de todos esses velhinhos”.

Constatação X

Bertold Brecht é o autor da frase: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. “Parodiando” o grande teatrólogo, depois das chuvas em Curitiba e adjacências: A enxurrada que tudo destrói se diz que é malsã, mas o lixo na calçada se acumula desde a manhã…

Constatação XI (De diálogos esclarecedores).

-“Ele reprovou nos exames”.

-“Por falta de estudo ?”

-“Não. Por excesso de coceira”…

Constatação XII (Ah, esse nosso vernáculo).

Ela foi provar

O chá do samovar

E se queimou.

E se queimou

Porque ninguém avisou.

Constatação XIII

Ela teve um sonho

Que tava declamando

Muralha, o Sidônio

E a turma, só vaiando.

Constatação XIV

Não parece normal

Que, em casa, eu não apite.

Mas, não faz mal

Ando mesmo sem palpite…

Constatação XV

Disse o crupiê

Pra mulher,

Com dureza,

Sentada no bidê

Como quem nada quer:

“Cartas na mesa”!

Constatação XVI

A guisa

De informação:

Certo tipo de aposentado,

Fizeram dele

Um palhaço

Nessa anômala contribuição,

Pois, foi ele,

De novo, tungado.

E o seu quinhão

Que já era escasso

Passou a ser uma brisa…

Constatação XVII

As desavenças entre um casal também se verificam quando ambos, já com uma certa idade, a provecta, ou  “a terceira idade”, ou “a idade de ouro” retornam a fase do “não”. E o “não” deles não são para as mesmas coisas, são “nãos” totalmente díspares.

Constatação XVIII (De conselhos úteis).

E nunca esqueça, prezado leitor, que você, para subir na vida, não precisa pisar nos outros. É bem mais fácil você pisar em degraus… Inclusive, você se equilibra bem melhor e não corre o risco de um escorregão. De nada !

Constatação XIX

Não se deve confundir Extremadura, que é o nome de um time de futebol da Espanha, com ferradura, muito embora, a semelhança de tantos atletas que atuam por outros times, há muito jogador do Extremadura que deveria jogar com ferradura

Constatação XX

Em certos países, devendo ou não, o camarada paga “para não se incomodar”. E viva “nóis” !

Constatação XXI

Quisera

Eu

Que

Aquela

Doce

Sensação

Que

Ela

Prometeu

Não

Fosse

Quimera…

Constatação XXII

A fofoca provem principalmente da falta de assunto.

Constatação XXIII

Dentre os livros mais vendidos nas livrarias na área de “Não ficção”: 203 maneiras de enlouquecer um homem na cama, de Olivia St. Claire; 177 maneiras de enlouquecer uma mulher na cama, de Margot Saint Loup. Para quem se interessa em estatística, isso tudo dá um total, entre “segredos” e “maneiras”, de 380. É só conferir. Me refiro a estatística. Quem quiser, pode, também, ler esses dois livros. É decisão pessoal da necessidade de cada um…

Constatação XXIV

Quando o ambientalista leu o cartaz da loja “Estamos liquidando o verão” pensou imediatamente: “Também o inverno, a primavera, o outono…”

Constatação XXV

O jiu-jitsu está entrando na moda. Com toda a certeza, o caratê vai entrar também. Provavelmente, seguir-se-ão (perdão, leitores, saiu assim. Não tem nada a ver com o “fi-lo porque qui-lo”) outros esportes assemelhados. Em certos países, andar armado faz horas que entrou na moda e até hoje não saiu…

Constatação XXVI (De conselhos úteis. De nada!).

Vê se manera

Na tua despesa.

Seja austera.

Nessa vertente

De mulher burra

Dificilmente,

Você chegará,

Você se tornará

Uma formosura,

Uma globeleza.

Constatação XXVII

Tem gente que te visita para fazer terapia, despejando em cima de você todas as suas desditas e saindo, em seguida, leve como sombra de asa de libélula. Depois disso, é você que tem que fazer terapia. Aí, com um especialista, pagando uma baita consulta.

Constatação XXVIII

Quando a vizinha e amiga falou: “Eu vou convidar vocês para aparecerem lá em casa para ver o filme da nossa viagem com as crianças para a Disneylandia”, a amiga e vizinha pensou: Puxa! Eu nunca fiz nada de mal pra essa gente. Ao contrário, sempre os tratei bem. Só fiz gentilezas nesses quinze anos que vizinhamos”…

Constatação XXIX (De temas de transcendental importância).

Quando a gente era mais novo – e por mais incrível que isso possa parecer, a gente já foi mais novo –, quando criança, a gente costumava dizer, caso chovesse e saísse sol simultaneamente: “Chuva e sol, casamento de espanhol”, ou “sol e chuva, casamento de viúva”. Hoje em dia, em Curitiba, não daria mais, não só pelas condições climáticas, já que só chove e o sol não é visto, mas porque o casamento está, gradativamente, sendo abolido… Agora, nos poucos casos que eles ocorrem, os noivos costumam se despedir na igreja, não oferecendo um almoço, um jantar ou, sequer, um simples coquetel, o que, convenhamos, parece meio usurário, meio sovina. Para esses casos esdrúxulos sugerimos que, em Curitiba, as crianças, digam: Chuva e chuva, queremos a manjuva*. Fica consignada a imprescindível sugestão.

*Manjuva = comida, refeição.

Constatação XXX (Ah, esse nosso vernáculo).

O Cunha, contou uma história, sem cunho histórico, sobre o seu cunhado que fez uma cunha toda torta por haver tomado uma “caña” paraguaia.

DÚVIDAS CRUCIAIS

Dúvida I

Se o Presidente Dutra, que governou o Brasil em 1946, depois da ditadura de Getúlio Vargas, também tivesse sido ditador, teríamos tido uma ditadutra ? (Perdão, leitores).

Dúvida II

E já que falamos no assunto, quem poderia supor, pela cabeça de quem iria passar que, um dia, o mundo ficaria mais pequeno para os “grandes”  ditadores, como por exemplo o falecido Pinochet ?

Dúvida III

Progenitura,

Atualmente,

Somente

Quem

Não

Tem

Fartura ?

Perdão,

Sinecura ?

Dúvida IV

Você também é daqueles que fica pê da vida, possesso, fulo de raiva quando a caneta esferográfica, recém adquirida, não solta tinta ou solta em demasia ? Ou você acha que apenas levou azar na compra ?

Dúvida V

Dependendo da resposta para a Dúvida IV, você acha que irá para o céu ou para o inferno, eventualmente, com baldeação, ou conexão, no purgatório ? (Baldeação, nos casos de utilizar trem: conexão, avião).

Dúvida VI

O seu bocejar

Incessante,

A sua sonolência

Irritante

Começou a estragar

Sua boa aparência ?

Dúvida VII

O flerte

De sua filha

Tão solerte ?

Dúvida VIII

O namoro

Do seu filho

Só decoro ?

Dúvida IX

A cartomância,

Como ciência,

É ignorância,

Ou sapiência ?

Dúvida X

Quando o vendedor, ao te apresentar um orçamento, diz: “Dependendo da oferta do concorrente, ainda dá para negociar o meu preço”, ele está te dando um diploma de burro, já que estará pensando: “se meu preço passar, passou”; ou ele está se dando um diploma de burro, pois você sempre poderá dizer que o preço do seu concorrente é menor, ou, ainda, ambas as coisas ? (Comentários no blog. Obrigado).

Dúvida XI (Via pseudo-haicai).

Sem parcimônia

Ele mandou a sogra

Tocar zampônia* ?

*Zampônia = Instrumento de sopro muito utilizado no Peru e Bolivia.

Dúvida XII (De alguns países africanos).

Dolarizar ou não dolarizar, esta é a questão, digo, that is the question ?

Dúvida XIII

Potência estrangeira

Só quer nossa infelicidade!

Tudo isso não é besteira

Ou, da oposição, maldade ?

Dúvida XI

A novela

Foi a responsável

Pela queima da panela ?

Dúvida XII

Ora veja,

Naquele momento,

Tão solene,

O falatório

Da proclama

De casamento

Da Irene:

“Foi no cartório,

Na igreja

Ou na cama ?”

Dúvida XIII

Foi o xexelento*

Que propôs à ricaça beldade

Casamento?

*Xexelento = “Regionalismo: Brasil. Uso: informal.

1. desprovido de qualidade; de pouco valor

2. de aparência desagradável; falto de beleza

3. usualmente desejoso de amolar, incomodar; implicante” (Houaiss).

Dúvida XIV

A mulher que se permite ser objeto de um homem é uma mulher abjeta?

O TEÓLOGO (II) por hamilton alves / ilha de santa catarina

Contei outro dia o encontro casual que tive numa lanchonete com um teólogo.

Quando se revelou tal, disse-lhe (como certamente os leitores que leram essa crônica se lembram) que era uma ciência que despertava meu interesse.

Foi então que se mostrou curioso, considerando que nas universidades, nestes tempos, não gozava de muito prestígio.

– Tenho poucosss alunosss no curso. – dizia-me.

Agora voltava a encontrá-lo, não mais na lanchonete, mas no correio, onde despacharia um volume de tamanho considerável, enquanto de minha parte postaria uma carta a um amigo. Mas como tinha a preferência na fila, que se formou diante do balcão, tinha que esperar minha vez.

Ele me reconheceu:

– Conversamosss outro dia sobre teologia. O senhor tem alguma formação em teologia?

– Não, só de leitura.

– Quais os autores que tem lido?
– Unamuno…

– Ah, Unamuno, sim, muito bom filósofo, tem muitasss  ideiassss interessantesss.

– Li Chesterton, Teillard de Chardin, Kierkegaard, Wittgenstein (embora este não seja especificamente um teólogo), Dostoievski, que vivia, a todo momento, como relata Leonid Tsípkin, em um livro (Verão em Baden Baden), fazendo o sinal da cruz nas ocasiões mais imprevistas, por algum motivo ou sem motivo nenhum.

– Bonsss autoresss todosss. Dostoievski, com sua fé incrível, fé pura, poisss creio que nunca lera um livro de teologia, especialmente.

Pigarreou. Perguntou-me.

– Que leu de Dossstoievssski?
– Seus livros principais, “Crime e Castigo”, “O idiota”, “Os demônios”, parte dos “Irmãos Karamazov”, uma pequena novela , “O sósia”, e algumas outras histórias curtas.

– Leu então o fundamental.

A essa altura, notei que fora despachado seu imenso pacote, recebera um documento da entrega da funcionária, quando chegava a minha vez.

Muito sem formalidade, referindo rapidamente cada autor que mencionara, detendo-se em Dostoievski, que o assombrara, como dissera, por sua fé ,

estendeu-me sua mãozorra, despedindo-se.

E acrescentara, ao fim:

– Volto amanhã à Suíça, onde leciono na Universidade de Lausssanne.

Saiu a passos aquela figura impressionante de homem. Logo entrara num carro de placa oficial. Não ficara  sabendo nada mais dele, em duas entrevistas, a não ser que era  teólogo.

Obediência ao patrão. Que patrão? – por alceu sperança / cascavel.pr



É ilusão acreditar que as eleições gerais deste ano vão trazer qualquer mudança. O presidente, o governador, os senadores e os deputados serão executores dos mesmos métodos e práticas, que podem ser traduzidos numa palavra: capitalismo.

Espera-se dos eleitos que sejam honestos, mas a honestidade, por si só, não quer dizer competência para inovar outranscender as maldades capitalistas.

Há gente honesta, porém retrógrada. Pode ser bom administrador privado, onde manda, mas administração pública requer habilidades adicionais – obedecer, por exemplo, o clamor dos tempos, que exigem pôr abaixo as estruturas desumanas que mantêm a miséria, a ignorância, as exclusões e as injustiças.

Ainda que mudem os nomes, o sistema eleitoral é o mesmo: campanha financiada pelos ricos e sérias suspeitas de caixa 2. Se um empresário sair, entrará outro empresário, tomara que progressista. Se um médico sair, entrará outro profissional liberal, quiçá crítico e fiscalizador. Se um dos burocratas sair, entrará outro burocrata. Quem sabe uma mulher, mas nem por ser mulher, mesmo caso do honesto retrógrado, estará garantido que será uma revolucionária.

Aqui cabe um parêntese gordinho. Quem já posou de rebelde, ontem, hoje pode ser exatamente o contrário, como ensinou Fausto Wolff, o Faustão que vale a pena, em sua obra-prima, À Mão esquerda (1996). Isto se nota muito bem por Dilma, Serra e Marina, rebeldes ontem e capitalistas de carteirinha hoje:

− Existe uma boa diferença entre espírito rebelde e revolucionário. Enquanto o revolucionário mantém uma permanente posição crítica em relação ao poder, o rebelde só é contra o poder até ser convidado a participar da sua mesa, ocasião em que não só muda de posição, mas escreve verdadeiros tratados filosóficos para explicar a mudança.

Fecha.

Em suma, nas eleições de 2010 continuará o poder da mesma classe, uma repartição de salas e mesas entre ricos e pequeno-burgueses. Nenhum operário fora do “sindicalismo oportunista, costureira, mecânico, catador de papel, diarista. É a “democracia” brasileira americanizando-se a olhos vistos.

Não importa, assim, quem será o presidente ou os parlamentares. Nossa tarefa, na condição de cidadãos, é cuidar para que essa gente que pagamos, mas raramente vemos trabalhando, dance conforme a música que o povo tocará para eles.

Atrás da recessão americana e suas guerras, da farsa luliberal, do desencanto com a política dos ditadores, demófobos e liberais, há que aposentar o toque de recolher e se ouvir um novo clarim: a mobilização do povo-protagonista.

Acabamos de ver isso na rejeição mundial às atrocidades cometidas por Israel, que é a face mais revelada do poliedro capitalista: uma ideologia repulsiva na cabeça e uma arma na mão.

É necessário à sobrevivência humana que essa rejeição se encaminhe para a montagem planetária de uma Frente Anticapitalista, pois o sistema crítico que aí está só promete corporações mais fortes e um poder mundial escravizante.

Sejam quem forem os gerentes da empresa Brasil S/A, eles precisarão saber quem é o patrão. Um tal de povo, já ouviu falar?

Pois bem dizia o Barão do Rio Branco em correspondência a Joaquim Nabuco:

“O nosso povo é muito melhor do que os homens das classes dirigentes”.

SEMPRE ENAMORADO por tonicato miranda / curitiba


Daqui a um dia será o Dia dos Namorados. Você jamais foi a minha namorada, mas sei de mim em você nesta condição. E o que é ser namorado? Ser o outro saindo de si mesmo ou não ser. Ou ser o imaginado pela vizinhança do sentimento de quem já se renunciou? Dói-me ver, eu e outros saltados para fora de mim, de nós; prisioneiros aos licores da paixão. Nós, olheiras fundas; e íris frígida, em transe; a buscar no outro reflexos da própria tristeza. A tristeza de se olhar onde não é, onde nunca fomos; eu e todos, sendo difícil o seremos.

O fato é que este avião sacode e com ele vão me sacudindo as ideias.

O avião segue a noite e esta segue o eixo da Terra. Parece que todos seguem alguma coisa. Damos voltas e voltas sobre o eixo planetário. Somos o cachorro do planeta e o enamorado cachorro da nossa paixão. O avião tenta voar em prumo, voar à frente, em linha reta, esta coisa que não existe em nosso mundo curvo. E sinto ou pressinto que jamais me apaixonarei novamente. Jamais farei esta deliciosa loucura mais uma vez. Mas por quê? – pergunta-me o outro dentro de mim. Simples ângulo obtusângulo da vista: porque jamais deixei de estar apaixonado. Como então começar o que não acabou? Muito embora esteja triste porque nada comprei para doar de mim à namorada. E precisava recomprar com objetos diretos todos os objetos indiretos e diretos do meu amor?

ABRI A PORTA COMPANHEIROS de noémia de souza / moçambique

Ai abri-nos a porta,
Abri-a depressa, companheiros,
Que cá fora andam o medo, o frio, a fome,
E há cacimba, há escuridão e nevoeiro…
Somos um exército inteiro,
Todo um exército numeroso,
A pedir-vos compreensão, companheiros!

E continua fechada a porta…

Nossas mãos negras inteiriçadas,
De talho grosseiro
– nossas mãos de desenho rude e ansioso –
já cansam de tanto bater em vão…

ai companheiros,
abandonai por momentos a mansidão
estagnada do vosso comodismo ordeiro
e vinde!
Ou então,
Podeis atirar-nos também,
Mesmo sem vos moverdes,
A chave mágica, que tanto cobiçamos…
Até com humilhação do vosso desdém,
Nós a aceitaremos.

O que importa
É não nos deixarem a morrer,
Miseráveis e gelados,
Aqui fora, na noite fria povoada de psipócués…
“o que importa
é que se abra a porta.”

L. Marques, 23/6/1949

NOSSA CASA: PLANETA TERRA, SOCORRA E CUIDE

UM clique no centro do vídeo:

Parte I:

Parte II:

Parte III:

Parte IV:

Parte V:

Parte VI:

Parte VII:

Parte VIII:

Parte IX:

Parte X:

Parte XI:

VAMOS BRINCAR DE BAUDELAIRE? (ou ALMA PASSANTE) – de ivan justen santana / curitiba

A rua matava surdo a buzinada.
Faróis e placas falavam ao mesmo tempo.
Meu pé: dependurado na calçada.
Mas o olhar já contornava o cruzamento.

Percebi que perseguia uma passante
Quando ela viu também que me seguia.
Disfarcei e ela disfarçou no mesmo instante.
Fiz que fui mas não fui, e ela ia e não ia.

Fingi ser mais velho, ela deu-se ares de menina.
Saí pela esquerda. Ela, pela direita.
Esbarramos logo na próxima esquina,
Cúmplices abaixo de qualquer suspeita.

PAVANA PARA UM TREM MORTO – de júlio saraiva / são paulo



o trem
tem
o trem

o trem
é
o trem
sem

o trem
traz
o trem
mas
o trem
sem
o trem
jaz

………………..

na noite
fria
o trem
chacoalha
o trem
sacode
o trem
não pede
o trem
não pode
a lua
coalha
o sol acode
o trem
não para
o trem
não pede
o trem
não pode
o trem
se despe
o trem
despede
o trem
dispara
o trem
explode
o trem
nem pisca
o trem
arrisca
o trem
petisca
o trem
não risca
porque
na busca
o trem
se assusta
o trem
desponta
o trem
aponta
o trem
apronta
o trem
apita
o trem
navega
o trem
divaga
num mar
de ferro
o trem
se afoga
o trem
naufraga
num mar
de ferro
num mar
de ossos
ossos
de ferro
ossos
de aço
cadê o trem?
cadê o trem?
cadê o trem?
a noite
espanta
a noite
despista
a voz
sinistra
da alma
penada
do maquinista
atrás
do trem

RETTAMOZO e sua arte do “ÂNGULO INSÓLITO” / curitiba

Tela ” JARDIM DO SORRISO INTERIOR. Técnica mista.

TANTO LIMITE… de rosa DeSouza / ilha de santa catarina


Inusitado limite que nada permite.

Dor que nobilita e me devora.

Mamilo doce de terrível fera.

Corro presa a uma corda que me consola.

Terrível minotauro… procuro Teseu.

Do sol tenho tanta sede…

A montanha me atrai e se dissipa.

No mar um veleiro sem bússola nem céu.

No deserto medra uma tulipa sem ar.

Pressinto paz no entorpecimento.

Da escotilha, mão febril cai no mar

Condiciono amor, impetuoso e  paixões…

Ludibrio sentimentos acusando ilusões.

Ariadne em mim lhe dá uma longa linha.

Me confunde com Hermíone.

COISAS de MARIA JOÃO apresenta: ” CHICO PEIXOTO TRIO” / ilha de santa catarina

Café Pequeno recebe Chico Peixoto Trio– 11/06/2010, sexta-feira

O trio é formado por Marcelo Mello, Mateus Costa e Chico Peixoto. Atualmente o repertório é composto por releituras de compositores consagrados e o trio têm se apresentado com versões de clássicos da Música Popular Brasileira e algumas músicas eruditas mostrando arranjos feitos especialmente para a formação de violão, violino e contrabaixo acústico.
Café Pequeno oferece shows acústicos para pequenos grupos. Capacidade para aproximadamente 30 pessoas.
R$10,00

DEMIAN de marilda confortin / curitiba

Se Demian chegasse
as 3 da manhã
mordesse a maçã do meu rosto
ou a barriga da perna
me levasse ao inferno
ou ao céu de sua boca
me chamasse de louca varrida
ou de vaca profana
me jogasse na cama
e me amasse macio
num cio de silêncio
como se fosse plantar
a semente de um Cristo
em meu ventre…

Se Demian chegasse
as 3 da manhã,
obsceno e mesquinho
invadisse meu sonho, meu ninho,
roubasse meu sono
e deixasse em meu corpo seu filho…

Se Demian entrasse,
me deixasse em transe
transasse comigo
mesmo que já não fosse
as 3 da manhã,
mesmo que já não fosse
de manhã,
mesmo que já não fosse
um Demian de Hesse.
Desde que chegasse e nunca mais se fosse
esse … esse desgraçado que nunca chega!

O MISTÉRIO DOS APARECIDOS ETs AZUIS E DO CAVALO ENCANTADO – por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr


Lembra algum mistério inserido em Lost a supersérie norteamericana. Mas não é. Ou de Os Invasores, da década de 70, também produção americana. Não me engano, no conhecimento que detenho sobre Ufos: é brasuca e nativo o miolo desta história. Aconteceu perto daqui, em horas mortas às margens do Rio Guarani, em Quedas do Iguaçu, lá onde doutro lado do rio é Reserva Indígena e do lado de cá áreas de criação de gado e lavoura. Algum lugar, nãolugar que não se pode dizer ao certo. Horas mortas, entende-se, por depois da meianoite, em final de outono. Cirilo Crissos o dono da fazendola, em seu cavalo pampa com laivos de sangue inglês, resolveu certa noitemadrugada descobrir o fenômeno que provocou a morte e desaparecimento de algumas ovelhas e gado de corte da propriedade. Além da comum ocorrência de uivos perto do chiqueiro dos porcos, chispas de fogo e esplendores no espaço, em certas noites. A lua caía sobre o rio, enluarando capões de mato margeantes. Cirilo troteou, em torno de dois, três quilômetros de campos, amarrou as rédeas do cavalo pampa, num monjolero jovem e prostrou-se, na escora de uma grande pedra, em vigília. O rio serpenteava, quase aos seus pés. E ali ficou por mais de duas horas. Tipo pescando jundiá, mas sem pescar. Só mirando os céus nebulosos. Agasalhado em couro, não sabe se dormiu pesado ou apenas cochilou por uns minutos. No céu, a baixa altitude um bólido discóide, raspando a copa das árvores, parece desceu próximo, onde ficou amarrado seu cavalo pampa. Cirilo Crissos tentou levantar, sair do encosto da pedra, mas parece seu corpo grudou ali. Uma câimbra brava, lhe tomou o corpo todo. E sofreu uma suave dor de cabeça, vertigem…Via sobre o topo das árvores, nas imediações de onde o objeto voador baixou, réstias de luzes das mais variadas cores. Mas não conseguia erguer-se do solo, pra poder andar e chegar perto do fenômeno. Ouviu relinchos de seu cavalo. Relinchos pavorosos, e som de pataços em pedras e madeiras. De repente seu corpo, livrou-se da cãibra forte, e ficou leve, levíssimo, como se levitasse. E a um simples comando, sentado como estava, podia se deslocar, por cima do rio e da mata. Comandou-se em várias direções, e foi ver de perto o que se passava. Em menos de cinqüenta metros, num carreiro sob o capão de mato, pode ver três figuras translúcidas, de altura de metro e meio, mais ou menos, esguias, azuis, mas dum azul suave, claríssimo, analisando seu cavalo pampa, que agora parecia entorpecido. Não só entorpecido, mas levíssimo, planava a poucos centímetros do chão. Arredou-se em pânico… não mais que trinta metros a esquerda, por entre árvores jovens, a meio mastro, e do jeito como estava sentado na pedra, flutuava em rigorosa análise. A nave transforescente, sobre o capim brizantan, emitia sons estranhos. Assovios profundos de tontear o indivíduo. Era discóide, com dois patamares. A parte de baixo, arredondada. A de cima, cônica, dum carbono quase vivo, o material. A vertigem, zonzeira passou, mas toda visão era turva, embaralhada. Lembrou que em horas de perigo deveria respirar fundo três vezes e o fez. Três respiros fundos e as imagens retornaram ao seu campo de visão, por incrível que pareça, as mesmas: a nave estacionada no capinzal a pouco mais de meio metro do solo, o cavalo pampa estático (congelado) de olhos azuis estalados e as três figuras alienígenas analisando o animal com longas pinças coloridas, das quais emanavam um gás vaporoso. Tais figuras ímpares, não eram nada discretas no colóquio que se travava. Lampiavam em som e linguagem nos interrogos e exclamos. A um comando, o pecuarista subiu na olhada, flutuando acima dum pedreirio encostado no mato e dali ficou pasmo, assistindo a avaliação medicocientífica do seu animal. As pinças raspavam os pelos do quadrúpede, cascos e crinas. O material era colocado em um caixote transparente e luminoso. Após, algo em torno de 15 minutos, os alienígenas a um estalo de longos dedos, retornaram vida ao cavalo pampa, adentraram a nave e partiram, silenciosamente em vertical, sumindo no espaço. Aquilo foi só uma réstialux de baixo acima do céu, o que se viu e depois… um silêncio exasperador. Sonho, pesadelo… ilusão ou realidade!!?? O pecuarista acordou, na pedra onde estava recostado. Mexeu os dedos das mãos primeiro. Depois os dos pés. Tocou o nariz, as orelhas, os olhos… Tava tudo certo, sentia o movimentar dos pés. Curvou-se na tez da água do rio e atirou mãoscheias de águas no rosto. Ouviu o relincho do cavalo pampa, duas, três vezes. Ao chegar no animal, percebeu os sinais da poda nos pelos, crinas e cascos. O animal, estava manso como sempre. Nem parecia ter acontecido aquilo. Só os olhos do bicho, estavam diferentes. Bem maiores do que o normal, atirados pra fora do corpo, coisa de meio centímetro, e dum azul mais raivoso. E no solo, na troca de patas, não fazia mais barulho o bichano de mais de 480 quilos. O bacheiro, a cela, a barrigueira, a chincha… tudo em ordem. Foi só apertar um pouco, montar e partir pra casa. No andar do bicho é que estava a diferença. De trote duro, passou a uma marcha batida, mas sem som de cascos nas pedras. Parece andava no ar o animal. (E andava mesmo. Até hoje anda, com os olhos saltados pra fora em meio centímetro). E assim Cirilo Crissos chegou em casa. Três e pouco da manhã. A mulher e o casal de filhos dormiam. Os cachorros em número de quatro, sequer latiram com a aproximação do cavalo, não havia mais o tilintar de cascos nus sobre as pedras. O tropel costumeiro dos cavalos. O equus levitava, expandia-se em marchas valiosas, macio como só, e num galope em qualquer terreno (por incrível que pareça) pode atingir a incrível velocidade superior a de cancha reta ou hipódromo, em torno de 5 segundos nos cem metros. A madrugada, continuava enluarada e nevoenta. Poucas estrelas visíveis no céu e da nave nem sinal. Ao desencilhar o cavalo, Cirilo Crissos percebeu ao lado do paiol de madeira, que alguns animais entreveravam-se. Feito o trabalho de soltar o pampa no pasto, foi ver o que era e viu: havia entre as ovelhas um animal misto de cabra e lobo, que soerguia a cabeça e os olhos graúdos e luminosos varavam o negror da hora… a bocarra, abria-se em lancinantes uivos. IAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHAAAAAAAAA era de arrepiar e maçarocar os cabelos. Atropelou a coisa com algumas pedras… no salto da fera, pode ver um rastro de fogo matoadentro, até sumir no azeviche dos carreiros.

“Praquelas horas mortas”, daquela data, “chegava”.. pensou e foi dormir. Não antes de ver como estavam as crianças e a mulher. Ambas dormiam o mais tranquilo dos sonos. Um galo velho entoava cantos de ressonar. Ao clarear do dia, levantou-se, fez o chimarrão, como era de costume, ligou o rádio (que no programa do Mineiro Louco da Rádio Internacional de Quedas, estranho… com inexplicável interferência, só chiava) e foi ver o amigo pampa, no campinho pra cima de casa. O cavalo espojava-se, e do atrito ao chão, saltavam ínfimas fagulhas de luz. Observou-o por uns dois minutos, até que o bicho levantou-se, chacoalhou os detritos cósmicos e boqueou o capim da terra, como se nada tivesse acontecido. Cirilo Crissos, nunca mais buscou entender o não compreendido, e até hoje evita vigílias ao desconhecido, ao que foge dos sentidos humanos e que a razão, linguagem ou ciência são impotentes a decodificar. Em noites assombrantes, naquele cafundó onde vive só com a família, quase na divisa com os índios do Rio das Cobras, Cirilo Crissos ainda vê ocasionalmente sinais estranhos no céu, mas nunca retornou ao encontro dos seres esquisitos daquelas horas mortas, daquele determinado dia. O misto de cabra e lobo, de rastro de fogo também não apareceu mais, só o cavalo pampa, olhos saltados pra fora do corpo, em meio centímentro, ou transcavalo, que mudou o andar de trote duro pra marcha picada, sobre espuma e ar, ainda lança fagulhas de luz quando se espoja nos gramados, sendo bonito de ver aquilo, principalmente em noites de lua minguante.

De São Paulo e Brasília, alguns ufólogos me ligaram pra saber da veracidade dos fatos envolvendo o Cirilo Crissos. Disse, que a meu ver tem tudo pra serem reais os fatos. Alguns charlatões, em poucos dias acorreram in loco, fotografando tudo na área de ocorrência do fenômeno. Até hipnose regressiva aplicaram no contatado, mas concluíram por memória falsa, induzida. Quanto aos olhos saltados do cavalo, se referiram a alguma cabeçada num palanque de cerca ou tronco de árvore. O fato do bicho andar macio, ou no ar, mais precisamente, teria decorrido de herança genética, de pais ou avós exímios marchadores. Tipo o cavalo Passo Fino Colombiano. O lobo misto de cabra, provavelmente é fruto duma mutação genética e não é nenhum animal arquetípico espacial, alienígena, mas bichobicho mesmo, terreno, peludo, raivoso e sujo. A levitação corporal, comandada pelo contatado, sobre o rio e mata, não passou de sonho na pedra de recosto, ou mais precisamente na visão das “autoridades”, de viagem austral indominada pelo agente e objeto do transe.

Ficamos eu e o Cirilo, com o segredo do cavalo encantado e o sonho ou realidade que parece não termina por aí, ante as inúmeras ligações que nos chegam dos mais diversos lugares do Brasil, de leigos e especialistas em Ufologia. Até um Doutor Honoris Causa da Universidade de Harvard, prometeu vir em breve com uma equipe de oito homens, avaliar o caso pra compor uma matéria em revista especializada, tendo o aval de cientistas da Nasa. Agora, é esperar pra ver… já estão até dando preço em dólar ao cavalo voador e propostas de negócio não param de chegar: pessoal de circo, turfistas de Dubai dos Emirados Árabes e programas de televisão nacionais e estrangeiros. Cirilo Crissos não dá, não vende e não empresta o cavalo pintado. Teme que numa eventual transação o encanto acabe.

RUDI BODANESE e parceiros:”FOTO-POEMAS” / ilha de santa catarina

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CÂNTICO DOS CÂNTICOS de vera lúcia kalaari / portugal


Queria ter confiança na eternidade

E na terra da verdade…

Queria nunca m’esquecer

Que volta sempre a primavera

Qu’entre pedras faz nascer rosas…

Queria deixar de ser este mar morto

Mar sem ondas e sem portos…

Queria deixar de mendigar

No silêncio das noites escuras

Caminhando por ermas estradas

Sem saber p’ra onde vou.

Queria saber quem me roubou minha coroa de rainha

Quem pisou minhas ilusões desfolhadas…

Queria ser a manhã qu’apaga estrelas

E encontrar amor em todas elas…

Queria ser a perdida, a que não s’encontra

Aquela que ninguém conhece,

A rutilante luz dum impossível…

Queria deixar de segurar nas mãos

O bem que nunca é meu

E encontrar no caminho o meu bordão d’estrelas…

Queria encontrar a água que procuro e de que estou sedenta…

Queria não pensar nos que andam descalços pela vida…

Nos que choram em insanas guerras…

Nos que mentiram e nos que mentem…

Não ter pena dos que em má hora nasceram…

Queria ter asas para voar e ser a fé

Na agonia dum moribundo…

Queria ser tudo…e não sou nada.

DESCOBRINDO O ICEBERG por lucas paolo / são paulo


– Numa adivinha cujo tema é o xadrez, qual é a única palavra proibida?

O Jardim de Veredas que se Bifurcam, Jorge Luis Borges

O conto “Colinas parecendo Elefantes Brancos” de Ernest Hemingway, basicamente, nos mostra um casal que está em uma estação ferroviária, próxima ao rio Ebro, aguardando um trem que vem de Barcelona e segue para Madrid. Enquanto aguardam o trem, o casal aproveita para pedir algumas bebidas e apreciar a paisagem (é o momento em que a moça diz que as colinas do vale parecem elefantes brancos). Porém, logo que começam a conversar se desentendem e discutem aspectos relacionados a uma operação que o rapaz sugere e que a moça cogita fazer. A discussão vai se intensificando até que a moça pede ao rapaz para calar a boca.  Nesse momento, a atendente do bar os avisa que o trem está chegando. O rapaz vai colocar as bagagens mais próximas da plataforma e, quando volta, a moça lhe sorri e diz se sentir muito bem. Assim termina o conto.

Ao lermos o conto pela primeira vez, chegamos ao final e não conseguimos vislumbrar um sentido, não conseguimos entender de que realmente se trata o conto. Dessa forma, encontramo-nos perante o que podemos chamar de um conto “charada”. Para desvendar esta “charada”, partimos para uma segunda leitura. Nesta, iremos atrás do que é narrado de modo elíptico. Entretanto, veremos que o conto é construído de forma que o leitor, na procura de um sentindo, seja despistado e distraído por diversos “motivos” que estão cifrados no texto. Tentemos, então, buscar onde se encontram essas distrações.

Podemos apontar como distrações, dois possíveis “motivos” que estão cifrados no texto: as colinas que parecem elefantes brancos, e a operação que a moça cogita realizar. Vejamos onde o “motivo” operação nos leva:

– Você deixará a preocupação de lado se eu me operar?

– Claro que sim, mesmo porque a operação é perfeitamente simples.

– Então eu a farei! Você sabe que não me preocupo comigo mesma.

– Como assim?

– Exatamente assim: não ligo a mínima para mim mesma.

– Mas eu me ligo muito em você!

– Pois eu, não. Farei a coisa e tudo acabará muito bem.

– Já não quero que a faça, se é assim que você sente.

Após vermos, anteriormente, o rapaz insistir para que a moça faça a operação, neste trecho, a situação se reconfigura e a moça acaba aceitando que o melhor é fazer a operação, porém, as razões que impingiam a moça fazer a operação, fazem o rapaz não desejar que ela a faça mais.

– Quero uma vez mais que você compreenda não estar de modo algum obrigada a fazer o que não quiser. Estou disposto a topar o que der e vier se isso é realmente importante para você.

– E para você, não é? Poderíamos nos entender muito bem assim mesmo…

– Claro que poderíamos! Você é a única pessoa a quem realmente quero. Mas que a coisa é simplíssima, bem sei que é.

– Sim, você é quem sabe.

– Pode brincar com as palavras, mas sei mesmo que é.

– Você seria capaz de fazer algo por mim neste instante?

– Faço qualquer coisa por você!

– Então, por favor, cale, cale, cale, cale essa boca!

Neste trecho, vemos que é possível não fazer a operação. Que as coisas poderiam se manter iguais sem a realização da operação. Todavia, vemos uma crescente tensão que se mostra mais ligada à insistência do rapaz do que à necessidade da operação.

Esses são alguns exemplos de como o “motivo” operação é cifrado nos diálogos dos personagens. Até o final não sabemos a razão da operação, se ela é necessária ou não, o que a operação interfere diretamente no relacionamento do casal. Enfim, nos vemos diante de um mistério que não é resolvido e que, justamente, não pode ser resolvido por ser uma ferramenta de distração criada pelo autor.

Com relação ao “motivo” as colinas que parecem elefantes brancos, temos uma distração cifrada em três instâncias: dos personagens, do narrador e do autor. Nos personagens vemos o seguinte:

– Parecem elefantes brancos – sugeriu a seu companheiro.

– Jamais vi algum dessa cor – respondeu ele ao tomar um gole de cerveja.

– Nem poderia ver.

– Eu talvez até pudesse – respondeu-lhe ele. – Sua negativa não prova coisa alguma.

Aqui a moça compara as colinas aos elefantes brancos. O desentendimento dos dois a partir da constatação da moça nos leva acreditar que haja algo por trás dessa possível “metáfora”.

A garota olhou de novo para as colinas.

– São muito bonitas – afirmou. – Nada a ver com elefantes brancos. Eu me referia apenas à cor que apresentam por entre as árvores.

Porém, na página seguinte, a moça já dissipa a idéia de qualquer analogia. Devido à discussão do casal somos levantados a crer que possa haver algo por trás da comparação, o que se prova também, até o final do conto, um equívoco.

Com relação ao narrador podemos apontar, primeiramente, que ele começa o conto colocando as colinas em primeiro plano e descrevendo o cenário; só depois de falar das colinas e do ambiente é que aparecerem os personagens. Também podemos mencionar que nos pontos de maior conflito entre os personagens, o narrador interrompe o diálogo para descrever o cenário. Isso nos faz crer que possa haver algo nas colinas e no ambiente em geral que aponte a chave para descobrir a “charada” do conto. No entanto, por mais que especulemos a respeito da relação entre o cenário e os personagens, até o final do conto não se acha um sentido que ligue um ao outro.

A terceira instância é em relação ao autor, ou seja, Hemingway. Se podemos observar que a “charada” não está na analogia de colinas e elefantes brancos, então, por que colocar o título do conto como “Colinas Parecendo Elefantes Brancos”. Só podemos imaginar uma explicação: que isso também seja uma ferramenta para distrair o leitor e direcioná-lo para os “motivos” errados, ou melhor, infecundos.

Então, se há uma “charada”, onde estaria ela?

Para tentar responder, vejamos o que o escritor e crítico Ricardo Piglia diz em suas “Teses sobre o conto” [1]:

A teoria do iceberg de Hemingway é a primeira síntese desse processo de transformação: o mais importante nunca se conta. A história é construída com o não-dito, com o subentendido e a alusão.[2]

O que seria então o “não-dito”, o “subentendido”, o aludido? Que o que está por trás de todo o conto, na verdade, são os problemas de relacionamento do casal, a incomunicabilidade. Hemingway constrói o conto de forma magistral porque desloca nossa atenção para uma operação, possivelmente insignificante, e para uma comparação casual de colinas com elefantes brancos. Quando o que podemos ver no conto – se afastamos todas as distrações – é um casal de turistas que tem muitos problemas de relacionamento e discutem por vários “motivos” – sendo os que ficam mais evidentes: a analogia feita pela moça entre colinas e elefantes brancos e a operação que, talvez, ela realizará. O que está por trás destes “motivos” nunca saberemos e não devemos almejar saber. Descoberta a parte do iceberg que estava submersa, podemos olhar a pontinha que aparece na superfície de uma perspectiva completamente diferente.



[1] PIGLIA, Ricardo. “Teses sobre o conto”. In: Formas Breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

[2] Interessa-nos mencionar aqui outro aspecto que Piglia levanta: “Num de seus cadernos de notas, Tchekhov registra esta anedota: ‘Um homem em Montecarlo vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, suicida-se.’” […] “Que teria feito Hemingway com a anedota de Tchekhov? Narrar com detalhes precisos a partida, o ambiente onde se desenrola o jogo, a técnica que usa o jogador para apostar e o tipo de bebida que toma. Não dizer nunca que esse homem vai se suicidar, mas escrever o conto como se o leitor já o soubesse.”

CARMEN MONARCHA e ANDRÉ RIEU : AVE MARIA DE GOUNOD / paris

UM clique no centro do video:

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Composição: Johann Sebastian Bach/ Charles Gounod

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Ave Maria, gratia plena
Dominus tecum
Benedicta tu in mulieribus
Et benedictus fructus
ventri tui Jesus.
Sancta Maria
Ora pro nobis peccatoribus
Nunc et in hora mortis
nostrae. Amen.

O LIVRO e o GOL por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Pode parecer estranha e até indissociável a entrada de um livro num campo de futebol. O lançamento de inúmeros livros sobre jogadores lendários e sobre o belo jogo prova que torcida nos estádios e bibliotecas não são arenas incompatíveis.


Dizem que Charles Miller – o pai do futebol brasileiro – era um torcedor devoto das leituras de Sir Arthur Conan Doyle e um fã de seus livros Sign of Four e O Cão dos Baskerville, com os quais o escritor introduziu os seus famosos personagens Sherlock Holmes e Dr. Watson.

Houve uma época, antes e depois do Renascimento e do Iluminismo, que os Estados e os governantes se esmeravam em organizar grandes bibliotecas, assim entendida a reunião dos livros (biblos) num espaço próprio para sua estocagem, tekhe, ou “o depósito”.

Júlio César morreu assassinado, em 44 a.C., antes de construir uma grande biblioteca romana, consumada por Trajano, a “Úlpia”, no século II depois do Redentor.

Mesmo durante a treva da Idade Média, os livros jamais ficaram órfãos. Justiniano ergueu bibliotecas bizantinas no Cairo, em Bagdá, em Bassora. Na Espanha muçulmana, ficaram famosas as de Córdoba, Granada e Toledo. Na Renascença, consolidaram-se as bibliotecas Real, na França, e a Escorial, na Espanha. Na Itália, ganharam posteridade a Marciana e a Laurenciana, de Florença e a Vaticana, às margens do rio Tibre, na Cidade Eterna.

Tão zelosas de seus livros eram as comunidades renascentistas que se tornou notável a advertência, inscrita na biblioteca do mosteiro de São Pedro em Barcelona:

– Para aquele que rouba ou toma emprestado e não devolve um livro de seu dono, que o livro se transforme em serpente em suas mãos e o envenene. Que as traças corroam suas entranhas como o Verme que não morreu. E, quando for ao julgamento final, que as chamas do Inferno o consumam para sempre.

No século 20, não houve regime, iluminista ou obscurantista, que não cultivasse as suas bibliotecas, das quais são paradigmas a do Museu Britânico, a da Academia Francesa, a do Congresso dos EUA, a de Lenin e a do Museu Hermitage.

Para os livros, nunca houve Idade Média.

Conta a lenda que, de tão afeiçoado aos seus livros, um grão-vizir da Pérsia carregava todos os seus volumes quando viajava. Acomodava sua biblioteca em 400 camelos, treinados para andar em ordem alfabética…

Muitas bibliotecas se formaram pelo sonho humano de dar asas à imaginação das crianças.

Se a Copa do Mundo inocular nos jovens, junto com o desejo de torcer pelo Brasil, o “vírus” de uma boa, ainda que breve leitura, o mundo esportivo e social estará salvo.

Ninguém menos que Maquiavel, com sua fama de pensador sofisticado (embora tido como “gênio do mal”), ao ponto de se haver cunhado a expressão “maquiavélico” para expressar “sagacidade”, refere-se ao livro como a um benfeitor:

– Chegada a noite, volto à casa e dispo a roupa cotidiana. Sou recebido por sábios e me alimento de sua generosa comida. Com sua bondade, eles respondem a todas as minhas dúvidas. E durante horas não sinto tédio algum, esqueço-me de toda ansiedade; não temo a pobreza, nem a morte me assusta. Transfiro para os livros todo o meu ser. E vivo na paz dos que sabem.

O ouro do lixo e a milionária casca do ovo – por alceu sperança / cascavel.pr

Mensagens escritas para crianças e transmitidas pela Rádio Cidade, atual Rádio Globo Cascavel

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A humanidade está evoluindo, a cada descoberta, a cada nova invenção.

Quem vê passar um humilde catador de papel recolhendo aquilo que atiramos fora pode imaginar que ele não tem a menor possibilidade de, um dia, prosperar ou enriquecer.

Reconhecemos que ele faz uma das mais importantes atividades humanas – a reciclagem –, na qual todos nós devemos fazer a nossa parte, mas mantemos a idéia de que o catador é e sempre será pobre.

Pensando bem, já é uma pessoa rica espiritualmente aquela que participa da reciclagem, pois torna melhor o nosso mundo.

Mas não é verdade que os catadores tenham que ficar eternamente na humilde condição da pobreza material.

A revista americana Foreign Policy (Política Externa) acaba de publicar que há mais ouro em uma tonelada de computadores velhos jogados fora do que em 17 toneladas do minério bruto.

Certamente as minas de ouro com reservas de 17 toneladas não estão acessíveis às nossas mãos, mas a cada minuto mais computadores ultrapassados são jogados fora.

E eles, ao montar uma pilha de uma tonelada, têm mais ouro fácil de tirar que as minas com quase 20 toneladas de minério difícil de extrair.

Nas periferias das grandes cidades, já se pode ver catadores dirigindo seus automóveis e comprando casas em bairros de classe média.

Eles garimpam ouro no lixo.

A indústria está vendendo computadores no Brasil aos milhões – quinze, vinte milhões ao ano.

Muitos milhões mais foram montados e “importados” informalmente.

A cada três ou quatro anos, eles são trocados por novos e o que sobra vira lixo tecnológico.

Um lixo que se multiplica a cada ano.

Desse lixo, os novos catadores já estão tirando não mais apenas a sobrevivência.

Eles já começam a formar patrimônio.

O ser humano tem jeito? Tem jeito, sim!

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Se alguém comeu uma omelete no almoço de hoje, fez o quê com as cascas dos ovos?

Se as jogou fora, também jogou dinheiro fora.

As cascas de ovos sempre foram consideradas plenamente descartáveis depois de compor bolos, doces diversos, farofas e omeletes.

O Brasil produz 20 bilhões de cascas de ovos por ano.

Sempre se soube que as cascas de ovos tinham qualidades importantes.

Trituradas, por exemplo, fornecem cálcio para combater a osteoporose.

O artesanato as utiliza em diversas aplicações.

Até cimento é possível fazer com elas, em combinação com outros produtos.

Fora disso, as cascas continuavam a ser implacavelmente destinadas ao lixo.

Mas nessas desprezíveis embalagens naturais se escondia uma atraente mina de ouro à espera de alguém capaz de extrair seu segredo.

Esse alguém foi o jovem cientista chinês Liang-Shih.

Ele descobriu que a casca é recoberta por dentro com uma membrana rica em colágeno, um material que, quando purificado, chega a custar mil dólares o grama.

Cerca de 10% da membrana é constituída de colágeno, que pode ser utilizado tanto pela própria indústria de alimentos quanto para tratamentos médicos, para recuperação de pessoas que sofreram queimaduras graves ou em cirurgias cosméticas.

O incrível da genialidade humana e da juventude estudiosa que temos em todo o mundo é sua capacidade de tirar daquilo que todos julgávamos inútil mais uma fonte de riquezas.

O destino da humanidade, portanto, só pode ser a riqueza e a felicidade.

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O ser humano tem jeito? Tem jeito, sim!

FOGOS PÓSTUMOS por hamiltom alves / ilha de santa catarina

Nunca vi um livro de Wilson Bueno, que vem de morrer há pouco assassinado, com vários golpes de faca, por um bandido, que o surpreendeu à porta de sua casa, à noite, (não sei de maiores detalhes), ser resenhado. Nem vi seu nome alcançar, em vida, a notoriedade de como ocorre agora depois que se foi, em que se anuncia a edição da última novela que escreveu, “Mano, a noite está velha”, que, em breve, a editora Planeta lançará. O encarte Sabático, do Estadão, publica uma breve resenha assinada por Antonio Gonçalves Filho, que já havia publicado uma outra faz  tempo sobre “Cachorros no céu”, quando previra que um dia seria reconhecido como um dos grandes reinventores do panorama literário brasileiro. Wilson, como ainda se anota nesse comentário recente de Gonçalves, acabou sendo uma figura importante do cenário literário nacional. No entanto, diz o jornalista, o que produziu jamais recebeu o merecimento de prêmios, sempre ocupando segundos lugares, com diferença para o chileno Roberto Bolano, que ganhava todos, cuja notoriedade subiu nos últimos dez anos neste continente como um dos seus expoentes.

Evidentemente ganhar prêmios, em última análise, não é a única maneira de um escritor se consagrar. Se fosse assim, todos os ganhadores do prêmio Nobel estariam na boca de todo o mundo – e não estão, alguns até se apagaram totalmente. Sem contar os que mereciam ser premiados e, por motivos desconhecidos, a critério dos velhinhos integrantes da Academia de Ciências de Estocolmo, nunca viram a cor de prêmios, ou desse em particular, que foram os casos de Guimarães Rosa, que o merecia antes de Garcia Marques ou mesmo de Saramago, e de Jorge Luis Borges, cuja preterição na obtenção dessa láurea continua sendo inexplicada.

Referia-me ao fato de Wilson Bueno não ter sido, em vida, objeto de melhor exame por resenhadores, apesar de ter lançado vários livros, (novelas, contos, crônicas, etc). Além de ter sido também um bom resenhista de jornal (colaborava com vários, inclusive no Estado de S. Paulo).

Agora, o Sabático (último número de sábado do Estadão) lhe abre uma página inteira, com reflexões de Antonio Gonçalves Filho sobre sua obra e sobre seu livro póstumo, “Mano, a noite está velha”, ocupando meia página. Outros jornais abriram espaço para se ocuparem da obra de Wilson, que é constituida de vários títulos, “Mar Paraguayo”, “Cachorros no céu”, “Jardim Zoológico”, “Meu tio Roseno a cavalo” e o póstumo, que já referi. Desse último livro, o “Estadão” publica um pequeno trecho, com boa ilustração, que revela a forma madura com que esse texto é produzido. Wilson morreu possivelmente quando alcançava o melhor de sua condição de escritor. Teria ainda muito que produzir, se um assassino não lhe tivesse roubado a vida num dia desses.

Sempre será ocasião de lembrar-se da obra de um escritor ou de um outro qualquer artista, ainda que seja depois de morto, sonegando-se-lhe o reconhecimento ainda vivo.

O que de qualquer modo é assunto que dá o que pensar. Por que o reconhecimento póstumo da glória?

PESQUISA IBOPE: DILMA e SERRA EMPATADOS EM 37% / “DEMOS e TUCANADA agonizam nas reuniões de emergência e sujeira.”

“entre o final da semana passada e a última sexta-feira os DEMOS já davam sinais de fadiga com a campanha de zé serra. alguns deputados federais do DEMO já acenam em marchar com o PT nos seus estados. o organismo da campanha se mostra fraco, facilmente contaminável ao ponto de o termo “vice” ( de serra) chega a ser uma ofensa para quem é lembrado. vide aécio.” PTP.

Pesquisa foi encomendada pela TV Globo e pelo jornal “O Estado de S.Paulo”. De acordo com levantamento, 8% dos entrevistados se dizem indecisos

Pesquisa Ibope de intenção de voto para presidente da República divulgada neste sábado (5) aponta Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) empatados. Os dois têm 37% das preferências e Marina Silva (PV), 9%.

O Ibope ouviu 2.002 eleitores em 141 cidades do país entre os últimos dias 31 de maio e 3 de junho. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Isso quer dizer que Dilma e Serra podem ter entre 35% e 39% das preferências e Marina, entre 7% e 11%. Nove por cento dos entrevistados disseram que votarão em branco, nulo ou em nenhum candidato. Os indecisos somam 8%.

No último levantamento feito pelo Ibope, em abril, José Serra tinha 40% das intenções de voto, Dilma Rousseff, 32%, e Marina Silva, 9%. Dilma foi a única candidata que apresentou crescimento.

Em fevereiro deste ano, a diferença entre os dois primeiros colocados na disputa era de 13 pontos percentuais (Serra tinha 41% e Dilma, 28%). Em março, caiu para cinco pontos (38% e 33%, respectivamente). E, em abril, voltou a subir e chegou a oito pontos (40% e 32%). Nesse mesmo período, Marina teve 10%, 8% e 9% das intenções de voto nos estudos feitos pelo Ibope.

A série histórica citada não considera na disputa o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), que oficializou, no fim de abril, a desistência de concorrer à Presidência.

A pesquisa é a primeira encomendada neste ano ao instituto pela TV Globo e pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. Esse levantamento aferiu somente as intenções de voto nos três principais presidenciáveis. Nos cartões apresentados aos eleitores, não constavam os nomes de eventuais pré-candidatos cujas taxas são inferiores a 1% em outras pesquisas já divulgadas neste ano.

O prazo legal para que os partidos oficializem os candidatos em convenção começa no próximo dia 10 e termina no dia 30. Após essa data, serão conhecidos os nomes de todos os candidatos que disputarão a Presidência na eleição de outubro.

Segundo turno

O Ibope também considerou a possibilidade de segundo turno entre Serra e Dilma. O resultado é um novo empate, em 42%. Nessa situação, brancos e nulos somam 9%. Sete por cento não responderam.

Segundo os pesquisadores, a candidata do PT recebe mais votos dos eleitores de Marina Silva(40%, contra 32% que optariam pelo candidato tucano).

Entre os entrevistados que declararam que votariam branco ou nulo no primeiro turno, o percentual de quem escolheria Serra na segunda etapa é maior (17%, contra 6% para Dilma).

Rejeição

O Ibope também aferiu o grau de rejeição dos eleitores aos três principais pré-candidatos. Vinte e quatro por cento dos entrevistados disseram que não votarão em Serra; 19% em Dilma e 15% em Marina.

Os entrevistados responderam ainda questionários sobre o interesse na eleição que vai ocorrer em outubro. De acordo com o Ibope, 21% disseram que têm muito interesse, 32% têm interesse médio, 27% têm pouco interesse e 19% não têm interesse nenhum.

Avaliação do governo

De acordo com o levantamento, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é considerado ótimo ou bom por 75% dos entrevistados, regular por 20% e ruim ou péssimo por 5%. A nota média atribuída ao governo pelos eleitores ouvidos pelo Ibope é 7,8.

A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob protocolo número 13642/2010.

05/06/2010 | 15:40 | G1/GLOBO.COM

segunda manchete, entre aspas, e ilustrações são do site PTP.

O PERIGO VEM DE LÁ, NÃO DAQUI – por anna malm / estocolmo

A atitude bélica do govêrno dos Estados Unidos, não as tentativas diplomáticas e racionais do Brasil e da Turquia deixam o mundo mais perigoso.

Quanto aos comentários de Hillary Clinton transmitidos pela televisão brasileira à respeito do acima dito, acrescenta-se que no seu próprio país, os EUA, pode-se constatar que as avaliações apresentadas por outras fontes americanas, no caso mais condígnas, diferem bastante das por ela apresentadas. [1]

A atitude do govêrno dos Estados Unidos em anunciar publicamente que se tinha conseguido apôio para sanções ao mesmo tempo que se noticiava  pelo mundo que o acôrdo com o Irã tinha sido assinado, tem que ser visto como um surpreendente e espantoso insulto em frente a uma tão notável realização diplomática, conferem outros analistas desafiando a posição oficial.

Constata-se que se pode ficar certo que no resto do mundo a reação malevolente da administração de Obama não passou despercebida e de que se tomaram notas cuidadosas para serem relembradas no futuro, se bem que uma reação dessas não seria esquecida nem perdoada facilmente. Como certo concluiu-se que  se confirmaria uma vêz mais que o jôgo sujo dos americanos continuava como sempre, da forma depressivamente conhecida e isso dito e sustentado  por americanos.

Um ponto que Hillary Clinton não entendeu ou não quer divulgar, mostra-se na avaliação apresentada por outros analistas americanos [1] de que o que o Irã mais deseja nêsse mundo é que a grosseira dominância dos EUA- mostrada claramente quando os EUA partem ditando e dando ordens pelo mundo afora e isso muito especialmente pelo Oriente Médio- se dissipe ou pelo menos reverta-se a um nível mais aceitável. [1] .

E por falar em estados “vagabundos-sem eira nem beira” (rogue states) que é uma das expressões favoritas dos EUA para alguns países, nota-se que os Estados Unidos como Estado, êle mesmo, está a bom caminho para poder ser considerado como um tal, falido e sem eira nem beira. Que impérios possam falir da noite para o dia mostrou-se nos tempos modernos no caso da União Soviética. É a gota d´água que transborda o copo e diga-se de passagem que o copo americano já está bem cheio só esperando pelas últimas gotas para transbordar de vêz.

Respeito e admiração pela vitória diplomática deu-se internacionalmente.  A vitória diplomática registrou-se  em diversas publicações de pêso no Oriente Médio, na Europa e nos Estados Unidos.  Como um dos exemplos, além dos noticiários amplamente divulgados internacionalmente,  veja [2] e [3].

Uma publicação americana faz as seguintes análises à respeito com o que se pode contar em caso contrário:- [4]

Militarmente se se comparar a capacidade iraniana com a da americana pode-se concluir que a capacidade americana é massiva e que o Irã não teria como se salvaguardar convenientemente frente a um ataque americano. Isso tendo sido dito conclui-se que de modo algum  é para se entender como se fôsse uma vitória americana certa, com muitos louros a colocar na corôa da vitória. Muito pelo contrário. O que se é de esperar é miséria e morte e isso não só para o Irã.

Para os Estados Unidos o Iraque deveria ser considerado como um “pic-nic” se comparado com o que esperar do Irã seguindo se a um ataque americano. Conclui-se também que o Irã tem possibilidades de pôr uma pressão efetiva nas posições americanas tanto no Iraque como no Afeganistão e que isso é de se esperar no caso dêsse pesadelo se materializar. [4]

Mesmo que o Irã não seja um país árabe, sendo como é um país de cultura persa, é no entanto um país islâmico. Sunitas (por ex do Egito e da Arábia Saudita)  e Shiitas (Irã) islâmicos podem ter diferente opiniões à respeito de muitas questões ideológicas, mas atacando o Irã os EUA estariam atacando em primeira mão um país islâmico e isso não seria calmamente aceito pelos 1.500.000.000 islamitas do mundo inteiro, independentemente das divergências ideológicas internas. Imagine-se o que isso representaria para o Egito, a Jordânia o Líbano e a Arábia Saudita para se nominar apenas alguns paíse com grande população islâmica. Pode-se também imaginar o que isso representaria para diversos países da Europa e mesmo para o próprio USA, e aqui não se falando de terroristas, mas de gente simples e correta como você e eu, e os nossos vizinhos. No mínimo é de se esperar demonstrações e reações sadias de revolta e repugnância pelas ruas das maiores cidades do mundo, assim como uma movimentação social da qual é difícil de se prever as consequências. Uma coisa é no entanto certa. Não fortalecerá a posição dos Estados Unidos no mundo.

E depois do Irã, se o govêrno dos EUA quisesse deslanchar novas guerras no Oriente Médio, teria que fazer isso com dinheiro emprestado. Dinheiro êsse que, pode-se concluir, deveria emprestar dos seus credores, a quem já está devendo a camisa, credores êsses como a China e a Arábia Saudita. Credores êsses que já também não deveriam estar muito contentes em ver os Estados Unidos tomando iniciativas militares desfavoráveis aos legítimos e importantes interêsses financeiros deles.

Começar uma guerra com o Irã para os Estados Unidos significaria o fio de cabelo na carga que quebraria as costas do camelo. O que os EUA teriam a esperar do destino seria o mesmo que a Inglaterra quando essa   por mal dos pecados decidiu-se por invadir o Egito e isso  para obter o contrôle do Canal de Suez em 1956, o que fêz com o auxílio da França e de Israel. Fêz, mas não lhe serviu de nada,  porque com isso perdeu o pouco que ainda tinha, pondo ponto final nas suas aspirações como um império mundial potente.

Os analistas terminam especificando que, como Americanos que são, esperam que seu govêrno vá poder fazer melhor que isso.

Portanto, voltando a Hillary Clinton pode-se afirmar que nem todos nos Estados Unidos pensam como ela gostaria. Muitos pensam e acertam publicamente que o  perigo não vem dos feitos diplomáticos do Brasil e da Turquia mas das ilegítimas agressões  bélicas dos próprios americanos, da mesma maneira que o perigo da proliferação nuclear na região do Oriente Médio não vem do Irã, mas dos Estados Unidos e de Israel.

O primeiro passo diplomático já foi dado pelo Brasil e pela Turquia. Agora é hora do Conselho de Seguradas das Nacões Unidas fazer sua parte, assegurando-se que os tratados de não proliferação de armas nucleares se cumpra e isso começando por Israel. Que a Agência Internacional de Energia Atômica possa constatar, para que todo o mundo poder respirar aliviado, que pelo menos Israel não tem armas nucleares, uma vê que os paises europeus que não as deveriam ter – o que infringindo os tratados internacionais lhes foi concedido pelos EUA -as tem. Armas que, infringindo os tratados internacionais aos quais deveriam obedecer e não obedecem, estão voltadas para o Irã.

Que se acabe com a hipocrisia deslavada e a matança generalizada. Isso é o que é necessário para se ter uma America Latina assim como um mundo mais seguro e confidente. Isso e  não a sabotagem de esforços diplomáticos e racionais como os do Brasil e da Turquia na arena mundial, arena essa onde os EUA já perderam a vêz,  assim como o lugar de honra, restando-lhes agora o caminho ensanguentado para impôr seus objetivos.  Se Obama estivesse agindo honestamente nêsse,  como em muitos outros casos, o caminho agora estaria aberto para negociações frutíferas com o Irã.
Referências:

[1] Graham Fuller publicado em 26 de maio de 2010 como op-ed no “Christian Science Monitor”

[2] Rami G. Khouri – [Negociando com o Irã] – “Dealing with Iran” em http://www.patrickseale.com

[3] Abdel Bari Atwan – [Um Goal Iraniano nos Últimos Segundos] –“An Iranian Goal in the Final Seconds” em  www.bariatwan.com

[4] Leverett, Flynt and Leverett, Hillary Mann em http://www.raceforiran.com

2010-05-26

[5] Prof. Michel Chossudovsky [Europa – Os cinco não declarados Estados Nucleares] – Europe´s Five “Undeclared Nuclear Weapons States.” emwww.globalresearch.ca

*Anna Malm é correspondente do Pátria Latina em Estocolmo na Suecia

MÁXIMA FORÇA de solivan brugnara / quedas do iguaçu.pr

O sonho e a força máxima.

O sonho é o deus infantil escondido atrás

do racional.

O sonho tece tratores

monta fábricas, compõe andaimes.

O sonho abre um shopping.

O sonho não é ingênuo.

O sonho rouba.

O sonho depreda.

O sonho angustia.

O sonho frusta.

O sonho quer ser eleito.

O sonho quer conhecer a África.

O sonho quer vender a cura de doenças.

O sonho planta quatro mil alqueires

de soja todo o ano.

O sonho quer escravos.

O sonho mata e desmata.

O sonho gerou esta era de desperdício.

O sonho é predador de outros sonhos.

O sonho quer mais.

O sonho mistura, aumenta, encolhe,

cães, gatos, bois e cavalos.

O sonho desmesura úberes e quer sempre mais leite.

O sonho.

“Políticos ocidentais, covardes demais para salvar vidas” – robert fisk, The Independent / ny


Alguma coisa mudou no Oriente Médio, nas últimas 24 horas – e os israelenses, se se considera a resposta política extraordinariamente estúpida, pós-matança, não dão qualquer sinal de terem percebido a mudança. O que mudou é que o mundo, afinal, cansou-se das matanças israelenses. Só os políticos não têm o que dizer, hoje. Só os políticos estão calados. Nossos políticos não têm mais fibra, não tem espinha dorsal, são covardes demais, para tomar as decisões que salvam vidas.


A verdade é que os muitos, gente comum, ativistas, dêem-lhes o nome que quiserem, são os que hoje tomam as decisões que mudam o curso dos acontecimentos. Israel perdeu? A guerra de Gaza de 2008-09 (1.300 mortos) e a guerra do Líbano de 2006 (1.006 mortos) e todas as outras guerras e, agora, a matança da madrugada da segunda-feira significam que o mundo afinal decidiu rejeitar o mando de Israel? Não esperem tanto. Mas, sim, algo aconteceu.

Basta ler a desfibrada declaração da Casa Branca – que o governo Obama estaria “trabalhando para entender as circunstâncias que cercam a tragédia”. Condenação? Nem uma palavra. E pronto. Nove mortos. Mais uma estatística, na matança no Oriente Médio.

De fato, não, não é só mais uma estatística.

Em 1948, nossos políticos – norte-americanos e britânicos – atacaram Berlim. Uma população esfaimada (nossos inimigos, havia apenas três anos) estavam cercados por exército brutal, os russos, que tinham cercado a cidade. O levante do cerco de Berlim foi um dos momentos altos da Guerra Fria. Nossos soldados e aviadores arriscaram e deram a vida por aqueles alemães mortos de fome.

Parece incrível, não é? Naqueles dias, nossos políticos decidiam; muitas vezes decidiram salvar vidas. Os senhores Attlee e Truman sabiam que Berlim importava, tanto em termos morais e humanos quanto em termos políticos.

Hoje? Gente comum – europeus, norte-americanos, sobreviventes do Holocausto – sim, sim, santo Deus! Sobreviventes dos nazistas! –, os que decidiram viajar até Gaza, porque seus políticos e governantes os abandonaram, falharam, fracassaram.

Onde estavam os políticos e governantes na madrugada da segunda-feira? OK, ok, apareceram o ridículo Ban Ki-moon, a declaração patética da Casa Branca e o caríssimo Sr. Blair, com cara de “profunda lástima e choque ante a tragédia de tantas mortes”. Mas… E Cameron? E Clegg?

Em 1948, claro, teriam ignorado os palestinos, não resta dúvida. Há aí, afinal, uma terrível ironia: o levante do cerco de Berlim coincidiu exatamente com a destruição da Palestina árabe.

Mas é fato irrecusável de que os muitos, gente comum, ativistas, dêem-lhes o nome que quiserem, são os que hoje tomam as decisões que mudam o curso dos acontecimentos. Nossos políticos não têm mais fibra, não tem espinha dorsal, são covardes demais, para tomar as decisões que salvam vidas. Por quê? Como chegamos a isso? Por que não se ouviu uma palavra saída da boca de Cameron e Clegg (dentre outros, claro)?

Claro, também, sim, que se fossem outros europeus (ora essa! Os turcos são europeus, não são?) os metralhados naqueles barcos, por outro exército árabe (ora essa! O exército de Israel é exército árabe!), então, sim, haveria ondas e ondas de indignação e ultraje.

E o que tudo isso diz sobre Israel? A Turquia não é aliada muito próxima de Israel? E, de Israel, os turcos recebem o que receberam? Hoje, o único aliado que restava a Israel, no mundo muçulmano, fala de “massacre” – e Israel parece não dar qualquer importância ao que diga a Turquia.

Israel tampouco deu qualquer importância quando Londres e Camberra expulsaram os diplomatas israelenses, depois de Israel forjar passaportes britânicos e australianos, para, com eles, perpetrar o assassinato do comandante Mahmoud al-Mabhouh, do Hamás. Tampouco deu qualquer importância aos EUA e ao mundo, quando anunciaram a construção de novas moradias exclusivas para judeus em terra ocupada em Jerusalém Leste, durante visita de Joe Biden, vice-presidente dos EUA, aliado-supremo, a Israel. Se Israel não deu qualquer importância a esses aliados, por que daria alguma importância a alguém, hoje?

Como chegamos a esse ponto? Talvez porque já nos tenhamos habituado a ver israelenses matando árabes; talvez os próprios israelenses tenham-se viciado em matar árabes, até cansarem. Agora, matam turcos. E europeus.

Alguma coisa mudou no Oriente Médio, nas últimas 24 horas – e os israelenses, se se considera a resposta política extraordinariamente estúpida, pós-matança, não dão qualquer sinal de terem percebido a mudança. O que mudou é que o mundo, afinal, cansou-se das matanças israelenses. Só os políticos não têm o que dizer, hoje. Só os políticos estão calados.

S E N H O R – de jamil snege

Senhor

Hoje amanheci insatisfeito.
O pão estava amargo
e até o jornal que leio
todos os dias me pareceu de
uma insipidez atroz.
De repente, Senhor, lembrei-me
dos que não lêem jornais –
mas os usam para embrulhar
restos de pão que os paladares
amargos deixam no prato
após uma noite insatisfeita.
Como deve ser delicioso
esse pão, Senhor,
depois que tu o adoças com
tua própria boca!

Às vezes lamento minha
má sorte – e o que me espera
em seguida é um dia luminoso.
Às vezes bendigo minha
fortuna – e logo após um
furacão desaba sobre minha cabeça.
Brincas comigo, Senhor?
Ou será que devo lamentar
a minha fortuna e bendizer
a má sorte como se o avesso
e o direito fossem iguais
para ti?

Quando eu era pequeno,
topava contigo a cada instante.
Adolescente, passei
a encontrar-te cada vez menos.
Adulto, duvidei que
algum dia tivesse visto o
brilho de tua face e
te busquei incessantemente
por todos os caminhos.
Não te encontrei,
Senhor, nem poderia.
O piolho que segue na juba
do leão jamais terá
consciência de que possui um
leão inteiro.

Tenho procurado por
todos os meios me destacar
dos demais.
É minha a intervenção mais
inteligente, o lance
intelectual mais audaz.
Procuro as luzes do palco
com o mesmo fervor
com que o peregrino procura
a tua face.
Que tolice, Senhor.
Dentro de alguns anos, numa
tumba escura, que
artifícios usarei para
chamar a atenção sobre o meu
pobre crânio descarnado?

Para onde vai o canto,
depois que os
lábios se fecham?
Para onde vai a prece,
depois que o coração silencia?
E os rostos que amamos
para onde vão, senhor,
depois que nossas
pupilas se transformam
em gotas de lama?
Ontem vi uma andorinha
que devia ter uns
cinco milhões de anos.
Será que eu também
sobreviverei
ao que restar de mim?

Quando menino, nascido
serra acima, o que
mais eu desejava era o mar.
Eu queria apenas o mar
a mais nada – para nele
desfraldar meus
sonhos marinheiros.
Fui crescendo e ampliando
meus desejos.
Uma casa junto ao mar,
um barco a motor, festas,
empregados, piscina.
Obtive tudo isso, Senhor.
Mas aí então o mar dentro de
mim já havia secado

Não sou melhor que
uma pedra, uma folha,
a madeira de uma ponte,
o pó das estradas.
Sou apenas mais frágil,
Senhor, pisa-me com carinho.

Na minha infância, havia
um jogo que consistia
em se colocar um porquinho-da-índia
no interior de um círculo
formado por
casinholas numeradas.
Vencia aquele cuja
aposta correspondesse ao
número do esconderijo
escolhido pelo animalzinho.
Nunca mais vi esse jogo,
Senhor, mas eu sei que
alguns religiosos continuam
a praticá-lo contigo.
Cercam-te com suas
igrejas almiscaradas –
e correm a vendar apostas
aos seus fiéis.

A última tentativa
de me entrevistar contigo
foi um grande fracasso.
Acendi incensos, decorei com flores
– e nada de ti, Senhor.
Amanheci frustrado e
fatigado como se dançasse
a noite inteira nos infernos.
Resolvi então fazer
tudo ao contrário: dancei,
me embriaguei, libertei
fantasmas, invoquei
demônios.
Tive um sono embalado
por anjos em doces paragens
celestiais.
És sempre assim, Senhor?
Imprevisível? Desconcertante?

O velho índio foi encontrado
vagando pela floresta,
aparentemente perdido.
Perguntaram-lhe. Respondeu
cheio de brios: “Perdi
foi minha casa; não consigo
encontrá-la”.
Quanta lição, Senhor.
O homem pode perder sua casa,
sua rua, os rostos que
ama – sem jamais se perder
de si mesmo.

Um dia tu sras demonstrado
cientificamente,
como o eletromagnetismo e
a gravitação universal.
Professores te reproduzirão
em laboratório,
crianças enfeitarão com tua
fórmula suas mochilas
e os grafiteiros rabiscarão
teu princípio pelos muros
da cidade.
Nesse dia, Senhor, alguém
estará restabelecendo
teu mistério… à luz
de uma vela, numa galáxia
bem distante.

Ontem não fui solicitado
como gostaria de ser.
Ninguém me pediu conselhos,
ninguém fez caso
de minhas opiniões –
até pareceu que o mundo
e as pessoas poderiam viver
bem melhor sem mim.
Sensação terrível, Senhor.
E pensar que já passei
dias e meses da minha vida
infligindo idêntico
tratamento a ti…


Não ouças qualquer
juízo que eu faça sobre
meu semelhante.
Amordaça-me.
Corta minha língua.
A pessoa que acusei
de furtar minhas luvas
não tinha mãos.

Ontem vi um jovem preso
a uma cadeira de rodas.
Mãos, pernas, tronco –
imobilizados numa rigidez
de pedra.
De vivo apenas seu olhar –
atento, vigilante,
como se contemplasse tudo
das alturas.
Que expressão, Senhor,
que força poderosa…
Tua puseste todos os seus
músculos ali.

Tenho pensado ultimamente
em comprar um carro novo.
Trabalho com afinco,
faço tudo o que devo fazer,
mas nunca me sobra dinheiro.
Outro dia, fazendo
minhas contas, cheguei a
botar a culpa em ti: “Deus
não tem me ajudado”.
Que vergonha, Senhor.
Tantos homens trabalharam
com afinco a vida toda,
fizeram tudo
o que podiam fazer,
e jamais te pediram sequer
a passagem do ônibus…

Dois meninos, magrinhos,
irmãos, aproximam-se
do balcão de pães.
Escolhem um bem pequeno –
o que pode comprar a moeda
que um deles guarda no
côncavo da mão.
Saem os dois com seu
pãozinho – uma fome tão
antiga, entre acrílicos
e colesteróis.

Eu gostaria de ajudar
todas as crianças pobres,
carentes, desnutridas.
Gostaria, Senhor…
mas tenho a alma fatigada
de proteínas.
Ontem, por uma fraqueza
de caráter, resolvi
separar as pessoas de meu
convívio em dois blocos distintos
– os bons e os maus.
Que terrível, Senhor.
Depois de muito ajuizar,
os bons me fitavam com
expressões demoníacas
enquanto os maus, todos,
me exibiam a tua face.

Um homem mata outro e
tu o consentes.
O perverso agride o inocente
e tu não o fulminas.
O poderoso humilha o fraco
e tu aumentas-lhe o poder.
Que Deus és tu,
Senhor, que tudo podes
e tudo permites?
Que deus extermina órfãos
e ilumina a face dos
tiranos com os carmins
da longevidade?
Não respondas, Senhor,
não digas nada.
É esse mistério que me atrai
irremediavelmente a ti.

Toma a máquina do meu
corpo e nela
transporta socorro para
os teus aflitos.
É de pouca serventia,
Sei – o coração me arde,
meus músculos estão
fracos – mas podes
usá-la à exaustão.
E quando não mais prestar,
Senhor, escolhe uma tíbia
e faze uma flauta.

Hoje sairei à caça de lucros,
exatamente como o faço
todos os dias.
Tentarei ser o mais astuto,
o mais sagaz, e a terra
tremerá sob meus pés.
No entanto, Senhor, vai
comigo um menino magrinho,
olhos distraídos, que
não consegue entender por
que meus interesses
são mais importantes que
as nuvens e as borboletas.

Conserva-o assim, Senhor.
Mesmo que ele me atrapalhe,
mesmo que
me obrigue a ceder
no momento em
que preciso ser duro e inflexível,
conserva-o comigo.
E se um de nós não voltar,
Senhor, que seja eu – não ele.
Posso viver bem melhor
sem mim.

Já inspecionei a proa,
amarrei a carga,
desatei a vela.
O vento sopra forte e
enfuna meu coração de alegria.
Agora é contigo, Senhor.
Toma o leme e risca
o rumo do meu barco – não
penses que irei por
este mar sozinho.


SILVIO TENDLER: “CARTA AO GOVERNO ISRAELENSE”

Recebo carta aberta, assinada pelo cineasta Silvio Tendler, e endereçada ao governo israelense.

O texto, certamente, expressa o sentimento de milhares de judeus humanistas, espalhados pelo mundo, e que não suportam mais ver o seu povo associado à política genocida adotada por Israel.

Uma cultura que gerou pensadores como Marx, Freud, Eistein, e centenas de autores e intelectuais como Stephen Zweig, Amos Oz e tantos outros, não pode ser jogada no lixo pela política fascista do Estado de Israel.

É importante não estigmatizar a cultura judaica, e não permitir que o anti-semitismo se propague, sob impacto desse ataque criminoso promovido pelo governo israelense. RODRIGO VIANNA.

===

CARTA AO GOVERNO ISRAELENSE – por Silvio Tendler

Senhores que me envergonham:

Judeu identificado com as melhores tradições humanistas de nossa cultura, sinto-me profundamente envergonhado com o que sucessivos governos israelenses vêm fazendo com a paz no Oriente.Médio.

As iniciativas contra a paz tomadas pelo governo de Israel vem tornando cotidianamente a sobrevivência em Israel e na Palestina cada vez mais insuportável.

Já faz tempo que sinto vergonha das ocupações indecentes praticadas por colonos judeus em território palestino. Que dizer agora do bombardeio do navio com bandeira Turca que leva alimentos para nossos irmãos palestinos? Vergonha, três vezes vergonha!

Proponho que Simon Peres devolva seu prêmio Nobel da Paz e peça desculpas por tê-lo aceito mesmo depois de ter armado a África do Sul do Apartheid.

Considero o atual governo, todos seus membros, sem exceção,  merecedores por consenso universal do Prêmio Jim Jones  por estarem conduzindo todo um pais para o suicídio coletivo.

A continuar com a política genocida do atual governo nem os bons  sobreviverão e Israel perecerá baixo o desprezo de todo o mundo..

O Sr., Lieberman, que  trouxe da sua Moldávia natal vasta experiência com pogroms, está firmemente empenhado em aplicá-la contra nossos irmãos palestinos. Este merece só para ele um tribunal de Nuremberg.

Digo tudo isso porque um judeu humanista não pode assistir calado e indiferente o que está acontecendo no Oriente Médio. Precisamos de força e coragem para, unidos aos bons, lutar pela convivência fraterna entre dois povos irmãos.

Abaixo o fascismo!

Paz Já!

Silvio Tendler

TERRA PROMETIDA por walmor marcellino + / curitiba



“Sempre fui palestino.
Era palestino
antes de saber meu destino,
e que existiram
Nabucodonosor, Ciro
seu pai Cambises
ou seu neto Artaxerxes
o que eles sentiram,
ou o que dizes do rito
agora dos reis a quem serves.

Sempre fui um palestino,
e tempos depois abissínio,
pele negra, sangue tinto
derramado em 1935.
Fui judeu estrelado em 40
e a cada seqüente ano;
depois, moreno cigano,
ditos indigitados estranhos
a qualquer núcleo humano.

Tornei-me vietnamita
numa povoação calcinada;
desde a porta de entrada
procurei defender nossa vida
com fraternidade ativa.
Bombas e napalm rasantes
à morte, traçantes
tentamos
a resistência massiva
ante o terror imperialista.

Hoje, é o mesmo inimigo,
pouco distinguimos ao vê-lo,
impondo ao povo castigo
quer arrasar a Palestina.
É um amargo pesadelo.

Novas tábuas do Sinai, a sina
vêm na luz “starfight” do céu, na
estrela de seis pontas no tanque,
vai retornando essa malsina
com todo o poderio ianque.”

(Curitiba, julho de 2002)

PARA ALEXANDRE ONEILL – de julio saraiva / são paulo

tenho mal- afamados sonhos com imagens de necrotério

ontem por exemplo vi meu corpo nu

deitado na morgue

troquei a lente dos óculos para certificar-me melhor

a miopia é comum na minha idade

ontem te vi alexandre a beber com vinícius

uma taça de vinho…não..desculpe não era uma taça

era uma garrafa inteira onde os dois se afogavam

num cantar d’amigos

hoje só hoje pela manhã percebi ao olhar-me no espelho

que os meus olhos são tristes como os teus

precisei viver 52 anos entre luas e viagens que inventei

para perceber que sou um homem triste

e trago a morte na saliva como quem diz bom dia ao zelador do prédio

tenho surtos de memória

não me lembro quando foi ontem

o relógio no meu pulso parou e a vida insistiu em me usar

dei-me a ela como se fosse um puta abrindo as pernas

não quero este gozo infernal

tenho mulheres que me tiram a consciência de homem

e me fazem perder o juízo do dia seguinte

(não sei nem se haverá o dia seguinte

eu invento o dia seguinte no balcão de um bar

onde não levanto a minha taça

o balconista passa o pano encardido na mesa

e me empresta o jornal onde leio as notícias que eu mesmo escrevi

penso irremediavelmente que não tenho a fúria dos vinte anos

inevitável é saber que com a última noticia morri

talvez seja breve

sim breve como o meu funeral.

UMA NÊNIA A WILSON BUENO de ivan justen santana / curitiba

Nossa Santa já não pode mais ser Cândida

Nossa vida assassinada e cada vez mais bandida

Facada que vem sem nem falar pra que vinha

.

Mas as frases não acabam no final da linha

Um sangue de poeta grava toda a escrivaninha

CHUVA: de luiz gustavo pires

chuva:

uvaia púr
pura

vaia
ou
fica

a deus dará

( chuvarada )
charada do tempo:

o que é que cai que nem pluma
mas não é algodão ?

não molha e não é seco ?

mais parece um soco no saco ?

só dor sua dor ?

escarcéunário

O BOM BUENO por hamilton alves / ilha de santa catarina

Conheci Wilson Bueno, escritor, poeta, jornalista (com colaboração em vários jornais, sempre escrevendo sobre cultura, literatura em especial) num lançamento de seu livro “Mar Paraguayo”. Estava passando uma curta temporada nas praias de São Francisco do Sul (SC) e veio à Ilha só para lançar esse livro e voltaria para lá em seguida, segundo me revelou nessa noite. O lançamento se deu num espaço cultural que havia (e sumiu pouco depois) num prédio da Avenida Rio Branco (área central da cidade). Um grande número de amigos e interessados na obra de Bueno ali compareceu.

Me recebeu como se já fôssemos velhos amigos, com o detalhe que me revelou que acompanhava as crônicas que publicava, à época, num jornal local, que me dissera apreciar muito, no que fiquei muito lisonjeado.

Lia Wilson em suas boas resenhas publicadas no Estadão, aparecidas de vez em quando, em que revelava sempre um conhecimento profundo e bem atualizado de literatura.

Sei que colaborava em outros jornais. Fora fundador do famoso jornal paranaense de cultura, “Nicolau”. Amigo de Paulo Leminsky, com quem privou na intimidade, que o lançou praticamente no fogo cultural que ardia à época em Curitiba, inclusive com o aparecimento do “Nicolau”, por onde passou também outro nome de grande projeção da literatura paranaense, Dalton Trevisan.

– Leio suas crônicas, Hamilton. – disse-me – levantando os olhos do livro que lançava, assinando-me um exemplar com dedicatória.

Agora, abro o computador, no “blog” do Vidal (João Bosco) e o que deparo? A notícia do brutal assassinato de Bueno. Como e por que? Fica a pergunta no ar. Quem teria suficiente coragem de matar uma pessoa humaníssima como Bueno?

Nada se sabe ainda com clareza  sobre os fatos.

Apenas dou-me conta, nessa hora inicial do dia, ao abrir o blog do Vidal – Palavras Todas Palavras – dessa notícia trágica e ao mesmo tempo brutal, que de certo modo atinge com uma dor imensa todas as pessoas que conheciam Bueno, eram seus amigos, seus admiradores, sua família.

A todos minhas condolências por essa perda sem nome que ora sofremos.

De Bueno lembraremos de sua figura humana pouco igualada e da contribuição que deu à cultura de seu Estado e do país.

VIA CRUCIS – de alceu wamosy / uruguaiana.rs

Ó calvário do Verso! Ó Gólgota da Rima!
Como eu já trago as mãos e os tristes pés sangrentos,
De te escalar, assim, nesta ânsia que me anima,
Neste ardor que me impele aos grandes sofrimentos…

Esta mágoa, esta dor, nada existe que exprima!
Sinto curvar-me o joelho a todos os momentos!
E quanto falta, Deus, para chegar lá em cima,
Onde o pranto termina e cessam os tormentos…

Mas é preciso! Sim! É preciso que eu carpa,
Que eu soluce, que eu gema e que ensangüente a escarpa,
Para esse fim chegar, onde meus olhos ponho!

Hei de ascender, subir, levando sobre os ombros,
Entre pragas, blasfêmeas, gemidos e assombros,
A eterna Cruz pesada e negra do meu Sonho!