Arquivos Diários: 2 junho, 2010

SILVIO TENDLER: “CARTA AO GOVERNO ISRAELENSE”

Recebo carta aberta, assinada pelo cineasta Silvio Tendler, e endereçada ao governo israelense.

O texto, certamente, expressa o sentimento de milhares de judeus humanistas, espalhados pelo mundo, e que não suportam mais ver o seu povo associado à política genocida adotada por Israel.

Uma cultura que gerou pensadores como Marx, Freud, Eistein, e centenas de autores e intelectuais como Stephen Zweig, Amos Oz e tantos outros, não pode ser jogada no lixo pela política fascista do Estado de Israel.

É importante não estigmatizar a cultura judaica, e não permitir que o anti-semitismo se propague, sob impacto desse ataque criminoso promovido pelo governo israelense. RODRIGO VIANNA.

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CARTA AO GOVERNO ISRAELENSE – por Silvio Tendler

Senhores que me envergonham:

Judeu identificado com as melhores tradições humanistas de nossa cultura, sinto-me profundamente envergonhado com o que sucessivos governos israelenses vêm fazendo com a paz no Oriente.Médio.

As iniciativas contra a paz tomadas pelo governo de Israel vem tornando cotidianamente a sobrevivência em Israel e na Palestina cada vez mais insuportável.

Já faz tempo que sinto vergonha das ocupações indecentes praticadas por colonos judeus em território palestino. Que dizer agora do bombardeio do navio com bandeira Turca que leva alimentos para nossos irmãos palestinos? Vergonha, três vezes vergonha!

Proponho que Simon Peres devolva seu prêmio Nobel da Paz e peça desculpas por tê-lo aceito mesmo depois de ter armado a África do Sul do Apartheid.

Considero o atual governo, todos seus membros, sem exceção,  merecedores por consenso universal do Prêmio Jim Jones  por estarem conduzindo todo um pais para o suicídio coletivo.

A continuar com a política genocida do atual governo nem os bons  sobreviverão e Israel perecerá baixo o desprezo de todo o mundo..

O Sr., Lieberman, que  trouxe da sua Moldávia natal vasta experiência com pogroms, está firmemente empenhado em aplicá-la contra nossos irmãos palestinos. Este merece só para ele um tribunal de Nuremberg.

Digo tudo isso porque um judeu humanista não pode assistir calado e indiferente o que está acontecendo no Oriente Médio. Precisamos de força e coragem para, unidos aos bons, lutar pela convivência fraterna entre dois povos irmãos.

Abaixo o fascismo!

Paz Já!

Silvio Tendler

TERRA PROMETIDA por walmor marcellino + / curitiba



“Sempre fui palestino.
Era palestino
antes de saber meu destino,
e que existiram
Nabucodonosor, Ciro
seu pai Cambises
ou seu neto Artaxerxes
o que eles sentiram,
ou o que dizes do rito
agora dos reis a quem serves.

Sempre fui um palestino,
e tempos depois abissínio,
pele negra, sangue tinto
derramado em 1935.
Fui judeu estrelado em 40
e a cada seqüente ano;
depois, moreno cigano,
ditos indigitados estranhos
a qualquer núcleo humano.

Tornei-me vietnamita
numa povoação calcinada;
desde a porta de entrada
procurei defender nossa vida
com fraternidade ativa.
Bombas e napalm rasantes
à morte, traçantes
tentamos
a resistência massiva
ante o terror imperialista.

Hoje, é o mesmo inimigo,
pouco distinguimos ao vê-lo,
impondo ao povo castigo
quer arrasar a Palestina.
É um amargo pesadelo.

Novas tábuas do Sinai, a sina
vêm na luz “starfight” do céu, na
estrela de seis pontas no tanque,
vai retornando essa malsina
com todo o poderio ianque.”

(Curitiba, julho de 2002)

PARA ALEXANDRE ONEILL – de julio saraiva / são paulo

tenho mal- afamados sonhos com imagens de necrotério

ontem por exemplo vi meu corpo nu

deitado na morgue

troquei a lente dos óculos para certificar-me melhor

a miopia é comum na minha idade

ontem te vi alexandre a beber com vinícius

uma taça de vinho…não..desculpe não era uma taça

era uma garrafa inteira onde os dois se afogavam

num cantar d’amigos

hoje só hoje pela manhã percebi ao olhar-me no espelho

que os meus olhos são tristes como os teus

precisei viver 52 anos entre luas e viagens que inventei

para perceber que sou um homem triste

e trago a morte na saliva como quem diz bom dia ao zelador do prédio

tenho surtos de memória

não me lembro quando foi ontem

o relógio no meu pulso parou e a vida insistiu em me usar

dei-me a ela como se fosse um puta abrindo as pernas

não quero este gozo infernal

tenho mulheres que me tiram a consciência de homem

e me fazem perder o juízo do dia seguinte

(não sei nem se haverá o dia seguinte

eu invento o dia seguinte no balcão de um bar

onde não levanto a minha taça

o balconista passa o pano encardido na mesa

e me empresta o jornal onde leio as notícias que eu mesmo escrevi

penso irremediavelmente que não tenho a fúria dos vinte anos

inevitável é saber que com a última noticia morri

talvez seja breve

sim breve como o meu funeral.