PARA ALEXANDRE ONEILL – de julio saraiva / são paulo

tenho mal- afamados sonhos com imagens de necrotério

ontem por exemplo vi meu corpo nu

deitado na morgue

troquei a lente dos óculos para certificar-me melhor

a miopia é comum na minha idade

ontem te vi alexandre a beber com vinícius

uma taça de vinho…não..desculpe não era uma taça

era uma garrafa inteira onde os dois se afogavam

num cantar d’amigos

hoje só hoje pela manhã percebi ao olhar-me no espelho

que os meus olhos são tristes como os teus

precisei viver 52 anos entre luas e viagens que inventei

para perceber que sou um homem triste

e trago a morte na saliva como quem diz bom dia ao zelador do prédio

tenho surtos de memória

não me lembro quando foi ontem

o relógio no meu pulso parou e a vida insistiu em me usar

dei-me a ela como se fosse um puta abrindo as pernas

não quero este gozo infernal

tenho mulheres que me tiram a consciência de homem

e me fazem perder o juízo do dia seguinte

(não sei nem se haverá o dia seguinte

eu invento o dia seguinte no balcão de um bar

onde não levanto a minha taça

o balconista passa o pano encardido na mesa

e me empresta o jornal onde leio as notícias que eu mesmo escrevi

penso irremediavelmente que não tenho a fúria dos vinte anos

inevitável é saber que com a última noticia morri

talvez seja breve

sim breve como o meu funeral.

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