Arquivos Diários: 6 junho, 2010

O LIVRO e o GOL por sérgio da costa ramos / ilha de santa catarina

Pode parecer estranha e até indissociável a entrada de um livro num campo de futebol. O lançamento de inúmeros livros sobre jogadores lendários e sobre o belo jogo prova que torcida nos estádios e bibliotecas não são arenas incompatíveis.


Dizem que Charles Miller – o pai do futebol brasileiro – era um torcedor devoto das leituras de Sir Arthur Conan Doyle e um fã de seus livros Sign of Four e O Cão dos Baskerville, com os quais o escritor introduziu os seus famosos personagens Sherlock Holmes e Dr. Watson.

Houve uma época, antes e depois do Renascimento e do Iluminismo, que os Estados e os governantes se esmeravam em organizar grandes bibliotecas, assim entendida a reunião dos livros (biblos) num espaço próprio para sua estocagem, tekhe, ou “o depósito”.

Júlio César morreu assassinado, em 44 a.C., antes de construir uma grande biblioteca romana, consumada por Trajano, a “Úlpia”, no século II depois do Redentor.

Mesmo durante a treva da Idade Média, os livros jamais ficaram órfãos. Justiniano ergueu bibliotecas bizantinas no Cairo, em Bagdá, em Bassora. Na Espanha muçulmana, ficaram famosas as de Córdoba, Granada e Toledo. Na Renascença, consolidaram-se as bibliotecas Real, na França, e a Escorial, na Espanha. Na Itália, ganharam posteridade a Marciana e a Laurenciana, de Florença e a Vaticana, às margens do rio Tibre, na Cidade Eterna.

Tão zelosas de seus livros eram as comunidades renascentistas que se tornou notável a advertência, inscrita na biblioteca do mosteiro de São Pedro em Barcelona:

– Para aquele que rouba ou toma emprestado e não devolve um livro de seu dono, que o livro se transforme em serpente em suas mãos e o envenene. Que as traças corroam suas entranhas como o Verme que não morreu. E, quando for ao julgamento final, que as chamas do Inferno o consumam para sempre.

No século 20, não houve regime, iluminista ou obscurantista, que não cultivasse as suas bibliotecas, das quais são paradigmas a do Museu Britânico, a da Academia Francesa, a do Congresso dos EUA, a de Lenin e a do Museu Hermitage.

Para os livros, nunca houve Idade Média.

Conta a lenda que, de tão afeiçoado aos seus livros, um grão-vizir da Pérsia carregava todos os seus volumes quando viajava. Acomodava sua biblioteca em 400 camelos, treinados para andar em ordem alfabética…

Muitas bibliotecas se formaram pelo sonho humano de dar asas à imaginação das crianças.

Se a Copa do Mundo inocular nos jovens, junto com o desejo de torcer pelo Brasil, o “vírus” de uma boa, ainda que breve leitura, o mundo esportivo e social estará salvo.

Ninguém menos que Maquiavel, com sua fama de pensador sofisticado (embora tido como “gênio do mal”), ao ponto de se haver cunhado a expressão “maquiavélico” para expressar “sagacidade”, refere-se ao livro como a um benfeitor:

– Chegada a noite, volto à casa e dispo a roupa cotidiana. Sou recebido por sábios e me alimento de sua generosa comida. Com sua bondade, eles respondem a todas as minhas dúvidas. E durante horas não sinto tédio algum, esqueço-me de toda ansiedade; não temo a pobreza, nem a morte me assusta. Transfiro para os livros todo o meu ser. E vivo na paz dos que sabem.

O ouro do lixo e a milionária casca do ovo – por alceu sperança / cascavel.pr

Mensagens escritas para crianças e transmitidas pela Rádio Cidade, atual Rádio Globo Cascavel

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A humanidade está evoluindo, a cada descoberta, a cada nova invenção.

Quem vê passar um humilde catador de papel recolhendo aquilo que atiramos fora pode imaginar que ele não tem a menor possibilidade de, um dia, prosperar ou enriquecer.

Reconhecemos que ele faz uma das mais importantes atividades humanas – a reciclagem –, na qual todos nós devemos fazer a nossa parte, mas mantemos a idéia de que o catador é e sempre será pobre.

Pensando bem, já é uma pessoa rica espiritualmente aquela que participa da reciclagem, pois torna melhor o nosso mundo.

Mas não é verdade que os catadores tenham que ficar eternamente na humilde condição da pobreza material.

A revista americana Foreign Policy (Política Externa) acaba de publicar que há mais ouro em uma tonelada de computadores velhos jogados fora do que em 17 toneladas do minério bruto.

Certamente as minas de ouro com reservas de 17 toneladas não estão acessíveis às nossas mãos, mas a cada minuto mais computadores ultrapassados são jogados fora.

E eles, ao montar uma pilha de uma tonelada, têm mais ouro fácil de tirar que as minas com quase 20 toneladas de minério difícil de extrair.

Nas periferias das grandes cidades, já se pode ver catadores dirigindo seus automóveis e comprando casas em bairros de classe média.

Eles garimpam ouro no lixo.

A indústria está vendendo computadores no Brasil aos milhões – quinze, vinte milhões ao ano.

Muitos milhões mais foram montados e “importados” informalmente.

A cada três ou quatro anos, eles são trocados por novos e o que sobra vira lixo tecnológico.

Um lixo que se multiplica a cada ano.

Desse lixo, os novos catadores já estão tirando não mais apenas a sobrevivência.

Eles já começam a formar patrimônio.

O ser humano tem jeito? Tem jeito, sim!

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Se alguém comeu uma omelete no almoço de hoje, fez o quê com as cascas dos ovos?

Se as jogou fora, também jogou dinheiro fora.

As cascas de ovos sempre foram consideradas plenamente descartáveis depois de compor bolos, doces diversos, farofas e omeletes.

O Brasil produz 20 bilhões de cascas de ovos por ano.

Sempre se soube que as cascas de ovos tinham qualidades importantes.

Trituradas, por exemplo, fornecem cálcio para combater a osteoporose.

O artesanato as utiliza em diversas aplicações.

Até cimento é possível fazer com elas, em combinação com outros produtos.

Fora disso, as cascas continuavam a ser implacavelmente destinadas ao lixo.

Mas nessas desprezíveis embalagens naturais se escondia uma atraente mina de ouro à espera de alguém capaz de extrair seu segredo.

Esse alguém foi o jovem cientista chinês Liang-Shih.

Ele descobriu que a casca é recoberta por dentro com uma membrana rica em colágeno, um material que, quando purificado, chega a custar mil dólares o grama.

Cerca de 10% da membrana é constituída de colágeno, que pode ser utilizado tanto pela própria indústria de alimentos quanto para tratamentos médicos, para recuperação de pessoas que sofreram queimaduras graves ou em cirurgias cosméticas.

O incrível da genialidade humana e da juventude estudiosa que temos em todo o mundo é sua capacidade de tirar daquilo que todos julgávamos inútil mais uma fonte de riquezas.

O destino da humanidade, portanto, só pode ser a riqueza e a felicidade.

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O ser humano tem jeito? Tem jeito, sim!

FOGOS PÓSTUMOS por hamiltom alves / ilha de santa catarina

Nunca vi um livro de Wilson Bueno, que vem de morrer há pouco assassinado, com vários golpes de faca, por um bandido, que o surpreendeu à porta de sua casa, à noite, (não sei de maiores detalhes), ser resenhado. Nem vi seu nome alcançar, em vida, a notoriedade de como ocorre agora depois que se foi, em que se anuncia a edição da última novela que escreveu, “Mano, a noite está velha”, que, em breve, a editora Planeta lançará. O encarte Sabático, do Estadão, publica uma breve resenha assinada por Antonio Gonçalves Filho, que já havia publicado uma outra faz  tempo sobre “Cachorros no céu”, quando previra que um dia seria reconhecido como um dos grandes reinventores do panorama literário brasileiro. Wilson, como ainda se anota nesse comentário recente de Gonçalves, acabou sendo uma figura importante do cenário literário nacional. No entanto, diz o jornalista, o que produziu jamais recebeu o merecimento de prêmios, sempre ocupando segundos lugares, com diferença para o chileno Roberto Bolano, que ganhava todos, cuja notoriedade subiu nos últimos dez anos neste continente como um dos seus expoentes.

Evidentemente ganhar prêmios, em última análise, não é a única maneira de um escritor se consagrar. Se fosse assim, todos os ganhadores do prêmio Nobel estariam na boca de todo o mundo – e não estão, alguns até se apagaram totalmente. Sem contar os que mereciam ser premiados e, por motivos desconhecidos, a critério dos velhinhos integrantes da Academia de Ciências de Estocolmo, nunca viram a cor de prêmios, ou desse em particular, que foram os casos de Guimarães Rosa, que o merecia antes de Garcia Marques ou mesmo de Saramago, e de Jorge Luis Borges, cuja preterição na obtenção dessa láurea continua sendo inexplicada.

Referia-me ao fato de Wilson Bueno não ter sido, em vida, objeto de melhor exame por resenhadores, apesar de ter lançado vários livros, (novelas, contos, crônicas, etc). Além de ter sido também um bom resenhista de jornal (colaborava com vários, inclusive no Estado de S. Paulo).

Agora, o Sabático (último número de sábado do Estadão) lhe abre uma página inteira, com reflexões de Antonio Gonçalves Filho sobre sua obra e sobre seu livro póstumo, “Mano, a noite está velha”, ocupando meia página. Outros jornais abriram espaço para se ocuparem da obra de Wilson, que é constituida de vários títulos, “Mar Paraguayo”, “Cachorros no céu”, “Jardim Zoológico”, “Meu tio Roseno a cavalo” e o póstumo, que já referi. Desse último livro, o “Estadão” publica um pequeno trecho, com boa ilustração, que revela a forma madura com que esse texto é produzido. Wilson morreu possivelmente quando alcançava o melhor de sua condição de escritor. Teria ainda muito que produzir, se um assassino não lhe tivesse roubado a vida num dia desses.

Sempre será ocasião de lembrar-se da obra de um escritor ou de um outro qualquer artista, ainda que seja depois de morto, sonegando-se-lhe o reconhecimento ainda vivo.

O que de qualquer modo é assunto que dá o que pensar. Por que o reconhecimento póstumo da glória?