DESCOBRINDO O ICEBERG por lucas paolo / são paulo


– Numa adivinha cujo tema é o xadrez, qual é a única palavra proibida?

O Jardim de Veredas que se Bifurcam, Jorge Luis Borges

O conto “Colinas parecendo Elefantes Brancos” de Ernest Hemingway, basicamente, nos mostra um casal que está em uma estação ferroviária, próxima ao rio Ebro, aguardando um trem que vem de Barcelona e segue para Madrid. Enquanto aguardam o trem, o casal aproveita para pedir algumas bebidas e apreciar a paisagem (é o momento em que a moça diz que as colinas do vale parecem elefantes brancos). Porém, logo que começam a conversar se desentendem e discutem aspectos relacionados a uma operação que o rapaz sugere e que a moça cogita fazer. A discussão vai se intensificando até que a moça pede ao rapaz para calar a boca.  Nesse momento, a atendente do bar os avisa que o trem está chegando. O rapaz vai colocar as bagagens mais próximas da plataforma e, quando volta, a moça lhe sorri e diz se sentir muito bem. Assim termina o conto.

Ao lermos o conto pela primeira vez, chegamos ao final e não conseguimos vislumbrar um sentido, não conseguimos entender de que realmente se trata o conto. Dessa forma, encontramo-nos perante o que podemos chamar de um conto “charada”. Para desvendar esta “charada”, partimos para uma segunda leitura. Nesta, iremos atrás do que é narrado de modo elíptico. Entretanto, veremos que o conto é construído de forma que o leitor, na procura de um sentindo, seja despistado e distraído por diversos “motivos” que estão cifrados no texto. Tentemos, então, buscar onde se encontram essas distrações.

Podemos apontar como distrações, dois possíveis “motivos” que estão cifrados no texto: as colinas que parecem elefantes brancos, e a operação que a moça cogita realizar. Vejamos onde o “motivo” operação nos leva:

– Você deixará a preocupação de lado se eu me operar?

– Claro que sim, mesmo porque a operação é perfeitamente simples.

– Então eu a farei! Você sabe que não me preocupo comigo mesma.

– Como assim?

– Exatamente assim: não ligo a mínima para mim mesma.

– Mas eu me ligo muito em você!

– Pois eu, não. Farei a coisa e tudo acabará muito bem.

– Já não quero que a faça, se é assim que você sente.

Após vermos, anteriormente, o rapaz insistir para que a moça faça a operação, neste trecho, a situação se reconfigura e a moça acaba aceitando que o melhor é fazer a operação, porém, as razões que impingiam a moça fazer a operação, fazem o rapaz não desejar que ela a faça mais.

– Quero uma vez mais que você compreenda não estar de modo algum obrigada a fazer o que não quiser. Estou disposto a topar o que der e vier se isso é realmente importante para você.

– E para você, não é? Poderíamos nos entender muito bem assim mesmo…

– Claro que poderíamos! Você é a única pessoa a quem realmente quero. Mas que a coisa é simplíssima, bem sei que é.

– Sim, você é quem sabe.

– Pode brincar com as palavras, mas sei mesmo que é.

– Você seria capaz de fazer algo por mim neste instante?

– Faço qualquer coisa por você!

– Então, por favor, cale, cale, cale, cale essa boca!

Neste trecho, vemos que é possível não fazer a operação. Que as coisas poderiam se manter iguais sem a realização da operação. Todavia, vemos uma crescente tensão que se mostra mais ligada à insistência do rapaz do que à necessidade da operação.

Esses são alguns exemplos de como o “motivo” operação é cifrado nos diálogos dos personagens. Até o final não sabemos a razão da operação, se ela é necessária ou não, o que a operação interfere diretamente no relacionamento do casal. Enfim, nos vemos diante de um mistério que não é resolvido e que, justamente, não pode ser resolvido por ser uma ferramenta de distração criada pelo autor.

Com relação ao “motivo” as colinas que parecem elefantes brancos, temos uma distração cifrada em três instâncias: dos personagens, do narrador e do autor. Nos personagens vemos o seguinte:

– Parecem elefantes brancos – sugeriu a seu companheiro.

– Jamais vi algum dessa cor – respondeu ele ao tomar um gole de cerveja.

– Nem poderia ver.

– Eu talvez até pudesse – respondeu-lhe ele. – Sua negativa não prova coisa alguma.

Aqui a moça compara as colinas aos elefantes brancos. O desentendimento dos dois a partir da constatação da moça nos leva acreditar que haja algo por trás dessa possível “metáfora”.

A garota olhou de novo para as colinas.

– São muito bonitas – afirmou. – Nada a ver com elefantes brancos. Eu me referia apenas à cor que apresentam por entre as árvores.

Porém, na página seguinte, a moça já dissipa a idéia de qualquer analogia. Devido à discussão do casal somos levantados a crer que possa haver algo por trás da comparação, o que se prova também, até o final do conto, um equívoco.

Com relação ao narrador podemos apontar, primeiramente, que ele começa o conto colocando as colinas em primeiro plano e descrevendo o cenário; só depois de falar das colinas e do ambiente é que aparecerem os personagens. Também podemos mencionar que nos pontos de maior conflito entre os personagens, o narrador interrompe o diálogo para descrever o cenário. Isso nos faz crer que possa haver algo nas colinas e no ambiente em geral que aponte a chave para descobrir a “charada” do conto. No entanto, por mais que especulemos a respeito da relação entre o cenário e os personagens, até o final do conto não se acha um sentido que ligue um ao outro.

A terceira instância é em relação ao autor, ou seja, Hemingway. Se podemos observar que a “charada” não está na analogia de colinas e elefantes brancos, então, por que colocar o título do conto como “Colinas Parecendo Elefantes Brancos”. Só podemos imaginar uma explicação: que isso também seja uma ferramenta para distrair o leitor e direcioná-lo para os “motivos” errados, ou melhor, infecundos.

Então, se há uma “charada”, onde estaria ela?

Para tentar responder, vejamos o que o escritor e crítico Ricardo Piglia diz em suas “Teses sobre o conto” [1]:

A teoria do iceberg de Hemingway é a primeira síntese desse processo de transformação: o mais importante nunca se conta. A história é construída com o não-dito, com o subentendido e a alusão.[2]

O que seria então o “não-dito”, o “subentendido”, o aludido? Que o que está por trás de todo o conto, na verdade, são os problemas de relacionamento do casal, a incomunicabilidade. Hemingway constrói o conto de forma magistral porque desloca nossa atenção para uma operação, possivelmente insignificante, e para uma comparação casual de colinas com elefantes brancos. Quando o que podemos ver no conto – se afastamos todas as distrações – é um casal de turistas que tem muitos problemas de relacionamento e discutem por vários “motivos” – sendo os que ficam mais evidentes: a analogia feita pela moça entre colinas e elefantes brancos e a operação que, talvez, ela realizará. O que está por trás destes “motivos” nunca saberemos e não devemos almejar saber. Descoberta a parte do iceberg que estava submersa, podemos olhar a pontinha que aparece na superfície de uma perspectiva completamente diferente.



[1] PIGLIA, Ricardo. “Teses sobre o conto”. In: Formas Breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

[2] Interessa-nos mencionar aqui outro aspecto que Piglia levanta: “Num de seus cadernos de notas, Tchekhov registra esta anedota: ‘Um homem em Montecarlo vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, suicida-se.’” […] “Que teria feito Hemingway com a anedota de Tchekhov? Narrar com detalhes precisos a partida, o ambiente onde se desenrola o jogo, a técnica que usa o jogador para apostar e o tipo de bebida que toma. Não dizer nunca que esse homem vai se suicidar, mas escrever o conto como se o leitor já o soubesse.”

Uma resposta

  1. Lucas, marco presença aqui como seu leitor. Parabens pela crítica.
    Abraço.

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