Arquivos Diários: 12 junho, 2010

SEMPRE ENAMORADO por tonicato miranda / curitiba


Daqui a um dia será o Dia dos Namorados. Você jamais foi a minha namorada, mas sei de mim em você nesta condição. E o que é ser namorado? Ser o outro saindo de si mesmo ou não ser. Ou ser o imaginado pela vizinhança do sentimento de quem já se renunciou? Dói-me ver, eu e outros saltados para fora de mim, de nós; prisioneiros aos licores da paixão. Nós, olheiras fundas; e íris frígida, em transe; a buscar no outro reflexos da própria tristeza. A tristeza de se olhar onde não é, onde nunca fomos; eu e todos, sendo difícil o seremos.

O fato é que este avião sacode e com ele vão me sacudindo as ideias.

O avião segue a noite e esta segue o eixo da Terra. Parece que todos seguem alguma coisa. Damos voltas e voltas sobre o eixo planetário. Somos o cachorro do planeta e o enamorado cachorro da nossa paixão. O avião tenta voar em prumo, voar à frente, em linha reta, esta coisa que não existe em nosso mundo curvo. E sinto ou pressinto que jamais me apaixonarei novamente. Jamais farei esta deliciosa loucura mais uma vez. Mas por quê? – pergunta-me o outro dentro de mim. Simples ângulo obtusângulo da vista: porque jamais deixei de estar apaixonado. Como então começar o que não acabou? Muito embora esteja triste porque nada comprei para doar de mim à namorada. E precisava recomprar com objetos diretos todos os objetos indiretos e diretos do meu amor?

ABRI A PORTA COMPANHEIROS de noémia de souza / moçambique

Ai abri-nos a porta,
Abri-a depressa, companheiros,
Que cá fora andam o medo, o frio, a fome,
E há cacimba, há escuridão e nevoeiro…
Somos um exército inteiro,
Todo um exército numeroso,
A pedir-vos compreensão, companheiros!

E continua fechada a porta…

Nossas mãos negras inteiriçadas,
De talho grosseiro
– nossas mãos de desenho rude e ansioso –
já cansam de tanto bater em vão…

ai companheiros,
abandonai por momentos a mansidão
estagnada do vosso comodismo ordeiro
e vinde!
Ou então,
Podeis atirar-nos também,
Mesmo sem vos moverdes,
A chave mágica, que tanto cobiçamos…
Até com humilhação do vosso desdém,
Nós a aceitaremos.

O que importa
É não nos deixarem a morrer,
Miseráveis e gelados,
Aqui fora, na noite fria povoada de psipócués…
“o que importa
é que se abra a porta.”

L. Marques, 23/6/1949