ABRI A PORTA COMPANHEIROS de noémia de souza / moçambique

Ai abri-nos a porta,
Abri-a depressa, companheiros,
Que cá fora andam o medo, o frio, a fome,
E há cacimba, há escuridão e nevoeiro…
Somos um exército inteiro,
Todo um exército numeroso,
A pedir-vos compreensão, companheiros!

E continua fechada a porta…

Nossas mãos negras inteiriçadas,
De talho grosseiro
– nossas mãos de desenho rude e ansioso –
já cansam de tanto bater em vão…

ai companheiros,
abandonai por momentos a mansidão
estagnada do vosso comodismo ordeiro
e vinde!
Ou então,
Podeis atirar-nos também,
Mesmo sem vos moverdes,
A chave mágica, que tanto cobiçamos…
Até com humilhação do vosso desdém,
Nós a aceitaremos.

O que importa
É não nos deixarem a morrer,
Miseráveis e gelados,
Aqui fora, na noite fria povoada de psipócués…
“o que importa
é que se abra a porta.”

L. Marques, 23/6/1949

2 Respostas

  1. Apelo-convocação de tal ordem, de tanta beleza, tanta, que nos trava na garganta, a voz… a palavra…

  2. Noémia de Sousa é uma das maiores poetas moçambicanas que retrata neste magnífico poema a luta que se travou, dia a dia, hora a hora, pela liberdade de todo um povo que viveu algemado anos a fio, escravizado por um sistema de subjugação total que acontecia a todos os níveis: físico e moral.
    Um documento histórico contra a opressão africana que se fazia sentir em todas as colónias.

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