Arquivos Diários: 14 junho, 2010

LÍNGUA SOLTA: subordinação vocabular e linguística – por joão serralvo / são paulo

A invasão do inglês em nosso idioma virou moda. Solta a língua das pessoas, que simulam dominar o idioma estrangeiro mais falado no mundo, mas desconhecem o significado dos termos que usam para se exibirem. Esse processo de subordinação já extrapola o âmbito linguístico, espalhando-se pelo comportamento geral. A mídia é a principal responsável pelo esnobismo barato, ao divulgar tais procedimentos como manifestações culturais. O bullying e o rebolation são meros exemplos atuais.

Nos escritórios, empresas nacionais, usam folder de follow-upfolder de income tax e de interest ratefilesattached, dar um reset, solicitar um feedback, fazer check-in echeck-out, parar a reunião para um coffee-break, solicitar roteiros de viagens com vários stopstake instake offs, marcar uma board meetingto call a meeting, fazer um schedule, fazer um chart, contratar um charter flight, marcar breakfast meetingem hotéis…

Na ginástica, temos lazy walk (caminhar lento), sitting on the pole (sentando no poste), carrousel (carrossel), fireman move (giro do bombeiro), hand stand (de cabeça para baixo), significando posturas ou movimentos. Além do inglês, temos ashi baraitomoenague no judô, e outros golpes.

Bilheteria ou tiqueteria?

A regra é soltar a língua. Além dos estrangeirismos, temos os modismos. Acabaram o “tipo assim”, e “a nível de”, que não impressionavam só os cafonas, mas até pessoas cultas. O diretor de um dos maiores jornais de São Paulo, que só falava desse jeito, era engenheiro mecânico, com mestrado em matemática e cursos de aperfeiçoamento em Administração nos Estados Unidos e Suíça. Um dia sua secretária tentou conversar sobre isso e sua resposta foi: “Abstenho-me de seus comentários, volte para os seus afazeres!”

Há também os prolixos. Alguns relatórios podem ser reduzidos a 1/3. A língua solta de alguns redatores nos obriga a pedir para a secretária “dar um jeito naquela diarréia verbal”. E tentar relatar com exatidão, usando poucas palavras adequadas ao assunto.

Agora temos os gerúndios, que até já foram proibidos por lei. Vamos estar escrevendo, vamos estar publicando, e vamos estar parando com isso.

Está na moda o pronome extra. Em vez de “Fulano disse que…”, as pessoas estão dizendo “Fulano ele disse que…” “A Lígia ela está gorda…” Repare quando conversar com alguém ou assistir TV.

Jornais e televisão dizem “os preços caíram pela metade”, ou “o consumo caiu pela metade”. Está errado. Não se pergunta “por onde” os juros caíram, mas “quanto” ou “até que ponto” eles caíram. Deviam dizer “os índices caíram à metade”. E a mídia vai soltando a língua.

Tem mais. Agora tudo é tíquete, mas tíquete é bilhete. Você vai a uma bilheteria ou a uma tiqueteria? Pode ser cupom, ingresso, vale, passagem, entrada de cinema. O que é melhor: tíquete-refeição ou vale-refeição? Tíquete-transporte ou vale-transporte? Ou prefere tíquete-carona…

Um prédio que oferece sky shit

Vasilhame pet é embalagem plástica para líquidos. Pet é a sigla em inglês do nome científico do politereftalato de etila. Em bom português, é só “plástico” ou “garrafa”, e não pet.

O pior é que as pessoas não sabem nem pronunciar o inglês. Uma vez eu estava na praia do Leme, no Rio, com sede, e vi um ambulante gritando “Compre um sumessum”. Pensei que fosse algum suco. Mas ele estava apenas vendendo o bronzeador Summer Sun. No calor, bebe-se qualquer coisa, mas é melhor uma boa tulipa…

Os aperitivos levam os nomes mais estranhos. Se você não conhece as respectivas fórmulas, peça com cuidado para não enrolar a língua! É melhor tomar uma caipirinha, que não é drink

Com o progresso da economia, está surgindo a nova classe cafona, sem cultura, que adora os tais termos. Eles dizem: “Moro perto do shop cente”, “Moro no Tritaue” (Three Towers), trabalho no Versailes Ófici, comprei um “rometiat” e por aí vai.

Mas por que os prédios têm nomes estrangeiros? Tem prédio “You”, “Up”, “Office”… Recentemente lançaram um “Green Design”! Ora, o povão tem direito ao consumo mas, por Deus, onde fica a educação? Importante é o luxo! Tem um prédio “Sky” que oferece sky caresky fixinghigh tech skysky deliverysky conciergesky cleaner,sky wash, sky fit, sky pettingsky massagesky shit… Eu vi o anúncio na Folha de S.Paulo. Achei ridículo. Lá no escritório o pessoal deu muita risada.

É mais cômodo não ter que pensar

A triste verdade é que, se os prédios tivessem nomes brasileiros, não venderiam nada. Ninguém quer morar num Jardim Azul, mas caem matando num “Blue Garden”. Semlobbyplaygroundlounge, não dá! É tão chique morar num garden, trabalhar numoffice center… Pode?

Para conversa de vendedor, é beleza. Comprador adora anglicismo. O bobo fica se achando importante, até arrisca um OK! O esnobismo barato de mentalidade cafona, serve para soltar a língua presa e abrir a burra.

Mas, fora a invasão estrangeira, tem muita coisa pra ser arrumada em nossa língua. Ouvi um imbecil dizendo: “Pra que estudá tanto se o presidente nunca estudô?” Será que ele quer seguir o exemplo do Lula? Coitado! Vai se ferrar. Ele tem outros exemplos para seguir, mas a culpa é da mídia, que espalha os vícios da linguagem. A televisão é uma me… merreca. Para ganhar audiência, nivelam tudo por baixo

A mídia ainda respeita a cultura inflacionária do passado; nunca mais deixou de simplificar milhões por “mi”, bilhões por “bi”… E o verbo “acontecer”? Esse substitui qualquer outro. É comum na TV: “A reunião dos diretores acontece nesta quarta”, em vez de “os diretores se reunirão na próxima quarta-feira”. Tem outros micos: “O crime aconteceu na igreja.” Ora, crime se comete ou se pratica, crime não acontece simplesmente, como se não tivesse nenhum agente. Cerimônia se celebra. Programa se apresenta. Comício se realiza. Missa se reza. Assembléia se convoca. Prisão de bandido se efetua. O verbo acontecer deve ser empregado quando não há um agente conhecido: “isto” acontece, “tudo” acontece, “o que” acontece. O professor Napoleão Mendes de Almeida já denunciava e lamentava esse exagero há muito tempo. O pessoal da mídia não lhe fez caso. E continua errando. É mais cômodo, não tem que pensar, escolher verbos.

Uma obrigação cívica

Tem coisa pior. Você já reparou como é feita a indicação da idade na Folha de S.Paulo? Escrevem o nome da pessoa e, em seguida, entre vírgulas, só os algarismos significativos da idade. Sem dizer que é idade. Esse sistema é comum nos Estados Unidos. Lá, só se faz assim. Até nos arquivos, nos cadastros, nos processos, a idade das pessoas se indica só com os números correspondentes. Faz sentido. Se você pergunta a uma garota norte-americana “Qual é sua idade?”, ela responde “Eu sou quinze”. A garota brasileira responderia “Eu tenho quinze anos”. Para os norte-americanos, a idade é algo que você é. Para os brasileiros, a idade é algo que você tem. Essa é a diferença.

Mas se não se indica o significado do número entre vírgulas, ele pode se referir a idade, peso, busto, nota, qualquer coisa. É um erro de português. Por que insistir nisso, se não é nosso costume? É outra forma de invasão do inglês. Pura imitação. A origem é a seguinte. Na década de 1940, ou de 50, no Rio de Janeiro havia um jornal de grande circulação, cujo redator-chefe era um homossexual enrustido. Ele tinha pavor do sotaque carioca, que iguala algumas palavras, como “anos” e “ânus”, que soam algo como “ânuch” com aquele som chiado no final. Por isso, toda vez que o nosso redator enrustido precisava escrever ou, principalmente, pronunciar a palavra “anos”, ele se encolhia, sentia-se mal, e sempre tentava fazer a substituição da palavra ou de toda a frase por outra expressão. O vocábulo “anos” era terrível para ele, que escondia sua opção sexual. Tinha que desmanchar esse nó de qualquer jeito.

Numa de suas viagens aos Estados Unidos, ele conheceu o modo norte-americano. Teve um estalo! Um verdadeiro alívio! Para acabar com o uso da palavra incômoda bastava adotar o sistema inglês. Solução perfeita! Ele determinou que todos usassem o modo norte-americano. Seria mais simples, mais prático, tornando desnecessária a repetição maçante da palavra “anos” em tudo o que se referisse a pessoas! Foi isso. Ele achou uma boa saída, já que não teve coragem de assumir… Quem sabe se hoje a história se repete, o preconceito também e, com isso, a invasão continua.

Não se pode remar contra a corrente. Todos os idiomas se transformam, com o passar do tempo. É impossível evitar. Devemos traduzir os vocábulos estrangeiros, ou aportuguesar os que não tenham tradução. Enriquecer o vocabulário. Salvar a nossa língua. Quem comunica ao público, deve assumir essa responsabilidade. Não se pode negligenciar e a mídia tem a maior parte nisso. É uma obrigação cívica!