Arquivos Diários: 15 junho, 2010

JOSÉ SARAMAGO pelo olhar do poeta brasileiro C. RONALD /santa catarina

ARREMATE

Ninguém Saramago, inventa Deus para sua miséria; você teve pai e mãe, você não se inventou. Seus livros embalam o erro, a inocência e também o pecado.

Constância e tumulto sem quebra de visão na árvore, a figura humana é transferida, a morte é só ressonância. O desconhecido não deve ser impresso na presa, o medo mede todo o discurso do pavor, a eternidade passa além se a perdemos de vista. Se o homem inventou Deus, como o homem poderia inventar você?

A diferença é grande, não é? Quantas vezes foi Saramago o amor de Deus, perdido. O sentido é uma consequência sem memória. Havia distância que não sabia o seu tamanho, hibernação no contorno sem alma,leveza ritmada, dança! Quem chegar à vida só por si mesmo ganha Saramago de graça.

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poemas de C.RONALD:

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OS  SEMPRE

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a demora do vidente precipita-se
naqueles que o esperam

novamente um princípio para o erro
caso contrário mastiga a norma como alimento
conhecíamos o destino quando vinha só
no ar como o enigma
sobreposto ao susto
e de repente alguém aderiu-se
à língua e fez-se prédio

por que os mortos não se tornam
excessivos e nem excitam a forma excetuada
houve espera na melancolia onde
o fundamento desapropriado
pelo rigor da claridade pode
alterar o riso análogo

a existência favorece o medo
partes variadas da distração com molas arriadas
e o pecado no meio
deve dar para quatro aventuras
quatro são as mãos do homem
quando dá e tira
depois vários quadradinhos de suspeita
e Abel no meio
se era mesmo a religiosidade
na parte crua do bife
faca e garfo sonolentos
sem que o prato justifique
mudança no percurso do Caim
ou dança simplesmente
o espírito mais ereto que liso
“Senhor eu não sou digno”

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CUIDADOS DO ACASO poemas (II)

Tenho o nó na garganta, o tiroteio
no peito da criança, essa bagagem de ossos
próxima de um semáforo, esquecida
do tráfego sangrento numa noite sussurrada.

Um plaft para o homem sem aniversário.
As duas partes do rosto
fazem uma concha fechada pela indiferença.
Asas derretidas depois de derrubadas
entre a inquietação e a banalidade dos pardais
no asfalto exposto. Sinceramente

a morte não é coisa de mortos.
Estão podres os que representam
o personagem que nunca foram. O sonho
sai dos alvos alagados diante da porta,
alguns trazem sementes fumegantes,
farpas cravadas no luar,
o aquecimento da comunhão
no vermelho da maçã.

I

Que isto resuma toda a importância do homem:
não ficou pronto pela carne, mas viveu.
Animais escorregam do universo e sentem
apenas o momento veloz que une garras e dentes.

Desiguais na aparência, espelham o mundo
entre átomos sofridos quando Deus separa
na eternidade as árvores e os próprios bichos.
Os outros são defeitos da existência. O nada,

que o efêmero revela de um estranho fundo,
a realidade exige. Mas engulo Jonas,
como baleia, e o anzol, curva para nós mesmos,

é cuspido na aurora de um ser descontente.
Inconsciência e apogeu, cada qual com seu caos,
dobra de temporal desde o início do tempo.

C. RONALD, considerado o maior poeta da atualidade brasileira, em sua fantástica biblioteca.

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Em 2 de Dezembro de 1935, nasce em Florianópolis, Carlos Ronald Schmidt, filho de Lourival H. Schmidt e Ana Ernestina Kersten Schmidt. Em 1942, aos 7 anos de idade, C. Ronald faz o pré-primário na escola particular Jurema Cavallazi. Em 1946, com 11 anos de idade, Ronald ingressa no Ginásio Catarinense. Aos 20 anos, em 1955, presta serviço militar no CPOR de Curitiba (PR), logo depois aos 21 começa a colaborar no jornal “O Estado” de Florianópolis (SC).

Em 1957 assina, entre outros, o Manifesto do Grupo Litoral. Com 23 em 1958, ingressa na Faculdade de Direito em Florianópolis, em 1959, publica o livro Poemas (Edições Litoral), mais tarde repudiado. Em 1960, com 25 anos, sai em edição do autor o livro Cantos de Ariel , também repudiado. Em 1962 recebe o grau de Bacharel em Direito e muda-se com a família para o Rio de Janeiro.

Com 30 anos, em 1965 casa-se com Neide Maria Campos, natural de Biguaçu (SC), logo após ocorre o falecimento de sua mãe, em Petrópolis, Estado do Rio. Em 1966 ingressa na Magistratura Catarinense, sendo nomeado Juiz Substituto da Comarca de Concórdia (SC), ocasião em que nasce sua filha Ariadne. É promovido para a Comarca de Guaramirim (SC).

Em 1967, nascimento do filho Cristiano, falecido quatro meses após, logo após, em 1968 Nasce sua filha Amarílis, e em 1969 Nascimento do seu filho André. Aos 36 anos de idade, em 1971 É promovido para a Comarca de Braço do Norte (SC); é editado no Rio(RJ) o livro As origens (Ed Livros do Mundo Inteiro/MEC).

Em 1973 Nasce seu filho Bernardo; e muda-se com sua família para a Comarca de Biguaçu(SC). Em 1975 Sai em São Paulo(SP) o livro Ânua (Ed. do Autor / Udesc): considerado o melhor livro do ano pelo Conselho Estadual de Cultura. Recebe o título de Personalidade Maior do estado de Santa Catarina; em 1978 É publicado em São Paulo o livro Dias da terra (Ed. Quíron/INL).

Aos 46 anos, em 1981 falece seu pai em Florianópolis(SC). Começa a colaborar no suplemento “Cultura” do jornal “:O Estado de São Paulo”.

Em 1982, é publicado o livro Gemônias (FCC/UFSC), em Florianópolis(SC). Em 1986, sai em Portugal na antologia Poesia Brasileira Contemporânea, coleção “Escritores dos Países de Língua Portuguesa” editada pela Imprensa Oficial — Casa da Moeda, Lisboa; Edição do livro As coisas simples (Arte Hoje Editora/INL), Rio.

Em 1993, é publicada em São Paulo (João Scortecci) o livro A cadeira de Édipo; Na mesma ocasião sai em Florianópolis seu livro Como pesa! (Editora Paralelo 27. coleção “Poesia de Santa Catarina”). Em 1995, C.Ronald publica o livro “Cuidados do Acaso” (Scortecci Editora, São Paulo, 1995), Em 1997, publica o livro “Todos os Atos (Scortecci Editora, São Paulo, 1999), Em 1999, o poeta publica o livro “Ocasional Glup” (Scortecci Editora, São Paulo, 1999), Em 2001, publica o Livro “A Razão do Nada (Scortecci Editora, São Paulo,2001), Em 2003, pela Editora Bernúncia Florianópolis-SC, o poeta publica “OS SEMPRE”. Em 2006 publica pela mesma editora o Livro “Caro Rimbaud”;

EM MEU OFÍCIO ou ARTE TACITURNA de dylan thomas / gales

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

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Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte
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(Tradução: Ivan Junqueira)

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Dylan Marlais Thomas nasceu em Swansea, no País de Gales, a 27 de outubro de 1914. Considerado um dos maiores poetas do século XX em língua inglesa, juntamente com W.Carlos Williams, Wallace Stevens, T.S. Eliot e W.B. Yeats. Dylan Thomas teve uma vida muito curta, devido a exagerada boemia que o levou ao fim de seus dias aos 39 anos, mas, ainda teve tempo de nos deixar um legado poético que o tornou um dos maiores influenciadores de toda uma geração de escritores.”

A NAU de augusto dos anjos / paraíba

Sôfrega, alçando o hirto esporão guerreiro,
Zarpa. A íngreme cordoalha úmida fica…
Lambe-lhe a quilha a espúmea onda impudica
E ébrios tritões, babando, haurem-lhe o cheiro!

Na glauca artéria equórea ou no estaleiro
Ergue a alta mastreação, que o Éter indica,
E estende os braços da madeira rica
Para as populações do mundo inteiro!

Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda,
Pára e, a amarra agarrada à âncora, sonha!
Mágoas, se as tem, subjugue-as ou disfarce-as…

E não haver uma alma que lhe entenda
A angustia transoceânica medonha
No rangido de todas as enxárcias!