Arquivos Diários: 19 junho, 2010

A NONA CANÇÃO DO FILÓSOFO (THE NINTH PHILOSOPHER’S SONG) de aldous huxley


Versão brasileira: Ivan Justen Santana

GOD’S in His Heaven: He never issues

Jr. (Wise Man!) to visit this world of ours.

Unchecked the cancer gnaws our tissues,

Stops to lick chops and then again devours.

DEUS está em Seu Céu: Ele nunca manda

(Quão Sábio!) Seu Guri aqui em visita.

Incógnito o câncer nos morde a vianda,

Nos lambe os pedaços e regurgita.

Those find, who most delight to roam

‘Mid castles of remotest Spain,

That there’s, thank Heaven, no place like home;

So they set out upon their travels again.

Uns acham (os que mais fruem vagar

Por castelos da mais remota Espanha)

Que não há nada como o próprio lar;

E logo partem a outra terra estranha.

Beauty for some provides escape,

Who gain a happiness in eyeing

The gorgeous buttocks of the ape

Or Autumn sunsets exquisitely dying.

A alguns a beleza oferece fuga,

Os que se prazem na contemplação

Das nádegas das primatas sem ruga

Ou dos crepúsculos em explosão.

And some to better worlds than this

Mount up on wings as frail and misty

As passion’s all-too-transient kiss

(Though afterwards — oh, omne animal triste!)

E outros alçam voos com asas frágeis

Rumando a mundos melhores do que este,

Movidos por paixões, beijos voláteis

(Pesar que após – ó, omne animal triste!).

But I, too rational by half

To live but where I bodily am,

Can only do my best to laugh,

Can only sip my misery dram by dram.

Mas eu, tão racional até a raiz

Dessa fração que o corpo não me abole,

Só posso mesmo me esforçar em rir,

Só posso sorver meu fel gole a gole.

While happier mortals take to drink,

A dolorous dipsomaniac,

Fuddled with grief I sit and think,

Looking upon the bile when it is black.

Enquanto os mais felizes enchem taças,

Eu, um doloroso dipsomaníaco,

Embaraçado nas minhas desgraças,

Medito em minha bile de cardíaco.

Then brim the bowl with atrabilious liquor!

We’ll pledge our Empire vast across the flood:

For Blood, as all men know, than water’s thicker.

But water’s wider, thank the Lord, than Blood.

Então: taça cheia e atrabiliária!

Brindemos nosso vasto Império-mangue:

Pois Sangue, sabe-se, é mais denso que água

Mas a água, salve!, é mais larga que o Sangue.

A N O I T E D O P U M A – por jorge lescano

É o infortúnio, rainha, que nos separa?
É a desgraça, princesa, que nos separa?

É por ser tu minha florzinha azul, minha flor amarela?


[…] Como um espelho de água és uma ilusão.
Como um espelho de água és um engano.
Cantar de amores inca.

A mulher dissera que viria encontrá-lo ao pousar a lua na testa do puma. A silhueta da montanha erguia-se contra o céu translúcido, em breve a pedra do Puma levantaria a cabeça. A astúcia e a beleza do felino, a solidez da pedra, guardavam na noite vazia o templo do amor do Inca.

Apenas Ele, o grande sacerdote de Inti, os eunucos e algumas velhas, tinham permissão para entrar na Casa das Escolhidas.

Foi o olhar da coya – entre todas ela, a irmã e esposa do Filho do Sol – que o despertou para isto que agora o prendia junto ao muro da Aclla-Huasi, sentindo tremer o peito e latejar as têmporas.

A mulher dissera que a irmã da princesa, tão bela e exclusiva quanto ela, duas pétalas da mesma flor, acalmaria seus anseios. Jurou que também a coya sofria, por isso concordara e facilitaria o encontro. Daquela hora até o amanhecer, o Inca deveria participar da cerimônia de imolação de um jovem casal; teriam assim liberdade absoluta para se amar, por algumas horas.

A mão que o guiava era fina e suave. Também esta mulher havia sido uma das Escolhidas. Agora o abandonava na porta da câmara; sem uma palavra, a velha se afastou deslizando no clarão da lua. Começou então um tempo impossível, como vivido por outro homem.

Na luz dourada da tocha, a mulher pareceu surgir do nada. Apenas o olhar vivia na tensão do rosto. Luzia na testa uma diadema de ouro, sobre a qual brilhava uma lua de prata, símbolo da hierarquia da coya; oferecia-lhe um manto púrpura e uma réplica do llauto, o turbante que três vezes envolvia a testa do Inca, com uma borla auro-rubra a cair  na sobrancelha esquerda.

– Somente assim paramentado o Filho de Inti tem acesso à carne da aclla — as palavras tremeram levemente. — Seremos eles durante nossa cerimônia.

A borla bateu com suavidade na fronte. Talvez naquele momento sentiu a enormidade do seu ato, e o castigo pareceu-lhe justo. Nada menos que a morte merecia quem, violando seu espaço sagrado, lhe usurpasse a dignidade. Vagamente entendeu que caíra numa armadilha. Ao mesmo tempo, soube que o perigo sacramentava seu amor.

Uma mão delicada, carregada de anéis e de pulseiras, procurou seu corpo.

– Vem, o pensamento de minha irmã aquecerá meus beijos – no olhar da fêmea a paixão do puma.

Então ficou de joelhos, abraçou-lhe o quadril e não poderia dizer se a desejava ou lhe pedia perdão. Sabia, contudo, que o retorno era impossível. Depois pensou que a Lua, mãe do Inca, autorizara seu ato ao se esconder por trás das nuvens quando ele penetrou no corpo proibido.

Contava-se que na segunda noite a fera descia da montanha. Um puma de prata, encarnação noturna do Inca, de garras e dentes implacáveis, e que antes de fincar os dentes em sua carne, lamberia seus pés ensangüentados.

O animal faminto e silencioso poderá ser o libertador do sol e da sede e da dor, que começa na raiz dos cabelos, pelos que estão ambos amarrados  a uma árvore — até que a morte chegue após indizível agonia, determina a lei de Manco Cápac. Uma dor que se expande pelo espaço a partir dos pulsos e dos tornozelos,  firmemente atados  com finas tiras de couro  umedecido, abarca as pedras, as montanhas, o vasto céu e continua em outras vidas.  Cãibras  que  esvaziam  o  mundo.  Deixam-no  oco,  sem ar, sem movimento, exceto a reverberação do sol e o inevitável deslizar do puma, ainda quieto na penumbra da rocha, mas já predestinado ao salto, ao rugido, ao seu sangue. E à carne daquela que o acompanha no suplício. Não pode vê-la, não sabe se é a mesma que saboreara certa noite, agora tão longínqua, como se fosse fruta, Que acariciara com os olhos e as mãos e a boca e o pênis, até que seu amor foi uma convulsão e gemidos e uma erupção ardente e viscosa que inundou os labirintos dela, obrigando-a a estreitas ainda mais os olhos e o abraço, e lhe tirou dentre os lábios um sussurro antes do grito que o trouxe de volta ao interior da Aclla-huasi e o jogou nas mãos potentes dos eunucos que, como a ela, o imobilizavam.

Seu grito ainda ressoava entre os gritos das serviçais que choravam e tentavam defendê-la. Então soube que possuíra a verdadeira coya. Acreditando tratar-se de uma substituta, desejara aquela que possuía.

Nada foi ver sua família e seus vizinhos sacrificados, a casa arrasada e até as árvores do jardim arrancadas para que não ficasse testemunho de sua existência — a justiça de Manco Cápac pode eliminar o passado, evitar o futuro.

Talvez neste momento prefira as outras mortes. A fogueira ou o emparedamento seriam mais rápidos, e neles poderia ocultar o seu terror. Nada se compara a esta espera do puma, que já desce a montanha, convocado pelo cheiro do amor e do sangue.

A lua pousa na testa do puma.