A N O I T E D O P U M A – por jorge lescano

É o infortúnio, rainha, que nos separa?
É a desgraça, princesa, que nos separa?

É por ser tu minha florzinha azul, minha flor amarela?


[…] Como um espelho de água és uma ilusão.
Como um espelho de água és um engano.
Cantar de amores inca.

A mulher dissera que viria encontrá-lo ao pousar a lua na testa do puma. A silhueta da montanha erguia-se contra o céu translúcido, em breve a pedra do Puma levantaria a cabeça. A astúcia e a beleza do felino, a solidez da pedra, guardavam na noite vazia o templo do amor do Inca.

Apenas Ele, o grande sacerdote de Inti, os eunucos e algumas velhas, tinham permissão para entrar na Casa das Escolhidas.

Foi o olhar da coya – entre todas ela, a irmã e esposa do Filho do Sol – que o despertou para isto que agora o prendia junto ao muro da Aclla-Huasi, sentindo tremer o peito e latejar as têmporas.

A mulher dissera que a irmã da princesa, tão bela e exclusiva quanto ela, duas pétalas da mesma flor, acalmaria seus anseios. Jurou que também a coya sofria, por isso concordara e facilitaria o encontro. Daquela hora até o amanhecer, o Inca deveria participar da cerimônia de imolação de um jovem casal; teriam assim liberdade absoluta para se amar, por algumas horas.

A mão que o guiava era fina e suave. Também esta mulher havia sido uma das Escolhidas. Agora o abandonava na porta da câmara; sem uma palavra, a velha se afastou deslizando no clarão da lua. Começou então um tempo impossível, como vivido por outro homem.

Na luz dourada da tocha, a mulher pareceu surgir do nada. Apenas o olhar vivia na tensão do rosto. Luzia na testa uma diadema de ouro, sobre a qual brilhava uma lua de prata, símbolo da hierarquia da coya; oferecia-lhe um manto púrpura e uma réplica do llauto, o turbante que três vezes envolvia a testa do Inca, com uma borla auro-rubra a cair  na sobrancelha esquerda.

– Somente assim paramentado o Filho de Inti tem acesso à carne da aclla — as palavras tremeram levemente. — Seremos eles durante nossa cerimônia.

A borla bateu com suavidade na fronte. Talvez naquele momento sentiu a enormidade do seu ato, e o castigo pareceu-lhe justo. Nada menos que a morte merecia quem, violando seu espaço sagrado, lhe usurpasse a dignidade. Vagamente entendeu que caíra numa armadilha. Ao mesmo tempo, soube que o perigo sacramentava seu amor.

Uma mão delicada, carregada de anéis e de pulseiras, procurou seu corpo.

– Vem, o pensamento de minha irmã aquecerá meus beijos – no olhar da fêmea a paixão do puma.

Então ficou de joelhos, abraçou-lhe o quadril e não poderia dizer se a desejava ou lhe pedia perdão. Sabia, contudo, que o retorno era impossível. Depois pensou que a Lua, mãe do Inca, autorizara seu ato ao se esconder por trás das nuvens quando ele penetrou no corpo proibido.

Contava-se que na segunda noite a fera descia da montanha. Um puma de prata, encarnação noturna do Inca, de garras e dentes implacáveis, e que antes de fincar os dentes em sua carne, lamberia seus pés ensangüentados.

O animal faminto e silencioso poderá ser o libertador do sol e da sede e da dor, que começa na raiz dos cabelos, pelos que estão ambos amarrados  a uma árvore — até que a morte chegue após indizível agonia, determina a lei de Manco Cápac. Uma dor que se expande pelo espaço a partir dos pulsos e dos tornozelos,  firmemente atados  com finas tiras de couro  umedecido, abarca as pedras, as montanhas, o vasto céu e continua em outras vidas.  Cãibras  que  esvaziam  o  mundo.  Deixam-no  oco,  sem ar, sem movimento, exceto a reverberação do sol e o inevitável deslizar do puma, ainda quieto na penumbra da rocha, mas já predestinado ao salto, ao rugido, ao seu sangue. E à carne daquela que o acompanha no suplício. Não pode vê-la, não sabe se é a mesma que saboreara certa noite, agora tão longínqua, como se fosse fruta, Que acariciara com os olhos e as mãos e a boca e o pênis, até que seu amor foi uma convulsão e gemidos e uma erupção ardente e viscosa que inundou os labirintos dela, obrigando-a a estreitas ainda mais os olhos e o abraço, e lhe tirou dentre os lábios um sussurro antes do grito que o trouxe de volta ao interior da Aclla-huasi e o jogou nas mãos potentes dos eunucos que, como a ela, o imobilizavam.

Seu grito ainda ressoava entre os gritos das serviçais que choravam e tentavam defendê-la. Então soube que possuíra a verdadeira coya. Acreditando tratar-se de uma substituta, desejara aquela que possuía.

Nada foi ver sua família e seus vizinhos sacrificados, a casa arrasada e até as árvores do jardim arrancadas para que não ficasse testemunho de sua existência — a justiça de Manco Cápac pode eliminar o passado, evitar o futuro.

Talvez neste momento prefira as outras mortes. A fogueira ou o emparedamento seriam mais rápidos, e neles poderia ocultar o seu terror. Nada se compara a esta espera do puma, que já desce a montanha, convocado pelo cheiro do amor e do sangue.

A lua pousa na testa do puma.

3 Respostas

  1. Sou amiga do Autor, caro D.C. Martins; partilhei o momento de escrita deste texto. Penso que ele, texto, esteja mais relacionado à História, à História Pré-Colombiana.
    Zuleika.

  2. Ah, este belíssimo texto, Jorge Lescano! Fico feliz por vê-lo publicado no palavras.
    Zuleika dos Reis.

    1. Jura, Zuleika?
      De onde vc. conhece esse texto?Sempre, desde a Faculdade, que eu sei que eu NUNCA , por mais que eu me esforce, vou ENTENDER FILOSOFIA!!!????

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